Chegou a altura da microprodução?
Traduzido por Flávio Gonçalves, from "Is This Micromanufacturing’s Hour?" by Kevin Carson

Caso esteja de algum modo envolvido em microprodução, em alteração de hardware, ou em comunidades de hardware livre, ou se (como eu) tem interesse no potencial que tal tem para a relocalização económica e para subverter o poder empresarial, então provavelmente já conhece a história que está a circular acerca de na Itália estarem a imprimir em 3D válvulas que mantêm em funcionamento os ventiladores dos pacientes de COVID-19 em estado crítico. De acordo com um artigo na “Fast Company”, um hospital em Chiari, uma cidade de pequena dimensão na Lombardia, não conseguia manter os ventiladores dos seus pacientes com coronavírus a funcionar por ter ficado sem válvulas de substituição e o fabricante – Intersurgical – não lhes poder fornecer válvulas em tão curto prazo. Cristian Fracassi e Michele Faini, utilizando o equipamento do laboratório de produção digital FabLab, imprimiram 100 válvulas de substituição com o custo de cerca de um euro cada. Uma vez que o fabricante – alegando razões legais e de segurança – recusou entregar-lhes os ficheiros técnicos, Fracassi e Faini recorreram a engenharia inversa para obter o modelo de impressão para as válvulas.

Embora o tom nas comunidades de criadores onde esta história tem vindo a circular sejam em grande medida laudatórios, também levantou algumas questões de segurança. Alguém com currículo em engenharia biomédica, que dá pelo nome de @turzaak no Twitter, ergueu a questão sobre se o material utilizado seria biocompatível e esterilizável. Pelo aspecto da válvula tinha a suspeita de que teria sido impressa com ácido poliláctico (PLA) ou acrilonitrila butadieno estireno (ABS), dois materiais normalmente empregues na utilização doméstica de impressoras 3D. De acordo com @turzaak estes materiais são difíceis de desinfectar, decompõem-se quando expostos à humidade ou libertam químicos tóxicos.

A informação acerca da segurança das substituições impressas em 3D é mista. O artigo na “Fast Company” pode (ou não) pelo menos assegurar-nos em parte quanto à questão sanitária e biocompatível: “apesar desta ser a primeira vez que a Lonati SpA imprimiu algo para o sector médico, Faini afirma que as impressoras SLS 3D podem imprimir com PA12, um material que pode ser esterilizado e utilizado para fins biomedicinais.” Contudo, como me explicou @turzaak quando respondeu às questões que lhe coloquei, o PA12 não é utilizado em equipamento médico por ser um tipo de nylon e os nylons absorverem água.

Seja qual for o caso, de acordo com o fabricante o próprio design físico das válvulas impressas pode ser ineficaz. “As peças originais têm melhor desempenho que as impressas em 3D… uma vez que a complexidade do design e os orifícios mais pequenos são difíceis de imprimir em 3D.” Fracassi também negou que as válvulas comerciais fossem tão caras (10.000€) como fora noticiado, embora não tenha divulgado qual o seu valor real.

A 14 de Março um artigo na “The Verge” relatava que até à data as válvulas de substituição não autorizadas já tinham sido utilizadas com sucesso em dez pacientes.

As mesmas ressalvas – desinfecção, biocompatibilidade, toxicidade, etc. – também se aplicam provavelmente aos projectos anteriores de ventiladores livres, como o protótipo do VentiladorPandemia publicado na “Instructables” há doze anos no decorrer da gripe das aves (vejam também aqui). Os debates sobre os materiais utilizados prestam pouca ou nenhuma atenção às questões de segurança, e podem erguer uma série de entraves com base na longa publicação de @turzaak no que diz respeito à biocompatibilidade necessária na concepção de ventiladores (“Biocompatibilidade. Significa essencialmente que queremos que o material a) não quebre e, b), não envenene/mate quando o utilizamos em secções que irão interagir com a parte mais gosmenta do tecido carnal.”). Esta parte da publicação, em particular, fez-me pensar no debate acerca dos microcontroladores na peça da “Instructables”:

Digamos que queremos meter ali tecnologia eléctrica de ponta. O que utilizamos? Caso tenha pensado “o meu carretel de fio”, parabéns, provavelmente vai matar alguém, a não ser que esse carretel seja de fio de ouro. O cobre é tóxico. É bom estar COMPLETAMENTE SEGURO quanto ao encapsulamento ou mais vale nem o utilizar…

Tal inclui também os vossos adoráveis controlos RPi ou Arudino? Mantenham-nos bem afastados de tudo o que seja biológico ou afoguem-nos em argila. Têm demasiado cobre.

Naomi Wu (@RealSexyCyborg), eminência parda na comunidade de criadores, colocou questões semelhantes quanto às máscaras impressas em 3D. Os materiais não têm a flexibilidade necessária para o devido contacto facial, diz, e os designs são na sua maioria um artifício para promover a impressão 3D e “vender filamento unicórnio”. Máscaras de tecido com arame flexível são muito mais apropriadas.

Nos debates sobre o design de ventiladores livres e as partes impressas em 3D, alguns dos críticos foram ao ponto de generalizar que todos os regulamentos referentes às especificações do design existem estritamente por razões de segurança, e que descartar qualquer um deles é falta de ética. Também vi alegações de que o elevado preço das válvulas dos ventiladores comerciais (embora, como vimos acima, o preço actual pareça estar a ser extrapolado) se deve por completo ao custo dos materiais biocompatíveis e não às patentes das marcas.

Qualquer pessoa que esteja familiarizada com o foco da propriedade intelectual no que toca aos modelos de lucro empresarial, ou à porção que estes ocupam nos rendimentos que dizem respeito à propriedade intelectual, com toda a certeza que se sentirá céptica perante tais afirmações (já para não dizer encantado com tamanha ingenuidade). Não é propriamente preciso utilizar um chapéu de papel de alumínio para suspeitar que muitos dos regulamentos que cobrem as especificações dos designs de todas as indústrias têm mais a ver com a salvaguarda dos produtos da empresas que os criam, ou como meio para suprimir qualquer inovação de design por parte dos seus concorrentes, do que propriamente com aspectos de segurança. Pensem na quantidade de normas de construção que são redigidas pelos lobbistas das construtoras para evitar a competição por parte de métodos de construção mais baratos, ou como os planos directores municipais e outros regulamentos locais são utilizados para proteger os negócios convencionais da competição por parte de alternativas como roulottes de comida ou microempresas geridas a partir de casa.

A verdadeira dificuldade com que se debate qualquer projecto de hardware livre é conseguir discernir que parte das especificações têm mesmo a ver com cuidados de segurança, e quais as que reflectem os interesses empresariais em impor uma escassez artificial recorrendo a falsos custos de produção que só servem de barreira para restringir a competição. A melhor maneira para o concretizar é eliminar o contacto hierarquizado, e melhorar a comunicação entre, por um lado, as comunidades de engenharia e criação de hardware e, por outro, os especialistas em hardware biomédico. Todos os participantes devem ser integrados numa comunidade p2p coesa em todos os patamares do processo de design, com feedback constante dos utilizadores finais. Essa é supostamente a base mais forte da produção livre por parte dos seus pares.

A quebra da rede de abastecimento devido à pandemia de coronavírus está a demonstrar a necessidade de redireccionar a indústria e a produção para o usufruto local. O alto custo dos equipamentos médicos e a escassez de peças de substituição estão também a demonstrar a utilidade da microprodução e do design livre. Em ambos os casos, a microprodução pode ser a resposta para substituir as importações e aumentar a resiliência comunitária nos casos em que as cadeias de logística empresarial nos falharam. Mas se a comunidade de criadores se apressar a agir como salvadores sem ponderar as adequadas necessidades e reais preocupações dos utilizadores finais – neste caso em particular, com o aspecto da segurança – nem der ouvidos aos seus próprios conhecimentos técnicos quando tal for relevante para o design, terá desperdiçado esta oportunidade.

Nota: não sou engenheiro nem criador. Nem sabia quais eram as diferenças entre PLA e ABS antes de as googlar. Nenhuma parte desta coluna de opinião deve ser vista como uma defesa convicta da minha parte no que toca às questões de segurança da impressão em 3D de válvulas de ventiladores ou do design livre de equipamento médico de um modo geral. Trata-se de um mero esforço de boa fé da minha parte para fazer eco das preocupações e debates de todas as partes, dos vários “lados” deste debate, todos mais familiarizadas com este tema do que a minha pessoa, e encorajar ainda mais o debate. Espero ter resumido aqui dados suficientes das partes envolvidas de modo a facilitar a continuação desse debate.

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