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O Grande Domínio do Custo Acrescido: Sistemas de Contabilidade e Vitrines Quebradas

The following study is translated into Portuguese from the English original, written by Kevin Carson.

1. A Economia de Produção de Desperdício

2. Desperdício por causa de Rents de Escassez Artificial

3. Desperdício Decorrente de Trabalho de Guarda

4. Monopólio Radical

5. Desperdício Decorrente de Insumos Subsidiados

6. Desperdício Decorrente de Desembolsos Compulsórios de Capital e de Overhead

7. Sistemas de Contabilidade e Vitrines Quebradas

Grande parcela do que é convencionalmente considerado “produção” consiste em produção de desperdício. Muitas áreas de nossa vida nacional são dominadas por sistemas de contabilidade que consideram o consumo de insumos como produção.

Por exemplo, o cálculo do Produto Interno Bruto pelos economistas é uma ilustração exemplar da “falácia da vitrine quebrada.” Essa falácia, de acordo com Frédéric Bastiat, consiste na crença de que uma vitrine quebrada é algo positivo porque cria trabalho e receita para os vidraceiros. Verdade, disse Bastiat, ela dá emprego a vidraceiros. Isso, porém, não significa que quebrar vitrines seja algo positivo; o dono da vitrine quebrada simplesmente gasta dinheiro para acabar no mesmo estado em que estaria, de graça, se a vitrina não tivesse sido quebrada. “A sociedade perde o valor de objetos desnecessariamente destruídos….” [76]

Como destacam os autores de Capitalismo Natural, qualquer coisa que envolva gasto de dinheiro acrescenta-se ao PIB. [77] Jonathan Rowe escreve:

O PIB é simplesmente uma medida bruta da atividade do mercado, do dinheiro mudando de mãos. Ele não faz distinção nenhuma entre o desejável e o indesejável, ou custos e ganho. Além disso, olha apenas para a porção da realidade que os economistas escolhem reconhecer — a parte envolvida em transações monetárias. As funções econômicas cruciais desempenhadas nos lares e nos setores voluntários ficam inteiramente sem ser computadas. Em decorrência, o PIB não apenas mascara a segmentação da estrutura social e os habitats naturais dos quais a economia — e a própria vida — em última análise dependem; pior, pinta tal segmentação como ganho econômico. [78]

Ou, nas palavras de Scott Burns, “O valor dos serviços de um amigo no próprio carro dele é excluído do PIB. O custo do acidente dele, porém, a corrida da ambulância e a internação no hospital não o são.” [79]

Tudo o que implica em gasto de dinheiro acrescenta-se ao PIB, mesmo se a maior parte do custo for desperdício que nada acrescenta à real produção de valor de uso. Uma colisão de diversos veículos numa rodovia envolvendo uma dúzia de carros e resultando em diversos funerais ou diversas pessoas passando semanas vivendo por aparelhos significa milhões de dólares acrescentados ao PIB. Quando, para comprarmos comida produzida em outro país com água de irrigação subsidiada e trazida a nós por caminhões em rodovias subsidiadas, pagamos três vezes o preço que pagaríamos para comprar comida de qualidade idêntica produzida por fazendeiro local e distribuída em grande quantidade sem acréscimo devido ao nome de marca, tal despesa acrescenta ao PIB valor correspondente ao triplo da despesa com compra de alimentos locais — embora o que ocorra seja apenas estarmos trabalhando três vezes em vez de uma para obtermos valores de uso idênticos (ou inferiores).

O mecanismo interno de contabilidade da grande corporação é semelhante àquele utilizado para calcular o PIB, na medida em que ele conta gastos com insumos como sendo criação de riqueza. Dada a universalidade da cartelização estatal, uma parcela majoritária da economia é formada de mercados oligopolistas dominados por um punhado de firmas. Como as firmas oligopolistas tendem a ser “estabelecedoras de preços” e não “sujeitas a preços,” e a ter como repassar seus custos como acréscimo para o consumidor via preços administrados, elas ficam em grande parte insuladas em relação à pressão competitiva por minimização de custos.

As firmas dominantes num mercado oligopolizado têm, usualmente, sob diversos aspectos, culturas internas semelhantes, e tendem a observar as mesmas “melhores práticas.” Muitos desses aspectos de seus modelos de negócios não são objeto de competição, porque estão baseados no mesmo conjunto de premissas não questionadas comum à cultura institucional da indústria inteira. Grandes corporações também ficam amiúde isoladas de pressões para minimizar custos devido à superabundância do capital disponível para investimento.

As grandes corporações raramente dependem ou de novas emissões de ações ou de mercados de capitais para financiarem novos investimentos, optando, em vez disso, por financiar expansão de capacidade ou melhoramentos de fábricas e equipamentos por meio de ganhos retidos. Como ressaltou, porém, Martin Hellwig, longe de servir como restrição ou de impor a necessidade de racionar investimentos, o valor dos ganhos retidos amiúde excede o valor total de oportunidades de investimento racional. [80] Em tais circunstâncias, a firma bem poderá superinvestir ou ser pródiga no uso de seus fundos no intuito de aumento de poderio interno (*), em vez de emitir o excedente como dividendos. (*  Literalmente, construção de império interna. Isto é, aumentar o tamanho ou a abrangência do poder ou da influência (de um indivíduo ou organização). A ideia é a de os gerentes valorizarem mais a expansão de suas unidades de negócios, os níveis da equipe e o valor dos ativos sob seu controle do que o desenvolvimento e a implementação de maneiras de beneficiar os acionistas. Ver Investopedia, ‘Empire Building’.)

Do mesmo modo que com os cálculos do PIB, escreveu Robin Marris, a cultura burocrática da corporação

tende a desviar a ênfase do caráter dos bens e serviços produzidos para o engenho com que essas atividades são organizadas…. O conceito de necessidade do consumidor desaparece, e a única questão de interesse… é se número suficiente de consumidores, independentemente de sua “necessidade real”, pode ser persuadido a comprar [um novo produto proposto].” [81]

O resultado, como no caos de cálculo da antiga União Soviética, não é o progresso técnico cessar ou ter lugar produção de determinado tipo, e sim enormes somas serem gastas em desembolsos de capital sem haver qualquer modo fidedigno se se saber se a despesa valeu a pena. A grande corporação está eivada da mesma irracionalidade e do mesmo desenvolvimento desigual que afligiram a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – URSS.

Richard Ericson fez observações acerca da capacidade dos sistemas comunistas de lograrem grandes feitos de engenharia sem preocupação com custo:

Quando o sistema persegue uns poucos objetivos prioritários, independentemente de sacrifícios ou prejuízos em áreas de menor prioridade, as pessoas com responsabilidade final não têm como saber se valeu a pena alcançar sucesso. [82]

Consideremos também a previsão de Hayek acerca do desenvolvimento desigual, da irracionalidade e da alocação equivocada de recursos numa economia planificada:

Não há motivo para esperar que a produção cesse, ou as autoridades encontrem dificuldade em usar de algum modo todos os recursos disponíveis, ou mesmo que a produção venha a tornar-se permanentemente mais baixa do que era antes de ter sido começado o planejamento…. [Devemos esperar] desenvolvimento excessivo de algumas linhas de produção a expensa de outras e o uso de métodos inadequados dadas as circunstâncias. Devemos esperar encontrar superdesenvolvimento de algumas indústrias a custo não justificado pela importância do aumento de sua produção e ver não ser contida a ambição do engenheiro de aplicar a técnica mais recente em algum ponto, sem considerar se economicamente adequada para a situação. Em muitos casos o uso dos métodos mais recentes de produção, que poderiam não ter sido aplicados não fora o planejamento centralizado, será pois sintoma de mau uso de recursos, em vez de prova de sucesso.

Como exemplo ele citou “a excelência, de um ponto de vista tecnológico, de algumas partes do equipamento industrial russo, que amiúde deixa pasmado o observador descuidoso e é comumente visto como evidência de sucesso….” [83]

Eu teria dificuldade para encontrar melhor descrição de como o capital é alocado em nossa economia corporatista. Categorias inteiras de bens e métodos de produção foram desenvolvidas com enorme despesa, ou na indústria militar ou por pesquisa e desenvolvimento – R&D subsidiada pelo estado na economia civil, sem preocupação com custo. Os métodos de produção, bem assim, ficam radicalmente distorcidos por tais subsídios. Centralização econômica e instalações de produção maciça capital-intensivas tornam-se artificialmente lucrativas, graças ao Sistema de Rodovias Interestaduais e à aviação civil.

Mais ainda, como logo veremos, as citações acima acerca do planejamento centralizado comunista descrevem também a disseminada irracionalidadedentro da grande corporação: quantidade excessiva/desnecessária de gerentes e atuação deles em interesse próprio; medidas de “corte de custos” que esvaziam recursos produtivos deixando intactos os pequeninos impérios dos gerentes; o derramamento de dinheiro pelos bueiros de enormes projetos de capital empreendidos precipuamente por seu valor de prestígio; e a tendência de ampliar o domínio burocrático enquanto são cortados manutenção e suporte para as obrigações já existentes. A alocação de recursos pela gerência pode criar alguma espécie de valor de uso  — sem contudo haver modo fidedigno de avaliar os custos de oportunidade ou se o benefício valeu a pena.

O modelo dominante de contabilidade corporativa resulta, em grande medida, dos imperativos da produção em massa. O modelo industrial de produção em massa está baseado na utilização de equipamento-capital extremamente caro voltado para produto específico, o que, por sua vez, requer grande produção em lotes para fazer funcionar o maquinário em velocidade total e distribuir os custos de amortização do capital por tantas unidades quantas possível. Isso significa que a produção é empreendida com o propósito precípuo de utlizar plenamente capacidade produtiva e obter economias de velocidade, sem consideração para com a demanda espontânea preexistente. O sistema de contabilidade usado dentro da grande corporação típica reflete essa exigência.

Na contabilidade da gerência sloanista, de acordo com William Waddell e Norman Bodek, o estoque é contado como ativo “com a mesma liquidez do dinheiro.” Independentemente de um produto existente ser necessário ou não para atender a uma encomenda, o departamento produtor envia-o para o estoque e é creditado por ele. Dentro da prática de “absorção de overhead,” todos os custos de overhead são completamente incorporados ao preço dos bens “vendidos” para o estoque, que nesse momento passam a ser considerados como ativo na folha de balanço.

Com o estoque declarado como ativo com a mesma liquidez que o dinheiro, realmente não importa se o próximo ‘centro de custos,’ departamento, fábrica ou divisão em realidade precisava do produto de imediato para consumar uma dessas vendas no papel. O departamento produtor colocou o produto no estoque e ganhou crédito. [84]

…As despesas diminuem…, enquanto o estoque aumenta, simplesmente movendo-se um palete cheio de material para algumas operações adiante no fluxo. Na verdade, as despesas podem diminuir e o retorno do investimento – ROI pode melhorar mesmo quando a fábrica paga horas extras para trabalho com material não necessário; ou se a fábrica usar material defeituoso e grande percentagem dos resultados da produção tenha de ser descartada. [85]

…Com a definição da criação de estoque, inclusive produtos não acabados, como atividade geradora de dinheiro, qualquer incentivo para estimular o fluxo é jogado pela janela. Os anos 1950 viram o surgimento de depósitos como acessório lógico e indispensável da fábrica. Antes disso, o depósito da fábrica era geralmente uma pequena construção externa atrás da fábrica… Nos anos 1960 o espaço de depósitos amiúde era igual a, ou excedia, o espaço de produção em muitas fábricas…. [86]

Em outras palavras, pelos princípios da contabilidade sloanista predominantes na indústria estadunidense, o dispêndio de dinheiro em insumos é, por definição, a criação de valor. Como descreveu em seu blog Waddell,

as empresas podem fazer um monte de coisas, atribuir enormes baldes de overhead fixo a essas coisas e transferir esses overheads para a folha de balanço, fazendo-se parecer mais lucrativas.

A frase de Paul Goodman “grande domínio do custo-acrescido” resume isso perfeitamente. A cultura do custo-acrescido está tradicionalmente associada aos serviços públicos, e (na brilhante obra de Seymour Melman) aos empreiteiros militares.87 A firma fica isolada da competição do mercado, e tem fonte garantida de receita, de tal modo que pode fixar seus preços em base de margem estipulada somada ao custo. Acordemente, não há qualquer incentivo para minimizar custos. Quanto mais o custo de produção for incrementado com desperdício e supercontratação, mais altos preços a firma poderá estabelecer. Essa é a estrutura de incentivo à maximização de custos que resultou nos notórios vasos sanitários de $600 dólares do Pentágono. Essa estrutura prevalece também, contudo, em espécie, se não exatamente no mesmo grau, nas grandes firmas dos mercados civis oligopolistas. A grande corporação tem significativa porção de seus custos operacionais subsidiados pelo estado, e normalmente opera com abundância de capital de investimento oriundo de ganhos retidos. Existe num mercado de competição restrita num cartel fomentado pelo estado. Não apenas a maior parte da competição ocorre em termos de imagem de marca e de variações menores em características, em vez de em preço, mas até a competição em características é limitada pela capacidade das firmas oligopolizadas de conluiarem-se para racionar os aperfeiçoamentos técnicos ao longo do tempo — com a ajuda, naturalmente, das regulamentações do governo limitando o âmbito da competição em características e qualidade do produto (lembram-se da citação de Paul Goodman acerca de “preços fixos e aperfeiçoamentos vagarosamente procedidos”?).

A própria ideia de “produtividade marginal” fica sem sentido nesse ambiente. “Produtividade marginal” é definida como a porção que determinada despesa acrescenta ao fluxo adicional de receita concretizado ao o produto ser vendido. Ocorre que, numa atmosfera de margem estipulada acrescida ao custo, toda despesa em overhead administrativo ou capital desperdiçadoramente alocado aumenta o preço final do bem na base de (pelo menos) um para um.

E mesmo se o desperdício burocrático interno e o overhead tiverem efeito nocivo sobre a produtividade e a margem de lucro nominal, a gerência é a reivindicadora residual de fato e a remuneração da gerência é o lucro de fato para o qual a empresa realmente existe. O acionista, na realidade, é, na melhor das hipóteses, um reivindicador contratual com direitos litigáveis ainda menores do que os de um detentor de título de renda fixa; se a gerência em absoluto emitirá dividendos é algo que fica inteiramente à discrição dela própria, e ao mesmo tempo ela pode estabelecer seus próprios salários praticamente sem limite em troca mútua de favores com a Diretoria. Assim, a gerência pode muito bem escolher, de maneira inteiramente racional, tomar grande fatia de um pequeno bolo em lugar de maximizar o tamanho do bolo.

É interessante considerar os paralelismos entre o sistema de contabilidade gerencial da corporação estadunidense típica e a antiga economia planificada soviética. Ambas fazem equivaler o consumo de insumos à criação de valor. “Vender para o estoque,” de acordo com as regras-padrão de contabilidade gerencial, é equivalente aos sistemas de incentivo à produção num Plano Quinquenal: não há incentivo para produzir bens que realmente funcionarão ou serão consumidos.

Outro paralelo entre a contabilidade gerencial corporativa e o socialismo de estado é que os preços de transferência atribuídos a bens intermediários, e creditados aos subprocessos que os produzem, guardam forte semelhança com o sistema de atribuição de preços na economia planificada soviética.

Ludwig von Mises argumentou que a economia soviética podia mais ou menos cambalear sem ser completamente destruída pelo problema dos cálculos mediante atribuir preços aos bens de produção em sua economia baseando-se em dados de preços de mercados externos.88 Do mesmo modo, argumentou Murray Rothbard, a necessidade de um mercado externo em bens de produção representava uma restrição ao tamanho de uma corporação; um monopólio verticalmente integrado a ponto de absorver todos os produtores de algum bem intermediário deparar-se-ia com caos de cálculo ao tentar alocar racionalmente insumos daquele bem intermediário específico.89 Contudo, o acadêmico austríaco Peter Klein, desenvolvendo as observações de Rothbard acerca de problemas potenciais de cálculo dentro da grande corporação, argumentou que a existência de qualquer mercado externo, em absoluto, para um bem intermediário, era suficiente. [90] Se porém for assim, se cálculo viável simplesmente requerer a existência de um mercado externo como fonte de referência para o estabelecimento de preços de transferência internos, sem os preços naquele mercado externo necessariamente refletirem as condições imediatas de oferta e demanda dentro da firma, então a economia soviética manteve-se e desabou nos mesmos termos da corporação estadunidense quando esta veio a estabelecer os preços que usava internamente com base em aproximações toscas oriundas de mercados distantes.

Mais ainda, não há em realidade mercado externo para grande parcela dos bens intermediários usados na produção pela grande corporação estadunidense típica, porque certo número de componentes de produto é exclusivo de um projeto específico da empresa. Se não houver mercado externo para versões genéricas de algum componente de produto, segue-se que seu preço interno de transferência terá que ser estabelecido (por aquele tipo de processo burocrático que é melhor não imaginar) por algum tipo de base de custo acrescido frouxamente derivada do preço de mercado externo dos bens de produção a partir dos quais o componente é feito (ou talvez daqueles a partir dos quais tais bens de produção são feitos). Em 1961 John Menge descobriu que “componentes integrantes, não substituíveis, do produto final” para os quais não existia mercado externo representavam cerca de 65% dos bens intermediários.91 Não há motivo para duvidar de que significativa parcela dos bens intermediários nos dias de hoje seja similarmente específica de produto.

Bom exemplo vem de Waddell e Bodek: o “preço” assinalado a cada volante produzido numa linha de montagem. É um componente específico de produto, um “bem” para o qual não há mercado externo competitivo, portanto para o qual não existe preço real de mercado externo. É-lhe atribuído “preço” num falso mercado interno. “É dado crédito por esse trabalho, pelo desempenho dessa simples tarefa — parece-se com um pagamento no orçamento de fabricação — pelo fato de ela transferir dinheiro de despesas para ativos.” [92]

8. Desperdício Interno no Processo de Produção

9. Desperdício Externo Decorrente de Marketing e de Obsolescência Planejada

10. Setores Desperdiçadores da Economia

11. “Não Há Trabalho Bastante”

12. Conclusão

Estudo original publicado por Kevin Carson 29 de dezembro de 2010.

Traduzido do inglês por Murilo Otávio Rodrigues Paes Leme.

Notes: