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Por que Ron Bailey odeia o livre mercado?
O artigo a seguir foi traduzido para o português a partir do original em inglês, escrito por Kevin Carson.

O editor de ciência do Reason Ron Bailey (“Pope Francis and Naomi Klein Both Hate Free Markets, Technological Progress, and Economic Growth“, Reason, 29 de junho) menciona Naomi Klein como alguém que “notoriamente odeia o livre mercado”, acrescentando que ela também detesta o “progresso tecnológico e o crescimento econômico”. Contudo, com base tanto em Klein quanto em Bailey, eu acredito que ela conheça bem mais sobre a diferença entre o sistema capitalista corporativo e o livre mercado do que Bailey.

Ela descreve as características estruturais do capitalismo global em A doutrina do choque — o mesmo fenômeno que Bailey, em seu artigo imbecil, descreve como “a disseminação do doce comércio”:

Em todos os países nos quais as políticas da escola de Chicago foram aplicadas nas últimas três décadas, surgiu uma poderosa aliança entre algumas poucas grandes corporações e uma classe de políticos ricos — com fronteiras nebulosas e cambiantes entre os dois grupos. Na Rússia, os bilionários dessa aliança são chamados de “oligarcas”; na China, de “pequenos príncipes”; no Chile, “piranhas”; nos Estados Unidos, Bush e Cheney fazem campanha dos “pioneiros”. Longe de terem liberado o mercado do estado, essas elites políticas e corporativas simplesmente se fundiram, trocando favores para assegurar o direito a recursos preciosos que estavam anteriormente no domínio público — desde as bacias petrolíferas da Rússia e das terras coletivas da China aos contratos de reconstrução do Iraque.

Um termo mais preciso para o sistema que apaga as fronteiras entre o estado e as grandes empresas não é social-democrata, conservador ou capitalista, mas corporativista. Suas características principais são grandes transferências de riquezas públicas para o controle privado, frequentemente acompanhadas pela explosão da dívida pública, uma desigualdade cada vez maior entre os super-ricos e dos pobres descartáveis e um nacionalismo agressivo que justifica gastos cada vez maiores em segurança. Para aqueles dentro da bolha de extrema riqueza criada por esse sistema, não há modo mais lucrativo de organizar uma sociedade. Mas dados os problemas óbvios para a maior parte da população de fora da bolha, as outras características do estado corporativista tendem a incluir uma agressiva vigilância (novamente, executada através de favores e contratos do governo com as grandes corporações), encarceramento em massa, um declínio das liberdades civis e frequentemente, mas não sempre, tortura.

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Está claro que o Chile jamais foi o laboratório do “puro” livre mercado que seus defensores afirmavam. Pelo contrário, era um país em que uma pequena elite deixou de ser rica e passou a ser super-rica em muito pouco tempo — uma fórmula muito lucrativa financiada pela dívida pública e por pesados subsídios (e resgates) com dinheiro público. Quando toda a propaganda exagerada por trás do milagre é despida, o Chile de Pinochet e dos Chicago Boys não foi um estado capitalista com um mercado liberado, mas um estado corporativista. O corporativismo originalmente se referia ao modelo de Mussolini de um estado policial administrado como uma aliança entre as três maiores fontes de poder na sociedade — estado, empresas e sindicatos — em colaboração para garantir a ordem em nome do nacionalismo. O que o Chile desbravou sob Pinochet foi a evolução do corporativismo: um sistema de suporte mútuo entre o estado policial e as grandes corporações, que uniram forças para empreender uma guerra contra o terceiro eixo de poder — os trabalhadores — aumentando drasticamente assim seu porcentual da riqueza nacional.

[Talvez] o tratamento de choque jamais tenha dito respeito à recuperação da economia. Talvez ele pretendesse fazer exatamente o que fez — canalizar a riqueza para o topo e destruir boa parte da classe média.

Quando eu digo que Bailey iguala esse tipo de corporativismo e capitalismo de desastre ao “livre mercado”, não é hipérbole. É literal. No parágrafo inicial de sua resenha de This Changes Everything (“Naomi Klein Changes Nothing With This Changes Everything,” Reason, 16 de setembro de 2014), ele iguala diretamente o “capitalismo às corporações”, “corporações transnacionais” e “instituições de livre mercado”:

Em seu bestseller de 2000 Sem logo, a jornalista progressista tentou aproveitar o movimento nascente antiglobalização para desencadear “uma grande onda de oposição às corporações transnacionais”. Em 2007, seu livro A doutrina do choque falsamente afirmava que as instituições de livre mercado se disseminavam apenas através de golpes, guerras e calamidades naturais.

Como eu argumentei em minha resenha de A doutrina do choque, Klein estava errada ao usar o termo “livre mercado” para descrever a disseminação da hegemonia corporativa ao Chile, à Rússia e ao Iraque. Porém, como evidenciado pela longa citação acima, a própria Klein demonstrou considerável conhecimento de que o que ela atacava não era de fato o livre mercado, mas um sistema totalitário de poder caracterizado em seu âmago pela aliança estrutural entre as corporações e o estado. E ela estava absolutamente correta ao dizer que a forma de capitalismo corporativo defendida pelo Consenso de Washington — e Ron Bailey — foi disseminada através de golpes, guerras e calamidades naturais.

Repito: Naomi Klein está absolutamente certa ao dizer que o que Ron Bailey chama de “livre mercado” é imposto à força em populações avessas através de golpes e guerras, dependendo de intervenções constantes e enormes para sua existência continuada.

Observe algumas das coisas que Bailey lista como exemplos do ódio de Klein ao “livre mercado”:

Ela deseja proibir o fraturamento hidráulico, a energia nuclear, as plantações geneticamente modificadas (…), virando as costas para algumas das soluções mais amigáveis ao clima que estão atualmente disponíveis. Ela deseja bloquear o oleoduto de Keystone, que transportaria petróleo das bacias canadenses para refinarias americanas (…).

O fraturamento hidráulico depende dos regulamentos mínimos estabelecidos pela legislação ambiental, que se sobrepõem aos padrões mais rígidos de responsabilização civil e do estabelecimento de portos seguros contra ações judiciais. As operações de fraturamento que envenenam os lençóis de água e o ar das comunidades vizinhas, causando até mesmo terremotos, pode responder a um processo civil dizendo simplesmente que “estão de acordo com todos os regulamentos ambientais”. Sob os regulamentos mais rígidos que existiam sob o direito comum, antes de os tribunais o enfraquecerem na metade do século 19 e as legislações estatais os suplantarem no século 20, nenhum investidor colocaria dinheiro em algo tão arriscado quanto uma operação de fraturamento.

A energia nuclear depende de enormes subsídios em todas as etapas da cadeia produtiva, desde a mineração de urânio até o descarte subsidiado dos resíduos — para não mencionar o fato de que o governo assume toda a responsabilidade por qualquer acidente acima de números bem baixos, basicamente indenizando a indústria e a protegendo de quaisquer riscos acima desse ponto.

Keystone, como todos os oleodoutos, simplesmente não poderia existir sem o uso da desapropriação de terras pelo governo em seu caminho — algumas localizadas em solo sagrado protegido por tratados com as nações indígenas.

Variedades de plantas geneticamente modificadas são lucrativas por conta de patentes monopolísticas altamente protecionistas — tão protecionistas quanto qualquer tarifa. Além disso, elas são desenvolvidas principalmente para atender a demanda de grandes plantações do agronegócio em terras griladas, cercadas ou roubadas de qualquer forma — especialmente em terras roubadas de camponeses em regimes coloniais ou pós-coloniais apoiados pelos EUA. Frances Moore Lappe afirma que as sementes da “Revolução Verde” pelas quais Bailey tanto se entusiasma como “variedades de alta resposta”, porque, ao contrário das variedades tradicionais criadas para resistir às condições locais por fazendeiros que não tinham acesso privilegiado a grandes nacos de terra roubada ou insumos subsidiados, elas geralmente vingam somente com irrigação subsidiada e outros insumos. E, claro, os governos estão mais do que satisfeitos em prover os insumos aos oligarcas às custas dos pagadores de impostos — tanto nas haciendas da América Latina quanto nas operações dos grandes agricultores na Califórnia.

Por falar em patentes, a “propriedade intelectual” é o monopólio protegido pelo estado que é mais estruturalmente central ao capitalismo corporativo global. As corporações mais influentes na economia global são aquelas em indústrias cujos modelos de negócios estão fundamentados na “propriedade intelectual”: entretenimento, software, biotecnologia, medicamentos, agronegócio e eletrônicos. E, é claro, a capacidade de corporações como a Nike e a Apple têm de terceirizar toda a sua produção para fábricas independentes no Terceiro Mundo enquanto mantêm o monopólio legal sobre o produto e o poder sobre seus preços depende inteiramente de patentes e trademarks.

Então, Ron Bailey defende um sistema que depende, completa e absolutamente, de uma bota que pisa num rosto humano — e ele chama esse sistema de “livre mercado”. Digo o seguinte: se eu pensasse que o livre mercado realmente é o que Ronald Bailey chama de livre mercado, eu o odiaria muito mais do que milhares de Naomi Kleins e Michael Moores juntos. O sistema de poder corporativo que Bailey tanto adora, o sistema que ele defende, se baseia no roubo e na escravidão e não poderia sobreviver um único dia se não fosse protegido por criminosos armados que intervêm no comércio pacífico e na cooperação entre seres humanos comuns.

É Ron Bailey, não Naomi Klein, que odeia o livre mercado.

Traduzido por Erick Vasconcelos.

Markets Not Capitalism
Organization Theory
Conscience of an Anarchist