Waco e 20 Anos de Terror de Estado

The following article is translated into Portuguese from the English original, written by Anthony Gregory.

O artigo a seguir foi escrito por Anthony Gregory e publicado por O Estandarte Libertário18 de abril de 2013.

Há algo com abril. De Columbine à Virginia Tech, de Oklahoma City a Boston, meado a fim de abril ocasiona alguns dos mais execráveis massacres em solo estadunidense. Pelo menos aqueles que, dizem-nos, deveríamos focar. Os assassinos são chamados de terroristas. A menos que vistam uniformes, como fizeram em 19 de abril de 1993, logo ao largo de Waco, Texas. Daquela vez, como somos instados a acreditar, os terroristas foram os que morreram. Em todos esses massacres, independentemente dos aspectos específicos, o governo se apresenta como aquele que mantém o caos à distância.

O estado afirma erguer-se contra o terrorismo, mas matar pessoas é sua marca registrada. As chacinas tomam várias formas, quase todas as quais alimentam a saúde do estado. O estado leva a efeito muita matança abertamente. O estado oficialmente posa de contrário a outras matanças, embora todavia as estimule por meio de sua própria violência. Até a matança não levada a efeito diretamente pelo estado serve como pretexto para o aumento do estado.

Em Boston, nesta segunda-feira, alguém deixou bombas que assassinaram três pessoas, inclusive um menino de oito anos de didade, e feriram outras 176. O Presidente Obama chamou o crime de “ato de terrorismo.” A definição de “terrorismo” dada pelo establishment sempre foi falha, visto que sempre absolveu categoricamente o governo, mas pelo menos sempre especificou envolver civis escolhidos como alvo para o atingimento de objetivos políticos. Nada obstante, nos dias atuais, mesmo antes de o motivo ser conhecido, como no caso de Boston, ou quando os alvos não são civis, como no caso dos soldados estadunidenses no exterior, o governo dos Estados Unidos chama quaisquer atos dramáticos de violência que desaprove de “terrorismo.”

Este fevereiro, chamou o ex-policial Chris Dorner de terrorista. Então a polícia o cercou numa cabana para queimá-lo vivo, pedindo à mídia para cobrir os olhos como em Waco. Todo mundo que sabia como o governo funciona não tinha motivo para esperar que ao homem fosse concedido o devido processo legal. Iriam caçá-lo, capturá-lo e matá-lo de qualquer maneira. A mídia dispensou a formalidade de chamá-lo de “possível” assassino. O Departamento de Polícia de Los Angeles – LAPD julgou-o e condenou-o e executou-o no mesmo dia e ningém exibiu a menor reação. Enquanto isso, os liberais vêm com aquela conversa de que a tirania estadunidense é irresponsável e os conservadores continuam sua adoração à imposição do cumprimento da lei.

Hoje, resistência violenta ao estado é chamada de terrorismo. Muitos dos “terroristas” arrebanhados e presos em Guantánamo Bay foram no máximo culpados de defender seu país contra um exército invasor. Algumas dessas pessoas continuam a definhar naquele calabouço, vendo sua desesperada greve de fome em protesto contra as condições em deterioração não obter resposta, exceto da parte de uma admoinistração disposta a privá-los de sua água.

De 28 de fevereiro a 19 de abril de 1993, os Davidianos do Rebento resistiram. Na manhã de 28 de fevereiro, cerca de cem agentes do Bureau de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos – ATF, escondidos em trailers de gado, desceram sobre a propriedade deles. Os agentes haviam planejado e treinado por oito meses, havendo praticado sua agressão histriônica contra modelos de edifícios. Não havia motivo para tudo isso a não ser publicidade. Os agentes poderiam facilmente ter prendido Koresh, com quem tinham feito amizade. Os agentes haviam conduzido uma investigação para efeito de violações concernentes a armas e nada encontraram. Koresh havia cooperado com eles. O 60 Minutos havia recentemente focalizado um escândalo de assédio sexual da ATF, e o órgão havia sido acusado de discriminação durante reunião de subcomissão da Câmara. O bureau desejava melhorar sua imagem pública. Autoridades foram à imprensa para assegurarem-se de que repórteres pudessem testemunhar seus feitos heroicos na última manhã de fevereiro de 1993.

Diferentemente da vasta maioria das centenas de incursões militarizadas diárias internas aos Estados Unidos, a incursão de surpresa do ATF chamada “Operação Hora do Espetáculo” encontrou resistência. Quando a munição dos agentes acabou, os davidianos cessaram fogo. Houve baixas de ambos os lados, embora um agente anônimo tenha dito ao Notícias Matinais de Dallas que suspeitava de alguns agentes terem tombado por causa de fogo amigo. Uma vez a incursão tendo-se tornado claro desastre, o ATF forçou a imprensa a afastar-se.

Então veio o impasse/ponto morto. O FBI assumiu e transformou-o numa operação militar plena em solo estadunidense. A guerra psicológica desceu dura sobre os seguidores de Koresh. O FBI clangorou música alta e obnóxia, e sons de matança de animais, enquanto lançava luzes cegantes pela noite. Agentes sem motivo algum guiaram um veículo para profanarem um túmulo davidiano. O governo cortou do grupo acesso a família, mídia, e advogados. Destruiu seu suprimento de água.

A mídia demonizou os davidianos pintando-os como um culto armado que cometia abusos contra suas crianças. Os jornalistas tenderam a noticiar as afirmações do governo como se fossem fato. Eles, porém, igualmente se tornaram cada vez mais críticos em relação ao ATF e ao FBI. Depois de semanas de parecerem trapalhonas na mídia majoritária, particularmente após relato de fatos comprometedores no New York Times em 28 de março revelar o mau planejamento e a inconsequência da incursão inicial, as autoridades do governo foram-se tornando cada vez mais hostis à mídia. Em 11 de abril, o chefe da inteligência do ATF David Troy parou completamente de ter suas reuniões coletivas regulares com a imprensa.

A Procuradora Geral Janet Reno, que assumira o cargo no meio do impasse, finalmente resolveu pôr fim a ele. Às cerca de 6 da manhã de 19 de abril, o FBI começou a bombear gás CS inflamável e venenoso, proibido em guerra internacional, no lar davidiano. As autoridades sabiam que mulheres e crianças estariam escondidas na secção da residência exposta a esse gás. O governo continuou a utilizar gás por quase seis horas.

O professor de química George F. Uhlig avaliou, em audiências do Congresso, haver probabilidade de sessenta por cento de só o gás já ter matado algumas crianças. “Liberar quantidade excessiva de CS definitivamente não consultava os melhores interesses das crianças,” disse Uhlig. “Máscaras contra gás não se encaixam muito bem em crianças, quando se encaixam.” Ele depôs dizendo que a aplicação de gás pode ter transformado a área circunjacente “em área similar a uma das câmaras de gás usadas pelos nazistas em Auschwitz.”

O FBI trouxe um tanque Abrams, o mais pesado veículo blindado do Exército, para substituir seus veículos de combate Bradley. Agentes dirigiram o tanque, que posteriormente a Procuradora Geral Janet Reno obscenamente comparou a “um bom carro alugado,” para dentro do prédio. O franco-atirador do FBI Lon Horiuchi, que havia atingido e matado Vicki Weaver em agosto de 1992 em Ruby Ridge com ela segurando o filho nos braços, estava no local. Agentes do FBI lançaram embalagens de gás lacrimogênio incendiário. O porta-voz do Departamento de Justiça Myron Marlin declarou mais tarde: “Não sabemos de evidência a apoiar que qualquer dispositivo incendiário fosse usado no complexo em 19 de abril de 1993.” O FBI finalmente admitiu, seis anos depois, ter de fato usado tais projéteis em Waco.

O lar davidiano fez-se em chamas no início da tarde. Mais de setenta pessoas morreram, todas elas alvos civis, muitas delas estadunidenses, outras oriundas de outros países, mais de vinte delas crianças e perto da metade pessoas de cor, embora de algum modo os davidianos tivessem amiúde tido sua reputação manchada, juntamente com o assim chamado movimento da milícia, sendo chamados de supremacistas da raça branca. Ao o fogo intensificar-se, o FBI não deixou que o corpo de bombeiros acorresse. O agente especial Jeffrey Jamar alegou que temia pela segurança dos bombeiros — presumivelmente, os davidianos poderiam atirar exatamente nas pessoas que tentariam apagar o fogo que os estava levando à morte. Quando tudo terminou, o AFT hasteou sua bandeira no topo das ruínas conquistadas.

O julgamento dos sobreviventes foi um embuste. Jurados confusos buscavam condenar os sobreviventes por ofensas relacionadas com armas, mas não por assassínios. O juiz perfilou-se com a promotoria e questionou as intenções dos jurados. Ao chegar 1999, pesquisas indicavam que forte maioria dos estadunidenses culpava o FBI por iniciar o incêndio. O advogado especial John Danforth, Republicano, divulgou relatório, no ano seguinte, isentando de qualquer culpa a administração Clinton por aquela atrocidade.

Depois de Sandy Hook, os liberais regurgitaram todos os exauridos argumentos a respeito de controle de armas, mas um dos mais interessantes é que uma população armada não funciona para conter uma tirania porque o governo tem o equipamento militar para vencer qualquer confronto. E de fato é verdade: a maioria dos que resistem ao governo são esmagados como insetos. Alguns resistem violentamente, como os índios Lakota em Wounded Knee em dezembro de 1890, e são chacinados. Outros são atingidos por ousarem resistir até mediante jogar pedras em tropas armadas, como os quatro estudantes assassinados e os nove feridos na Kent State em maio de 1970. Outros são atingidos depois de alguns anos de relativa calma, como os radicais do MOVE de Filadélfia em maio de 1985. Os liberais estão corretos em que o governo tem os meios e a vontade de esmagar estadunidenses que ousem resistir. Esse fato nunca parece convencer os liberais de que o estado é, para começo de conversa, extremamente poderoso e ameaçador, e talvez a última coisa que deveríamos querer é dar a ele mais poderes de fazer cumprir a lei, tais como a monopolização de armas de fogo, por meio de uma guerra às armas de fogo.

Perto de uma vez por dia a polícia mata um estadunidense, mas é amiúde um criminoso e ninguém se importa, ou pelo menos uma pessoa marginalizada como o sem teto Kelly Thomas, espancado em julho de 2011 por cinco policiais no Sul da Califórnia, morrendo de complicações cinco dias depois. Ou são veteranos como Jose Guerena, em quem a polícia de Tuscon cravou 71 balas no meio da noite em maio de 2011 – inocente de qualquer crime, apenas em sua própria casa na hora errada. O estado economiza a maior parte de sua matança para o exterior, onde matar é sua própria política. E agora, graças à guerra ao terror, Obama chama os Estados Unidos de seu campo de batalha, e o mundo de sua jurisdição. Ele tornou doutrina oficial que o presidente pode determinar unilateralmente a morte de quem quer que seja.

Há vinte anos, Waco mostrou aos estadunidenses a verdade acerca do fazer cumprir a lei, do governo dos Estados Unidos, e do próprio estado. Revelou qual é a realidade para estrangeiros do além-mar. No entanto, a maioria dos estadunidenses parece totalmente indiferente ao assassínio em massa que o governo dos Estados Unidos tem perpertrado e desencadeado no Oriente Médio. No dia em que três pessoas foram assassinadas em Boston, setenta e cinco pessoas morreram no Iraque. A violência no Iraque, há nove anos, era chamada de terrorismo, a menos que cometida por soldados dos Estados Unidos. Hoje, a violência no Iraque dificilmente chega ao noticiário. O estado decide de que vidas vale a pena cuidar, e quando.

Alguns críticos da violência do estado desgostam da própria palavra “terrorismo,” considerando-a sem sentido, mas discordo. O estado perverte a maioria das palavras que usa, mas essas palavras ainda assim podem reter valor. Terrorismo refere-se a violência infligida intencionalmente a inocentes para instilar medo e promover objetivos políticos. Autoridades estadunidenses praticam terrorismo o tempo todo. Nos vinte anos desde Waco, o terrorismo do estado entrou em escalada, das sanções contra civis no Iraque para os ataques de aviões não-pilotados capazes de tiros praticamente simultâneos contra prontos-socorros, e daí até as constantes incursões policiais dentro do país. Até as mais básicas medidas da polícia, como o apalpo sistemático dos residentes de New York conhecido como “parar e revistar” visam a “instilar medo,” como jactou-se o comissário de polícia Raymond Kelly de ser a intenção, de acordo com o depoimento do ex-capitão do Departamento de Polícia de New York – NYPD Eric Adams. De alto a baixo, no país e fora, o estado estadunidense pós-Waco parece decidido a instilar medo em todos nós.

Em todo abril, desde 2003, escrevi um artigo acerca de Waco. Acho que os estadunidenses nunca deveriam esquecer o que aconteceu. LewRockwell.com publicou a maioria desses artigos. Cada um deles tem algo de diferente e discute eventos contemporâneos. Também escrevi minha tese de graduação acerca de Waco e o relacionamento entre a mídia e o estado policial. Eis aqui meus arquivos para os interessados:

Poderei fazer um intervalo na revisitação de Waco no próximo abril, não por ter esquecido as vítimas – nunca o farei – mas simplesmente porque acho que já escrevi bastante acerca dessa atrocidade específica por algum tempo, dado que o estado tem causado devastação em tantas direções, tornando Davidianos do Rebento tantos estrangeiros e estadunidenses apanhados no lado errado do infindável sítio do mundo perpetrado pelo governo dos Estados Unidos. Muitos davidianos morreram e outros sofreram injustiça no julgamento, mas tragicamente essas vítimas não são raras. Há também os muitos milhares chacinados no exterior nos últimos 20 anos. Há os milhares atingidos pela polícia desde então. Há Abdulrahman al-Awlaki, o adolescente de dezessei anos de Denver a quem Obama fez virar poeira por meio de um avião não tripulado – drone, cuja morte foi justificada com base em ele ter tido mau pai. Antes da rápida ascensão do estado de vigilância e a guerra ao terror posterior ao 11/9, Waco era a melhor oportunidade para reverter as coisas. Em vez disso, os estadunidenses, em sua maioria, viraram as costas e agora nosso país está-se tornando um grande parque de diversões para o estado policial.

Podemos chamar essa situação de a vingança de David Koresh.

Artigo original afixado por Anthony Gregory em 19 de abril de 2013.

Traduzido do inglês por Murilo Otávio Rodrigues Paes Leme.

 

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