A Concupiscência da Hierarquia

The following article is translated into Portuguese from the English original, written by Kevin Carson.

Encolher ou derribar o estado por meio de processos políticos — lançando candidatos, fazendo lobby contra diversas políticas etc. — é geralmente perda de tempo. As regras do sistema estão estabelecidas para favorecer os interesses dos que se encontram dentro da estrutura de poder corporação-estado, em detrimento dos que, do lado de fora dessa estrutura, propõem mudança fundamental. E os grandes atores corporativos que se beneficiam do estado intervencionista sempre terão mais advogados e dinheiro para jogar de acordo com as regras.

Entretanto, pressão externa sobre o estado como efeito colateral de mudanças da consciência e da cultura do público — e usar essa pressão para exacerbar e estimular as divisões que inevitavlemente surgem dentro de todas as elites — pode ser na verdade muito eficaz.

O mesmo é verdade do judiciário e de segmentos particulares da burocracia do estado. Jogar de acordo com as regras deles é condenar-se à inviabilidade, se a intenção for fomentar uma agenda libertária positiva. Entretanto, explorar as regras deles contra eles próprios é uma arma poderosa, de baixo custo, para tolher seu funcionamento.

O estado, como espírito maligno, fica tolhido pelas leis e pela lógica interna da forma que assume. Como aquela deusa perversa disse em Caçadores de Fantasmas, “Escolha a forma do destruidor.” Quando um segmento da burocracia é presa de sua própria autojustificativa ideológica, ou tribunais são presa da letra da lei que fingem fazer cumprir, essas coisas podem ser usadas como arma para desestabilizar o sistema mais amplo. Os burocratas, ao observarem a letra de uma política, amiúde entram na prática numa “operação padrão” contra o sistema mais amplo ao qual servem.

O estado, como qualquer hierarquia autoritária, requer regras permanentes que restrinjam a liberdade dos subordinados para que eles não persigam a real intenção da instituição, posto que ela não pode confiar nesses subordinados. A retórica de legitimação do estado, sabemos, disfarça uma função real exploradora. Todavia, a despeito do papel funcional geral do estado, ele precisa de procedimentos operacionais padronizados para impor comportamento previsível a seus subordinados.

E uma vez os subordinados estejam seguindo essas regras, o estado não pode emitir apitos ultrassônicos dizendo aos funcionários quais regras duplamente-super-secretas “reais” eles “realmente” deveriam seguir, ou suplementar os incontáveis volumes de manuais de procedimentos concebidos para impor previsibilidade a subordinados com um memorando secreto dizendo “Ignorem os manuais.” Portanto, embora bastantes funcionários possam ignorar as regras, desse modo mantendo o sistema funcionando ainda que pifiamente, outros obedecem à letra das políticas de maneira tal que debilitam a missão “real” do estado.

Diferentemente do estado e de outras instituições autoritárias, as redes auto-organizadas podem perseguir seus reais interesses ao mesmo tempo em que beneficiam-se da contribuição completa das habilidades de seus membros, sem o empecilho de procedimentos operacionais padronizados e regras burocráticas basedas na desconfiança. Para expressar a ideia no palavreado da teologia de São Paulo, as redes podem perseguir seus interesses objetivamente sem a concupiscência — a guerra interna de um membro contra o outro — que debilita as hierarquias.

Assim, podemos tapear o sistema, sabotando o estado com suas próprias regras — o que é chamado de “operação padrão” nas disputas trabalhistas — mas podemos fazer muito mais.

Podemos perseguir alianças táticas com subgrupos dissidentes dentro da burocracia do estado, apelando para sua genuína lealdade às missões explícitas dos órgãos para os quais trabalham, assim solapando suas missões reais. Bom exemplo é o dos cientistas da Administração de Alimentos e Medicamentos – FDA que, assumindo a missão ostensiva daquele órgão de proteger seriamente o público, causaram o maior estrago ao fazerem vazar a verdade acerca do ilibado sistema interno.

Vinay Gupta fez alianças táticas similares, trabalhando com subgrupos racionais dentro do estado que veem o sistema capitalista de estado como insustentável e gostariam de fazer uma ponte para uma sociedade sucessora mais sustentável — mas são tolhidos pelos lêmingues responsáveis, ocupados em pular despenhadeiro abaixo.

Podemos ir ainda mais além, contudo. Já antes citei os argumentos de Gupta de que o estado de segurança capitalista não pode dar-se ao luxo de ser honesto consigo próprio — de funcionar com pleno conhecimento de quais são seus reais objetivos — porque a verdadeira natureza desses objetivos é demasiado repugnante. Em decorrência, a maioria dos subordinados dentro do aparato de repressão do estado funciona com os antolhos protetores da dissonância cognitiva, acreditando em doutrinas oficiais acerca da promoção de “paz e liberdade” no mundo para disfarçar a verdade de imposição do domínio corporativo mundial por meio de assassínios por aviões não tripulados, estados repressores e esquadrões da morte.

Ao removermos esses antolhos protetores, e ao confrontarmos os funcionários de menor nível do estado com a real natureza do sistema de poder ao qual eles servem, podemos solapar o moral e a coesão do estado de segurança.

A vitória bolchevique em Petrogrado consumou-se quando os guardas do Palácio de Inverno desertaram. Ao longo de sua história, a instituição militar dos Estados Unidos sempre foi atormentada por soldados que atiraram acima da cabeça de seus inimigos. Até a esquadrões da morte precisa ser fornecida bala de festim de tal modo que cada membro possa assegurar para si próprio não ter sido ele quem matou o prisioneiro.

Isso não é apenas história. Como você poderá lembrar, grande número de policiais do Departamento de Polícia de New York telefonou dizendo estar doente no dia em que o “exército de Bloomberg” dispersou a ocupação do Parque Zuccotti. Vemos uma proliferação de grupos tais como os Oath-Keepers e Occupy Police cujos membros obviamente não primam por lealdade ao regime.

Nosso lado pode fazer uso de nosso potencial completo porque podemos confiar em nossos membros para que usem seu próprio juízo sem permissão. Podemos atuar com nossos olhos abertos e com plena consciência da situação real, porque não estamos servindo a uma causa do mal que nos exija esconder a verdade de nós próprios. Nossos inimigos, por outro lado, não podem fazer isso. Exploremos pois essas vantagens ao máximo.

Artigo original afixado por Kevin Carson em 9 de agosto de 2012.

Traduzido do inglês por Murilo Otávio Rodrigues Paes Leme.

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