Por Frank Miroslav. Artigo original: Networks Versus Hierarchies in Minneapolis’ Struggle Against ICE, 26 de enero de 2026. Traduzido para o português por p1x0.
Saludos amigues, soy p1x0, Tradutor & anarquiste de vila, interessado na superação do Estado das coisas como estão. Considere apoiar meu trabalho Clicando Aqui.
Faz algum tempo, estive pensando em escrever uma resenha do livro The Desktop Reguatory State, de Kevin Carson, que ajudou a me inspirar a me tornar um anarquista em 2016, para vermos como ele envelheceu, já que faz uma década desde que foi publicado.
Mas aí o ICE invadiu a cidade de Minneapolis. E então os cidadãos revidaram de uma forma que parece uma aplicação literal do que Carson escreveu em seu livro, a ponto de que se uma segunda edição vier a ser publicada, eu não ficaria nada surpreso se houvesse todo um novo apêndice, Um Estudo de Caso da Resistência em Rede.
Defender argumentos teóricos amplos sobre um conflito em andamento é sempre uma empreitada questionável. Quando as tensões estão elevadas e a situação é fluída, raciocinar de forma rigorosa é um desafio e o cenário pode mudar rapidamente. Narrativas adotadas no momento podem acabar por se mostrarem comicamente errôneas em retrospectiva, quando os fatos são friamente analisados, ou novas evidências vêm à tona.
Ainda assim, estou disposto a defender essas ideias até que se prove o contrário.
Para os que não leram o livro ou precisam refrescar a memória, uma parte significativa do começo do livro estabelece o que Carson vê como o conflito primário daqui em diante, isso é, o conflito entre redes e hierarquias.
E, por mais que eu não esteja pessoalmente envolvido no conflito, de acordo com todas as notícias que eu tenho visto, certamente parece que Minneapolis está utilizando uma rede para lutar contra uma hierarquia. Como escreveu a anarquista Margaret Killjoy, sobre sua experiência conversando com pessoas pela cidade.
Este movimento não é sem liderança, mas repleto de líderes, e não há poucas pessoas específicas que poderiam ser presas para parar o movimento. Porque ele é feito da conexão entre tantas redes, que mesmo que alguém mal intencionado conseguisse interferir em uma peça individual desta rede (por exemplo, atrasando algum grupo com detalhes e o impedindo de fazer seu trabalho), a disrupção seria mínima. Pois a rede é democrática (não no sentido de que as pessoas envolvidas votam em decisões, mas no sentido de que ela é gerida por pessoas que são parte dela e não por lideranças de vanguarda), as pessoas são ouvidas somente quando suas ideias têm apelo para outros participantes.
A estratégia básica empregada pelas pessoas na linha de frente é identificar carros usados pelos agentes, seguí-los, alertando outros de sua presença através do uso de buzinas e apitos, e fotografando ou fazendo gravações de vídeo quando eles tentam abordar ou sequestrar pessoas nas ruas, enquanto pegam informações sobre as pessoas que foram capturadas. Enquanto o ICE ainda é capaz de efetuar prisões, o número de pessoas que eles foram capazes de capturar é bem menor do que seria, caso a comunidade se organizasse de forma mais lenta.
Superar um inimigo hierarquicamente estruturado e com poder de fogo superior, através de manobras, invés de confrontá-lo diretamente, não é nada novo. Esse é o cotidiano de uma guerrilha insurgente desde tempos imemoriais. O que Minneapolis usa em sua vantagem é a comunicação criptografada em tempo real, através de aplicativos como o Signal, mas também redes de rádio.
Estas táticas não-violentas de enxame amplificadas por tecnologias de comunicação de muitos-para-muitos têm circulado há um tempo. Neste livro, Carson usa o clássico trabalho dos quadros de think tanks da RAND, John Arquilla e David Ronfeldt e seu conceito de “Netwar”. Eles argumentam que avanços em tecnologias de comunicação permitiram enxames descentralizados para sobrepujar alvos mais poderosos, organizados hierarquicamente.
Um estudo de caso que Arquilla e Ronfeldt deram considerável atenção foram as táticas de enxame usadas pelos manifestantes que praticavam ação direta em Seattle contra a Organização Mundial do Comércio nos idos de 1999. Apesar de haverem passado décadas desde que escreveram sobre o assunto, as semelhanças entre os dois são notáveis:
Guerras em rede são combatidas por redes: coleções de grupos e organizações guiadas por estruturas de comando não-hierárquicas através de canais de comunicações “polivalentes” de banda larga e complexidade considerável.
As redes operam como um “enxame” contra seus oponentes, como abelhas ou células brancas – mais como organismos do que como máquinas, eles podem reagir como anticorpos se movendo em direção aos pontos de ataque. Na guerra em rede as linhas de defesa e ataque tornam-se porosas, deixando os oponentes incertos sobre o que está acontecendo e como responder. Durante os protestos, a Rede de Ação Direta foi capaz de agir como um enxame ofensivo contra seus oponentes repetidamente, como demonstrado na ocupação de intersecções chave na terça-feira e a fácil penetração da zona “livre de protestos” na quarta-feira. A defesa como anticorpos foi demonstrada quando as multidões se moveram em direção a ataques da polícia e prisões em massa.
Mas enquanto em Seattle estes enxames eram feitos majoritariamente de pessoas comprometidas ideologicamente com o anarquismo e ativistas buscando superar os defensores na forma da polícia para tentar impedir que representantes se reunissem para a conferência, o que vemos em Minneapolis é uma mobilização ampla da sociedade que vai muito além dos costumeiros esquerdistas, ativistas liberais e comunidades racializadas marginalizadas com o objetivo de defender os que estão sendo alvo do ICE. Como escreveu a jornalista Ana Marie Cox, “A mobilização rompeu barreiras de classe e raça de forma mais profunda do que a resposta ao assassinato de George Floyd”. Com isso, você não tem apenas trabalhadores entrando em greve, mas também empreendimentos normais.
É de fato uma frente popular.
O consenso moral geral de que é preciso enfrentar o ICE é a chave de todo o conflito. Uma das distinções entre redes e hierarquias feitas por Carson é de que as pessoas são intrinsecamente motivadas a agirem pois elas acreditam no que estão fazendo, não por estarem sendo forçadas, então é possível confiar que farão a coisa certa. Menores custos de transação significam que as pessoas podem simplesmente agirem, o que é crítico já que as pessoas têm somente minutos para agir quando o ICE tenta sequestrar alguém.
Enquanto os princípios que Carson aponta se aplicam em muitos casos de pessoas se organizando de forma horizontal, existem razões específicas do porquê as pessoas de Minneapolis serem capazes fazerem o que fazem.
Primeiramente, tudo é construído sobre práticas pré-existentes de apoio mútuo e solidariedade cotidiana que são uma necessidade do ambiente. Marie Cox novamente:
Os laços formados sob a pressão de ventos na casa dos dois dígitos negativos são essenciais para entendermos o que está acontecendo. É impossível sobreviver ao inverno de Minnesota sem ajuda, e só às vezes esse apoio vem dos seus vizinhos. As histórias sobre pessoas usando pás e sopradores de neve para limpar quadras inteiras, sem que ninguém houvesse pedido, são reais, mas os verdadeiros milagres (e tão comum quanto) são as vezes em que estranhos param para ajudar alguém a desatolar um carro preso em um banco de neve ou usar a areia de gato guardada no porta-malas justamente para este tipo de emergência. Eu não poderia contar uma história desse tipo acontecendo comigo. Eu tenho ao menos três ou quatro. A piada é irresistível: quem vive em Minnesota sempre esteve unido contra o gelo, eles só mudaram seu foco para um tipo de gelo que não pode ser usado para treinar hockey.
Você pode ignorar a piada até que alguém em uma cafeteria dê um cachecol extra porque você não consegue encontrar o seu. Pessoas oferecem ajuda sem hesitar e sem perguntas. Eu acho que nem ouvi alguém responder a agradecimentos com, “Um dia quem sabe, você me paga”.
Também há a infraestrutura técnica que sustenta a resistência na forma de apps como o Signal. O trabalho lento e entediante de hackers radicais que por décadas tem dado a manifestantes linhas de comunicação seguras e fáceis de se criar. Conflitos ancestrais como as Crypto Guerras dos anos 90, que tornaram a criptografia legal para pessoas comuns e o trabalho para construir, popularizar e manter o Signal foi o que permitiu aos manifestantes se comunicarem de forma segura de maneiras que frustram as tentativas de vigilância do regime.
A estrutura específica de canais de grupos de chat fechados significa que a resistência é mais resiliente. “Jornalistas” manipuladores da direita como Cam Higby podem infiltrar chats individuais, mas eles só revelam uma pequena parte de uma grande rede. Compare isso com as manifestações anteriores em que as pessoas se organizavam abertamente em redes sociais onde suas informações eram facilmente acessíveis, que eram muito mais fáceis de se derrubar ou atrapalhar.
Vale a pena falarmos sobre as implicações políticas mais amplas de tudo isso.
Eu faço piadas sobre como os ativistas de Minneapolis usam princípios vindos de um livro que menos de um punhado de pessoas daquela cidade sequer já ouviram falar, menos ainda leram, pois diz muito sobre como Carson chegou a algum lugar com a sua escrita. O motivo pelo qual as pessoas estão agindo dessa forma não é por terem um entendimento formal dos princípios de enxame ou guerra em redes, mas por que elas viram alguém fazendo algo efetivo, que eles mesmo poderiam fazer. O motivo da resistência em Minneapolis ter funcionado tão bem é que ela consiste de atividade que exige o mínimo em termos de custo de adoção (polícias secretas não deveriam sequestrar meus vizinhos) e recursos (tudo que você precisa é de um telefone, um apito, ou um carro).
Radicais auto-conscientes podem ter sido a chave para iniciar a onda de ação, mas ela é algo independente agora. E com isso, se tornou uma das instâncias mais bem sucedidas de “Propaganda pelo Ato”, em anos. É um exemplo claro de ação direta, que não só tem um impacto político mas também manda uma mensagem direta para as pessoas onde estiverem.
“Independente de você viver em Minneapolis ou outra cidade dos EUA, ou mesmo do mundo, você pode fazer algo parecido.”
Só porque as pessoas estão se organizando de uma forma anarquista não quer dizer que elas sejam anarquistas. Como em todas frentes populares, a solidariedade generalizada que vemos em Minnesota vai se dissipar, especialmente se a cidade vencer. Mas mesmo assim é mais fácil de ter conversas com as pessoas que as ponham mais próximas da nossa posição, quando elas têm a experiência visceral de agir como um anarquista.
Mas as consequências do conflito nas ruas de Minneapolis vão muito além de potencialmente facilitar a conversão de pessoas para a nossa posição também dando um soco pesado no regime Trump. Isso também fala do futuro da esquerda nos Estados Unidos e em todo o mundo.
Uma coisa irônica sobre The Desktop Regulatory State é que, apesar de defender as possibilidades selvagens das organizações horizontalistas que virão, ele foi publicado justamente quando começamos a ver a ressurgência da “Nova Velha Esquerda”, como próprio fundador da Jacobin, Bashkar Sunkara descreveu, graças às campanhas eleitorais de figuras como Bernie Sanders e Jeremy Corbin. Nos anos 90 e 2000 um “horizontalismo” rudimentar e improvisado, inspirado nas práticas anarquistas era senso comum na esquerda, mas nas décadas recentes testemunhamos um retorno ao “verticalismo”.
Parte dessa mudança foram argumentos que confundiam aspirações descentralistas e tecnologias alternativas com relativismo pós-moderno e quietismo de formas que definiram as muitas partes da esquerda nos anos 90 e 2000 (sem nem falar nas críticas que os anarquistas têm ao pós-modernismo). Como Sunkara descreveu.
Muito dos meus primeiros trabalhos, incluíndo o ensaio na Dissent chamado”O Anarco-Liberal”, é baseado na crítica de uma esquerda que eu pensava ter medo de grandes narrativas e o projeto da modernidade e pequenos projetos políticos de resistência.
Contudo, quando foi preciso, as pessoas de Minneapolis não esperaram pela formação de estruturas verticalistas que pudessem resistir através de medidas institucionais ou uma organização formal para começar a direcionar as pessoas estrategicamente – apesar dos Social Democratas da América serem parte da resistência. Não, eles estão fazendo isso por conta própria de forma horizontalista que, até agora, não sucumbiu ao “congelamento tático” que Zeynep Tufecki diagnosticou em seu livro Twitter and Tear Gas, onde eles não conseguem mudar em resposta às novas formas de repressão estatal ou a necessidade de criarem alguma instituição formal que possa”falar” em nome da cidade e apresentar demandas como Vincent Bevins argumenta em If We Burn.
A resposta horizontalista às falhas do horizontalismo dos anos de 2010 (e não temos recebido tanta atenção nas páginas dos veículos de comunicação formais quanto nossos críticos verticalistas) é que nós estamos apenas começando. Ainda há tanto que pode ser feito em termos de práticas culturais e possibilidades tecnológicas a ser desenvolvido e difundido. Apesar dos verticalistas se portarem retoricamente como os adultos sérios na sala, eles não parecem perceber o fato de que é sim bastante possível disputar e desenvolver a tecnologia que empodere nossa organização.
Considerando o que alguns hackers radicais envolvidos na criaçao da IndyMedia e do Twitter disseram:
O que podemos aprender com o fracasso da IndyMedia e movimentos sociais inspirados pelo Twitter é que a democratização da leitura e escrita não é destinada a falhar, mas que somente a atualização de status não é o suficiente, uma conclusão bastante auto-evidente. Conforme movimentos sociais criem novas ferramentas e usem outras já existentes de formas inesperadas, o futuro da tecnologia continua sendo escrito.
A resposta apropriada à ascensão da reação ao redor do mundo não é recuarmos para alguma organização verticalista que reivindica a pretensão de alguma razão estratégia superior, mas invés disso, avançarmos no desenvolvimento e difusão de nossas capacidades.
E por mais que eu não possa falar por todos, considero que o que há de mais valioso na escrita de Carson é uma orientação geral em direção a um mundo que aponta para a ação consequente que eu e outros podem tomar para mudarmos o mundo. Quaisquer imprecisões ou erros que existam em The Desktop Regulatory State – e existem muitos simplesmente pelo amplo espectro do assunto em questão – acredito que estes erros são secundários ao fato de que ele se mantém como um guia para a ação mesmo uma década após sua publicação.
O objetivo, afinal de contas, é mudar o mundo.






