Guerra Ideológica: Ensinamentos Para Nós

James Scott descreve o fenômeno geral como “jiujitsu simbólico.” Movimentos proféticos rebeldes em espaços não estatais “apropriam-se de poder, mágica, emblemas e insígnias e carisma institucionais do estado do vale numa espécie de jiujitsu simbólico a fim de atacar o estado.” [145]

E o jiujitsu simbólico tem-se tornado especialmente importante nas guerras ideológicas dos séculos 20 e 21.

Todo grande levante popular contra regime pró-soviético no Leste Europeu depois da Segunda Guerra Mundial formulou-se em termos ideológicos marxistas, e adotou basicamente formas organizacionais comunistas libertárias. Os alemães orientais em 1953, húngaros em 1956, tchecos em 1968 e poloneses em 1981 organizaram conselhos de trabalhadores nas fábricas e propuseram-se como movimento socialista — movimento em luta por poder genuíno dos trabalhadores sobre o estado e a economia — porfiando com uma classe dominante capitalista de estado.

No Centro por uma Sociedade sem Estado, fazemos uso similar de conceitos de livre mercado como arma ideológica contra o poder corporativo. O liberalismo clássico e a economia política clássica foram originariamente, em grande medida, ataques aos interesses de classe estabelecidos dos magnatas grandes proprietários de terras Whig e dos mercantilistas da Grã-Bretanha industrial inicial. Foi apenas depois de os ascendentes capitalistas industriais terem conseguido sua vitória sobre o mais antigo establishment agrário-mercantil e se haverem estabelecido eles próprios como parte da classe dominante que a ideologia do “livre mercado” tornou-se apologética conservadora dos interesses da classe dominante (na fascinante terminologia de Marx, “combatentes caçadores de prêmios contratados” e “economistas políticos vulgares.”).

Sem embargo, mesmo no tempo desde então nunca cessou de haver análise e avaliação crítica detalhada de livre mercado genuinamente radical do capitalismo. Ela se tem expressado no pensamento de Thomas Hodgskin, no Herbert Spencer mais radical, nos anarquistas individualistas estadunidenses (os “Anarquistas de Boston”), e em Henry George e nos críticos radicais do capitalismo georgistas tais como Bolton Hall, Franz Oppenheimer e Ralph Borsodi.

Nós do C4SS nos inserimos muito nessa tradição. Uma das mais poderosas armas contra o neoliberalismo e o domínio corporativo é demonizar interesses das grandes empresas em termos de sua própria retórica de “livre mercado.” Dean Baker faz isso regularmente. Baker critica a retória do “livre comércio” de Tom Friedman mediante ressaltar a real natureza mercantilista dos fajutos “acordos de livre comércio,” no quais a assim chamada “propriedade intelectual” desempenha o mesmo papel protecionista das corporações transnacionais que as tarifas desempenhavam em relação aos antigos trustes industriais nacionais. RFK Jr. regulamente ressalta que toda retória de “livre mercado” oculta uma prática, no mundo real, de externalizar custos para o contribuinte. E nós, da esquerda libertária, que realmente acreditamos em livres mercados, estamos fazendo esse tipo de coisa todo dia.

De acordo com Bryan Register, “a manutenção do poder do estado requer que a população aquiesça quanto às ações do estado. Isso requer o desenvolvimento de hegemonia na sociedade civil.” [146]

Uma das mais poderosas armas de nosso arsenal é a ideologia da classe dominante. Quase nada é tão brutalmente eficaz quanto contrastar a realidade do poder dela com as pretensões da retórica legitimadora de que ela lança mão.

O cinismo das conversas gravadas da Sala Oval da Casa Branca de Nixon foi golpe devastador desferido na reivindicação da transcrição pública de legitimidade e de sólidos princípios morais. Similarmente, a existência mal disfarçada de lojas e hospitais especiais para as elites do partido no bloco socialista solapou profundamente a reivindicação pública do partido de governar no interesse da classe trabalhadora. [147]

O sistema de poder mais eficiente é aquele no qual o exercício efetivo do poder aproxima-se o mais possível da invisibilidade. O ideal é o sistema de poder aparecer para seus súditos tão pouco quanto possível como sistema de poder — no sentido de um sistema requerendo projeto e intervenção humanos — aparecendo antes como espontâneo ou natural. Isso é especialmente verdade da ideologia estadunidense tradicional de “livre empresa,” a qual — como Jurgen Habermas descreve — requer que o capitalismo pareça ter caráter “não planejado, como que natural.” Isso é solapado, no capitalismo tardio, pela crescente necessidade de envolvimento do estado para que a realização do capital ocorra, e de o envolvimento do estado tornar-se progressivamente mais direto e visível.

Na medida em que a relação de classes ela própria tem sido repolitizada e o estado açambarcado tarefas de substituição de mercado, bem como de suplementação de mercado… , a dominação de classe não mais consegue assumir a forma anônima da lei do valor. Pelo contrário, agora depende de constelações factuais de poder se, e como, a produção de valor excedente pode ser garantida por meio do setor público, e como os termos do compromisso de classe serão delineados. Com esse desdobramento, as tendências da crise deslocam-se do sistema econômico para o administrativo. [148]

Quanto mais visível se torne a força, quanto mais o sistema seja visto como extensão da vontade daqueles que o governam, mais sua legitimidade se verá solapada perante a visão do público. E, como observa James Scott, quanto mais sistema seja compelido a recorrer à força escancarada a fim de assegurar obediência, em vez de extrair obediência como reação a estado de coisas natural, menos os valores do sistema serão internalizados — e portanto mais dependente o sistema se tornará de coerção e intimidação abertas para sua estabilidade. [149]

Sistema que dependa de exibições escancaradas de força ou de vigilância constante para coagir a obediência população que não reconheça sua legitimidade tornar-se-á extremamente dispendioso e ineficiente. Eis porque a escravidão era método tão ineficiente de extração de labor excedente. No sul estadunidense, “a cultura semiclandestina dos escravos estimulava e aprovava furtar dos senhores e reprovava  moralmente qualquer escravo que ousasse tornar público tal furto….” [150]

E quando tal deslegitimação e consequente aumento de necessidade de vigilância seja  conjugado com crescente opacidade a vigilância, a situação da classe dominante torna-se com efeito muito perigosa.

Quando a ideologia legitimadora serve para manter o moral da classe dominante e seu espirit de corps, tal contraste pode solapar sua própria coesão. Vinay Gupta argumentou que o estado de segurança capitalista não se pode permitir ser honesto consigo próprio — funcionar com pleno conhecimento de quais são seus verdadeiros objetivos — porque a real natureza desses objetivos é demasiado abominável. Em decorrência, a maior parte dos subalternos dentro do aparato de repressão do estado funciona com venda protetora contra dissonância cognitiva, recorrendo a doutrinas oficiais acerca de promover “paz e liberdade” em todo o mundo para esconder a verdade de impor domínio corporativo mundial por meio de assassínios via aviões não tripulados [drones], estados repressores e esquadrões da morte. Qualquer causa malévola será enfraquecida por dissonância cognitiva entre seus funcionários.

Mediante removermos essa coberta protetora, e expormos a funcionários de nível mais baixo do estado a real natureza do sistema de poder ao qual eles servem, poderemos minar o moral e a coesão do estado de segurança.

A vitória bolchevique em Petrogrado foi selada quanto os Guardas do Palácio de Inverno desertaram. Ao longo de sua história, a instituição militar dos Estados Unidos sempre foi flagelada por soldados atirando acima das cabeças de seus inimigos. Até a esquadrões da morte é preciso fornecer bala de festim, a fim de que cada membro possa convencer-se de não ter sido ele quem matou o prisioneiro. Isso não é apenas história. Como você poderá lembrar, número bastante grande de policiais do Departamento de Polícia de New York telefonou dizendo estar doente no dia em que o “exército de Bloomberg” fechou o bivaque do Parque Zuccotti. Vemos proliferação de grupos tais como os Mantenedores de Promessa e o Ocupem a Instituição Policial cujos membros estão longe de hastear a bandeira de lealdade ao regime.

Nosso lado pode fazer uso de nosso pleno potencial porque podemos confiar em que nossos membros usarão seu próprio juízo sem permissão. Podemos atuar com nossos olhos abertos e com plena consciência da real situação, porque não estamos servindo causa malévola que nos requeira ocultar a verdade de nós próprios. Nossos inimigos, por outro lado, não podem fazê-lo. Exploremos essas vantagens ao máximo. Para citar Gupta:

A implicação é a de que um lado moral – mesmo menor – pode competir com sucesso com Grandes Potências porque terreno moral = coerência e inteligibilidade intelectual. A vantagem estratégica da guerra moral é a capacidade de pensar claramente acerca dos fins [sic]necessários para atingir fim genuinamente justificado….

Isso é importante, embora pareça simples, porque é assimetria moral na atividade de guerra – é motivo para acreditar que os heróis vencerão. Num conflito, o lado que evidencie definir seus objetivos claramente poderá em seguida planejar estratégia para atingi-los. Poderá vencer. Você não conseguirá vencer guerra cujo propósito não consiga definir: os estadunidenses no Iraque definiram lutar com os olhos fechados: narrativa de império. [151]

Pelo contrário: a ideologia oficial é provavelmente mais importante para justificar o poder da classe dominante aos seus próprios olhos do que aos dos dominados. Scott refere-se favoravelmente a argumentos segundo os quais

o efeito ideológico do catolicismo foi… ajudar a unificar a classe dominante feudal, definir seu propósito, e criar uma mortalidade [sic] de família que manteria a propriedade unida….

A importância da ideologia dominante e de suas manifestações para a elite seguramente ajudará a explicar cerimônia política sequer pretendida para consumo pela não elite. [152]

Notes:

145 Scott, A Arte de Não Ser Governado, p. 307.

146 Bryan Register, “Classe, Hegemonia e Ideologia: Abordagem Libertária,” POP Culture: Premissas do Pós-Objetivismo (2001) [por favor veja link no original].

147 Scott, Dominação e a Arte da Resistência, p. 11.
148 Jurgen Habermas, Crise de Legitimação (Polity Press, 1988), p. 68.

149 Scott, Dominação e a Arte da Resistência, pp. 109-110.
150 Ibid., p. 188.
151 Kevin Carson, “Vinay Gupta: A Causa Autoritária Será Derrotada por Sua Própria Dissonância Cognitiva,” Blog da Fundação P2P, 17 de janeiro de 2012 [por favor veja link no original]
152 Scott, Dominação e a Arte da Resistência, pp. 68-69.
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