Center for a Stateless Society
A Left Market Anarchist Think Tank & Media Center
Réplica de Carson a Gregory

The following article is translated into Portuguese from the English original, written by Kevin Carson.

TROCAS MULTILATERAIS

Trocas multilaterais são o objetivo do Centro em dois sentidos — somos a favor de uma sociedade fundamentada em cooperação pacífica e voluntária, e buscamos fomentar o entendimento por meio de diálogo permanente.

Eis porque estamos inaugurando esta nova parte de nosso site. Trocas Multilaterais – Mutual Exchange proporcionará oportunidades para trocas de ideias de interesse dos diversos públicos do Centro. Um ensaio de abertura, deliberadamente provocativo, será seguido de respostas vindas de dentro e de fora do C4SS. Contribuições e comentários de leitores são entusiasticamente encorajados.

Começamos com o ensaio de Anthony Gregory “Contra Kevin Carson quanto à Humanidade de Corporações e Professores do Governo,” o qual suscita alguma questões críticas acerca de aspectos do projeto de Kevin Carson. Seguir-se-ão respostas de Carson, Gary Chartier e outros.

*  *  *

Permitam-me começar dizendo que sou, de longa data, admirador dos escritos de Anthony Gregory, e estou tão surpreso quanto ele com o fato disto ter-se transformado em desacordo de maiores proporções. Francamente, dadas nossas consideráveis áreas de acordo, é-me difícil imaginar por que meu texto de comentário (“Corporações são Pessoas? Hitler Também Era”) o terá acionado.

A primeira objeção de Gregory, em “Contra Kevin Carson,” é a minha asserção de que os lucros das grandes corporações são desproporcionalmente o resultado de trocas desiguais forçadas pelo estado (monopólios, direitos artificiais de propriedade, barreiras à entrada no mercado etc.).

De imediato, Carson assume a premissa de que os lucros corporativos geralmente resultam de “trocas desiguais forçadas pelo estado.” Certamente trabalhadores e consumidores amiúde enfrentam ônus impostos pelo estado que reduzem suas probabilidades de trocas otimamente benéficas. Significará isso, porém, que os autores dos lucros corporativos beneficiam-se a expensas deles? Não será possível para ambos os lados até em uma transação “desigual” ficarem em pior situação, na margem, por causa do envolvimento do estado, e no entanto ficarem em situação melhor por haver sido feita a troca?

Na maioria dos casos, contudo, não acho ser questão de “ambos os lados” ficarem em pior situação como resultado de intervenção do estado. No caso das corporações dominantes em nossa economia, elas ficam em melhor situação do que teriam ficado numa troca numa economia de livre mercado. Um rent, por definição, é a diferença entre o preço que teria sido incentivo suficiente para o vendedor levar um bem ao mercado e o preço que o consumidor ainda estivesse disposto a pagar pela utilidade líquida de receber o bem. Por definição esse rent, quando resulte de escassez ou barreiras à entrada no mercado forçadas/feitas valer pelo estado tem natureza de exploração.

O que dizer dos muitos empresários que lucram em certo ano e têm grandes prejuízos no outro? Foi a expensas deles que consumidores e trabalhadores tiveram lucro?

Não estou seguro acerca de que relevância terão esses empresários para minha coluna. Não contesto por um minuto haver empresários genuínos no setor competitivo da economia. O que eles têm a ver com a gestão das corporações gigantescas envolvidas nos preços administrados, nos mercados de oligopólio onde duas ou três empresas controlam metade do mercado — e cujo padrão está usualmente mais próximo de enormes lucros em determinado ano, grandes lucros no ano seguinte, e redução de impostos no seguinte — não está claro para mim.

Aqui tenho de concordar com a visão austríaca segundo a qual se duas partes vêm a fazer negócio, especialmente se ambas saírem satisfeitas, a preferência demonstrada(*) delas é a de que o negócio não foi feito a suas expensas, e sim a bem da melhora geral de sua situação, e isso não deveria ser invalidado por terceiros observadores. (* Para a ideia de preferência demonstrada, de Rothbard, e o contraste com a ideia de preferência revelada, de Samuelson ver, por exemplo,http://rationalargumentator.com/Rothbard_demonstratedpreference.html)

Bem, com certeza. Pode-se dizer que mesmo o consumidor que compra um produto de um fornecedor monopolista — em base de preferência demonstrada — atribui maior utilidade a engajar-se na transação do que a abster-se dela. Mas essa é toda a questão referente a estar-se numa posição de monopólio: você pode definir o preço num nível tal que o consumidor mal pense na escolha de comprar como preferível à de não comprar — em vez de engajar-se em um mercado competitivo onde o preço tenderá a caminhar rumo ao custo real do fornecimento do bem ou prestação do serviço. Quando alguém compra um copo de água no meio do Saara por $1000 dólares, considera ser essa transação benefício positivo líquido em comparação com morrer de sede — mas e daí? A questão é qual das partes da transação está em posição dominante, e como isso afeta os termos da troca — e os retornos dela para a parte dominante.

E se a demonstração de preferência de uma parte por troca em vez de não troca for suficiente para comprovar que a natureza não é de exploração, sugiro tratar-se de um critério muito rasteiro. Eu, porém, nego que seja suficiente. A exploração, ou privilégio — por definição — é o uso de poder coercitivo para restringir o leque de alternativas disponíveis para uma parte em desvantagem, de tal modo que ela é forçada a escolher uma alternativa muito inferior à que teria estado disponível não fora tal restrição. Quando um consumidor compra um CD ou DVD pagando margem de copyright de 1000% por ser ilegal um competidor reproduzir o conteúdo para venda, o consumidor poderá considerar um positivo líquido pagar a enorme margem em comparação com não ter acesso nenhum àquele conteúdo. Trata-se, entretanto, claramente, de exploração. Um camponês medieval poderia considerar constituir positivo líquido pagar ao senhor da herdade um terço de sua produção como rent em espécie, em troca do acesso à terra, em vez de morrer de inanição. E daí?

Se o fato de o consumidor receber maior utilidade ao se engajar numa transação do que ao não fazê-lo for prova de que uma troca não tem caráter de exploração, então nenhum monopólio na história jamais se qualificou como exploração, por esse padrão. O monopolista engaja-se em segmentação de preços e dumping de maneira a calibrar o preço de acordo com a capacidade de pagamento do consumidor, e este ainda recebe utilidade líquida despojada acima e além do preço que paga(*). Pela própria natureza do monopólio, o monopolista tem de permitir alguma utilidade líquida do comprar em relação ao não comprar a fim de conseguir vender.’ (* Enrolei-me na tradução mas felizmente o autor veio em meu socorro: ‘It’s the consumer who pays and receives a bare net utility over the price – that’s how monopolist’s targeting pricing works. The monopolist charges as much as possible for it to still be worth it to the consumer to buy.’)

Para lucrar com aumentos de produtividade resultantes do progresso tecnológico o monopolista tem de permitir ao consumidor receber pequena parcela daqueles, para fazer com que valha a pena pagar por eles, mesmo em condições de monopólio. Isso significa que o ganho líquido de produtividade tem de ser dividido (digamos) 9-1 em favor do monopolista em vez de o monopolista açambarcar o bolo inteiro — mas o ganho inteiro acabaria indo parar no consumidor se fosse permitido a competição desimpedida socializar os benefícios, nas condições de um livre mercado.

Tipicamente, é verdade, as trocas de trabalhadores e consumidores teriam sido ainda mais frutíferas para eles não fora o estado. Por vezes o estado inclusive cria trabalho cativo e mercados consumidores para as corporações. Contudo, a pura produtividade, mesmo na economia de mercado tolhida, por meio da qual trabalhadores e consumidores melhoraram sua situação ao longo dos anos, mesmo se não tanto quanto deveriam tê-lo feito, pareceria indicar que nem todas as suas interações com as corporações se fazem a expensas deles, liquidamente. Eles poderão beneficiar-se muito menos do que deveriam, por causa do estado, mas seguramente a experiência típica de consumidores ou trabalhadores envolvidos mesmo num sistema corporatista não é uma experiência de vitimização cabal….

Gregory não é o primeiro a suscitar essa objeção a minha crítica do capitalismo de estado. É um argumento muito engenhoso. Stephan Kinsella, por exemplo, já argumentou repetidamente que o modelo estadunidense de capitalismo corporativo só pode incluir significativa dose de elementos de livre mercado porque, em vez de tornar-se paralisado por problemas de cálculo, resultou em aumento de produtividade e padrões crescentes de vida que testemunhamos nos anos recentes.

Por mais aparentemente engenhoso que seja, não acredito, contudo, que esse argumento possa resistir a análise. Se prova algo, prova em demasia. Mesmo a economia feudal da Idade Média, mesmo a economia planificada da antiga União Soviética, alcançaram níveis significativos de progresso técnico. Parece que uma levedura extremamente modesta de liberdade, mesmo em sociedades bastante  autoritárias ou totalitárias, é suficiente para permitir significativa quantidade de progresso econômico e tecnológico a despeito do nível de estatismo.

Eu argumentaria também que as medidas convencionais de padrão de vida nos Estados Unidos deveriam ser vistas com certa reserva. A economia corporativa produz carros, geladeiras, televisores e computadores que os consumidores certamente consideram preferíveis aos de há dez anos, e a grande maioria dos consumidores prefere comprá-los nas condições disponíveis em vez de ficar sem eles. Contudo, os preços pelos quais esses bens são vendidos são provavelmente diversas vezes maiores do que seriam num livre mercado, porque eles são produzidos por indústrias fortemente cartelizadas que podem repassar o custo de desperdício de insumos e de overhead burocrático para o consumidor por meio de preços administrados, e nas quais a cultura interna das firmas dominantes é esmagadoramente caracterizada por caos calculacional. Os componentes de hardware e de software são patenteados, e portanto exibem margem de diversas centenas por cento.

Como ocorre no caso do preço de bens e serviços, também medidas de crescimento econômico e PIB essencialmente definem o consumo de insumos como constituindo criação de valor. Assim, temos uma economia na qual a qualidade de bens e serviços parece estar melhorando significativamente, e os consumidores preferem tê-los a não tê-los. Todavia, temos também uma economia na qual não há maneira de determinar se os insumos desperdiçados para criar essas coisas valeram a pena, ou se as pessoas os adquiririam deliberadamente face a um espectro de alternativas de livre mercado. Há certa espécie de valor de uso, e até significativo progresso na criação de valor de uso, mas uma atmosfera geral de caos calculacional — exatamente como na antiga URSS. E sugiro que, na medida em que os consumidores aceitam menor nível de utilidade do que aceitariam num livre mercado, e pagam preço maior por sua utilidade, em horas de trabalho, do que pagariam num livre mercado, o déficit que experimentam é — nas palavras de Benjamin Tucker — igualado por éficit(*) equivalente por parte das classes dominantes no capitalismo de estado. (* O artigo original diz, equivocadamente, deficit. Consultei o autor citando a sugestão de um leitor que propunha ‘surplus’, e o autor me esclareceu que de fato há equívoco, e mais: Tucker usa o termo ‘efficit’, obviamente por oposição a ‘deficit’. Adotei ‘éficit’.)

O uso que fiz de Hitler parece irritar particularmente Gregory.

…[T]odo sistema de exploração de classes da história humana serviu aos interesses de algum grupo de seres humanos. Em toda sociedade da história, não importa quão brutalmente exploradora, obviamente o ganho ilícito foi consumido por “pessoas.” Os patrícios romanos que viviam do suor dos escravos eram pessoas, e bem assim o eram os senhores feudais que extorquiam rents dos camponeses. Suspeito de terem sido “pessoas” — pessoas perversas — quem se aproveitou dos dentes de ouro extraídos em Auschwitz.

Ele retruca:

Pois bem, quanto a mim, sempre gosto de uma boa comparação com os nazistas, e tenho posição explícita de oposição à Lei de Godwin. Essa comparação, contudo, parece muito irrazoável. Se a ideia é a de haver paralelo sensato a ser traçado entre aqueles que fazem as corporações lucrar e aqueles que prosperam em estados escravos e campos de concentração, encontro aqui muita coisa contra a qual protestar. Sei ser esse um argumento de reductio ad absurdum, mas ele parece fatalmente falho mesmo em sua concepção fundamental. Um consumidor que entra num Wal-Mart e compra um novo estéreo e CD poderia estar em situação muito melhor se o estado não impusesse barreiras protecionistas a fabricantes estrangeiros de eletrônicos, não aumentasse, por meio do copyright, o custo das músicas gravadas, e não impusesse uma centena de outros custos ao comprador. Entretanto, dificilmente este é vítima da troca ela própria. Ele pode escolher não comprar esses bens em absoluto, e ainda assim passar muito bem no mundo. Ele está realmente escolhendo dar seu dinheiro para as corporações, por mais falha a estrutura subjacente da economia. Além disso, embora qualquer dada corporação possa beneficiar-se de intervenção do estado, pode igualmente sofrer.

Para aplicar a analogia de Carson, se o cliente do Wal-Mart é o homem cujos dentes estão sendo extraídos em Auschwitz, o Wal-Mart não é o sádico nazista que está procedendo à extração – é o negociante que vendeu-lhe os dentes.

Aqui ele deixa escapar a questão substantiva. Não se tratou, em absoluto, de uma “analogia.” Foi — como ele próprio reconhece logo num parágrafo antes — reductio ad absurdum. São duas coisas muito diferentes. Meu intento foi destacar a estupidez da implicação de Romney de que um sistema não é explorador caso os beneficiários dele sejam seres humanos. Todo sistema de exploração da história humana, por definição, beneficiou seres humanos. A classe dominante, em todo sistema de exploração, era composta de seres humanos. Pode-se demolir a tentativa de Romney de argumentar que as corporações são boas porque “o dinheiro vai para pessoas” mediante simplesmente listar-se as piores pessoas da história; se um sistema não for explorador por seus beneficiários serem todos pessoas, por mais corrompidas, então nenhum sistema na história foi jamais explorador.

Quanto aos outros pontos ensanduichados nessa citação, já questionei a importância que Gregory atribui ao fato de os consumidores escolherem “livremente” o mal menor num um âmbito restrito de alternativas.

E a asserção finória de que dada corporação poderia sofrer tanto quanto beneficiar-se da intervenção do estado é notável prestidigitação para impingir uma ideia cambeta. Uma formiga pode em tese chicotear um elefante. Eu porém aposto meu dinheiro no elefante.

Concordo com que a personalidade corporativa possa colocar problemas e que apenas indivíduos têm direitos…. Carson, porém, parece estar indo muito além em sua crítica, não simplesmente questionando a categorização de ficções corporativas como “pessoas,” mas em realidade concordando com que elas constituem pessoas quando julga com severidade a condição ética e o papel produtivo dessas pessoas objeto de discussão.

Em realidade, não assumo posição, nem num sentido nem no outro, no tocante à questão da personalidade corporativa — isto é, quanto ao fato da corporação ser legalmente considerada uma pessoa separada e distinta dos acionistas separada ou coletivamente — na coluna que Gregory critica. A tirada de Romney de que “corporações são pessoas,” a despeito de toda a importância atribuída a essas palavras na blogosfera liberal/progressista, nada teve a ver com a questão da personalidade corporativa. Ele estava, antes, aludindo à tese — popular nos anos noventa — do “capitalismo do povo” ou “socialismo de fundos de pensão.”  O dinheiro que as corporações ganham é bom, disse Romney, porque ele todo vai para pessoas. Esse — e apenas esse — foi o sentido em que ataquei a declaração de que “corporações são pessoas.”

Dependem lucros corporativos amiúde de intervenção do estado? Claro que sim. Eles não têm, contudo, necessariamente caráter de exploração. Eles certamente não se fazem sempre a expensas de consumidores e trabalhadores. Nós atores do mercado, mesmo um mercado corrompido pelo envolvimento do estado, nem sempre recaímos nitidamente nessas categorias de sermos consumidores e trabalhadores ou beneficiários corporativos. E muitas pessoas que lucram de empreendimentos corporativos fazem-no correndo grande risco, colocando tudo o que têm em jogo, sem o que o empreendendorismo e portanto crescimento econômico e portanto a própria civilização seriam impossíveis. Seguramente as grandes empresas têm prosperado graças ao estado. Eu próprio já expus essa ideia muitas vezes…. Contudo, o apoio do estado não é elemento indispensável dos lucros corporativos, nem são todas as corporações, mesmo em nosso mundo, tomando tudo em consideração, instituições predatórias cujos ganhos vêm sempre a expensas de trabalhadores e consumidores.

Acredito que a grande maioria das corporações oligopolistas, em mercados onde um punhado de firmas controla mais da metade da fatia de mercado, em verdade ganha a expensas de trabalhadores e consumidores.

O apoio do estado poderá não ser indispensável para que ocorra lucro enquanto tal. Haveria seguramente lucro empresarial do tipo que Gregory descreve, advindo àqueles que recebem retornos maiores do que marginais mediante serem os primeiros a perceber e atender a alguma necessidade não atendida, ou os primeiros a chegar ao mercado com alguma inovação. Tais lucros, porém, seriam efêmeros, e estariam sempre num processo de serem levados a zero por novos entrantes no mercado.

E na medida em que a taxa de retorno sobre o capital e a terra no mercado é maior do que seu valor natural, em decorrência de escassez artificial e direitos artificiais de propriedade feitos valer pelo estado, toda empresa que goza de taxa de retorno mais elevada como resultado de privilégio coercitivamente imposto é objetivamente exploradora. Na medida em que as firmas de negócios nos setores dominantes da economia são maiores e em menor número, e os preços mais inelásticos do que seriam em situação diferente, os superlucros extraídos dos consumidores por meio de trocas iníquas têm objetivamente caráter de exploração.

No final, as pessoas que optam por comprar das corporações ou por trabalhar para elas, quando de fato há alternativas disponíveis, fazem-no porque estão interessadas em beneficiar-se a si próprias. Num mercado verdadeiramente livre, certamente muito mais boas alternativas estariam disponíveis. Isso não significa, porém, que as escolhas econômicas que as pessoas realmente fazem em nosso falho mundo tenham caráter de exploração ou de opressão.

Claro que significa. Se o leque de alternativas é menor do que seria num livre mercado e as alternativas mais satisfatórias do ponto de vista dos trabalhadores e consumidores forem tiradas da mesa, e os lucros corporativos e os salários dos gerentes forem maiores do que seriam em outra situação como resultado desse leque restrito, então — independentemente de existirem ou não ainda algumas alternativas — a utilidade reduzida que resulta de trabalhadores e consumidores escolherem menos do que alternativas ótimas tem caráter de exploração e de opressão.

Uma pessoa pode melhorar de situação graças a uma troca e, ainda assim, estar sendo explorada. Por sua própria natureza, repetindo, o preço de monopólio alcança a mais alta quantia que o consumidor tem condição de pagar e ainda obter utilidade bastante para que a troca valha a pena.

Gregory realça muito minha defesa (defesa que considerei bastante insatisfatória à época) dos professores de escola pública no contexto da controvérsia de Scott Walker em Wisconsin.

Contudo, mesmo sem saber exatamente como seria uma sociedade livre, é difícil para mim ver com que base libertária Carson se mostra mais disposto a humanizar professores de escolas públicas do que beneficiários corporativos…. A quantidade de privilégio estatal envolvida em escorar a mamata da doutrinação das crianças é seguramente comparável, se não exceder de longe, à implicada no caso da corporação média.

Vejo a aliança entre as grandes empresas e o governo hipertrofiado como estruturalmente central, como característica definidora, de nosso sistema político-econômico. A “Elite de Poder” que gere a conexão de estado, capital financeiro e gerência corporativa ocupa a mesma posição, no presente sistema, que os senhores de terras ocupavam há setecentos anos. O sistema de educação pública é em grande parte um componente de segundo nível desse sistema.

A diferença é a seguinte: Os professores de escola pública estão desempenhando uma função — educação — que, pelo menos sob alguns aspectos, existiriam mesmo numa sociedade livre. E estão desempenhando-a num contexto no qual o estado em grande parte açambarcou a função e cerceou alternativas. Numa sociedade na qual o maior tributo local que a maioria das pessoas paga é um tributo sobre a propriedade para financiar as escolas, a maioria das pessoas mandará os filhos para escolas públicas como opção padrão. Assim, aqueles que desejem ensinar mas gostariam de fazê-lo numa estrutura não estatal deparam-se com seu leque de alternativas grande e artificialmente reduzido, em comparação com as oportunidades no sistema de propriedade do estado. Embora a redução de alternativas não seja tão grande em grau, é a mesma, em espécie, que a enfrentada por trabalhadores em empresas estatais no antigo bloco soviético.

Vejo professores e bombeiros, em considerável medida, como pessoas que desempenham funções que seriam legítimas em alguma forma de sociedade sem estado, e desempenhando-as diante da necessidade de tornar o melhor possível o sistema estatista. As profissões deles podem ser formalmente privilegiadas, mas é uma posição de priilégio secundária, subordinada e útil.

Em contraste, os rentistas e gerentes graduados que vivem de lucros corporativos não estão tornando a melhor possível uma situação ruim que não criaram, nem se encontram em posição de privilégio secundária. Encontram-se no cerne de uma classe dominante corporativa, e a classe dominante corporativa tem condições antes de criar do que de utilizar o leque de alternativas. O sistema escolar público foi criado como meio visante a um fim determinado pela natureza da classe dominante: desde seus primeiros dias, foi delineado precipuamente pelas necessidades dos empregadores de trabalhadores dóceis, obedientes e treinados.

Gregory poderia igualmente argumentar que o padre da paróquia era tão privilegiado quanto o nobre que vivia à custa de rents de províncias inteiras, porque era pago com dízimos. O privilégio, contudo, recebido pelo pároco da vila era, do mesmo modo que o do professor de escola pública, secundário e útil. Em ambos os casos, o recebedor recebe algumas migalhas da mesa em troca de ajudar a promover os privilégios principais do primeiro nível da classe dominante — a classe para benefício da qual o sistema existe.

Acho que Gregory é muito mais pluralista do que eu quando o assunto é análise de classes. Assim como David Friedman, ele vê a classe dominante como um feixe fortuito de interesses que por acaso se vinculou ao estado, em vez de ver uma coalização coerente. Como escreveu Friedman em O Maquinário da Liberdade (PDF):

Parece mais razoável supor não existir nenhuma classe dominante, e sermos governados, antes, por uma miríade de quadrilhas em conflito, constantemente engajadas em furtar umas das outras para grande empobrecimento de seus próprios membros, bem como do restante de nós.

Assim somos todos, tanto o camponês quanto o senhorio, vítimas do estatismo, e deveríamos simplesmente esquecer o passado. Ou, como poderia dizer Homer Simpson, “…podemos postar-nos aqui e ficar para sempre tentando descobrir… quem se esqueceu de apanhar quem. Vamos, porém, simplesmente dizer que estávamos ambos errados, e pronto. E agora, que tal um abraço?”

Murray Rothbard, por outro lado, acreditava — na descrição de Roderick Long — que a classe dominante era

um grupo principal que conseguiu uma posição de hegemonia estrutural, um grupo fundamental para a consolidação e a crise de classes na economia política contemporânea. A abordagem de Rothbard do problema é, de fato, altamente dialética em sua compreensão da dinâmica histórica, política, econômica e social de classes.

Gregory também objeta a esta passagem de minha coluna.

[L]ogo antes de eu ouvir falar da última mancada de Romney, estava lendo a respeito de um estudo do psicólogo Dacher Keltner. A experiência de vida dos ricos, diz ele, torna-os menos empáticos e mais egoístas do que as pessoas comuns. Parte disso é obtusidade deliberada; legitimar ideologias é algo que não apenas habitua os explorados a levar na cabeça como também permite que os exploradores durmam à noite dizendo para si próprios que os pobres realmente merecem.

Os ricos justificam suas relações com outras classes sociais com a ajuda da ideologia estadunidensista, por meio da qual exalçam a percepção de seu próprio entranhado individualismo e veem sua riqueza como resultado de caráter: “Eles acham que o sucesso econômico e resultados políticos, e resultados pessoais, têm a ver com comportamento individual, com uma boa ética de trabalho….”

Em outras palavras, a ideologia espúria de “livre mercado” — por oposição à genuína — é o ópio das elites.

Ele objeta a essa passagem, primeiro, com base em ela guardar alguma semelhança com “o polilogismo marxista que Ludwig von Mises refuta cabalmente em suas brilhantes obras, inclusive Ação Humana.”

“A ideologia estadunidensista,” argumenta Carson, repercute nas pessoas com base na classe, em vez de em princípios filosóficos de apelo potencialmente universal. Ele não diz que a classe determina o raciocínio filosófico de uma pessoa, mas passa perto.

Não acho que passe perto em absoluto, a menos que qualquer sugestão de que grupos com experiências sociais comuns tendam a filtrar a realidade de maneiras comuns seja “polilogista.” Isso me bate como algo do tipo reação automática, afim de apelos reflexivos a “individualismo metodológico” evocados a partir de certos arraiais quando me engajo em análise de classes. Não acredito que Gregory, ou qualquer outra pessoa, aplique monologismo e individualismo metodológico tão estritamente de alto a baixo quanto o faz nos casos que seleciona para atenção negativa. Uma pessoa pensante simplesmente não poderia fazer isso sem desvincular-se completamente do pensamento de senso comum.

De minha parte, acho que Carson não é preciso, isso se não estiver totalmente errado. Muitos estadunidenses mais pobres compram ideologia vulgar de livre mercado, muitas pessoas ricas denunciam o livre mercado — ou o genuíno ou sua contrafação — o tempo todo. Pessoas pobres votam nos Republicanos para protegerem-se do “socialismo.” E há aqueles, inclusive eu, que se opõem veementemente ao corporatismo e apesar disso ainda o preferem ao socialismo de estado amiúde advogado pela maioria das facções da esquerda. Enquanto isso, há cerca de meia dúzia de anarquistas profusamente ricos que me vêm à mente cujo radicalismo de mercado é positivamente genuíno. E então há os socialistas ricos, e os socialistas pobres, e tudo o que vem no meio. Ademais, Romney, se formos ler o pensamento dele como Carson parece estar fazendo, provavelmente não acredita em nada de sua própria retórica. Ele não está defendendo “ideologia espúria de ‘livre mercado’” para dormir melhor à noite — e sim para ganhar votos.

Sem dúvida. Eis porque eu disse que “legitimar ideologias é algo que não apenas habitua os explorados a levar na cabeça como também permite que os exploradores durmam à noite dizendo para si próprios que os pobres realmente merecem.[ênfase acrescentada].” A mesma ideologia hegemônica pode desempenhar diferentes funções para diferentes classes. Já citei — muitas vezes — o dito de Stephen Biko segundo o qual a mais poderosa arma nas mãos do opressor é a mente do oprimido.

Mais importante, porém: é um equívoco tomar esse caminho ao criticar os pontos de vista de alguém. Se Romney está errado em humanizar corporações do modo como o fez, e não acredito que o ponto de vista dele seja nem de perto tão trivial quanto Carson acha, isso não é necessariamente um reflexo da classe à qual pertence Romney. Essa maneira marxiana de olhar o mundo é análise teórica pobre. Já ouvi pessoas de todos os pontos do espectro econômico parecerem com Romney falando acerca das corporações.

De novo, sem dúvida. Não seria lá grande ideologia legitimadora se não tapeasse os dominados para aceitarem os interesses de seus dominadores como legítimos, além de renovar a confiança dos dominantes em sua própria legitimidade. Eis porque podem-se ver turbas sagradas uivantes de membros do Partido do Chá arrebanhadas em considerável proporção a partir dos trabalhadores pobres, as quais sinceramente acreditam estar sendo exploradas principalmente pela ACORN(*) e seu eleitorado de pessoas que “nem sequer pagam quaisquer tributos.” (* Sociedade de proteção a famílias de baixa renda. Ver Wikipedia.)

Não faz tanto tempo que o sistema de racismo dividir-para-dominar, que servia precipuamente ao propósito principal de tornar tanto pretos pobres quanto brancos pobres mais fáceis de explorar, era entusiasticamente apoiado por caipiras brancos miseráveis na crença sincera de que tinham interesse compartilhado na “pureza racial” em comum com o cara da mansão sobre a colina dono de metade do condado. Enquanto isso, o sujeito da mansão e seus amigos da pequena nobreza local bebericavam seus drinques com hortelã morrendo de rir da ingenuidade do capira vestido com camiseta sem manga.

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Artigo original afixado por Kevin Carson em 30 de agosto de 2011.

Traduzido do inglês por Murilo Otávio Rodrigues Paes Leme.