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A Cilada da Equivalência

The following article is translated into Portuguese from the English original, written by Roderick Long.

O artigo a seguir foi escrito por Roderick T. Longe publicado no Libertários Confrangidos7 de novembro de 2012.

Os libertários de esquerda diferem da (atual) corrente majoritária libertária tanto em termos de que resultados veem como desejáveis quanto em termos do que acham que um mercado emancipado provavelmente produzirá.

No tocante à última questão, os libertários de esquerda veem a atual dominação do panorama econômico por grandes firmas hierárquicas como produto não de livre competição, e sim de intervenção do governo –  incluindo não apenas subsídios diretos, concessões de privilégio de monopólio e barreiras à entrada no mercado, mas também uma estrutura regulamentadora que permite às firmas socializarem os custos de escala relacionados com crescimento e os custos informacionais relacionados com hierarquia, enquanto embolsam os benefícios – deixando empregados e consumidores com espectro restrito de opções. Na ausência de intervenção do governo, afirmamos nós, poder-se-ia esperar das firmas serem menores, mais horizontais, e mais numerosas, com maior poder dos trabalhadores.

Assim, tendemos a retrair-nos quando libertários (ou muitos deles, em graus variados) acorrem em defesa de corporações de elite e de modelos e práticas prevalecentes de negócios como se eles fossem fenômenos de livre mercado. Primeiro, achamos que isso é factualmente inexato; e segundo, achamos que é algo estrategicamente suicida. As pessoas comuns geralmente conhecem em primeira mão a tirania mesquinha e a incompetência burocrática que com demasiada frequência caracterizam o mundo dos negócios; libertários que tentam romancear esse mundo como um lugar de racionalidade econômica e heroísmo gerencial arriscam-se a ver-se por fim, na melhor das hipóteses, perdidos e, na pior, como garotos-propaganda da classe dominante.

Eis também por que tendemos a não ser nada entusiásticos diante da palavra ”capitalismo” como aplicável a uma sociedade de livre mercado; como observa Friedrich Hayek, essa palavra “é desencaminhadora,” visto “sugerir um sistema que beneficia principalmente os capitalistas,” quando um genuino livre mercado é “um sistema que impõe à empresa uma disciplina sob a qual os gerentes se esfolam e da qual cada um procura escapar.” (Lei, Legislação e Liberdade, vol.1, p. 62.)

Não são, porém, apenas os libertários convencionais (e, obviamente, em muito maior grau, os conservadores) que tendem a fazer equivaler os resultados do corporatismo de compadrio com aqueles dos livres mercados; tal equivalência também é demasiado comum na esquerda tradicional. A diferença é que as avaliações são invertids; onde a versão da direita da equivalência trata as virtudes dos livres mercados como motivo para defesa dos frutos do corporatismo, a versão da esquerda da equivalência trata os objetáveis frutos do corporatismo como motivo para condenar os livres mercados.

Central para ambas as formas de equivalência é o mito de que as grandes empresas e o governo hipertrofiado estão fundamentalmente em desacordo. Como é amiúde o caso, o mito se mantém mediante conter um núcleo de verdade; embora as grandes empresas e o governo hipertrofiado sejam parceiros, cada um servindo para escorar o outro, cada lado gostaria de ser o parceiro dominante (como a igreja e o estado na Idade Média, ou Dooku e Palpatine nas prequelas de Guerra nas Estrelas), e pois muito – embora, penso eu, não a maior parte – do conflito entre eles é genuíno. Não devemos porém permitir que essas querelas entre alas diferentes da classe dominante, essencialmente a propósito de como dividir o botim, obscureça o grau muito maior no qual a elite política e a elite corporativa trabalham juntas. Políticos conservadores, em grande parte agentes da ala corporativa, dissimulam suas políticas com uma retórica de oposição ao governo hipertrofiado, enquanto políticos liberais, em grande parte agentes da ala política, disfarçam suas políticas numa retórica de oposição às grandes empresas; as diferenças de políticas amiúde envolvem deslocar levemente o equilíbrio do poder numa direção ou na outra (será a assistência de saúde controlada principalmente pelo governo diretamente ou, pelo contrário, pelos beneficiários privados do privilégio concedido pelo governo tais como empresas de seguro de saúde e a Associação Médica Estadunidense – AMA?), mas ambas as alas sistematicamente beneficiam-se da maior parte das políticas propostas por cada lado. A presidência de Franklin Delano Roosevelt – FDR, por exemplo, com suas políticas cartelizadoras, deu forte impulso ao poder corporativo, enquanto os três principais índices do poder do estado “impostos, gastos e dívida” todos dispararam na presidência de Reagan.

A equivalência, porém, não é apenas um equívoco acerca do sistema prevalecente; é também meiopelo qual esse sistema se perpetua. Pessoas atraídas pela ideia de livres mercados são enganosamente aliciadas pela equivalência, passando a apoiar as grandes empresas e tornando-se, desse modo, soldados de infantaria da ala corporativa da classe dominante; pessoas que sentem repulsa pelo corporatismo do mundo real são enganosamente aliciadas no sentido de apoiarem o governo hipertrofiado e se tornam, pois, soldados de infantaria da ala política da classe dominante. Assim, graças ao movimento de pinça da equivalência de direita e da equivalência de esquerda, aqueles que buscam opor-se ao sistema prevalecente acabam nas fileiras dos que o defendem – e a possibilidade de contestação radical do sistema como um todo é tornada na prática invisível. É assim que a equivalência funciona.

Minha menção a “funcionamento” não pretende implicar que a equivalência seja propagada deliberadamente para canalizar potenciais inimigos do sistema para as fileiras dos que o defendem (embora, naturalmente, às vezes isso ocorra).

Num sentido mais amplo, sempre que alguma característica A de um sistema B tenda a seguramente produzir certo resultado C, e A seja tal que produzir C ajude a explicar a existência e/ou a persistência de B, e portanto de A, então poderemos dizer que a função de A é produzir C.  Assim, o fato de espinhos tenderem a proteger rosas de serem comidas explica por que rosas, com seus espinhos, existem e persistem. É nesse sentido que digo que a função da equivalência dentro do sistema estado/corporação prevalecente é desnortear opositores do sistema, levando-os a tornarem-se apoiadores, e tornar invisíveis alternativas. A equivalência é um exemplo de ordem espontânea perversa.

O filósofo da ciência Thomas Kuhn descreve interessante experimento:

Bruner e Postman pediram a sujeitos do experimento que identificassem, em exposições curtas e controladas, uma série de cartas de baralho. Muitas das cartas eram normais, mas algumas foram tornadas anômalas, por exemplo um seis de espadas vermelho, e um quatro de copas preto. … Nos casos de cartas normais, as identificações foram usualmente corretas, mas as cartas anômalas foram quase sempre identificadas, sem aparente hesitação ou confusão, como normais. O quatro de copas preto poderia, por exemplo, ser identificado como o quatro ou de espadas ou de copas. Sem qualquer consciência ou problema, ele era imediatamente encaixado numa das categorias conceptuais preparadas pela experiência anterior. … Com posterior aumento de exposição das cartas anômalas, os sujeitos começaram a hesitar e a mostrar consciência da anomalia. Expostos, por exemplo, ao seis de espadas vermelho, alguns diriam: Este é o seis de espadas, mas há algo de errado nele – o preto tem borda vermelha. … Alguns sujeitos … não foram capazes de proceder ao ajuste necessário de suas categorias. (Estrutura das Revoluções Científicas, pp. 62-63)

Em suma, as pessoas tendem não apenas a não ter dificuldade em, mas a ter até aversão a, reconhecerem algo que não se encaixe em suas categorias estabelecidas. Isso cria um problemas para os libertários em geral; para muitas pessoas da política convencional, o primeiro impulso é assimilar os libertários a uma categoria, que lhes é mais familiar, de “contrários ao governo,” isto é, conservadores. Quando, depois de longa exposição, as pessoas da política convencional percebem que os libertários não são muito conservadores afinal de contas, começam a vê-los como o equivalente de “espadas pretas com bordas vermelhas” – convencionalmente conservadores em algumas questões, convencionalmente liberais em outras, em vez de vê-los como representando uma alternativa radical às ideologias existentes. (O uso, pelos libertários, do Diagrama de Nolan como ferramenta de divulgação pode contribuir para essa tendência.)

O que é verdade a respeito dos libertários de modo geral é ainda mais verdade no tocante aos libertários de esquerda. A prevalência da equivalência tende a reforçar a impressão de que qualquer pessoa que ataque (aquilo que consideramos) os frutos do corporatismo só pode ser contra o livre mercado, e de que qualquer pessoa que defenda os livres mercados só pode estar empreendendo defesa daquilo (que consideramos) os frutos do corporatismo. Assim, esquerdistas não libertários tendem a ver-nos como apologistas das corporações camuflados de esquerdistas, enquanto os libertários não esquerdistas tendem a ver-nos como comunas disfarçados de libertários.

Mesmo quando libertários convencionais reconhecem a existência (e o mal) do corporatismo, como a maioria faz, a comunicação com os libertários de esquerda ainda assim tende a fracassar. Os libertários de esquerda ficam perplexos quando libertários convencionais reconhecem o compadrio num momento só para, no momento seguinte, resvalarem de volta tratando críticas às grandes empresas como críticas ao livre mercado. Libertários mais convencionais, por sua vez, ficam atônitos perguntando-se por que os libertários de esquerda continuam a suscitar a questão do corporatismo quando os libertários convencionais já reconheceram sua existência e o mal que representa.

Kuhn também aqui é de valia:

Desde a antiguidade remota a maioria das pessoas já viu um ou outro corpo pesado balançando-se na ponta de cordel ou cadeia até finalmente atingir estado de repouso. Para os aristotélicos, que acreditavam que um corpo pesado é movido por sua própria natureza de uma posição mais alta para um estado de repouso natural em posição mais baixa, o corpo balouçante estava simplesmente caindo com dificuldade. Restringido pela cadeia, só conseguia obter repouso em seu ponto mais baixo depois de tortuoso movimento e tempo considerável. Galileu, por outro lado, olhando o corpo balouçante, via um pêndulo, um corpo que quase conseguia repetir o mesmo movimento outra e outra vez ad infinitum. … [Q]uando Aristóteles e Galileu olhavam para pedras balouçantes, o primeiro via queda restringida, o segundo via um pêndulo …. (Ibid., pp. 118-121)

Aristóteles e Galileu observaram os mesmos dois fatos: a pedra continua a balançar de um lado para outro por algum tempo e, depois, finalmente, pende diretamente embaixo. Para Galileu, porém, o balanço era essencial e a cessação final era acidental, fenômeno de “fricção;” enquanto que, para Aristóteles, o progresso rumo a um estado de repouso era essencial, e as perturbações laterais eram acidentais.

Analogamente, para aqueles que funcionam com uma estrutura conceptual que vê a oposição conservadora ao governo hipertrofiado e a oposição liberal às grandes empresas como essenciais e desvios desses padrões como acidentais, a evidência de que as políticas conservadoras promovem o governo hipertrofiado ou de que as políticas liberais promovem as grandes empresas será descartada como não essencial ou anômala ou como algo desculpável. (Ver, por exemplo, este vídeo no qual partidários de Obama condenam políticas que soam como direitistas quando eles as supõem provenientes deRomney, mas ou as desculpam ou entram em negação quando lhes é dito que as políticas são realmente de Obama.)

Similarmente, para muitos libertários convencionais, livre intercâmbio é o que essencialmente caracteriza a economia existente, enquanto as políticas corporatistas são apenas fricção; e visto simplesmente não haver necessidade de constantes referências à fricção quando se fala acerca do como um mecanismo funciona, tais libertários convencionais não trazem constantemente o corporatismo à tona quando discutem o funcionamento da economia existente. Para os libertários de esquerda, em contraste, o corporatismo é característica muito mais central da economia existente, e deixá-lo de fora distorce radicalmente nosso entendimento. Em tais casos os libertários de esquerda e os libertários mais convencionais argumentam de lados opostos da mudança de Gestalt, onde o que parece essencial para um lado parece acidental para o outro.

Não pretendo, contudo, sugerir que essas disputas sejam racionalmente irresolúveis. Nos experimentos com cartas de baralho, os sujeitos, por fim, conseguiram ver as cartas corretamente após exposição suficientemente longa. E exposição suficiente à evidência apresentada pelos libertários de esquerda pode induzir a adequada mudança da Gestalt, como de fato amiúde faz; os libertários de esquerda, em sua maioria, começaram no passado ou como menos esquerdistas ou menos libertários ou ambos. Contudo, a estrutura conceptual prevalecente, através da qual tantas pessoas (tanto libertárias quanto não) olham para a economia sem ver o que vemos, não é, penso eu, acidente; é parte dos meios pelos quais a parceria governo hipertrofiado/grandes empresas mantém-se.

A pedido dos Libertários Extremados, os comentários serão desligados aqui a fim de poderem ser redirecionados para o artigo original.

Artigo original afixado por Roderick Long em 7 de novembro de 2012.

Traduzido do inglês por Murilo Otávio Rodrigues Paes Leme.