Sobre o valor da teoria do privilégio: Um sumário
The following article is translated into Portuguese from the English original, written by Kevin Carson.

As trocas mútuas são o objetivo do Centro em dois sentidos — nós defendemos uma sociedade baseada na cooperação pacífica e voluntária e buscamos estimular o entendimento através do diálogo contínuo. A série Mutual Exchange dará oportunidades para essa troca de ideias sobre questões que importam para os nossos leitores.

Um ensaio de abertura, deliberadamente provocador, será seguido por respostas de dentro e fora do C4SS. Contribuições e comentários dos leitores são muito bem vindos. A seguinte conversa começa com um artigo de Casey Given, “Qual o sentido de checar seus privilégios?“. Nathan Goodman, Kevin Carson, Casey Given e Cathy Reisenwitz prepararam uma série de artigos que desafiam, exploram e respondem aos temas apresentados no artigo original de Given. Ao longo da próxima semana, o C4SS publicará todas as suas respostas. A série final poderá ser acessada na categoria O sentido do privilégio.

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Ao ler o último artigo de Casey Given em nossa Mutual Exchange sobre o valor da teoria do privilégio, tenho ainda menos confiança que nunca de que ele entenda do que se trata a teoria que ele critica.

Ele continua, absurdamente, a tratar a interseccionalidade como alternativa à teoria do privilégio, quando ela, na verdade, pressupõe a teoria do privilégio e a utiliza como base. Ele continua a se referir à opressão como algo real, apesar do fato de que o privilégio é, por definição, a vantagem relativa de não ser oprimido em comparação àqueles que são. Nas palavras de Cathy Reisenwitz, o privilégio não é nada mais que o fato de que você “entrou na corrida alguns passos na frente” de outra pessoa. Você pode desgostar do termo “privilégio” para descrever esse fenômeno, mas o fato em si é real. E ocorre que o “privilégio” é o termo normalmente utilizado por ativistas sociais.

Eu repito, não importa se o aprendizado sobre o conceito de privilégio e a consideração sobre as formas de privilégio que as pessoas possuem as faz se sentir mal. Às vezes eu me sinto mal quando minha conta bancária cai para zero e eu não tenho ideia de quanto terei que esperar até que meu próximo contracheque chegue, mas as leis da matemática não dependem dos meus sentimentos. Given afirma que a “conscientização sobre os próprios privilegios não acaba com a pobreza ou a opressão sistemáticas”. A conscientização a respeito das leis da gravidade e da balística também é incapaz de levá-lo a Marte, mas ignorá-las e agir como se elas não existissem é garantia de que você nunca chegará lá.

Given também alega que a análise dos privilégios é notória por “coletivizar as pessoas” e a justapõe à interseccionalidade como maneira de “analisar as várias interseções de privilégio e opressão sobre os quais o indivíduo se encontra”. Mas, como o próprio Given sugere aqui, a própria palavra “interseccionalidade” implica que algo está em interseção. Esse algo — como ele admite — são os eixos de privilégio e opressão nos quais se encontram indivíduos específicos. Se a prática da interseccionalidade foi criada por aqueles que utilizam a teoria do privilégio como uma expansão natural daquela teoria e é vista — tanto por seus criadores quanto por Given — como a aplicação das formas interseccionais de privilégio a casos individuais, então é óbvio que a visão do privilégio como “coletivista” e em oposição à interseccionalidade reflete seu fracasso em entender o conceito.

A interseccionalidade é plenamente consistente com a teoria do privilégio porque a teoria do privilégio, quando bem compreendida, náo é uma identidade monolítica ou um valor absoluto. Uma boa comparação são os vários diferenciais positivos e negativos — exaustão, perturbação do moral, esgotamento do combustível ou munição, supressão por artilharias próximas, etc. — que podem ser atribuídos a uma unidade de combate em um dos antigos jogos de tabuleiros em grade como eram produzidos pela Avalon Hill e pela SPI. Aplicar um diferencial específico negativo não significa necessariamente que uma unidade de combate seja mais fraca que outra em termos absolutos, mas significa que ela é muito mais fraca do que seria naturalmente. Um negro de classe alta dentro da hierarquia gerencial corporativa pode ter mais privilégios em termos agregados que uma mulher que trabalha na sala de correspondências, mas sua raça reduz seu diferencial de status em relação ao que ele teria se, por exemplo, as circunstâncias fossem idênticas, a não ser pelo fato de a mulher das correspondências ser negra e o executivo ser um homem branco.

Nesse sentido, a interseccionalidade é um remédio. Mas é um remédio não para o conceito de privilégio, mas para a má compreensão e aplicação da teoria do privilégio que ocorreu a reboque da chamada “política identitária” dos anos 1970. Repetindo: a interseccionalidade é um remédio não para a teoria do privilégio, mas para a politica identitária. Given parece confundir uma com a outra. Havia, de fato, vários problemas com as análises associadas à política identitária dos anos 1970. Elas tratavam as identidades de raça ou gênero como formas absolutas e monolíticas de opressão que se sobressaiam a todo o resto. Nós vemos a sobrevivência de algumas formas desse tipo de pensamento hoje em dia entre feministas radicais com raízes ao feminismo da segunda onda. Algumas feministas brancas de classe média-alta dessa origem argumentam — a sério! — que não podem ser culpadas pela opressão de classe ou de raça, que não possuem privilégios de classe ou raça, que não têm nada a ver com a opressão de trabalhadoras do sexo ou mulheres trans, porque, enquanto mulheres, elas por definição não são capazes de oprimir. O conceito de interseccionalidade foi criado como remédio para esse entendimento errôneo do privilégio. Dessa forma, ele não é uma alternativa à teoria do privilégio, mas sua evolução.

Given expressa perfplexidade pelo fato de que Cathy Reisenwitz, Nathan Goodman e eu parecemos concordar com varias de suas premissas, porém não concordamos com a conclusão que ele tira de que a teoria do privilégio é perniciosa. A razão para esse fato é que suas conclusões não se seguem de suas observações, porque suas observações não se aplicam à teoria do privilégio da maneira que ele imagina.

Na verdade, eu estou igualmente perplexo, dadas algumas afirmações de Given em seu último artigo, que ele continue a discordar de nós. A “mensagem interessante” por trás da ideia de checar seus privilégios, afirma ele, é que os indivíduos devam ter consciência das (e presumivelmente agir de acordo) “opressões por que a pessoa passou em toda a sua vida” e das “vantagens e desvantagens sociais de que desfrutam em sua interação com os outros”. Sim, exatamente. Ter consciência sobre esses fatos e agir de acordo com eles é o que pretende a teoria do privilégio e a interseccionalidade.

Given afirma que são apenas uma “cortesia comum” e “boas maneiras”, mas quer saber? Embora os conceitos e as práticas do ativismo social sejam rejeitados pela direita cultural como se fossem novos, radicais ou exóticos (“politicamente correto”, “polícia do pensamento”, etc), na realidade não são nada senão princípios morais tão antigos quanto a humanidade, aplicados universal e consistentemente.

Traduzido para o português por Erick Vasconcelos.

Free Markets & Capitalism?
Markets Not Capitalism
Organization Theory
Conscience of an Anarchist