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Jane Cobden e a continuação do trabalho de seu pai
The following article is translated into Portuguese from the English original, written by Sheldon Richman

Entre os libertários e liberais clássicos, o nome de Richard Cobden (1804–1865) evoca elogios e sentimentos de admiração. Suas atividades — e sucessos — em nome da liberdade, do livre mercado e da redução do poder do estado são lendárias. Cofundou, juntamente com John Bright, a Anti-Corn Law League, que fez uma campanha bem sucedida pela abolição das tarifas sobre a importação de grãos na Inglaterra. Essas restrições comerciais encareciam a comida para a classe trabalhadora e enriqueciam a aristocracia latifundiária do país.

Mas Cobden não enxergava o livre comércio num vácuo. Ele e Bright associavam essa causa a sua campanha contra a guerra e o imperalismo, alegando que o comércio entre os povos do mundo era não só benéfico economicamente, mas também conducente à paz mundial. Ao contrário de outros liberais de sua época (e desde então), Cobden entendia que o livre comércio é um comércio livre de qualquer interferência governamental, mesmo quando o governo emprega políticas supostamente pró-comercio. Como ele disse (e em uma de minhas citações preferidas):

“Aqueles que pretendem influenciar pela força o comércio no mundo se esquecem que as questões comerciais, como as questões da consciência, se alteram fundamentalmente se tocadas pela mão da violência; como a fé, se forçada, deixa de ser religião e se torna hipocrisia, o comércio se torna roubo se coagido por armas de guerra.”

Infelizmente, essa brilhante observação passou despercebida pela maioria dos defensores do comércio internacional, especialmente nos Estados Unidos desde sua fundação, que viam no governo uma maneira de abrir os mercados internacionais — à força, se necessário.

O legado de Cobden é muito admirado pelos libertários, mas há uma parte dele que é amplamente desconhecido (eu mesmo acabei de descobri-lo, graças a meu amigo Gary Chartier). Uma das filhas de Cobden, Emma Jane Catherine Cobden (mais tarde assumindo o nome Unwin após o casamento com o editor Thomas Fisher Unwin) continuou seu trabalho. Tendo nascido em 1851, ela era uma ativista liberal digna da distinção de seu pai.

O artigo da Wikipedia sobre Jane Cobden, que eu uso aqui, depende muito de duas fontes: o artigo de Anthony Hower no The Oxford Dictionary of National Biography e no artigo de Sarah Richardson “‘You Know Your Father’s Heart’: The Cobden Sisterhood and the Legacy of Richard Cobden” no livro Re-thinking Ninteenth-century Liberalism, editado pelo próprio Howe e por Simon Morgan.

“Desde cedo, Jane Cobden, junto com suas duas irmãs, procurou proteger e desenvolver o legado de seu pai”, de acordo com a Wikipedia. “Ela permaneceu comprometida durante toda a vida a questões ‘cobdenistas’ como a reforma agrária, a paz e a justiça social e era uma forte defensora da independência irlandesa da Grã-Bretanha.”

O triuvirato reforma agrária, paz e justiça social soa esquerdista hoje em dia, mas isso ocorre porque o movimento liberal e libertário a partir dos anos 1930 foi tomado por uma aliança de conveniência com a direita americana conservadora e racionalista que, como os social-democratas, também se opunha ao New Deal e (na época, mas não atualmente) ao militarismo. Essa aliança, que se fortaleceu nos anos 1950 devido à oposição comum ao comunismo soviético, teve o efeito infeliz de negar aos libertários acesso a sua verdadeira herança.

Essa herança incluía um foco no conflito de classes e nas violações de direitos inerentes ao mercantilismo (protecionismo, corporativismo), ao controle governamental da distribuição de terras e muitas outras atividades estatais. O abandono dos libertários de algumas dessas preocupações na segunda metade do século 20 efetivamente as empurrou para a esquerda antimercado. Hoje, um número cada vez maior de liberais e libertários deseja retomá-las.

Jane Cobden também era uma voz importante na defesa do voto feminino. A citação na Wikipedia diz o seguinte: “A batalha pelo sufrágio feminino, em igualdade com os homens, com que ela se comprometeu em 1875, foi sua causa mais duradoura”. Cobden foi membro do Partido Liberal (que não era tão liberal assim) e “permaneceu no partido, apesar de suas profundas discordâncias com sua posição sobre a questão do sufrágio (os liberais partidaristas tendiam a ser favoráveis ao voto feminino, mas tinham outras prioridades). Os libertários de sua época, tanto na Inglaterra quanto nos Estados Unidos, também incluíram a igualdade legal e social das mulheres como parte expressiva de seus programas políticos (alguns, como o americano Lysander Spooner, pensavam que ninguém deveria ter o direito de votar, já que se opunham a soluções estatais aos problemas).

Em 1888, Jane Cobden e outras mulheres liberais concorreram a assentos no Conselho do Condado de Londres. Foi uma estratégia controversa, porque até então as mulheres não podiam assumir postos no governo e nem todos interpretavam que o Local Government Act de 1888 permitisse. Ela e Margaret Sandhurst venceram eleições em 1889. Sandhurst foi desqualificada após uma contestação de seu concorrente derrotado, mas Cobden não foi.

“Mesmo assim, sua posição permanecia precária, particularmente depois que uma das tentativas do parlamento para legalizar os direitos das mulheres para servirem como conselheiras de condado ganhou pouca tração. Uma provisão da lei eleitoral vigente dizia que qualquer pessoa que fosse eleita, mesmo que inadequadamente, não poderia ser contestada após doze meses e, por isso, Cobden não compareceu a reuniões de conselho e de comitês até fevereiro de 1890. Quando os doze meses da legislação passaram sem contestação, ela assumiu todas as suas tarefas.”

Mas seus problemas não haviam acabado. Um membro conservador a levou aos tribunais, alegando que ela havia sido eleita ilegalmente, que seus votos no conselho portanto eram ilegais e que, assim, ela deveria ser sujeita a multas pesadas. O tribunal concordou, mas um recurso diminuiu a multa a um valor nominal. Seus aliados esperavam que ela fosse para a prisão em vez de pagar a multa, mas ela não seguiu seus conselhos.

“Depois de uma nova tentativa para resolver a situação ter falhado, ela permaneceu em silêncio durante os meses restantes de seu mandato como conselheira, sem falar ou votar, e não tentou a reeleição em 1892.”

Em 1892, Cobden se casou com Unwin (cuja editora publicava livros de Ibsen, Nietzsche, H.G. Wells e Somerset Maugham), quando, de acordo com o artigo da Wikipedia:

“Jane Cobden passou a se interessar por assuntos internacionais, como os direitos das populações nativas em territórios coloniais. Por sua posição anti-imperialista, ela se opôs à Guerra dos Bôeres de 1899-1902 e, após o estabelecimento da União da África do Sul em 1910, atacou o estabelecimento de políticas segregacionistas no país. Nos anos anteriores à Primeira Guerra Mundial, Cobden se opôs à cruzada de Joseph Chamberlain pela reforma tarifária, em defesa dos princípios de livre comércio de seu pai, e foi importante no ressurgimento da pauta da reforma agrária dentro do Partido Liberal.”

Novamente, ela carregava a bandeira das campanhas antiguerra, anti-imperialismo e a favor do livre comércio de seu pai, juntamente com sua preocupação com a igualdade social e legal dos indivíduos. A Wikipedia cita Richard Cobden em 1848:

“Quase todos os crimes e ultrajes na Irlanda estão associados à ocupação e à propriedade das terras. (…) Se eu tivesse o poder, tornaria os residentes os proprietários do solo, repartindo as grandes propriedades. Em outras palavras, eu daria a Irlanda aos irlandeses.”

Ele também escreveu:

“Até hoje, só se dependeu de baionetas e remendos na Irlanda. O sistema feudal pesa sobre aquele país de uma maneira que, via de regra, somente estrangeiros podem entender, porque temos um espírito feudal em nosso caráter inglês. Jamais conversei com um economista francês ou italiano que não mencionasse o fato de grandes massas de terras são propriedades dos descendentes de conquistadores, que viviam no exterior e assim perpetuavam a memória da conquista e da opressão, enquanto os nativos ao mesmo se viam privados da posse das propriedades de terras e interessados na paz nacional.”

Aqui, Cobden formulava uma ideia de John Locke: o critério para a propriedade de um pedaço de terra não é a conquista, mas o trabalho.

Jane Cobden, assim, “abraçou a causa do domínio doméstico pelos irlandeses — sobre o qual ela falava com frequência”. Ela também “era uma forte apoiadora da Land League“, que buscava “permitir que os fazendeiros arrendatários se tornassem donos das terras em que trabalhavam”.

“Depois de visitar a Irlanda com a Missão das Mulheres, em 1887”, continua sua biografia na Wikipedia, “ela subsequentemente usou as páginas da imprensa inglesa para expor o mau tratamento dos arrendatários despejados”.

Refletindo seu interesse na reforma agrária, Jane Cobden publicou o livro The Land Hunger: Life Under Monopoly, em 1913.

Junto com essas causas, ela mantinha um forte interesse na paixão de seu pai, o livre comércio.

“Em 1904, o ano do centenário de Richard Cobden, ela publicou (e escreveu uma introdução para) o livro The Hungry Forties: Life under Bread Tax, Descriptive Leteters and Other Testimonies from Contemporary Witnesses, descrito por Anthony Howe em um artigo biográfico como um tratado “evocativo e brilhante”. Foi um de vários livros e panfletos sobre o livre comércios editados pela editora Fisher Unwin que, junto com eventos celebratórios, ajudaram a colocar o livre comércio como uma das mais importantes causas da era eduardiana.”

Com a chegada da Primeira Guerra Mundial em 1914:

“Cobden se tornou cada vez mais envolvida nas questões sul-africanas. Apoiou a campanha de Solomon Plaatje contra o segregacionista Natives’ Land Act de 1913, uma posição que levou, em 1917, a sua remoção do comitê da Sociedade Anti-Escravagista. A posição da Sociedade era de apoio às políticas de reforma agrária do governo Botha. (…) Cobden manteve seu comprometimento com a causa da liberdade irlandesa e ofereceu ajuda pessoal às vítimas dos Black and Tans durante a Guerra Irlandesa de Independência, de 1919 a 1921.”

Ela passou o final dos anos 1920 e o anos 1930 organizando e dando prosseguimento ao trabalho de seu pai.

Uma história final:

“Em 1920, Cobden deu a Dunford House [a casa da família Cobden em Sussex) à London School of Economics. De acorod com Beatrice Webb, ela logo se arrependeu do presente; Webb escreveu em seu diário no dia 2 de maio de 1923: “A pobre mulher (…) faz reclamações preocupadas se um só arbusto for cortado ou uma só pedra movida, ressentindo-se da animação dos alunos (…), para não mencionar as opiniões de alguns dos professores”. Mais tarde, em 1923, a LSE devolveu a casa a Cobden; em 1928, ela a doou para a Cobden Memorial Association. Com a ajuda do escritor e jornalista Francis Wrigley Hirst e de outros, a causa se tornou um centro de conferências e educação para a defesa das causas cobdenistas tradicionais, como o livre comércio, a paz e a boa vontade. [Grifo meu.]”

Beatrice Webb cofundou a LSE com seu marido Sidney. Ambos eram conhecidos defensores do socialismo estatista e das estratégias assistenciais reformistas conhecidas como fabianismo (além de estarem também entre os vários estatistas que defendiam a eugenia). Podemos imaginar quais opiniões desagradavam Cobden.

Jane Cobden, que morreu aos 96 anos em 1947, ainda tem espaço na cultura moderna. Foi transformada em personagem na série de TV da BBC Ripper Street e seu retrato está na parede da Galeria de Retratos Nacional na Grã-Bretanha.

Traduzido para o português por Erick Vasconcelos.

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