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Ignorância é Força: Edição Kim Jong Un

The following article is translated into Portuguese from the English original, written by Kevin Carson.

Num artigo opinativo acerca da “crise” coreana (“Já Desde Agora Sou Contra a Próxima Guerra, e Você Também Deveria Ser,” 4 de abril), Tom Knapp escreveu, a respeito de suas impressões negativas a respeito da Coreia do Norte:

“a maior parte do que penso que sei a respeito dela é em realidade apenas aquilo que outros governos resolveram contar-me. E esses outros governos sistematicamente mentem — para todo mundo, acerca de tudo, diariamente, como questão de política …”

O atual alarmismo de guerra martelado pelo governo dos Estados Unidos (e por notícias transmitidas por cabo — se é que há qualquer diferença) confirma plenamente o ceticismo de Knapp. Olhemos mais de perto por trás da versão oficial dos eventos na Coreia ao longo das várias décadas passadas:

O arcabouço padronizado acerca da Guerra da Coreia é o de agressão indiscutível e sem provocação pelo Norte, começando com uma súbita e maciça invasão cruzando a Linha Demarcatória. Na verdade, contudo, os anos que levaram à guerra caracterizaram-se por incursões através da fronteira por parte de ambos os lados, amiúde envolvendo milhares de soldados.

A versão norte-coreana dos eventos era a de que o regime de Seul havia conduzido ataques maciços de artilharia cruzando a fronteira nos dias 23 e 24, seguidos de incursão sul-coreana de surpresa contra a cidadezinha de Haeju. O relatório militar estadunidense da situação no crepúsculo do dia 25 dizia que os norte-coreanos haviam capturado todo o território três milhas ao sul do Rio Imjin — exceto a área do “contra-ataque de Haeju.” John Gunther, em sua biografia de MacArthur, descreve ter sido informado, no dia 25, por membro de alto escalão da ocupação estadunidense: “Acaba de acontecer uma grande reportagem. Os sul-coreanos atacaram a Coreia do Norte!”

Ao eclodir a guerra, o ditador sul-coreano Syngman Rhee ordenou o massacre de pelo menos 100.000 dissidentes esquerdistas, com a aquiescência do comando militar dos Estados Unidos. Entre as vítimas contaram-se dezenas de milhares de prisioneiros políticos encarcerados por Rhee nos anos anteriores. O regime esvaziou suas prisões, enfileirou os prisioneiros e os fuzilou, despejando seus cadáveres em trincheiras cavadas às pressas. Autoridades militares dos Estados Unidos estiveram presentes a alguns dos assassínios em massa; a instituição militar dos Estados Unidos, na realidade, fotografou alguns deles.

À guisa de antecedentes históricos, o sistema coreano de governo que havia emergido no vácuo deixado pela retirada do Japão em 1945 era uma federação frouxa de comunas autogovernadas, onde o grande e influente movimento anarquista coreano desempenhava papel importante. Autoridades militares soviéticas e estadunidenses, em suas esferas respectivas, rapidamente acabaram com aquilo. Os estadunidenses, obviamente desconfiados de anarquistas ou esquerdistas de qualquer tipo, estimularam aristocratas destituídos de seus bens a formarem um regime militar que prendeu, na casa das dezenas de milhares, anarquistas que houvera destituído de seus bens e, em poucos anos, aproveitou-se da guerra para dar cabo deles de uma vez por todas.

De volta ao presente: As ameaças de Kim Jong Un de retaliação nuclear a alvos estadunidenses têm lugar no contexto de exercícios navais conjuntos de larga escala estadunidenses-sul-coreanos dentro de águas territoriais norte-coreanas. Os Estados Unidos alegam tratarem-se de águas sul-coreanas baseados unicamente numa linha de demarcação unilateralmente traçada pelos Estados Unidos, ao final da Guerra da Coreia. A linha traçada pelos Estados Unidos não é confirmada por qualquer tratado, nem é reconhecida por qualquer órgão internacional. E, pelos padrões normais para cálculo de águas territoriais segundo a lei internacional, as reivindicações da Coreia do Norte das águas onde os exercícios tiveram lugar é inteiramente legítima.

Assim, pois, ao serem vistos os eventos fora do prisma distorcedor das afirmações oficiais dos Estados Unidos e de seus papagaios na mídia, o que realmente aconteceu é que a Coreia do Norte reagiu a uma enorme provocação e a plausível ameaça mediante advertir de retaliação na eventualidade de ataque.

“OK,” poderá você estar dizendo. “Mesmo, porém, que tudo isso seja verdade, reagir a uma provocação ao largo das águas norte-coreanas vociferando acerca de alvos nucleares nos Estados Unidos é um pouco demais, não é?”

Bem, é certamente algo imoral. Um estado reagir à agressão militar de outro estado dizendo que matará, ou ameaçando matar, sua população civil é monstruoso. E, se é monstruoso, é monstruoso quem quer que o faça. Seria monstruoso também se algum país puramente hipotético, o único país do mundo com armas atômicas, as usasse para matar diversas centenas de milhares de civis em duas cidades japonesas. Seria monstruoso se algum país puramente hipotético com centenas de bombardeiros de longo alcance tivesse tido, como política militar oficial, fazer uso em primeiro lugar de armas nucleares para atingir todo centro populacional importante na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas em retaliação a uma incursão convencional na Europa Ocidental.

O governo dos Estados Unidos é um estado. E mentir — deliberadamente, cinicamente — onde mentir sirva a seus interesses é o que os estados fazem. Não permita que milhões de pessoas morram por causa de uma mentira.

Artigo original afixado por Kevin Carson em 5 de abril de 2013.

Traduzido do inglês por Murilo Otávio Rodrigues Paes Leme.