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O trabalhador já paga o pato de Vagner Freitas e da CUT

A investigação da Polícia Federal às empreiteiras envolvidas no escândalo bilionário de pagamento de propinas para obras da Petrobras previsivelmente tem deixado alguns insatisfeitos. Muitos dos que se preocupam com a investigação, naturalmente, vestem colarinhos brancos. No entanto, a julgar pelo que o presidente nacional da Central Ùnica dos Trabalhadores (CUT) Vagner Freitas afirma, os maiores perdedores ao jogar os executivos atrás das grades são os trabalhadores. Em entrevista (“Vagner: ‘O trabalhador já paga o pato da Lava Jato’“, Revista Brasil 24/7, edição 30, 13 de março de 2015), Vagner afirma que a crise econômica que o Brasil atravessa foi organizada e pensada para permitir a “ruptura institucional” e a “volta do conservadorismo”, além de considerar “absurda” a quebra de todo o setor de construção no Brasil por conta da Operação Lava Jato.

Freitas reiteradamente ataca a burguesia e atenta para o cenário de “luta de classes na veia” por que passamos. Contudo, na exata mesma entrevista, se mostra chocado e estarrecido com o fato de algumas pessoas não estarem tão contentes com os subsídios e privilégios da burguesia do setor de construção civil. Devido à baixa qualidade do jornalismo de Brasil 24/7, Freitas jamais é desafiado a respeito do fato de que sua retórica abrasiva antiburguesa não passa de uma justificação velada dos privilégios das grandes corporações que operam em conluio com o estado brasileiro. Vagner Freitas, de uma pergunta para a seguinte, deixa as denúncias apaixonadas ao patronato de lado e passa a derramar suas lágrimas pela burguesia perseguida.

Apesar de não ser surpreendente a atuação da CUT como porta-voz do governo, era de se esperar um pouco mais de senso de ridículo por parte de uma organização que pretende falar pelos trabalhadores. Marx afirmou que o estado é o “balcão de negócios” da burguesia e não há caso mais claro em que isso ocorre do que aqui: as grandes corporações da construção civil estavam comprando favorecimentos de políticos. Suas negociatas deram a essas empresas acesso a lucrativos contratos públicos da Petrobras e uma fatia do quinhão extorquido pelo estado da população. Quando Vagner Freitas chora pela construção civil, ele chora por corporações como Odebrecht, Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez, OAS e Queiroz Galvão.

Quem defende a construção civil brasileira deve um pouco de sinceridade ao público. Deve falar com todas as letras que defende um setor cartelizado, subsidiado e dependente do governo. Defender as empreiteiras não significa defender o trabalhador, mas justamente o contrário: significa defender subsídios ao uso intensivo de capital em substituição ao trabalho, a elevação artificial do nível de especialização do trabalho utilizado e a exclusão dos trabalhadores mais pobres e menos qualificados. Significa, em suma, a defesa não dos trabalhadores, mas de alguns trabalhadores. Não do trabalho, mas dos interesses da burguesia, dos seus lucros garantidos e seus custos socializados.

As ideias de Vagner Freitas estariam em casa cinquenta anos atrás. Não são mais do que um argumento em favor de oligopólios paraestatais — um sistema de corporações “progressistas” grandes o suficiente para prover empregos estáveis e com benefícios aos trabalhadores sindicalizados. A história que nunca é contada nessa narrativa, claro, são os trabalhadores excluídos do banquete.

Não deixa de ser irônico que a CUT esteja na linha de frente da defesa das empreiteiras — as mesmas empresas que, como mostra o trabalho de Pedro Henrique Pedreira Campos, se tornaram braços do estado durante a ditadura militar. A cúpula petista e seus lacaios no movimento sindical, porém, há muito tempo fizeram as pazes com a política econômica militar. Já em 2002, o ex-presidente Lula não poupava elogios à presciência econômica de Médici e, em 2010, ainda falava que Geisel havia liderado o “último grande período desenvolvimentista do país“.

Portanto, o debate deve ser reposicionado. Há aqui os defensores do patronato e da continuação dos privilégios às megacorporações da construção civil brasileira. E, do outro lado, existem aqueles que defendem o fim do sistema subsídios sistemáticos aos ricos e sua consequência lógica: um livre mercado radical.

Se estamos num momento de acirramento de luta de classes, a CUT já escolheu seu lado: o da burguesia e do seu maior aparelho de dominação — o estado.

Citations to this article:

Markets Not Capitalism
Organization Theory
Conscience of an Anarchist