Cuidado com os reformistas libertários
O artigo a seguir foi traduzido para o português a partir do original em inglês, escrito por David S. D'Amato.

Tentarei aqui refinar algumas das observações que fiz no Twitter que argumentavam que os libertários devem desconfiar do fenômeno mais geral dos reformismo através de políticas públicas — definido aqui, de forma ampla, como uma preocupação com o oferecimento de soluções práticas em políticas públicas ou propostas baseadas em evidências estatísticas e empíricas (ou seja, o tipo de trabalho que os maiores think tanks costumam fazer). Eu não tenho nada contra think tanks em si, um vez que acredito que educar as pessoas em relação aos princípios libertários é o trabalho mais importante que podemos empreender para avançar a liberdade. No entanto, eu acredito que exista uma versão desse tipo de reformismo que seja bastante condenável, mesmo de um ponto de vista libertário moderado. Fundamentalmente, o reformismo é um exemplo (ou talvez mais precisamente, um sintoma) daquilo que Friedrich Hayek chamava de “arrogância fatal”: a ideia de que os legisladores podem desenhar e otimizar deliberadamente as instituições sociais. Além disso, o reformista tende a ter uma fé exagerada em informações estatísticas e modelos econômicos — outro exemplo da arrogância dos planejadores centrais identificada por Hayek.

Quem quer que tenha passado algum tempo lendo os artigos sobre políticas públicas publicados por diversos think tanks sabe que os debates são recheados de gráficos, estatísticas e estudos — e que as estatísticas são a linguagem das distorções, sujeitas a inúmeras interpretações, abertas a serem massageadas e manipuladas para se encaixarem a qualquer argumento que se queira avançar. O que pretendo dizer aqui é que, em sua tentativa de aparentarem ser científicos, os reformistas estão, na verdade, empreendendo uma bastardização da ciência, presumindo que seus dados podem revelar verdades que não poderiam. Nós não somos capazes nem mesmo de delinear uma definição clara, rígida, abrangente e cem por cento precisa do que caracteriza agressão ou invasão. Como nossos reformistas libertários imaginam que sabem quais leis são boas e quais são ruins do ponto de vista libertários? Muitos casos, naturalmente, são simples. Porém, quando vemos especialistas pretensamente libertários que apoiam a nefasta Parceria Trans-Pacífico, por exemplo, podemos vir a questionar os métodos utilizados no mundo reformador. Uma das razões por que eu inicialmente me senti atraído pelas ideias libertárias foi porque elas geralmente aparentavam evitar o emprego simplista e profundamente insensato às estatísticas. Claro, os libertários também, em seus melhores momentos, evitam a via política também.

No entanto, é possível entender o impulso reformista. Os libertários querem sentar na mesa dos engravatados importantes, por assim dizer. Querem ser levados a sério pelas elites no ambiente tóxico e corrupto das políticas públicas. Mas os libertários deveriam estar mais conscientes do que isso acarreta — deveriam saber que as estatísticas são uma faceta integral das dissimulações políticas, das tentativas de fazer com que a prática do poder pareça legítima e científica, uma vez que as maiores tentativas de tirania sempre apelam ao seu pretenso valor de ciência. Nos ensina Deirdre McCloskey: “A palavra ‘estatística’ foi criada por alemães e italianos entusiastas da ação estatal no começo do século 18, que apontavam para uma história do uso estatal dos números. Então nasceu a era das estatísticas e tudo — desde prisões por drogas e o número de mortes de fumantes até o valor de uma vida e a nota de crédito de Jane Q. Pública — é numerado”. Argumentos estatísticos são como argumentos legais: seus movimentos são uma dança que nos distrai, são jogos com números assim como os últimos são jogos de palavras. Frequentemente, sinto-me perplexo com a facilidade com a qual advogados elaboram argumentos persuasivos para qualquer posição — raciocínios legais poderosos para cobrir seus fundamentos filosóficos indefensáveis. Da mesma forma, em geral, as opiniões dos tribunais são feitas com ótimos argumentos, os discordantes elabora argumentos ainda melhores, e assim por diante. É tanta sagacidade desperdiçada — algo que é frequente em exercícios matemáticos e estatísticos. Sem princípios para nos orientar, palavras e números tendem a não importar ou significar muito. Qualquer posição pode parecer plausível, convincente e crível, mesmo que momentaneamente. E é importante lembrar que qualquer pessoa razoavelmente escolarizada possui a destreza mental para executar essas piruetas intelectuais.

A citação seguinte, frequentemente atribuída a Mark Twain e Benjamin Disraeli, representa minha exasperação com a absurda dependência de estatísticas por parte da comunidade de reformadores: “Há três tipos de mentiras: mentiras, mentiras deslavadas e estatísticas”. Argumentos fracos e estatísticas são aliados naturais que criam uma aparência de rigor científico através de ajustes cuidadosamente executados. Uma vez que elas permitem que os não-iniciados e mais crédulos deslumbrados, os políticos e seus agentes simplesmente adoram esse processo de mentir com meias-verdades. Uma das observações mais centrais dos libertários é que é impossível criar uma sociedade livre através da legislação. Como escreve Stephen Pearl Andrews em seu clássico The Science of Society: “A humanidade impõe a confusão a si própria através da legislação num esforço para fugir dela.”[1] As estatísticas são a linguagem do controle estatal moderno, que presume que um grupo tem o direito de governar e, portanto, que a única questão que resta é como governar de maneira inteligente ou científica (ou que, pelo menos, aparentemente seja inteligente ou científica). Reformistas libertários entram no jogo do estado — de fato, muitos deles parecem se esforçar para fazê-lo; não imagino saber o que eles pensam. Estou mais certo, porém, de que aqueles libertários que desejam exercer, ou mesmo conduzir, as autoridades governamentais e legislativas, por definição, deixam de ser libertários. A excomunhão, claro, não é o objetivo aqui. Apenas tenha receio do libertários reformistas, que, na verdade, não passam de libertários políticos.

[1] Andrews escreve também: “A diversidade reina em todos os reinos da natureza e zomba das tentativas humanas de criar leis, constituições, regulamentos ou instituições de qualquer natureza que pretentam funcionar justa e harmoniosamente dentro de todas as contingências imprevistas do futuro”.

Traduzido por Erick Vasconcelos.

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