Os Rothbardianos de Esquerda – Parte 1: Rothbard
The following article is translated into Portuguese from the English original, written by Kevin Carson.

Em “Libertarianism: What’s Going Right”, eu mencionei o Rothbardianismo de Esquerda como uma base possível para buscar áreas de concordância entre libertários de mercado e a esquerda. Eu gostaria de entrar já nessa questão com mais profundidade.

Em 2004, eu estava extremamente animado sobre a “Era of Good Feelings” entre os políticos Michael Badnarik do Partido Libertário e David Cobb do Partido Verde. Isso me deu alguma esperança para o renascimento de um projeto ainda mais esperançoso de 30 anos e poucos atrás.

Durante o final da década de 1960, Rothbard tentou uma aliança estratégica com o movimento da “Old Right” americana “isolacionista” e comparativamente antiestatista com a “New Left” americana. Esse período é o assunto de um artigo de John Payne, “Rothbard’s Time on the Left”. Payne escreve:

No início da década de 1960, Rothbard viu a “Nova Direita”, exemplificada pela revista National Review, como perpetuamente unida com a Guerra Fria, que rapidamente se tornaria exponencialmente mais intensa no Vietnã, e as intervenções do estado que a acompanhava. Então ele partiu à procura por novos aliados. No movimento da “New Left” americana, Rothbard encontrou um grupo de estudiosos que se opôs à Guerra Fria e a centralização política, e possuía uma massa a seguir com alto grau de potencial de crescimento. Vendo essa oportunidade, Rothbard estava disposto a pôr a ciência econômica de lado e se estabelecer em um terreno comum e, ao passo que sua cooperação com a New Left nunca alterou ou provocou o afastamento de qualquer de suas crenças fundamentais, a retórica de Rothbard mudou nitidamente em direção à esquerda durante esse período.

Eu adicionaria uma ressalva, a respeito do que Payne disse de Rothbard pondo a ciência econômica de lado. Na verdade, como veremos a seguir, Rothbard compartilhou de algum terreno econômico comum com a New Left. Na sua posição mais a esquerda, a crítica austríaca de Rothbard do capitalismo de estado corporativo era bastante radical.

No final da década de 50, de acordo com o relato de Payne, Rothbard encontrou-se em desacordo com W. F. Buckey e Frank Meyer na National Review. Suas apresentações sobre política externa, em um período em que ele viu a “questão guerra-paz” como algo chave para a agenda libertária e referiu-se à Guerra Fria como verdammte [N.T.: verdammte, do alemão, “condenável”], foram rejeitadas. Finalmente, em 1961, Meyer publicamente interpretou-o como fora do “movimento conservador” (ou, pelo menos, fora do fusionismo do National Review).

As partir do início da década de 60 em diante, Rothbard se viu cada vez mais atraído à crítica revisionista da esquerda docapitalismo de estado do século 20 (ou o que a New Left chamou de corporate liberalism). Ele ficou especialmente impressionado pela tese do livro de Gabriel Kolko, The Triumph of Conservatism, que foi publicado em 1963.

A crítica misesiana de Rothbard do estado corporativo, em que compartilhou tanto em comum com a New Left, foi um afastamento considerável das afinidades políticas de direita de Mises. Para Mises, o intervencionismo estatal foi motivado quase que inteiramente pelo sentimento anticapitalista: aquilo que Nixon teria denominado de “fodidos hippies sujos” ou Eric Cartman (personagem de South Park) repudiaria como “um bando de lixo hippie abraçador de árvores malditos”.

Rothbard, por outro lado, aplicou os princípios da Escola Austríaca, em grande parte do ponto de vista da crítica de Kolko, que viu o intervencionismo estatal como motivado principalmente pelo desejo dos próprios capitalistas corporativos em proteger seus lucros da destrutiva força da competição do mercado. Kolko discordou diretamente do relato histórico ortodoxo do estado regulador, como exemplificado pelo progressista Arthur Schlesinger, Jr. Especificamente, ele negou que a agenda legislativa da Era Progressista fora formulada primeiramente como uma restrição populista sobre as grandes empresas, ou de que o governo interviu na economia do século 20 como uma “força contra balanceadora” contra as grandes empresas. Pelo contrário, o estado regulador foi uma tentativa das grandes empresas alcançarem, agindo diretamente através do estado, o que tinha sido incapazes de alcançar através de combinações voluntárias e trustes executados inteiramente no setor privado: a cartelização da economia e a criação de mercados oligolopolistas estáveis caracterizado por fixar preço. Payne cita essa declaração resumida do livro de Kolko:

Apesar do grande número de fusões e do crescimento no tamanho absoluto de muitas corporações, a tendência dominante na economia americana do início deste século [vinte] foi em direção a crescente concorrência. A concorrência era inaceitável para muitas empresas fundamentais e interesses financeiros… Visto que novos concorrentes surgiram e como o poder econômico foi difundido em toda a nação em expansão, tornou-se evidente a muitos empresários importantes que somente o governo nacional poderia “racionalizar” a economia. Embora as condições específicas variassem de indústria para indústria, problemas internos que podiam ser solucionados apenas por meios políticos foram o denominador comum daquelas indústrias cujo lideres defenderam grandes regulações federais. Ironicamente, ao contrário do consenso dos historiadores, não foi a existência de monopólio que levou o governo federal a intervir na economia, mas a falta dele.

O propósito da ação estatal era, em primeiro lugar, ajudar a construir, excessivamente, a indústria, de modo simultâneo, a operar em capacidade plena e dispor do produto excedente que não poderia vender a preços de cartel. Em segundo lugar, como uma alternativa, era para permitir a indústria cartelizada operar com altos custos e capacidade ociosa e ainda permanecer-se lucrativa por vender seus produtos pela fixação de preços cost-plus através da precificação de monopólio (isso poderia também ter sido a declaração de missão do Ministério de Recuperação Industrial Nacional do presidente Franklin Delano Roosevelt, a propósito).

Essa percepção inicial de Rothbard, de que a historiografia revisionista da New Left foi útil para uma crítica ao livre mercado do capitalismo corporativo do século 20, levou-o a uma considerável soma colaborativa com estudiosos da New Left.

Rothbard participou do Studies on the Left, um projeto de historiadores da New Left como James Weinstein e William Appleman Williams. Foi Weinstein, em The Corporate Ideal in the Liberal State, que cunhou o termo “progressismo corporativo”. E Williams desenvolveu a tese “Open Door Imperialism” para descrever a política externa americana. Algumas contribuições de Rothbard para o Studies on the Left foram incluídas em uma coleção de artigos de livro de bolso resultantes de esforços do grupo até 1967: For a New America.

Rothbard manteve laços de amizade com acadêmicos da New Left por muito tempo depois de sua desilusão com o movimento estudantil radical. O seu segundo empreendimento mais arriscado em uma bolsa de estudos colaborativa (relativamente ao final do período de 1972) foi A New History of Leviathan, uma coleção de ensaios críticos sobre o corporativismo no New Deal, co-editado por Rothbard e pelo socialista libertário Ronald Radosh.

Ele contribuiu com um artigo (“Confessions of a Right-Wing Liberal“), em 1968, para a revista Ramparts (tanto David Horowitz e Ronald Radosh, que juntamente depois tornaram-se dois dos membros mais detestáveis de um movimento neoconservador caracterizado por suas odiosidades, foram associados com esta publicação importante da New Left).

Rothbard fundou o periódico Left and Right, em 1965, como um veículo para sua aliança de esquerda e direita enviesada academicamente. Se você estiver muito interessado nesses tipos de coisas, procurar os arquivos retribuirá bem seu esforço.

De sua colaboração acadêmica inicial com acadêmicos da New Left, Rothbard moveu-se para tentar a sorte com um movimento de massa em aliança com estudantes radicais.

O ponto alto dessa aliança ocorreu em 1969. A facção libertária de viés anarquista radical do grupo ativista Young Americans for Freedom (YAF) saiu da convenção desta instituição, em St. Louis (principalmente sobre a Guerra do Vietnã e do recrutamento militar obrigatório). As raízes do movimento libertário contemporâneo, e da maioria do seu pessoal fundador, pode ser traçada a este ato de secessão. Não muito tempo depois, Rothbard (juntamente com Karl Hess, um ex-redator de discurso do antigo político Barry Goldwater que cunhou a frase “extremismo em defesa da liberdade”, e, posteriormente, moveu-se consideravelmente para a esquerda) organizou um encontro em massa dos dissidentes libertários do YAF com secessionistas socialistas libertários semelhantes vindos do grupo ativista estudantil Students for a Democratic Society (SDS). Durante esse evento, Hess discursou a uma audiência coligada do YAF e insurgentes do SDS usando uniformes militares e um broche da Industrial Worker of the World (N.T.: O I.W.W. é um sindicato industrial internacional de tendência anarquista também conhecido como “Wobblies”).

A publicação The Libertarian Forum, de Rothbard, foi fundada em 1969, na época em que Rothbard estava se tornando cada vez mais desencantado com a New Left, e a própria New Left e especificamente o SDS, sob ataque dos fanáticos maoístas doPartido Trabalhista Progressista e dos idiotas niilistas do grupo ativista Weather Underground, estava se desintegrando. Embora Rothbard pudesse ter convivido muito bem com os acadêmicos da New Left, ele aparentemente sofreu um considerável choque cultural em 1969 ao descobrir precisamente o quão radical os estudantes radicais eram (as denúncias encobertas de economistas acadêmicos e do uso de gravatas feitas por eles foram uma afronta particular a Rothbard, que foi culpado sobre os dois resultados). Apesar disso, o primeiro volume do Libertarian Forum foi embalado com o comentário impetuoso sobre a aliança da New Left.

Pegue, por exemplo, esta citação de 1º de Maio, da edição de 1969:

[Os estudantes] veem que, independente de outro merchandising editorial, as empresas tem se utilizado das escolas e faculdades do governo como instituições que treinam seus futuros trabalhadores e executivos à custa de outros, isto é, dos pagadores de impostos. Isto é somente um caminho em que o nosso estado corporativo utiliza o poder taxativo coercitivo tanto para acumular capital corporativo quanto para abaixar os custos das empresas. Independente de como o processo é chamado, não é “livre iniciativa”, exceto no sentido mais irônico.

Considere também essa declaração de Hess:

A verdade… é que o libertarianismo deseja avançar os princípios da propriedade mas de forma alguma pretende defender, sem mais nem menos, toda propriedade que atualmente é chamada de privada. Muitas dessas propriedades são roubadas. Muitas são de títulos duvidosos. Estão profundamente interligadas com um sistema estatal coercitivo, imoral, que sancionou, constituiu e lucrou com a escravidão; se expandiu e explorou através de uma política externa imperial e colonial brutal e agressiva, e continua a manter as pessoas numa relação a grosso modo de servo-mestre com concentrações de poder político-econômico. Os Libertários estão preocupados, primeiro e acima de tudo, com a mais valiosa das propriedades, a vida de cada indivíduo… Direitos de propriedade relacionados a objetos materiais são vistos por libertários como emanando, e… um importante secundário do direito de possuir, direcionar, e desfrutar de sua própria vida e daqueles acessórios adicionais que podem ser adquiridos sem coerção… Isso está muito longe de compartilhar opiniões com aqueles que desejam criar uma sociedade na qual super-capitalistas estão livres para juntar grandes posses e com aqueles que dizem que isso é o propósito mais importante da liberdade… O libertarianismo é um movimento popular e um movimento de libertação. Ele procura um tipo de sociedade livre, não coercitiva, na qual as pessoas, vivas, livres e distintas, possam se associar livremente, desassociar, e, como bem julgarem, participar nas decisões que afetam suas vidas… Significa pessoas livres coletivamente para organizar os recursos de sua comunidade mais próxima ou organiza-los individualmente; significa a liberdade de ter um judiciário baseado e apoiado na comunidade aonde desejado, nenhum onde se preferir, ou serviços de arbitração privada aonde isto é visto como mais desejável. O mesmo com a polícia. O mesmo com escolas, hospitais, fábricas, fazendas, laboratórios, parques e pensões. A liberdade significa o direito de moldar suas próprias instituições. Ela se opõe ao direito dessas instituições te moldarem simplesmente graças a um poder acumulado ou status gerontológico.

Em outro artigo na mesma edição, “Confisco e o Princípio de Apropriação”, Rothbard propôs um modelo de privatização bem distante do tipo de pilhagem corporativa de ativos estatais que normalmente se encontra sendo defendido nos fórunss de libertários tradicionais de hoje em dia.

O que a maioria das pessoas normalmente identifica como a proposta de privatização “libertária” estereotipada, infelizmente, parte de algo como isso: vendê-la para uma grande corporação sob as condições que são mais vantajosas para a corporação. Rothbard propôs, como alternativa, tratar a propriedade estatal como sem dono e permitindo-a ser apropriada por aqueles que verdadeiramente a ocupam e que misturam seu trabalho nela. Isso significaria transformar serviços de utilidade pública do governo, escola e outros serviços em cooperativas de consumo e colocando-os em controle direto de sua clientela atual. Significaria ceder a indústria estatal à sindicatos de trabalhadores e transformá-la em cooperativas sob posse dos trabalhadores.

Porém se isso era o modo apropriado de lidar com a propriedade estatal, Rothbard questionou, em seguida, e sobre a indústria nominalmente “privada” que, na verdade, é um braço do estado? Isto é, o que acontece com a indústria “privada” que recebe a maioria de seus lucros de subsídios vindos dos pagadores de impostos

Mas se é assim com a Universidade de Columbia, e quanto à General Dynamics? E quanto à miríade de corporações que são partes integrais do complexo militar-industrial, que não só conseguem mais da metade ou às vezes toda sua receita do governo, mas também participam de assassinato em massa? Quais são suas credenciais à propriedade “privada”? Certamente menores que zero. Como ávidas lobistas para esses contratos e subsídios, como co-fundadoras do Estado-guarnição, elas merecem confisco e reversão de sua propriedade para o setor privado genuíno o mais rápido possível. Dizer que sua propriedade “privada” deve ser respeitada é dizer que sua propriedade, a propriedade roubada pelo ladrão de cavalos e do assassino, deve ser “respeitada”.

Essas fábricas deveriam ter sido tomadas por “trabalhadores que trabalharam nela”, ele diz. Mas ele foi mais longe, e sugeriu que um movimento libertário, tendo capturado os altos comandos do estado e prosseguindo a desmantelar o aparato do capitalismo de estado, poderia, na verdade, nacionalizar essa indústria subsidiada pelo estado como o prelúdio imediato a entregá-la aos trabalhadores. Ele foi tão longe ao ponto de dizer que, mesmo se um regime não-libertário nacionalizasse a indústria capitalista estatal com a intenção de se manter nele, não era algo para os libertários ficarem irritados particularmente com a questão. A indústria subsidiada não seria mais o “mocinho”, e não menos que uma parte do estado, como o próprio aparato estatal formal. “[Isso] significaria apenas que uma gangue de ladrões – o governo – estaria confiscando propriedade de outra gangue cooperada prévia, a corporação que vivia do governo”.

Eu iria além de Rothbard. Por que, de fato, o critério pelo status do governo é o montante dos lucros diretamente subsidiados vindo da receita estatal? E as corporações que funcionam dentro de uma teia de proteções regulatórias estatais, e os direitos de propriedade artificiais semelhantes a “propriedade intelectual” do Bill Gates, sem o qual eles não poderiam operar noponto de equilíbrio da receita por um único dia. Qualquer um que tenha lido muito do meu trabalho, por um dado período de tempo, sabe que eu considero todas as “500 maiores empresas da revista Fortune”, de fato, uma ótima representação desses braços do estado. Como eu já argumentei em uma postagem anterior, as maiores empresas estão tão entrelaçadas ao estado que a própria distinção entre público e privado torna-se sem sentido.

Para reforçar essa impressão, tenha em mente que (como as observações de Hess sobre a propriedade sugerida) Rothbard considerou todos os títulos de terra não rastreáveis sobre um ato legítimo de apropriação pelo trabalho humano, a estar totalmente nula e desocupada (veja aquiaqui e aqui). Isso significa que títulos de terra devolutas e não cultivadas seriam nulas e todas essas terras nos Estados Unidos deveriam estar abertas para apropriação imediata. Significa que todo imóvel realmente existente do sul da Califórnia, no presente momento mantido como investimentos imobiliários autênticos através de estradas de ferro, de acordo com as concessões de terras do século 19, deveria, imediatamente, se tornar propriedade livre e alodial absoluta daqueles que atualmente que estão sob aluguel ou o hipotecam. Significa que toda a terra no Terceiro Mundo, atualmente, “possuída” por oligarquias fundiárias quase feudais deveria imediatamente tornar-se a propriedade dos camponeses que nela trabalharam. E a terra atual que está sendo usada pelo agronegócio corporativo e outros tipos de produção agrária exclusivamente para o mercado, em conluio com esses mesmos proprietários de terras, deveria ser devolvida aos camponeses que foram expulsos dela.

Em suma, Rothbard não se encaixava exatamente no estereótipo do “maconheiro do Partido Republicano” que você vê comentaristas regurgitando junto ao fórum de discussão política do Kos. Esse artigo está ficando muito, muito longo. A princípio, tentei encaixar todo o material de rothbardianos de esquerda em uma postagem. Mas irei poupar o material sobre os sucessores libertários de esquerda de Rothbard (Sam Konkin, Joseph Stromberg e o resto) para outra postagem. [Que você vê amanhã por aqui.]

Artigo original afixado por Kevin Carson.

Tradução de Rodrigo Viana. Revisão por Adriel Santana.

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