Por Rai Ling. Artigo Original: Stirner, Wittgenstein, and Anarchism de 7 de Fevereiro de 2022. Traduzido por Estefano E.
O trabalho de Max Stirner é um tópico controverso entre anarquistas, com numerosas interpretações que variam desde descritivas, apresentando um certo âmbito de pensamento, para prescritivas, que advogam um antiautoritarismo e expressando um compromisso com o “individualismo”. Minha posição é a de que o egoísmo é primariamente descritivo em natureza. As distinções chave que Stirner cria, entre ideias fixas e não fixas, entre egoísmo consciente e inconsciente, não leva-nos à conclusões normativas, apesar da clara oposição pessoal dele ao Estado e à autoridade em geral. Ao invés disso, vários anarquistas são egoístas pois encontram valor pessoal nessa perspectiva. Egoísmo tem tudo e nada haver com o anarquismo.
Em “O Único e Sua Propriedade”, Stirner escreve que fundamentou [suas] causas sob o nada”. O nada a que ele se refere é o “nada criador” ou O Único, um vazio interno, ou indeterminação, a ausência de qualquer regra que determine como deveríamos formar conceitos. É algo comparável a outros conceitos inefáveis como a Śūnyatā do Budismo ou o Dao do Daoísmo. Stirner não comenta sobre o que esses assuntos se tratam ou que forma que deveriam tomar, apenas no que eles “se baseiam”. Portanto, fundamentar os próprios assuntos no nada é conscientemente baseá-los no vazio, um não-conceito que foge de definições, desprovido de quaisquer formas essenciais ou ideais, ou de quaisquer referências a qualquer conceito, o que inclui o desejo, pensamento, a mente e assim em diante.
O processo de se tornar a partir de um vazio subjacente pode ser expresso como um desejo momentâneo ou vontade, partindo do nada criador, formando conceitos que o “agradam” ou que lhe são úteis. Cada indivíduo pode ser dito como alguém que expressa e age conforme seus desejos, então Stirner diria que todos são egoístas, o que espelha a teoria psicológica do egoísmo. O indivíduo que conscientemente desenvolve-se a partir do nada é dito como um egoísta consciente. Stirner contrasta o egoísta consciente ao egoísta inconsciente, sendo este o que tem uma falta de consciência sobre o Único, e que inversamente atribui o desejo às abstrações tais como o eu, a mente, o cérebro, formas platônicas e assim em diante, coisas que estão em oposição ao nada criador, o que resulta no que Stirner chama de ideias fixas, conceitos que são considerados como existentes no mundo, não prefigurados pelo vazio, mas como características objetivas de uma existência predefinida.
A abordagem de Stirner possui similaridades com o problema cético que Wittgenstein expressa em Investigações Filosóficas, denotando que não há um princípio “externo” que determine como devemos formar significado em termos de definições, gramática e lógica, minando qualquer definição de significado fixo. A realidade é definida na existência por meio da linguagem. Embora Wittgenstein não postule explicitamente um “vazio” entre essas definições, é algo implícito no seu raciocínio. Ele percebe que cada “coisa” aparece como desprovida de qualquer tipo de essência fixa. Contrariamente, conceitos são abstrações úteis que se dissolvem quando adotamos perspectivas levemente distintas; ampliando, afastando-se, fazendo observações sob vastas escalas de tempo, etc. Na medida em que essas perspectivas são simplificações ou generalizações, temos que perguntar, relativo a quê? E a resposta é, tipicamente, relativa a um léxico alternativo, utilizando definições particulares de “simplificação” e “generalização”. Nada pode ser dito existir num senso imutável, discreto, independente do ato de pensar; ao invés disso, conceitos são ausentes de uma existência inerente. Além do mais, a existência em si é uma categoria na qual atribuímos a conceitos, sendo ultimamente efêmera, espalhada na mudança de perspectivas e constante mudança. Portanto, a não-coisa (nada) existe em si mesma.
O posicionamento de Stirner pode ser descrito como niilista, algo no qual nega a própria existência junto com outras categorias fixas como a identidade. Ao seguirmos a investigação cética além do cogito ergo sum de Descartes, somos simplesmente levados ao “pensar”, a subjetividade desprovida de qualquer conteúdo ou mais categorias. Os conceitos são gerados recursivamente no pensar, o que assinala a si os rótulos de “pensamento”, “experiência subjetiva”, ou “ser” e assim em diante. O eu, o objeto de introspecção, é uma formação no pensamento e que se desenvolve em relação a outros conceitos, todos estes derivados do nada criador. Não há noção normativa de como alguém deve conceber a identidade, ou se deveríamos ter qualquer concepção desta. Stirner nega a existência inerente do eu, assim como nega a inerente ou objetiva existência de todos os conceitos.
É importante notar que nada disso implica na oposição a qualquer conceito dado, apenas fornece uma estrutura de como tais ideias são concebidas, sejam como fixas ou não. Ou seja, pode-se ter um eu indeterminado, não-fixo, gerado fora da noção de utilidade, e um eu fixo, visualizado como estático e uniforme. Essa estrutura pode ser estendida a qualquer coisa. Por exemplo, no anarquismo, a rejeição da autoridade pode ser vista como um dever moral, uma preferência pessoal, ou um desejo que provê utilidade. Tal utilidade não deve ser confundida com o egoísmo. Pode-se encontrar utilidade em inúmeras coisas, incluindo altruísmo. Outro exemplo pode ser uma cadeira, uma propriedade emergente que atribuímos a um conjunto de outros objetos, cada um dos quais também é um conjunto, contendo diferentes partes que podem ser infinitamente subdivididas e que só adquirem forma em relação a outros objetos. Além do mais, enquanto a “cadeira” decaí, ela muda de momento a momento até que, em algum ponto, nós podemos dizer que ela não “existe” mais. A “cadeira” é uma orientação particular de junções objetivas na natureza, ou é um conceito útil dentro de nossa janela de referencial, definida, em termos de nossos fins, que, nesse caso, seria algo para sentar-se? No primeiro caso, a cadeira é uma ideia fixa; no segundo ela é não-fixa, existindo apenas para os fins próprios.
Isso exige que perguntemos: se o egoísmo não tem nada haver com o conteúdo das ideias, qual é o ponto de um egoísmo consciente? Nada se segue a partir do egoísmo, visto que não é autoritário ou antiautoritário. Em vez disso, ele nega ideias fixas, criando uma distinção que o coloca numa posição similar a metaética em relação à ética, uma estrutura que não se preocupa com o conteúdo dos conceitos, mas do vazio que os sustenta.
Por exemplo, veja o problema do “moralismo” no qual muitos autointitulados egoístas se opõem. Para um egoísta consciente e consistente, a moralidade é uma ideia fixa por definição, uma declaração da verdade, e algo que existe objetivamente, incorporado na estrutura do cérebro ou divagando por aí como formas platônicas. O egoísta pode, ao invés disso, expressar valores como preferências pessoais, onde o valor-verdade é algo atribuído a expressões por utilidade, formulando tautologias baseadas na aplicação da lógica e de definições úteis. Dizer que “roubo é errado” é definir roubo como uma apropriação não-consensual, com base em razões às quais alguém opõe-se por seus próprios motivos. De forma semelhante, dizer que “a cadeira é vermelha” não é inerentemente verdade, mas sim é verdade baseada nas definições próprias de “vermelho” e “cadeira” com referência a uma certa porção do espectro eletromagnético, a utilidade prática de um objeto para se sentar, e o uso de operadores para comunicar a “verdade”. Claramente, trata-se de uma questão de definição. “Moralidade” não é necessariamente definida em termos fixos, objetivos ou essenciais, mas, ao invés disso, a natureza da moralidade é debatida do campo da metaética, porém aqui estou mostrando como um antimoralista pode consistentemente ter essa posição à luz das principais distinções de Stirner.
No entanto, acusações de “moralismo” são frequentemente empregadas de forma inconsistente, como uma forma de interromper o discurso; o uso de alegações metaéticas para invalidar valores normativos é inconsistente, pois o egoísmo não prescreve o conteúdo do desejo. Dizer a alguém que suas crenças morais não “existem” não diz respeito ao seu conteúdo, da mesma forma que dizer a alguém que uma cadeira não “existe” não o fará parar de acreditar na cadeira. Em vez disso, faz mais sentido apontar as inconsistências e problemas nos posicionamentos um do outro com base em axiomas compartilhados. Por exemplo, alguém poderia dizer que “roubo é errado” sem recorrer ao moralismo, o que depende de como esse alguém conceitua “errado” em termos metaéticos. Para fazer o uso de um exemplo mais controverso: não é necessariamente moralístico dizer que “deve-se servir a nação”, pois depende como se concebe as noções de “dever” e “nação”. É real que “dever” e “nação” são ideias geralmente fixas, mas esse exemplo ajuda a ilustrar ainda mais exatamente ao que as ideias fixas referem-se, sem mencionar o fato de que encontrei pessoas na direita política que possuem interpretações razoavelmente consistentes sobre Stirner. Se alguém experiência o dito “chamado superior”, o que importa mais, em termos distintivos de Stirner, é a natureza específica do chamado superior: é esta uma expressão consciente do desejo que surge do nada ou é algo que justifica a si mesma em relação a uma rede de conceitos externos? Nenhuma palavra é inerentemente moralista (defino aqui moralismo em termos de ideias fixas), apesar de que várias podem ser utilizadas de formas moralistas.
Egoísmo também é algo frequentemente ligado ao relativismo moral e é especificamente empregado para criticar o conceito de moralidade, o que é uma distorção de Stirner. Sua noção de ideias fixas podem ser aplicadas a todos os conceitos. Além do mais, um egoísta pode consistentemente impor seus valores nos outros, afirmando que seus valores são mais importantes que outros, impor coerção e, até mesmo fazer afirmações “universais” (não como verdade, mas como uma asserção). Por exemplo, não é necessariamente moralista argumentar que deveríamos ser universalmente antirracistas. Um niilista pode estar em qualquer posição que deseje, pois o niilismo não justifica ou refuta nada.
Dito isso, tendo em mente esses esclarecimentos, podemos voltar à questão de “qual é, exatamente, o ponto do egoísmo consciente?” Não há propósito em ser um egoísta consciente. Isso também, algo que um egoísta consciente poderia dizer, sintetiza-se nos próprios desejos. Talvez eles encontrem conforto no nada e no fluxo. O próprio Stirner fornece uma razão, sugerindo que se pode ser governado por ideias fixas ou “pensamento absoluto”, que a moralidade tem “poder sobre” o espírito, e que o “espírito do amor” pode escravizar uma pessoa – como se o egoísmo inconsciente fosse uma forma de auto-traição. Por “governar”, Stirner não fala sobre o ato de governar de uma autoridade, mas da autonegação devido ao egoísmo inconsciente. Um exemplo disso pode ser o de alguém que mergulha em abstinência sexual devido a um chamado superior, apesar do desejo de fazer sexo. Em um sentido similar, Wittgenstein afirma que alguém pode ser “prisioneiro de uma imagem”, sendo esta “imagem” algo estrutural da realidade, não vista como útil, mas como necessária, o que leva a uma busca incessante pela verdade onde não há alguma. Apesar da linguagem aparentemente prescritiva, isso não é exatamente uma contradição no pensamento Stineriano, mas sim uma expressão de suas próprias preferências (não algo decorrente do egoísmo). Um egoísta inconsciente surge à partir do nada. Embora inconsciente, essa emergência é, ainda sim, uma função do desejo, a propriedade do Único.
Pessoalmente, não me importo se alguém vê a anarquia como um dever, desde que eu não discorde do conteúdo de suas crenças. Apegar-se a ideias fixas, como se afirmasse que a existência é mais do que simplesmente um conceito útil, mas uma propriedade essencial do universo, e acreditar que podemos conhecer a natureza da existência com absoluta certeza são princípios que muitos, senão a maioria, possuem. O mesmo vale para ideias como nacionalismo, algo no qual eu me oponho, não por causa da tendência de ser algo fixo (o que não é necessariamente), mas devido ao seu conteúdo. Apesar de que os desejos de um indivíduo possam mudar após rejeitar ideias fixas, os valores e ideais emergentes do egoísta inconsciente podem ser idênticos àqueles do egoísta consciente, que pode tratar a existência e verdade como conceitos úteis que podem ser passíveis de interação e formulados de diferentes formas, algumas das quais são mais úteis do que outras.
Mesmo que não haja ponto central no egoísmo, podemos ainda perguntar o porquê anarquistas, em particular, tendem a se direcionar ao egoísmo. A primeira coisa que vêm à mente é a União de Egoístas de Stirner, uma associação anárquica de egoístas conscientes que se dissipa sem um consentimento contínuo. Esse ideia é uma conjectura do que interações consensuais entre egoístas conscientes podem parecer, isto é, pessoas cooperando conscientemente umas com as outras em busca de seus próprios desejos. No entanto, um egoísta consciente não é necessariamente alguém que participa numa união de egoístas porque podem impor sua vontade nos outros. Conceitos como nacionalismo automaticamente impedem a possibilidade de uma União de Egoístas, pois os mesmos se apoiam em relações não consensuais. Além do mais, não é necessário que seja um egoísta consciente para ser um anarquista, pois pode-se participar em associações consensuais, não-hierárquicas, enquanto mantêm ideias fixas.
Outra razão pela qual muitos anarquistas aparentam encontrar valor no egoísmo é que a rejeição de ideias fixas sugere que não há paradigma verdadeiro, apenas paradigmas que são úteis aos indivíduos, espaço no qual tudo é subjetivo. A partir desse ponto de vista, não há bases fixas para qualquer “devir” universal que pode ser utilizado para legitimar o ato de governar, privando-o de qualquer fundação ontológica e epistemológica. Por exemplo, o egoísmo invalida narrativas como progresso, gênero, ciência e nação como verdades absolutas, apresentando-as como, ao invés disso, conceitos úteis que indivíduos adotam por suas próprias razões.
No entanto, contrariamente ao que muitos pensam, o fato do egoísmo invalidar a ideia de fundamentos filosóficos não implica que os egoístas sejam obrigados a valorizar a subjetividade de outros. Não há princípio que deriva do egoísmo no qual um egoísta não deveria aspirar, dadas suas motivações próprias, por autoridade epistêmica e ontológica, somente como eles concebem tais razões. Ao invés disso, anarquistas que são egoístas conscientes escolhem valorizar a subjetividade pois ela lhes agrada. Eles preferem uma União de Egoístas. Alguém que acredita em verdade, existência e moralidade, também pode colocar uma ênfase moral, por exemplo, na subjetividade da identidade pessoal, mesmo na presença de aparentes “contradições”. Pessoalmente, rejeito construtos que invalidam a autoexpressão ou que são historicamente, empiricamente, ou intuitivamente errados ou inúteis para mim.
Em Investigações filosóficas, Wittgenstein diz, “não pense, mas observe”. O que ele quis dizer com isso é que, dado o fato de que todas as tentativas de definir o mundo em termos de condições necessárias e suficientes é algo insuficiente, pode então ser mais apropriado descrever o mundo como o experienciamos. A natureza dessa “experiência” pode ser um complexo sistema recíproco de sinais ou, simplesmente, um conjunto de definições monolíticas que não se encontram na subjetividade individual. Portanto, para que o mundo seja organizado de acordo com uma cosmovisão monolítica, teria de haver alguma forma de fiscalização de cima para baixo. Novamente, no entanto, alguém com uma teoria subjetiva da moralidade pode ainda sim ter visões que permeiam a subjetividade, mas esse alguém simplesmente não utiliza da linguagem da objetividade para expressar suas posições. De forma semelhante, alguém que concebe coisas como objetivas pode rejeitar impor a sua visão aos outros, enquanto podem, ao mesmo tempo, tê-las como verdadeiras. O egoísmo consciente vs o inconsciente é uma metaconsciência de todos os valores. Alguém ou vê os valores como derivando do nada, ou como sistemas objetivos como os direitos naturais. A distinção de objetividade vs subjetividade é útil nesse sentido, mas não vem com nenhuma prescrição própria.
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