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“Herança, não ódio”: a mentira de toda bandeira
O artigo a seguir foi traduzido para o português a partir do original em inglês, escrito por Kevin Carson.

Nos momentos que se seguiram ao massacre com motivos raciais perpetrado por Dylan Roof na Igreja Metodista Episcopal Africana Emanuel em Charleston, as imagens que circularam não apenas incluíam fotos de Roof erguendo a bandeira de batalha dos Estados Confederados da América, mas também agachado sobre uma bandeira amarrotada dos Estados Unidos. Seu desrespeito pela Velha Glória* sugere que ele se vê como alguém que tomou a “pílula vermelha” e não se deixa ludibriar pelas pretensões ideológicas do estado americano de representar as pessoas comuns, tendo identificado sua natureza real como representante de um sistema estranho e opressivo de poder. Tudo isso está correto, mas essa é um a verdade parcial.

Como anarquista de esquerda, eu trabalho constantemente para combater o condicionamento ideológico imposto desde cedo às pessoas comuns, que as ensina a ver a bandeira americana como um símbolo do “povo” ou de outros ideais comuns de liberdade e justiça compartilhados por todos os americanos, sem diferenças de raça ou classe. Howard Zinn escreveu:

Nossos líderes nos bombardeiam com expressões como “interesse nacional”, “segurança nacional” e “defesa nacional” como se todos esses conceitos se aplicassem igualmente a todos, negros ou brancos, ricos ou pobres, como se a General Motors e a Halliburton tivessem os mesmos interesses que o resto de nós, como se George Bush tivesse os mesmos interesses que o jovens homens e mulheres que ele envia para a guerra.

Evidentemente, na história das mentiras contadas à população, essa é a maior de todas. Na história dos segredos que o povo americano não conhece, esse é o maior: existem classes com interesses distintos neste país. Ignorar esse fato — não saber que a história do nosso país é a história do senhor contra o escravo, do dono de terras contra o arrendatário, da corporação contra o trabalhador, do rico contra o pobre — significa nos tornar impotentes perante as mentiras menores contadas a nós pelas pessoas que detêm o poder.

O estado americano, como todos os outros estados durante a história, servem aos interesses da coalizão de classe que o controla. Os mitos ideológicos do patriotismo, de um interesse nacional que une exploradores e explorados, servem a uma função poderosa de legitimação da exploração de classe. E são insidiosos porque nós os absorvemos inconscientemente desde muito cedo. Porém, se isso é verdadeiro em relação a todos os estados e bandeiras, é ainda mais real em relação à bandeira da Confederação. Como Ta-Nehisi Coates (@tanehisicoates) afirmou no Twitter (20 de junho):

Significa algo — principalmente para as crianças — quando os símbolos são simplesmente aceitos. Eles definem o possível.

Se você cresceu com o slogan “herança, não ódio” e essa é a sua infância, todas as outras discussões são mais difíceis. E todos os outros mitos são absorvidos mais facilmente.

Se um americano que pensa ter um “interesse nacional” ou identidade comum com os Rockefellers, Gates e Waltons está se iludindo, o que isso diz sobre alguém se tira uma foto de si mesmo em frente a uma casa grande segurando a bandeira de batalha confederada?

A liderança política dos estados sulistas que pressionou pela secessão e o governo que eles estabeleceram era inseparável dos interesses da aristocracia agrária. Como Coates apontou no mesmo dia, os interesses da aristocracia escravista estavam escritos na própria constituição da Confederação como um de seus princípios fundamentais. Não é possível ser mais claro do que isso para sabermos quais os interesses de classe controlavam os onze estados secessionistas e sua confederação.

A escravidão e o racismo não apenas criam privilégios para aqueles de pele branco às custas de quem tem a pele negra; eles também fazem com que todos, negros e brancos, se tornem alvos mais fáceis para a exploração das classes proprietárias. Desde o primeiro assentamento na Virgína, no comeõ do século 17, a função principal do racismo tem sido facilitar a extração pela classe dominante econômica do excedente do trabalho da população produtiva.

Nada disso sugere, como fazem muitos da (predominantemente branca e masculina) velha esquerda, que questões de raça na verdade sejam resumíveis em problemas de classe, ou que se focarmos na abolição da exploração de classe, questões de gênero e raça se acertarão depois da revolução. Sem dúvida, muitos capitalistas agrários do sul, antes e depois da Guerra Civil, eram bastante sinceros em seu racismo. E a ideologia racista e as estruturas sociais, a despeito de suas funções de facilitar a exploração econômica, ganham vida própria. Aqueles que não acreditam que o racismo estrutural seja real não estão prestando atenção nos acontecimentos desde Ferguson. E aqueles que imaginam que o privilégio de cor de pele não seja real devem comparar as imagens que saem na mídia de Dylann Roof abrindo seus presentes de natal quando criança e a simpatia por seus pais com as tentativas tresloucadas de encontrar imagens no Facebook que provavam que Michael Brown “não era santo” ou condenações a seus pais por terem educado um “bandido”.

Mas o racismo e a opressão racial se estabeleceram tão rápido e passaram a se perpetuar com tanta força desde então por conta da função exploratória a que serviam. No início da época colonial da Virgínia, as diferenças em status legal entre servos brancos e escravos negros não estava bem definida. Servos de todas as raças tendiam a confraternizar, faziam casamentos inter-raciais e brancos e negros participaram em conjunto da Rebelião de Bacon contra a aristocracia rural. Com a derrota de Bacon, surgiu o primeiro código servil, criando privilégios para a pele branca e a ideologia do racismo para promover uma divisão racial entre as classes produtoras.

Desde então o racismo tem servido admiravelmente para dividir as classes trabalhadoras, tornando-a mais fácil de dominar e explorar. Durante a Grande Depressão, no sul, o sindicato dos meeiros foi derrotado com ajuda do racismo quando — com estímulo secreto dos grandes proprietários — ele dividiu os sindicatos por raça, entre brancos e negros. Após a Segunda Guerra Mundial, os industrialistas do sul utilizaram o racismo para derrotar as campanhas sindicais.

O privilégio branco dá aos brancos vantagens indevidas que não são compartilhadas pelos negros. Mas o racismo, em última análise, aumenta a extração líquida do trabalho e faz com que até os brancos piorem de situação econômica em comparação a uma sociedade justa.

Dylann Roof, portanto, foi ingênuo ao acreditar que tinha quaisquer interesses em comum com a elite agrária que criou a Confederação em 1861 ou que qualquer pessoa como ele teria se beneficiado em um regime de escravidão. E, se ele pensava que a bandeira e o estado confederado existiam, ao contrário de qualquer outro estado, para beneficiar alguém que não os grandes proprietários e capitalistas que controlavam seu governo, ele era um completo idiota.

* Trata-se de um dos apelidos da bandeira americana.

Traduzido por Erick Vasconcelos.

Markets Not Capitalism
Organization Theory
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