Teoria e Prática do Coletivismo Oligárquico — Recém-Revisada!

The following article is translated into Portuguese from the English original, written by Kevin Carson.

As pessoas suscitam a questão de se a revolução das redes, em uma área ou outra de nossa vida cotidiana, será cooptada pelas velhas forças da hierarquia. Será que as velhas instituições conseguirão prolongar sua vida mediante incorporarem elementos de rede, sobrevivendo assim à transição para a nova sociedade — com elas próprias no comando?

Foi isso, dizem Christopher Hill e Immanuel Wallerstein, que a nobreza fundiária da Idade Média tardia fez. Reiventou-se, tomando a forma de capitalistas agrários, sobreviveu à transição, e cooptou, no sistema sucessor, formas de mercado em surgimento e a burguesia. O novo sistema foi definido, a despeito de seus elementos de mercado, por suas continuidades estruturais em relação ao sistema medieval. Esse sistema, no qual privilégios e relações de propriedade feudais coexistiam com preços de equilíbrio de mercado, foi chamado de “capitalismo.”

Ora, estarão as velhas hierarquias fazendo o mesmo em relação às organizações em rede? Certamente têm tentado. A primeira onda de microfabricação, que remonta ao desenvolvimento japonês de ferramentas de controle numérico computarizado – CNC de pequena escala adequadas para pequenas oficinas, foi incorporada a um arcabouço cooperativo: A produção efetiva foi deslocada para pequenas oficinas em Honduras, Vietnã ou China, mas as corporações retiveram o controle do produto e distribuíram-no com sobrepreços de nome de marca astronômicos por meio de seu controle da comercialização, do financiamento e da “propriedade intelectual.”

Mais recentemente, modismos “Enterprise 2.0″ ou “firma Wikificada” irromperam nas atividades comerciais, e a instituição militar tentou imitar a agilidade de movimentos em rede como a Al Qaeda dentro de suas próprias fileiras por meio de doutrinas de “Guerra de Quarta Geração – 4GW.”

O mais recente exemplo desse tipo de coisa no noticiário é a assim chamada “Primavera dos 99%,” na qual a anteriormente(?) organização liberal da corrente majoritária MoveOn.org desempenha papel fundamental. Muitas pessoas veem a Primavera dos 99% como tentativa do liberalismo do establishment para cooptar o movimento Occupy, e redelineá-lo à sua própria imagem. O perigo percebido é a MoveOn vir a impor todas as características convencionais de um movimento de Esquerda do establishment ao Occupy — porta-vozes oficiais, listas de exigências, chapas eleitorais etc. — bem ao modo de como os líderes da Esquerda do establishment vêm pressionando para que o movimento faça desde o começo. Ou pior, este se tornará o braço militante do Partido do Café.

O problema é que todas essas tentativas para colocar vinho novo em odres velhos estão fracassando porque as hierarquias são na verdade muito incompetentes em copiar redes.

Elas estão fracassando na área de fabrico porque as máquinas operatrizes digitais estão-se tornando várias ordens de grandeza mais baratas do que as usadas na primeira onda da microfabricação; o aparato de marketing é irrelevante para a fábrica de garagem que comercializa seus produtos num bairro urbano na base de pedidos por pressão de procura, o financiamento é supérfulo quando qualquer punhado de pessoas com capacidade de trabalho em oficina e poucos mil dólares poderem montar uma microfábrica, e exigências de marca registrada e de outras formas de “propriedade intelectual” são cada vez mais difíceis de fazer cumprir.

Enterprise 2.0 e 4GW estão fracassando precisamente por serem hierarquias quem está tentando cooptar as tecnologias de rede. As hierarquias são extremamente incompetentes no uso de tais tecnologias porque as eficiências específicas destas desintegram-se sob os interesses de poder de gerentes e burocratas. A despeito das melhores intenções dos gurus empresariais e dos acadêmicos de West Point e do TRADOC, o potencial das redes é sistematicamente sabotado por gerentes de nível intermediário e oficiais de patente intermediária.

Estão fracassando mais, porém, por serem supérfluas numa época de tecnologia barata, pois não conseguem suprimir de modo eficaz a competição.

Vejam, todo o poder de todas essas hierarquias, historicamente, dependeu de escassez e do imperativo de alto desembolso de capital para fazer as coisas. Quando o capital de equipamento fixo para fabricação, comunicação ou para combater numa guerra é extremamente dispendioso, e apenas uma hierarquia tenha como arcar com os desembolsos de capital, as oportunidades para fazer essas coisas serão escassas e mediadas por hierarquias.

Quando fazer essas coisas não mais requer enormes desembolsos de capital, e quando a tecnologia de rede permite às pessoas cooperarem fora das hierarquias com custos de transação zero ou próximos de zero, toda a base material das velhas hierarquias é obliterada. Elas poderão tentar suprimir a competição por meio de tramoias de “propriedade intelectual” ou mediante usarem o estado regulamentador para criminar a produção independente — do mesmo modo que um lorde de uma herdade medieval proibia o uso de um moedor manual para alguém moer seu próprio milho.

É porém muito mais fácil impedir a posse de moedores manuais numa vila do que fazer microfabricantes e hackers dobrarem-se a monopólios de patente, copyright e marca registrada. As redes são muitas vezes mais eficientes do que as hierarquias na exploração das vantagens das novas tecnologias, porque uma rede real é muito mais ágil e resiliente do que a tentativa de burocratas estúpidos e chefes incompetentes de lidarem com redes.

E quanto à Primavera dos 99%? Não tenho dúvida de tratar-se de cria da MoveOn, e esta gostaria de fazer todas as coisas de que falei antes, com Van Jones como a face pública do movimento. Por causa, contudo, das realidades que venho de descrever, não consegue fazê-lo.

O Occupy é um movimento de rede, sem líderes. É uma marca que qualquer um pode adotar para seus próprios propósitos, e uma plataforma na qual qualquer nó local pode plugar-se de forma modular para suas próprias finalidades. Os símbolos básicos de 99% e 1%, as técnicas organizacionais básicas, lá estão para qualquer um usar. Qualquer um que odeie Wall Street e os grandes bancos, que guarde ressentimento da polarização da riqueza e dos privilégios da plutocracia, e que deseje pôr fim à aliança de conveniência entre as grandes empresas e o governo hipertrofiado — qualquer seja a agenda específica desse alguém — poderá adotar os símbolos e as táticas do Occupy sem pedir permissão a ninguém. Os símbolos e slogans, e o conhecimento da técnica, são bens grátis. As tecnologias de comunicação em rede já são de propriedade de qualquer pessoa que use um smart phone. A única “barreira ao ingresso” é a disposição de ligar-se e começar a cooperar, e de pôr em uso o repositório de conhecimento e técnica já acessível de graça.

Portanto o MoveOn, enquanto nó — mesmo um grande nó — é livre para fazer seu próprio uso da marca e plataforma Occupy para efeito de sua própria agenda. Pode fazer isso tanto quanto os anarquistas, os Verdes, os Paulistas e todos os outros movimentos da rede sem líder Occupy. Mais poder para eles! Que cem flores desabrochem! Ele não consegue, entretanto, ter a posse da identidade do movimento, tanto quanto alguém que use material de licença Creative Commons não conseguirá fazer copyright dele e fechá-lo tornando-o inacessível aos outros usuários.

Portanto, deixemos que o MoveOn atue. Ele não tem como possuir o Occupy, não tem como falar por ele, e não tem como impedir nós outros de atuar de nosso modo. Ele é apenas — e é tudo o que consegue ser — mais uma voz acrescentada ao coro.

Emmanuel Goldstein, no mundo ficcional do 1984 de Orwell, escreveu um livro chamado A Teoria e a Prática do Coletivismo Oligárquico. Retratou a história como luta eterna entre os Altos, os Médios e os Baixos. O padrão típico de uma revolução consistia em os Médios contestarem o controle das instituições dominantes pelos Altos, e conseguirem a ajuda dos Baixos por meio de bandeiras populares. Uma vez adquirido o controle, os Médios tornavam-se os novos Altos e passavam a, por sua vez, oprimir os Baixos.

Tudo isso era verdade — o rodízio das elites de Pareto, a Lei Férrea da Oligarquia de Michels — enquanto as instituições hierárquicas eram universalmente aceitas como o único meio de organizar esforço cooperativo de larga escala. Enquanto isso foi verdade — pelo fato de as grandes instituições simplesmente não serem passíveis de controle direto pelos muitos — toda nova revolução era um caso de “Apresento-lhe o novo chefe, igualzinho ao antigo chefe.”

Agora, porém, que as hierarquias estão-se tornando supérfluas para a organização do esforço cooperativo, e suas tentativas de fazê-lo só conseguem dar vexame, podemos jogar esse manual de regras de jogo de 5.000 anos de idade no lixo, que é seu lugar próprio. Esta é uma revolução que não pode ser cooptada pelas antigas hierarquias, porque a base material do poder delas está sendo destruída.

Artigo original afixado por Kevin Carson em 25 de abril de 2012.

Traduzido do inglês por Murilo Otávio Rodrigues Paes Leme.

Free Markets & Capitalism?
Markets Not Capitalism
Organization Theory
Conscience of an Anarchist