Simpósio sobre a economia política mutualista
Este artigo, escrito por Roderick T. Long, é parte do simpósio sobre a economia política mutualista publicado em 2006 no Journal of Libertarian Studies.

Muitos dos anarquistas individualistas do século 19, particularmente os pensadores associados ao jornal Liberty, editado por Benjamin Tucker, procuravam combinar uma teoria política baseada na soberania individual e na autopropriedade com uma teoria econômica baseada na teoria do valor-trabalho. Como os marxistas, eles tendiam a condenar o sistema de trabalho assalariado como opressivo e interpretavam os lucros, a renda e os juros como formas de exploração; ao contrário dos marxistas, porém, consideravam essa exploração um produto não do mercado livre, mas da intervenção governamental e, assim, recomendavam não a abolição da propriedade privada, mas do estado.

Embora defendessem a competição, o livre mercado e a propriedade privada (ou uma manifestação dela), esses pensadores chamavam a si mesmos de “socialistas”, i.e. oponentes do capitalismo — porque pelo termo “capitalismo” eles não falavam do mercado em si, mas da divisão econômica prevalente entre capitalistas e trabalhadores, que enxergavam como uma interferência estatal nos mercados (especificamente, a proibição da emissão monetária e a defesa de títulos de propriedade que não se baseavam na ocupação pessoal). Frequentemente esses autores se chamavam também de “mutualistas”.

Embora a teoria política austro-libertária contemporânea se baseie em grande parte nas ideias de Benjamin Tucker, Lysander Spooner e outros da tradição mutualista, a teoria econômica austro-libertária foi inaugurada pela revolução marginalista e subjetivista inaugurada nos anos 1870 por Carl Menger e outros. Os austríacos consideram que essa revolução sepultou a teoria do valor-trabalho, vindicando assim o lucro, a renda e os juros como fenômenos legítimos de mercado. Os austro-libertários normalmente (embora nem sempre) inferem, assim, que não há nada de errado com o sistema “capitalista” de trabalho assalariado em si.

O livro Studies in Mutualist Political Economy (em português, “Estudos sobre a economia política mutualista”), escrito pelo anarquista individualista Kevin A. Carson, pretende reviver e defender a posição mutualista sobre esses tópicos e, ao mesmo tempo, incorporar alguns conceitos austro-libertários. Por exemplo, Carson pretende defender a teoria do valor-trabalho — mas em uma versão “austrianizada” que, ao contrário da marxista, tenta incorporar tanto o subjetivismo quanto a preferência temporal. Além disso, o trabalho histórico de Carson sobre o papel das elites corporativas é influenciado pelo trabalho de austro-libertários radicais como Murray Rothbard e Joseph Stromberg.

Contudo, embora a versão mutualista das ideias libertárias que Carson expõe tenham muito em comum com a versão austríaca, ele — como seus antecessores mutualistas e em contraste com a maior parte dos austríacos — considera injusta a separação dos trabalhadores da propriedade dos meios de produção. Sua investida contra o “capitalismo” (neste sentido do termo) tem caráter interdisciplinar e emprega argumentos econômicos sobre o grau de interferência do estado no mercado, argumentos históricos sobre o processo pelo qual essa separação de fato ocorreu e argumentos filosóficos a respeito dos princípios de justiça adequados que governam a aquisição e a transferência dos direitos de propriedade. A avaliação dos argumentos de Carson, igualmente, deve ser interdisciplinar.

Os argumentos provocantes de Carson merecem ser escutados se corretos e refutados quando incorretos. Portanto, eu apresento esta edição do Journal of Libertarian Studies dedicada a uma avaliação do livro de Carson de um ponto de vista austro-libertário (ou melhor, a partir de vários pontos de vista austro-libertários). Artigos escritos por mim, Robert Murphy, Walter Block e George Reisman examinam vários aspectos dos argumentos de Carson — econômicos, históricos e filosóficos. A eles, segue uma resposta de Carson. O simpósio é aberto com um artigo de 1965 de Murray Rothbard que, embora obviamente não direcionado à versão de Carson do mutualismo, pode servir como uma introdução útil a algumas das maiores semelhanças e diferenças entre as tradições aqui expostas.

Traduzido por Erick Vasconcelos.

Free Markets & Capitalism?
Markets Not Capitalism
Organization Theory
Conscience of an Anarchist