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Je Suis #ParasitaDePesquisa
O artigo a seguir foi traduzido para o português a partir do original em inglês, escrito por Kevin Carson.

Em um editorial para o New England Journal of Medicine (“Data Sharing,” de 21 de janeiro de 2016), Dan Longo e Jeffrey Drazen cunharam um interessante novo termo: “parasita de pesquisa”. Em tese, os autores dizem, compartilhamento de dados é maravilhoso. Mas, na prática, mostra-se uma uma dessas belas teorias que simplesmente não funcionam no mundo real. “O primeiro receio é o de que alguém não envolvido na geração e coleta dos dados possa não entender as escolhas feitas ao se definir os parâmetros”.

Uma preocupação ainda maior, contudo, é a possibilidade “de que uma nova classe de pesquisador surja — pessoas que não tem nada a ver com o planejamento e a execução do estudo, mas que usam a informação de outro grupo para seus próprios propósitos, possivelmente roubando a produtividade proporcionada pelos coletores de dados ou mesmo usando os dados para tentar refutar o que os investigadores originais tinham postulado. Há o receio entre alguns pesquisadores de ponta de que o sistema seja tomado por aquilo que alguns pesquisadores têm caracterizado como ‘parasita de pesquisa’”.

Colocada em uma linguagem levemente menos antagônica, a expressão “parasita de pesquisa” parece incluir tanto pessoas que tentam refutar as descobertas de outros pesquisadores quanto pessoas que tentam desenvolver algo a partir destas descobertas sem a autorização dos pesquisadores originais. Em outras palavras, parasitas de pesquisa são pessoas que fazem o que se costumava chamar de “ciência”.

Desde os primórdios da ciência experimental ocidental (como ilustra a lenda do teste de Galileu da Física de Aristóteles do arremesso de bolas da Torre de Pisa), seu ethos se pauta pela total transparência e pelo livre compartilhamento da informação. O lema da Royal Society, que remonta à comunidade científica do século XVII, era “nullus in verba”: “não aceite a palavra de ninguém”.

 Este ethos científico de código aberto foi descrito pelo escritor de ficção científica Kim Stanley Robinson em Blue Mars:

Tão público, tão explícito. (…) E para cada problema na ciência, as pessoas que realmente estivessem no limiar progredindo constituíam um grupo especial, de umas poucas centenas no máximo — frequentemente com um grupo central de inovadores que não era maior do que uma dúzia de pessoas ao todo — inventando um novo jargão do dialeto deles para transmitir suas novas ideias, discutindo resultados, sugerindo novos caminhos de investigação, compartilhando trabalho para os outros em laboratórios, se encontrando em conferências especialmente dedicadas ao assunto — conversando uns com os outros de todos os modos possíveis. E havia laboratórios e conferências estimulando o trabalho, bem como diálogos de pessoas que entendiam as discussões. (…)

E toda esta vasta estrutura articulada de cultura estava aberta, acessível a qualquer um que quisesse entrar, que desejasse e se dispusesse a trabalhar; não havia segredos, não havia círculos fechados. (…)

A comunidade científica internacional, desde seus primórdios, se caracteriza pelo livre compartilhamento do conhecimento e por sua disponibilidade ao teste e ao desenvolvimento por outros, sem levar em conta fronteiras nacionais.

Nesse cenário, o temor de Longo e Drazen de que haja um “roubo da produção proporcionada pelos coletores de dados” ganha especial relevância. O que eles defendem é uma propriedade do conhecimento, ou, mais exatamente, um direito exclusivo ao proveito desse conhecimento por parte daqueles que o detém. Barreiras corporativas são o equivalente mais próximo, na economia globalizada de hoje, às barreiras nacionais. E o cercamento corporativo do conhecimento — dos dados de pesquisa — é hoje uma abominação tão grande contra a liberdade de investigação quanto o é o controle da pesquisa pelo complexo industrial-militar — ou quanto o foi a construção de barreiras nacionais contra a liberdade de conhecimento na época de Newton.

Há uma expressão na língua inglesa — “Steam Engine Time” (“hora do motor a vapor”, em tradução literal) — para descrever a tendência de que invenções de uma época, como o motor a vapor e o rádio, sejam desenvolvidas ao mesmo tempo e de modo independente por muitas pessoas. O motivo é que, com todos os pré-requisitos ou elementos constitutivos para a invenção surgir, a existência de um corpo de conhecimento difuso tem força produtiva por si só. O que está em curso é o que alguns chamam de “Efeito Ombros de Gigantes”: a dependência que novas descobertas têm do conhecimento prévio, ou a fertilidade das ideias quando elas se conectam mutuamente e dão origem a novas combinações de ideias maiores do que a soma das partes.

Não se engane: o que Longo e Drazen estão defendendo é a criação de pedágios para impedir o compartilhamento e a construção do conhecimento. É o uso da autoridade coercitiva estatal para fazer cumprir direitos de “propriedade” sobre o conhecimento, de modo que instituições de pesquisa proprietárias como o governo e os laboratórios corporativos possam impor tributo ao uso produtivo do conhecimento adquirido dentro de seus muros. É um golpe mortal na produção do conhecimento difuso, que está no âmago da ciência.

Traduzido por Diogo Ladeira Sales.

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