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A Reação do Estado a Snowden Mostra Por Que o Estado Está Fadado ao Fracasso
The following article is translated into Portuguese from the English original, written by Kevin Carson.

Em 2006 Ori Brafman e Rod Beckstrom, em A Estrela-do-Mar e a Aranha, contrastaram o modo pelo qual redes e hierarquias reagem a ataques vindos de fora. As redes, quando atacadas, tornam-se ainda mais descentralizadas e capazes de pronta recuperação. Bom exemplo são Napster e sucessores, cada um dos quais aproximou-se mais estreitamente de modelo ideal de ponto-a-ponto, e libertou-se ainda mais de dependência de infraestrutura passível de ser posta fora do ar por autoridade central, em comparação com seus predecessores. As hierarquias, por outro lado, reagem a ataque mediante tornarem-se ainda mais ossificadas, friáveis e fechadas. As hierarquias  respondem a vazamentos mediante tornarem-se internamente opacas e fechadas até em relação a si próprias, de tal modo que suas informações ficam compartimentadas e as próprias hierarquias se tornam menos capazes de fazer uso eficaz do conhecimento disperso entre seus membros.

Podemos ver isso na maneira pela qual o estado de segurança nacional tem reagido a vazamentos, primeiro pelo Soldado de Primeira Classe – PFC Bradley Manning e agora pelo ex-empreiteiro da Agência de Segurança Nacional – NSA Edward Snowden. Hugh Gusterton, noBoletim dos Cientistas Atômicos (“Nem Todos os Segredos São Similares,” 23 de julho), observa que o governo está tomando medidas para evitar vazamentos da espécie mediante “segmentar o acesso à informação, de tal maneira que analistas individuais não possam tirar tanto proveito, e mediante dar menos permissões de segurança, especialmente a empregados de empreiteiras.”

Essa abordagem está fadada ao fracasso. “A segmentação de acesso vai no sentido contrário a toda a filosofia da mais recente estratégia da inteligência, que é a de fusão de dados oriundos de fontes diversas. Quanto mais balcanizados os dados, menos eficaz a inteligência. E … as agências de inteligência estão coletando tanta informação que têm de contratar vasto número de empregados novos, muitos dos quais não podem ser adequadamente investigados.”

No entretempo, a atmosfera interna de caça às bruxas no aparato de segurança dos Estados Unidos está alienando os próprios hackers de trabalho contratado de cujas habilidades tal aparato depende cada vez mais. O adesivo da Fundação da Fronteira Eletrônica (EFF) no laptop de Snowden não foi uma deflexão que a liderança da NSA deixou passar batido. É típico do reservatório cultural de onde a NSA, inevitavelmente, recruta seus empreiteiros. Essas pessoas leem as notícias, e não ficam impressionadas com o tratamento draconiano dispensado pelo governo a pessoas como Aaron Swartz, Bradley Manning e Edward Snowden. Os recrutadores estão enfrentando crescente ceticismo entre aqueles que dominam as habilidades das quais o aparato precisa; a recepção fria ao chefe da NSA Keith Alexander no DefCon é simbólica dessa nova atmosfera.

Ademais, como estagiário anônimo da EFF observa, até pessoas idealistas que acreditam na missão da NSA veem-se paralisadas pela atmosfera crescentemente hostil, com medo até de digitar código em terminal temendo descobrir, depois do fato consumado, terem violado uma das vagas e kafkaescas disposições da Lei Relativa a Abuso e Fraude em Computação – CFAA.

Tudo isso está acontecendo ao mesmo tempo em que as agências de escuta são inundadas por quantidade sempre crescente e inadministrável de dados brutos. A proporção de palheiro para agulha vem aumentando exponencialmente. Quanto maior o volume de dados brutos a ser analisado algoritmicamente, maior o número de falsos positivos que o sistema gera. O simples volume de falsos positivos, e a proporção de falsos positivos em relação a pistas genuínas, são suficientes para paralisar o governo. No passado, em 2009, o Departamento de Segurança da Pátria não teve como reagir a tempo para deter o Explodidor da Roupa de Baixo quando seu próprio pai notificou-o de que o filho planejava explodir um avião.

As próprias pessoas que o estado de segurança está mais interessado em monitorar — de terroristas genuínos a dissidentes internos como Snowden e o movimento occupy — reagem a cada aumento da escuta tornando-se mais opacas ao governo. O escândalo Snowden resultou numa crista de adoção de medidas como a criptografia PGP ou a navegação TOR. Enquanto a NSA coleta cada vez mais palha, mais e mais agulhas silenciosamente caem fora do palheiro.

O estado de segurança dos Estados Unidos e seus órgãos, no longo prazo, estão condenados ao fracasso pelo mesmo motivo que o estão todas as hierarquias autoritárias: Padecem de parvoíce. E as pessoas que eles estão tentando controlar são espertas.

Artigo original afixado por Kevin Carson em 9 de agosto de 2013.

Traduzido do inglês por Murilo Otávio Rodrigues Paes Leme.