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Declarar paz e conversar com o Estado Islâmico
O artigo a seguir foi traduzido para o português a partir do original em inglês, escrito por Chad Nelson.

O candidato à presidência dos Estados Unidos Lincoln Chafee está ganhando notoriedade por suas estranhas propostas para a política externa — tendo divulgado um audacioso plano de “Declaração de Paz”. O plano é audacioso somente porque é tão raro que um candidato à presidência americana fazer da paz incondicional um dos pilares de sua política externa.

Na Rádio Pública do estado de Rhode Island na última semana, um político local afirmou que o desejo de Chafee de declarar paz “soa bonito, mas é de se pensar por quanto tempo poderemos manter essa posição”. Ou seja, a guerra é inescapável para quem quer que seja eleito presidente. É aterrorizante que essa posição tenha se tornado o padrão nos Estados Unidos.

Chafee chegou ao ponto de afirmar que procuraria devolver as liberdades civis aos americanos, proibiria os drones, traria Edward Snowden para casa e acabaria com a pena de morte (sim, isso também é parte da paz). Contudo, a plataforma de Chafee foi um passo além do que deveria quando afirmou que consideraria conversar com o Estado Islâmico (ISIS). Esta ideia supostamente prova a suspeita de todos de que Chafee tem alguns parafusos a menos.

Se conversar com o ISIS é uma ideia maluca, podem me jogar num hospício. A sugestão de Chafee de que ele tentaria uma “aproximação” deve dar aos americanos a esperança de que ao menos um político, em algum lugar, não está tentando se tornar o próximo assassino-em-chefe. Ao invés de continuar cegamente a fracassada Guerra ao Terror de seus antecessores, Chafee colocaria a diplomacia novamente em primeiro plano na política americana.

Se o slogan de Chafee “Declarar Paz” parece intolerável à classe política, o desenvolvimento dessa política — isto é, negociar com o ISIS — é tabu. O ISIS é simplesmente sinistro demais para se escutar. Não são capazes de qualquer tipo de racionalidade. Infelizmente, essa atitude é adotada pela grande maioria dos americanos. É difícil entender o que é tão assustador em uma mentalidade de conversar primeiro e atirar depois. Teriam os diplomatas governamentais se tornado tão inefetivos que uma conversa com os inimigos antes do bombardeio está simplesmente fora de questão?

Eu, pelo menos, adoraria escutar o que o ISIS ou qualquer um de “nossos” outros pretensos inimigos têm a dizer por si mesmo. Estou interessado em seus motivos. Não estou satisfeito com as explicações de segunda mão oferecidas pelo governo dos Estados Unidos. A última vez que os americanos permitiram que seu governo explicasse a eles o modus operandi de um povo estrangeiro, nós aprendemos que Saddam Hussein estava determinado a usar suas armas de destruição em massa e que a al-Qaeda odeia os americanos por conta das liberdades de que desfrutam.

Não imagino que os motivos do ISIS sejam benevolentes. Mas eu gostaria de saber de qualquer maneira o quanto sua existência se deve à política externa dos EUA. A al-Qaeda já afirmou categoricamente que a intervenção militar americana no mundo árabe foi um dos motivos primários que levaram aos ataques do 11 de setembro. Claro, isso jamais foi explicado para os americanos por qualquer pessoa que estivesse no poder, nem jamais será. Isso coloca o imperialismo americano em evidência. E se o ISIS também for parcialmente uma criatura da política externa americana?

Talvez nunca tenhamos boas respostas. O governo reconhece que quando o público sabe demais sobre suas atividades, elas geralmente não são apoiadas. Note a rapidez com que a opinião pública se voltou contra a vigilância em massa pelo estado quando Edward Snowden expôs seus detalhes sórdidos.

A diplomacia a todo custo é chave para acabar com a Guerra ao Terror. Não porque desejamos que o governo fale por nós ou que aja em nosso nome. Pelo contrário, nada que o governo tenha feito pode nos dar qualquer confiança de que ele tenham capacidade para tanto. Na verdade, a diplomacia é necessária na condução da Guerra ao Terror porque ela permite que os americanos escutem os inimigos do seu estado. Nós podemos até perceber que eles não são tão irracionais ou assustadores como o estado os retrata. A máquina de guerra estatal não pode funcionar eficientemente quando sua propaganda é desacreditada. Poder tomar decisões informadas — não é pedir muito.

Traduzido por Erick Vasconcelos.

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