Não, o capitalismo não nos está tornando mais e mais ricos

Se você lê publicações libertárias de direita com frequência, provavelmente já viu um desses artigos estúpidos que falam sobre como o capitalismo está tornando até os mais pobres tão ricos quanto um rei medieval. Por exemplo, Calvin Beisner escreve: “Não importa o quão rico você tenha sido 150 anos atrás, você não teria ar condicionado ou bebidas geladas durante o verão. (…) Não poderia tirar ou ver fotografias, escutar músicas gravadas ou assistir (…) filmes” (“Material Progress Over the Past Millennium”, FEE, 1 de novembro, 1999). Há muito tempo esses artigos me incomodam por ignorar o aumento dos custos de moradia e — talvez mais importante — o aumento da precariedade de grande parte da classe trabalhadora. Finalmente alguém na mídia convencional — no Washington Post, ainda por cima — está apontando para esse fato (Christopher Ingraham, “The stuff we really need is getting expensive. Other stuff is getting cheaper”, 17 de agosto).

Sim, computadores, smartphones e TVs de tela grande estão ficando muito mais baratos. Porém, grande parte das coisas mais essenciais não está:

“Desde 1996, os preços da alimentação e moradia aumentaram cerca de 60%, mais do que a inflação. Os custos com saúde e cuidados com crianças duplicaram. Preços de livros-texto e educação superior quase triplicaram. Ao longo das últimas décadas, esses preços têm aumentado muito mais rapidamente do que a taxa de inflação.”

E para uma boa parte da classe trabalhadora, a segurança empregatícia tem se tornado coisa do passado. Os setores que mais crescem no mercado de trabalho oferecem empregos precários “terceirizados” onde há pouca garantia de trabalho no próximo ano, no próximo mês ou até na próxima semana. E a precariedade está associada à fragilidade financeira. Como Neal Gabler mostra em The Atlantic (maio de 2016), “muitos americanos de classe média vivem de contracheque em contracheque”. A maior parte dos americanos não tem qualquer poupança para lidar com consertos de carros ou outras despesas inesperadas, mesmo que sejam de algumas centenas de dólares.

A precariedade inclui não apenas a incerteza a respeito das necessidades básicas de renda, mas também o crescente endividamento. As rendas estagnadas da classe trabalhadora têm intensificado as já perturbadoras tendências do capitalismo ao subconsumo e à capacidade ociosa. O aumento do endividamento dos consumidores tem sido a maneira pela qual o sistema continua a gerar demanda.

As coisas mais essenciais à vida e à segurança material básica também são aquilo que os capitalistas, em aliança com o estado, tiveram maior êxito em cercar com direitos de propriedade artificial, extraindo lucros exploratórios. O monopólio imobiliário — através do qual a terra é acumulada, cercada e tirada de uso ou arrendada — é o exemplo mais óbvio.

A indústria da saúde está recheada de patentes de medicamentos, monopólios de licenciamento que restrigem o número de profissionais, cadeias hospitalares protegidas por barreiras estatais, cartéis de credenciamento que aumentam irracionalmente os custos de capital e salários inchados para posições de gerência. O próprio setor é um cartel, mas a principal fonte da inflação de custos está na provisão de serviços, que é afetada por diversos monopólios que tornam qualquer procedimento nos Estados Unidos mais caros do que em qualquer outro lugar do mundo.

O ensino superior se tornou uma necessidade principalmente por conta de esforços cooperativos do estado, dos empregadores e do setor educacional para inflar os requisitos de credenciamento para o emprego. Dada essa necessidade artificial e a disposição da indústria de empréstimos estudantis a seduzir novas vítimas, a educação superior tira proveito de tributos cada vez mais altos que fluem de sua clientela cativa e despejam bilhões de dólares em projetos imobiliários inúteis e aumentam a quantidade e o valor dos salários de administradores muito mais do que o de professores e dos funcionários de apoio. Os estudantes, ao mesmo tempo, entram numa vida de servidão por dívida para pagar seus estudos, onde provavelmente passarão por anos de estágios não pagos até chegarem a uma posição administrativa de baixo nível.

Mesmo no caso das coisas que de fato estão ficando mais baratas, o preço decrescente ainda é questionável. A maior parte do preço dos bens eletrônicos não vem do trabalho e dos insumos materiais, mas das rendas embutidas pelos monopólios de patentes e copyrights. E o acesso à internet ocorre através de canais de dados controlados por monopólios de empresas de telecomunicações que operam de mãos dadas com o estado. Logo, as coisas de fato estão ficando mais baratas — mas não tão baratas quanto deveriam. E a diferença vai para os bolsos dos rentistas parasitários.

Não, Henrique VIII jamais teria tido um ar condicionado ou computador. Mas ele também não gastava metade de sua renda mensal no aluguel, vivendo a um contracheque de distância do despejo.

É hora de os libertários pararem falar sobre como as coisas estão maravilhosas sob o jugo dos capitalistas e latifundiários que se aliaram ao estado. Chegou a hora de atacar essa relação de poder. É necessário abolir todos os monopólios artificiais que tornam as necessidades básicas da vida mais caras e tornam a produtividade de nosso intelecto coletivo uma fonte de rendimentos para a elite.

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