Center for a Stateless Society
A Left Market Anarchist Think Tank & Media Center
O Grande Domínio do Custo Acrescido: A Economia de Produção de Desperdício

The following study is translated into Portuguese from the English original, written by Kevin Carson.

1. A Economia de Produção de Desperdício

Nota do Tradutor – Eis como o autor define ‘rent’: ‘Mais ou menos o que os economistas significam por “quase-renda”: o excedente do produtor, ou receita mais elevada do que a que seria necessária como incentivo para trazer um bem ao mercado (isto é, um preço consistentemente mais elevado do que o custo marginal de produção). Chama-se ‘rent’ por analogia, a partir da lei da renda/aluguel (rents) da terra de Ricardo.’ Esta nota vale para todas as diferentes postagens em que dividi o texto do presente estudo.

Acima de tudo, porém, temos de levar em conta todo o trabalho empregado em puro desperdício — aqui, na manutenção dos estábulos, dos canis, e dos acompanhantes dos ricos; … lá, repetindo, forçando o consumidor a comprar o que não precisa, ou impingindo-lhe um artigo inferior por meio de bajulação, e por outro lado produzindo artigos absolutamente prejudiciais, mas lucrativos para o fabricante. O que é dissipado desse modo seria suficiente para duplicar a produção de coisas úteis…. —Pyotr Kropotkin, A Conquista do Pão

O aluguel é exageradamente alto. —Jimmy MacMillan

Historicamente, dada terra de fertilidade normal, uma semana de trabalho de em torno de vinte horas no curso do ano era suficiente para manter uma família de produtores de subsistência naquelas raras ocasiões em que não sobrecarregada com impostos e rents. Naturalmente, tem sido objetivo prioritário das classes privilegiadas ao longo da história impedir a ocorrência desse estado de coisas.

The Times de novembro de 1857 publica um grito totalmente delicioso de indignação da parte de um proprietário de plantação das Índias Ocidentais. Esse defensor de causa analisa com grande indignação moral — como apelo no sentido do retorno da escravidão dos negros — como os Quashees (os pretos livres da Jamaica) contentam-se com produzir apenas o que é estritamente necessário para seu próprio consumo e, paralelamente a esse ‘valor de uso’, consideram o não fazer nada (satisfação dos desejos e ócio) como o real bem de luxo; como não dão a mínima para o açúcar e para o capital fixo investido nas plantações, e sim antes observam a iminente falência do plantador com uma risadinha irônica de prazer malicioso, e até exploram seu cristianismo adquirido como um adorno para esse estado de espírito de regozijo e indolência maliciosos. Pararam de ser escravos, mas não para se tornarem trabalhadores assalariados e sim, antes, camponeses autossustentados trabalhando para seu próprio consumo. [1]

Para evitar tais ultrages, as classes de proprietários e empregadores têm recorrido a todo tipo de direitos artificiais de propriedade e escassez artificial para controlar o acesso dos produtores à terra e ao capital de tal maneira que, em troca de acesso aos meios de produção e subsistência, eles sejam compelidos a trabalhar para sustentar outrem além de a si próprios. Os da direita libertária argumentam amiúde que as pessoas trabalham menos por causa dos altos impostos. As semanas mais curtas de trabalho médio e longas férias existentes na Europa claramente os deixam ressentidos. Por exemplo Will Wilkinson, procurando explicação para o fato de os europeus trabalharem tão mais poucas horas do que os estadunidenses, especula:

Meu palpite acerca da notícia é que os europeus gostam de trabalhar tanto quanto qualquer outra pessoa, se valer a pena. Os impostos tornam-se extremamente progressivos devido à influência da esquerda europeia e à demanda que elas alimentaram de programas assistencialistas de “justiça social.” Os impostos subiram. Com alíquotas de imposto tão altas, as horas de trabalho passaram a valer menos do que as horas de lazer e portanto, economicamente, pessoas racionais passaram a trabalhar menos. Trabalhar menos tornou-se a norma, e foi integrado em várias concepções de “caráter nacional.” Isso, por sua vez, juntamente com pensamentos perversos dos sindicatos, levou a limitação das horas de trabalho.

Portanto, minha hipótese é: os europeus em realidade não apreciam mais o lazer, e sim apenas são muito tributados. Se seus impostos fossem reduzidos (e as limitações de horas revogadas), as pessoas começariam a trabalhar mais. Reclamariam de terrível americanização, mas mesmo assim trabalhariam mais. Logo as normas mudariam, mais pessoas trabalhariam mais, o crescimento aumentaria, e elas melhor poderiam financiar todos aqueles programas de “justiça social”. [2]

Essa gente, aparentemente, nunca ouviu falar da curva de oferta invertida do trabalho — a tendência de substituir aumento de renda por lazer, à medida que aumente o valor da remuneração. A evidência histórica é as pessoas de fato preferirem, no todo, trabalhar menos à medida que sua remuneração aumente. Portanto, faz perfeito sentido do ponto de vista do empregador extrair mais trabalho das pessoas mediante reduzir a fatia de sua produção que elas mantenham consigo, e mediante compelirem-nas a sustentar rentistas ociosos além de si próprias. E. P. Thompson cita algumas observações indignadas a respeito da indolência dos trabalhadores de um observador contemporâneo em 1681:

Quando os tricoteiros ou produtores de meias compridas de seda obtinham alta remuneração por seu trabalho, raramente eram vistos trabalhar às segundas ou terças, pois gastavam a maior parte de seu tempo nas tabernas ou casas de boliche… Os tecelões, é comum estarem bêbados às segundas-feiras, terem suas dores de cabeça às terças, e terem suas ferramentas danificadas nas quartas. Quanto aos sapateiros, prefeririam ser enforcados a não se lembrar de São Crispim na segunda… que normalmente dura enquanto eles tiverem um centavo de dinheiro ou o equivalente a um centavo de crédito. [3]

Não deveriam causar surpresa as lamentações acerca de poucas horas de trabalho e de falta de vontade de trabalhar terem vindo principalmente das classes empregadoras e seus aduladores ideológicos. E repetindo, seu método principal para conseguir longas horas de trabalho tem sido reduzir a remuneração e aumentar o custo da produção autoempregada, de tal maneira que os trabalhadores tenham que trabalhar por mais tempo e mais duramente pelo mesmo nível de subsistência. Em verdade, a literatura do período dos Cercamentos [Enclosures] na Grã-Bretanha está cheia de reclamações das classes proprietárias de que a única maneira de extrair trabalho bastante das classes trabalhadoras era fechar a possibilidade de subsistência confortável por meio de autoaprovisionamento. [4]

… É interesse de todas as nações ricas que a maior parte dos pobres nunca esteja ociosa, e ao mesmo tempo gaste continuamente tudo o que ganhar…. Aqueles que obtêm seu sustento por meio de seu trabalho diário… nada têm a incitá-los a ser prestativos a não ser seus desejos que é sábio liberar, mas insensato satisfazer…. [Mandeville, Fábula das Abelhas]

…[Para robustecer a industriosidade e a temperança foi necessário] “levá-los à necessidade de trabalhar todo o tempo que possam poupar do repouso e do sono, a fim de proverem as necessidades triviais da vida.” [panfleto de 1739]

Que o gênero humano em geral esteja naturalmente inclinado ao sossego e à indolência fatalmente verificamos ser verdade, a partir da conduta de nossa população manufatureira, que não trabalha, em média, mais de quatro dias por semana a menos que o preço das provisões seja muito alto…. As pessoas que trabalham nunca deveriam pensar-se independentes de seus superiores…. A solução não será perfeita até que nossos manufatureiros pobres fiquem contentes em trabalhar seis dias pela mesma quantia que agora ganham em quatro dias. [“Ensaio Acerca de Transações e Comércio” (1770)]

…Todo mundo que não seja idiota sabe que as classes mais baixas têm de ser mantidas pobres, ou nunca serão industriosas. [Arthur Young, 1771]

Portanto, contrariamente a Wilkinson, é pelo menos igualmente plausível que os estadunidenses trabalhem mais por sua remuneração ter sido mantida estagnada durante quarenta anos, e a “tributação” em forma de ganhos de produtividade desviada para cima para Executivos Principais desabridos e para recortadores de cupons ter compelido o estadunidense médio a trabalhar mais duramente para obter o mesmo nível de renda.

Tema recorrente, a partir do Iluminismo, tem sido o da semana de trabalho radicalmente reduzida que seria necessária para sustentar a pessoa média se a produção fosse organizada eficientemente e as classes produtoras não tivessem de trabalhar para sustentar os ociosos além de elas próprias.

Embora eu não saiba dizer exatamente onde, lembro-me de ter lido, quando criança, um ensaio na coleção de meu pai do Almanaque do Pobre Ricardo no qual Franklin descreveu como o dia de trabalho poderia ser reduzido para quatro a cinco horas mediante a eliminação do desperdício e da irracionalidade.

Em 1913 Pyotr Kropotkin avaliou que o tempo de trabalho necessário para produzir a real quantidade de comida, roupas e abrigo que a família trabalhadora média consumia era de 150 meias jornadas de trabalho por ano. O tempo adicional de trabalho do trabalhador médio ia-se na produção ou de coisas inúteis ou de coisas diretamente prejudiciais, ou para sustentar consumo parasitário da parte das classes privilegiadas. [5]

O amplamene reproduzido ensaio de Bob Black de 1985  “A Extinção do Trabalho” cobriu terreno semelhante, argumentado tanto no sentido da eliminação da produção inútil quanto, sempre que possível, da conjugação de trabalho com divertimento.

Apenas pequena e declinante fração do trabalho serve a qualquer propósito útil independente da defesa e da reprodução do sistema de trabalho e de seus apêndices políticos e jurídicos. Há vinte anos Paul e Percival Goodman avaliaram que apenas cinco por cento do trabalho então sendo efetuado — presumivelmente esse percentual, se preciso, é hoje menor — satisfariam nossas necessidades mínimas de alimento, vestuário e abrigo. No caso tratou-se apenas de um palpite culto, mas o ponto principal é bastante claro: direta ou indiretamente, a maior parte do trabalho serve a propósitos improdutivos do comércio ou a controle social. Podemos instantaneamente liberar dezenas de milhões de vendedores, soldados, gerentes, policiais, corretores de ações, clérigos, banqueiros, advogados, professores, proprietários rurais, guardas de segurança, agentes de propaganda e todo mundo que trabalha para eles. Há efeito de bola de neve, visto que toda vez que uma pessoa importante é tornada ociosa seus lacaios e subordinados também o são. Assim, pois, a economia implode. [6]

Diversos escritores eruditos já lidaram com a escala de produção inútil na economia em anos recentes. Edward Wolff, em Crescimento, Acumulação e Atividade Improdutiva classifca a atividade econômica em ou produtiva ou improdutiva. A produção improdutiva inclui a porção do excedente econômico absorvida pela improdutiva “classe excedente” (essencialmente rents provenientes da propriedade artificial acerca das quais escrevo adiante), e atividades improdutivas (atividades que usam “força de trabalho mas não produzem resultado diretamente útil….”). [7] A principal deficiência de Wolff é que toda a sua pesquisa de produção improdutiva é feita setor por setor, com setores inteiros sendo enquadrados na categoria “produtiva” ou “improdutiva”. E ele também silencia quase completamente acerca do desperdício na forma de alocação subótima de recursos ou desperdício de insumos internamente a uma indústria. Muitos insumos de produção são necessários, em alguma quantidade, para a produção, mas são usados esbanjadoramente. Wolff classifica uma indústria inteira como “produtiva” se sua produção tiver valor de uso, não importa o quanto a produção esteja organizada esbanjadoramente.

A Economia Sobrecarregada, de Lloyd Dumas, trata diretamente da área na qual Wolff é mais deficiente: desperdício dentro das indústrias ou de setores da economia (por exemplo, despesas gerais administrativas dentro de uma empresa comercial). Ele distingue atividades “contributivas” e “não contributivas” dentro do processo de produção. Para ser contributiva uma atividade precisa ser  “parte de um processo que resulte na produção de um bem ou serviço que tenha valor econômico inerente,” e precisa também “desempenhar função necessária para eficiente funcionamento desse processo.” Atividades aprovadas no primeiro teste mas não no segundo são “neutras” (a expansão das despesas gerais administrativas é seu exemplo principal), e eliminar delas o desperdício é “simplesmente questão de ajustamento de eficiência.” Por outro lado, atividades que não passem em ambos os testes são “distrativas,” e exigem a eliminação do próprio processo e a transferência, para outro lugar, de todos os recursos desperdiçados nele. [8]

Dumas também estabelece clara conexão entre tal desperdício e a externalização do custo. Gastos pródigos em contratação excessiva de gerentes ocorrem, sugere ele, por causa de “uma discrepância entre o valor de uma atividade ou prodção para o tomador de decisão que autoriza sua compra e seu valor para aqueles que em realidade pagam o preço.” [9] “…Enquanto o valor de expansão exceder seus custos da perspectiva dela [a gerência], ela continuará a expandir a burocracia. [10]

Todavia, embora Dumas seja bom no ponto fraco de Wolff no tocante a desperdício decorrente de ineficiências internas ao processo produtivo, também negligencia o ponto forte de Wolff:  consumo improdutivo pelas classes privilegiadas. A enorme porção da economia feita de rents auferidos de escassez artificial de terra, capital e “propriedade intelectual” passa em grande parte sem observações.

Finalmente Douglas Dowd, em O Desperdício das Nações, desenvolve o tema central de Dumas de atividade não-contributiva. Ele inclui setores inteiros da economia que recaem sob o título de Dumas de “atividades distrativas,” tais como o complexo industrial-militar. Mas também focaliza fortemente funções neutras ou distrativas na economia civil tais como todas aquelas associadas a distribuição impingida: mercado de alta pressão, anúncios em massa, obsolescência planejada, acréscimos por causa de nome de marca, mudanças de modelo e diferenciação de produtos puramente cosméticas etc. Os exemplos dele vão dos noventa por cento do preço da pasta de dente formado por custos de anúncios até os $800 dólares de um preço de mercado de $950 dólares de um Chevrolet 1939 que não refletem custos reais de produção. [11] Dowd também ressalta o desperdício da produtividade mais baixa do trabalho, como resultado dos problemas de incentivo numa empresa hierárquica. [12] A maior deficiência de Dowd é sua definição exageradamente estreita de “custos de produção” e o não conseguir distinguir custos de distribuição produtivos e não produtivos. Ele engloba todos os custos de “marketing e distribuição” numa única categoria de desperdício, sem distinguir o transporte desperdiçador resultante de subsídios à centralização econômica do transporte necessário que seria indispensável para movimentar bens até o ponto de consumo mesmo na mais eficiente das economias.

Não é meu propósito, dadas as restrições de tempo e espaço de um paper trimestral de pesquisa, examinar a economia de desperdício no mesmo nível de detalhe de citados autores. Meu intento, antes, é oferecer uma visão geral abrangente que sintetize todos os pontos fortes por eles destacados a fim de incluir áreas de produção desperdiçadora que todos eles negligenciam, e fornecer um arcabouço analítico baseado em princípios de livre mercado.

2. Desperdício por causa de Rents de Escassez Artificial

3. Desperdício Decorrente de Trabalho de Guarda

4. Monopólio Radical

5. Desperdício Decorrente de Insumos Subsidiados

6. Desperdício Decorrente de Desembolsos Compulsórios de Capital e de Overhead

7. Sistemas de Contabilidade e Vitrines Quebradas

8. Desperdício Interno no Processo de Produção

9. Desperdício Externo Decorrente de Marketing e de Obsolescência Planejada

10. Setores Desperdiçadores da Economia

11. “Não Há Trabalho Bastante”

12. Conclusão

Estudo original publicado por Kevin Carson 29 de dezembro de 2010.

Traduzido do inglês por Murilo Otávio Rodrigues Paes Leme.

Notes: