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Carta de Chelsea Manning Ao Presidente Obama Solicitando Perdão
The following statement is translated into Portuguese from the English original, written by Chelsea Manning.

As decisões que tomei em 2010 nasceram de preocupação com meu país e com o mundo no qual vivemos. Desde os trágicos eventos do 11/9, nosso país está em guerra. Estamos em guerra com um inimigo que opta por não enfrentar-nos em qualquer campo de batalha tradicional, e devido a esse fato tivemos de alterar nossos métodos de combater os riscos com que nós próprios e nosso modo de vida se defrontam.

Inicialmente concordei com esses métodos e optei por oferecer-me para ajudar a defender meu país. Só depois de encontrar-me no Iraque e ler relatórios militares secretos diariamente comecei a questionar a moralidade do que estávamos fazendo. Foi então que entendi que (em) nossos esforços para contrapor-nos ao risco colocado diante de nós pelo inimigo havíamos esquecido nossa humanidade. Conscientemente elegemos desvalorizar a vida humana tanto no Iraque quanto no Afeganistão. Ao combatermos aqueles que víamos como sendo o inimigo, por vezes matamos civis inocentes. Sempre que matamos civis inocentes, em vez de aceitarmos responsabilidade por nossa conduta, optamos por esconder-nos atrás do véu da segurança nacional e das informações secretas a fim de evadir-nos de qualquer prestação pública de contas.

Em nosso zelo em matar o inimigo, debatemos internamente a definição de tortura. Mantivemos pessoas presas em Guantanamo por anos sem o processo devido. Inexplicavelmente fizemos vista grossa para tortura e execuções praticadas pelo governo iraquiano. E engolimos incontáveis outros atos em nome de nossa guerra ao terror.

O patriotismo é amiúde o grito exaltado quando atos moralmente questionáveis são defendidos pelos que estão no poder. Quando esses gritos de patriotismo sufocam qualquer dissidência logicamente alicerçada, é usualmente ao soldado estadunidense que é dada ordem de levar a efeito alguma missão mal concebida.

Nossa nação já teve momentos similares tenebrosos para as virtudes da democracia — a Trilha das Lágrimas, a decisão Dred Scott, o McCarthyismo, e os campos de internação de estadunidenses de origem japonesa — para mencionar uns poucos. Estou confiante em que muitas das ações desde o 11/9 serão um dia vistas de modo semelhante.

Como disse uma vez o falecido Howard Zinn, “Não há bandeira grande o bastante para cobrir a vergonha de matar pessoas inocentes.”

Entendo que minhas ações violaram a lei; sinto muito se minhas ações magoaram alguém ou causaram dano aos Estados Unidos. Nunca foi minha intenção ferir ninguém. Só quis ajudar pessoas. Quando optei por revelar informações secretas, fi-lo por amor a meu país e sentimento de dever em relação a outras pessoas.

Se você denegar minha solicitação de perdão, cumprirei minha pena sabendo que por vezes temos de pagar alto preço para viver numa sociedade livre. Pagarei de bom grado esse preço se isso significar que poderíamos ter um país verdadeiramente concebido em liberdade e dedicado à proposição de que todas as mulheres e homens são criados iguais.”

Artigo original afixado por Chelsea Manning em 24 de agosto de 2013.

Traduzido do inglês por Murilo Otávio Rodrigues Paes Leme.