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	<title>Center for a Stateless Society &#187; poder</title>
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	<description>building public awareness of left-wing market anarchism</description>
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		<title>A caneta e a espada</title>
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		<pubDate>Wed, 14 Jan 2015 23:00:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Trevor Hultner]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[Este texto foi escrito no dia 8 de janeiro de 2015. Nesta manhã, doze pessoas estão mortas e não deveriam estar. Nove jornalistas, um trabalhador de serviços gerais e dois policiais foram mortos na sede do jornal francês Charlie Hebdo na última quarta-feira. Onze outras foram feridas; quatro estão em condições críticas enquanto escrevo esta...]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><em>Este texto foi escrito no dia 8 de janeiro de 2015.</em></p>
<p>Nesta manhã, doze pessoas estão mortas e não deveriam estar.</p>
<p>Nove jornalistas, um trabalhador de serviços gerais e dois policiais foram mortos na sede do jornal francês <em>Charlie Hebdo</em> na última quarta-feira. Onze outras foram feridas; quatro estão em condições críticas enquanto escrevo esta coluna.</p>
<p>A lista de mortos é a seguinte (de acordo com o jornal <a href="http://www.theguardian.com/world/2015/jan/07/paris-terror-attack-what-we-know-so-far">The Guardian)</a>:</p>
<blockquote><p>Stéphane &#8220;Charb&#8221; Charboniier, 47, cartunista e editor do <em>Charlie Hebdo</em>.<br />
Jean &#8220;Cabu&#8221; Cabut, 76, cartunista-chefe do <em>Charlie Hebdo</em><br />
Geroge Wolinski, 80, artista nascido na Tunísia<br />
Bernard &#8220;Tignous&#8221; Verlhac, 57, membro do grupo Cartunistas pela Paz<br />
Bernard Maris &#8212; conhecido como &#8220;Tio Bernard&#8221; &#8211;, 68, economista e colunista do <em>Charlie Hebdo</em><br />
Philippe Honoré, conhecido simplesmente como Honoré, 73, cartunista do <em>Charlie Hebdo</em> desde a fundação do jornal<br />
Michel Renaud, ex-jornalista e conselheiro político, visitava o <em>Charlie Hebdo</em><br />
Mustapha Ourrad, revisor de textos do <em>Charlie Hebdo</em><br />
Elsa Cayat, analista e colunista do <em>Charlie Hebdo</em><br />
Frederic Boisseau, trabalhador de serviços gerais do edifício<br />
Franck Brinsolaro, 49, policial apontado para garantir a segurança de Charb e pai de uma menina de um ano de idade<br />
Ahmed Merabet, 42, policial muçulmano francês e membro da 11ª brigada de arrondissement</p></blockquote>
<p style="text-align: center;">* * *</p>
<p>Você provavelmente lerá inúmeros editoriais falando da liberdade de expressão e de imprensa. Até o jornal local do meu estado, The Oklahoman, fez uma pausa nas suas publicações convencionais para publicar um editorial em solidariedade com o <em>Charlie Hebdo</em>.</p>
<p>Você também lerá vários artigos com análises de comentaristas de todas as estirpes que se preocupam se isso colocará mais gasolina na fogueira do nacionalismo francês e dos sentimentos anti-islâmicos, incensados pelo ataque ao jornalismo, talvez até mesmo acrescentando um pouco de islamofobia ao discurso corrente.</p>
<p>Todos esses colunistas, de esquerda e de direita, libertários ou estatistas, errarão o alvo.</p>
<p>Apesar de tudo o que se fala sobre o <em>Charlie Hebdo</em> &#8212; seu antiautoritarismo, seu comprometimento com a liberdade de expressão, sua coragem e bravura quando deparados com o fundamentalismo islâmico, sua posição igualitária &#8211;, o que ninguém parece perceber é que o ataque ao <em>Charlie Hebdo</em> pouco teve a ver com o Islã ou mesmo com religiosidade.</p>
<p>O ataque contra o <em>Charlie Hebdo</em> foi tão político quanto as declarações dos presidentes Obama e Hollande que condenaram as ações.</p>
<p>***</p>
<p>Vaneigem escreveu certa vez: enquanto o poder nos esfola vivos, ele nos persuade de que nos esfolamos uns aos outros.</p>
<p>O <em>Charlie Hebdo</em> às vezes ridicularizava os governantes franceses, às vezes ria do poder, mas jamais o desafiou. Era um jornal que estava perfeitamente disposto a satirizar, desde que pudesse abrir fogo cegamente em todas as direções. Por isso, era uma ferramenta útil do poder.</p>
<p>Não se deve interpretar o que digo aqui como desrespeito pelos mortos. Sempre que um jornalista, chargista ou fotógrafo é morto, é uma grande e profunda tragédia que enche o meu coração &#8212; e os corações dos meus colegas jornalistas &#8212; de raiva e angústia. Este momento não é diferente. Estamos em uma área que leva a sério a ideia de que &#8220;o ataque a um é um ataque a todos&#8221;. O reconhecimento de que um veículo &#8212; no caso, o <em>Charlie Hebdo</em> &#8212; servia aos interesses do poder não reduz a dor ou diminui as perdas. O mesmo vale para as mortes, neste caso, dos policiais que estavam na cena da tragédia. Isso não muda o propósito universal da polícia: servir ao poder.</p>
<p>De acordo com o The Guardian, um dos principais suspeitos do ataque, Chérif Kouachi, 32, foi preso em 2008 acusado de terrorismo por &#8220;ajudar a levar soldados para a insurgência iraquiana&#8221;. Ele &#8220;afirmou na época que estava ultrajado com a tortura de presos iraquianos na prisão americana de Abu Ghraib, perto de Bagdá&#8221;.</p>
<p>Testemunhas disseram que um dos suspeitos proclamou que era da Al-Qaeda da Península Arábica. Essa célula da Al-Qaeda está sediada no Iêmen, que tem sido sujeito nos últimos anos a inúmeros ataques americanos com drones, resultando na morte de homens, mulheres e crianças. Se Kouachi e seu irmão, Said, de fato forem os culpados pelo ataque e fizerem parte da Al-Qaeda da Península Arábica, é razoável deduzir que os ataques perpetrados por forças americanas e de coalizão possam ter sido um fator de motivação. É claro, estou apenas presumindo. Por ora, as motivações dos assassinos são &#8220;o que quer que pensarmos que sejam&#8221;.</p>
<p style="text-align: center;">* * *</p>
<p>Ontem Laurent Joffrin, o diretor editorial do jornal francês de esquerda Libération, similar ao The Guardian, observou: &#8220;Os terroristas não atacaram os &#8216;islamofóbicos&#8217; como inimigos dos muçulmanos, aqueles que falam o tempo inteiro da ameaça islamista. O alvo deles foi o <em>Charlie</em>&#8220;.</p>
<p>Contudo, os reacionários hoje, como a Frente Nacional e outros grupos de direita nacionalistas, estão tentando se catapultar ao alto escalão da política francesa com o ataque do <em>Charlie Hebdo</em>. Será que o jornal falava por eles?</p>
<p>A última capa do <em>Charlie Hebdo</em> antes do incidente era uma sátira ao próximo livro do escritor francês Michel Houellebecq, que imagina uma França tomada por uma &#8220;Fraternidade Muçulmana&#8221;. Relatos contam que Charbonnier tentava puxar o jornal de volta a suas raízes de esquerda, especialmente depois do bombardeio de 2011 a sua sede. Se isso é verdade, por que a Frente Nacional tentou usar o ataque como arma eleitoral?</p>
<p>Porque as imagens que o <em>Charlie</em> às vezes publicava, aquelas rotuladas como islamofóbicas e racistas, têm tanta audiência quanto as imagens que atacam os ricos, poderosos e preconceituosos. Porque quando algo como isso acontece, toda a lógica contorcionista dos nazistas modernos é justificada.</p>
<p>Este ataque ocorreu em um país cujos últimos presidentes assinaram leis para ativamente proibir aspectos da vida muçulmana e coibir a liberdade de expressão. Ele aconteceu em uma Europa que crescentemente expõe seus sentimentos tóxicos anti-islâmicos e anti-imigração e onde, neste mês inclusive, o estado ordenou que professores de creches e pre-escolas passassem a vigiar crianças muçulmanas. Ele ocorreu em um mundo que está em guerra há duas décadas. O trabalho do <em>Charlie</em> não foi feito num vácuo. Ele serviu e continua a servir ao poder.</p>
<p><em>Traduzido por <a href="http://c4ss.org/content/author/erick-vasconcelos">Erick Vasconcelos</a>.</em></p>
 <p><a href="http://c4ss.org/?flattrss_redirect&amp;id=35031&amp;md5=1b4fc98f1d885a7f2027b68c53b92dec" title="Flattr" target="_blank"><img src="http://c4ss.org/wp-content/themes/center2013/images/flattr.png" alt="flattr this!"/></a></p>]]></content:encoded>
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		<title>A greve dos policiais de Nova York expõe suas narrativas vazias</title>
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		<pubDate>Wed, 07 Jan 2015 23:00:54 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Ryan Calhoun]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[Boas notícias, pessoal! A polícia de Nova York entrou em greve! Na última semana, as prisões caíram 66% em relação às expectativas anuais, enquanto contravenções de trânsito caíram 94%. Como resultado, Nova York não entrou em uma onda de caos e desordem. As pessoas não foram executadas nas ruas. A sociedade não entrou em colapso....]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Boas notícias, pessoal! A polícia de Nova York entrou em greve! Na última semana, as prisões caíram 66% em relação às expectativas anuais, enquanto contravenções de trânsito caíram 94%. Como resultado, Nova York não entrou em uma onda de caos e desordem. As pessoas não foram executadas nas ruas. A sociedade não entrou em colapso.</p>
<p>Esse é um grande problema de relações públicas para as instituições policiais em todo o país. Se um declínio drástico dos trabalhos policiais não resultou na fantástica desordem prevista pelos apologistas da polícia, por que mantê-la em existência? O Departamento de Polícia de Nova York (NYPD) aplicou milhares de multas de trânsito a menos e no entanto as ruas já congestionadas não viram qualquer aumento em acidentes.</p>
<p>A mensagem passada por essa greve parcial está clara. Os cidadãos não precisam da polícia, mas a polícia precisa deles. Os policiais precisam das pessoas, para que devem ser obedeçam, sejam revistadas, extorquidas, para que não resistam. As atividades diárias dos policiais, que brevemente se apaziguaram, existem para benefício deles, não do seu. Com 66% menos prisões, com a recusa dos policiais em perseguir crimes sem apoio excessivo, é de se pensar que os crimes estariam tomando as ruas. Mas onde estão eles? Onde estão esses criminosos freelancers de que os criminosos empregados precisam nos proteger?</p>
<p>Se tudo isso continuar, o povo de Nova York se deparará com uma verdade que já se tornou um truísmo entre os libertários: a lei cria a criminalidade. Assim que as prisões cessam e assim que a desordem e a violência fabricadas deixam de existir, nós percebemos quão poucos criminosos realmente existem. Aqueles que realmente nos ameaçam podem ser combatidos pela vontade coletiva das comunidades que ameaçam.</p>
<p>Ismaaiyl Brinsley (o assassino dos dois policiais novaiorquinos que levou à greve em Nova York) era notoriamente imprudente, armado não para preservar a justiça, mas para ferir os alvos mais oportunos. Contudo, esse não será seu legado. A consequência de suas ações naquele dia pode ter sido brutal e terrível, mas trouxeram consigo uma oportunidade. Elas deram início a uma batalha política que borbulhava por baixo da superfície. Agora aparentemente a prefeitura e o Departamento de Polícia temtam se devorar em uma batalha sem sentido. A polícia teme o surgimento de um novo Brinsley, de outro incontrolável e imprevisível ato de violência. Estão nervosos e com medo. Devemos ver este momento como a hora de expor o sistema de criminalização como aquilo que ele de fato é: como um meio de extorquir a população em benefício do NYPD e do prefeito Bill De Blasio.</p>
<p>A polícia cria um ambiente de perigo para nós, não o contrário. Será sempre mais perigoso ser um cidadão num estado policial que um agente da lei. Mesmo assim, a polícia recua ao primeiro sinal de que nem tudo vai bem, de que as pessoas talvez não estejam a seu lado, que a proteção de que desfrutam talvez seja apenas uma ilusão social. Os policiais também têm sangue correndo nas veias e é hora de mostramos a eles. Nesta semana, milhares de pessoas em Nova York não foram agredidas e sequestradas ao bel prazer dos trogloditas uniformizados. Milhões em bens roubados ficaram fora do alcance do estado por conta do medo e da sensação de autoimportância de seus agentes.</p>
<p>Lembre-se de que estas circunstâncias não devem durar. O prefeito e a polícia chegarão a um equilíbrio, percebendo que seus interesses de classe são maiores que os benefícios de seus ressentimentos políticos. O sistema não se consumirá por inteiro tão cedo. São os novaiorquinos e todos os outros indivíduos em cidades ocupadas no mundo que devem perceber a farsa das narrativas oferecidas por este sistema de poder. Quando a polícia recua, essas narrativas são expostas. Quando a polícia não está livre das consequências de seu trabalho, quando a violência é revidada com força igual em vez de timidez, quando as pessoas percebem que suas comunidades são sua própria responsabilidade, o estado policial recuará.</p>
<p><em>Traduzido por <a href="http://c4ss.org/content/author/erick-vasconcelos">Erick Vasconcelos</a>.</em></p>
 <p><a href="http://c4ss.org/?flattrss_redirect&amp;id=34819&amp;md5=13d3b9f5222536dc784c0806b6474231" title="Flattr" target="_blank"><img src="http://c4ss.org/wp-content/themes/center2013/images/flattr.png" alt="flattr this!"/></a></p>]]></content:encoded>
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		<title>Como as privatizações criaram novas estatais no Brasil</title>
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		<pubDate>Sun, 07 Sep 2014 00:20:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Erick Vasconcelos]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[Em julho de 2014, a página oficial de Dilma Rousseff no Facebook comemorou a produção recorde de minério de ferro pela Vale. Segundo a página da presidente, a empresa &#8220;quebrou recorde histórico de produção de minério de ferro para o segundo trimestre&#8221;, o que representou uma &#8220;alta de 12,6% em relação ao mesmo período de...]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Em julho de 2014, a página oficial de Dilma Rousseff no Facebook <a href="https://www.facebook.com/SiteDilmaRousseff/photos/a.351365628250368.87876.351338968253034/712942482092679/?type=1">comemorou a produção recorde de minério de ferro pela Vale</a>. Segundo a página da presidente, a empresa &#8220;quebrou recorde histórico de produção de minério de ferro para o segundo trimestre&#8221;, o que representou uma &#8220;alta de 12,6% em relação ao mesmo período de 2013&#8243;.</p>
<p>Rapidamente, várias páginas apontaram para o &#8220;ato falho&#8221; de Dilma Rousseff, que teria celebrado o bom desempenho de uma empresa privatizada — supostamente anátema para o PT, sempre contrário a privatizações e particularmente contrário à venda da própria Vale em 1997. Rodrigo Constantino, <a href="http://veja.abril.com.br/blog/rodrigo-constantino/privatizacao/dilma-celebra-recorde-da-vale-ato-falho-em-defesa-da-privatizacao/">em seu blog no site da revista <em>Veja</em></a>, não perdeu tempo em apontar para a incoerência dilmista: &#8220;Seria um reconhecimento tardio de que a privatização da estatal, tão condenada pelo PT, foi boa afinal?&#8221;</p>
<p>Mas não havia qualquer incoerência da parte de Dilma nem do governo, porque a Vale é uma estatal. Isto é, a Vale, fundamentalmente, nunca deixou de ser controlada pelo estado brasileiro.</p>
<p>Não quero que reste qualquer dúvida, então vale repetir: ao contrário do que pensa o autor de <em>Privatize Já</em>, a Vale é literalmente comandada pelo governo do Brasil. Prova do fato foi a demissão do presidente Roger Agnelli da empresa em 2011 por pressão do próprio governo petista. O acontecimento, <a href="http://veja.abril.com.br/blog/augusto-nunes/direto-ao-ponto/ao-afastar-o-presidente-da-vale-por-ter-feito-tudo-certo-o-governo-federal-inventou-a-demissao-por-excesso-de-competencia/">amplamente noticiado na época</a>, foi extremamente elucidativo. Ele mostrava não só a conexão próxima entre as grandes empresas e o governo brasileiro, mas também como temos uma compreensão absolutamente inadequada sobre o processo das privatizações no Brasil.</p>
<p>As &#8220;privatizações&#8221; no Brasil não foram marcadas por qualquer transferência ou pulverização de poder e controle econômico; elas, efetivamente, foram reestruturações corporativas que mudaram muito pouco a distribuição do controle econômico e modificaram o regime jurídico das empresas apenas o suficiente para que se tornassem economicamente viáveis novamente.</p>
<p>Evidentemente ocorreram melhorias técnicas e aumentos produtivos; é também evidente que esse era o objetivo inicial das reestruturações, que não incluía qualquer mudança substancial no controle acionário das empresas &#8220;vendidas&#8221;. As privatizações brasileiras não foram uma maneira de livrar o estado do controle sobre empresas, mas foi a maneira que o estado brasileiro encontrou para <em>manter</em> o controle sobre elas.</p>
<p>A campanha eleitoral de 2014 conta com alguns candidatos que pretendem reavaliar os méritos das privatizações. Discutir as privatizações não é nada novo; a cada quatro anos há um novo ciclo de condenações a elas pontuados por alguns elogios infundados. A realidade é que apoiadores e opositores das privatizações falam de processos ideais imaginários. Poucos falam da realidade das privatizações no Brasil: não foi &#8220;entreguismo&#8221;, &#8220;privataria&#8221;; também não foi o ápice da &#8220;eficiência&#8221; e &#8220;enxugamento do estado&#8221;. Foi uma reformulação do aparato estatal e a inclusão da classe corporativa em seus quadros.</p>
<p><strong>A privatização da Vale</strong></p>
<p>As estatais eram um modelo esgotado nos anos 1990 e o estado brasileiro estava falido depois de uma década de hiperinflação. A privatização das estatais foi incluída como <a href="http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=1294">um dos fatores</a> para o sucesso do Plano Real, que incluía &#8220;zerar o déficit público&#8221;. Essa zeragem do déficit público deveria incluir a receita dos leilões de empresas do governo.</p>
<p>A venda da Vale foi a maior privatização feita no Brasil e foi a que sofreu mais resistências — e, sim, o PT foi um dos partidos mais contrários, junto com grande parte da esquerda e de movimentos sociais. Para driblar as resistências, o estado brasileiro promoveu uma &#8220;coalizão de apoio&#8221;, que consistia basicamente em formar novos grupos de investimento encabeçados por fundos de pensão estatais. O BNDES patrocinou a formação da Valepar S.A., que controla o Conselho Administrativo da Vale, com 53,3% do capital votante. A Valepar é controlada por quatro fundos de pensão estatais, encabeçados pela Previ, que é o fundo dos funcionários do Banco do Brasil e maior fundo de pensão brasileiro, com 58% das ações. Além dos fundos de pensão, a Valepar ainda é controlada pelo Bradesco, pela multinacional Mitsui e pelo próprio BNDES, que possui 9,5% de suas ações.</p>
<p>Com a atuação do BNDES e a inclusão dos fundos de pensão estatais, o governo &#8220;viabilizava&#8221; as privatizações. E, assim, a nova Vale, privatizada em 1997 com dinheiro estatal, passou a ser controlada por fundos de pensão estatais e pelo BNDES. Desde o começo dos anos 2000, o BNDES e os fundos de pensão formam a rede de controle que não apenas comanda as empresas que deixaram de ser formalmente estatais, mas também colocam empresas nominalmente &#8220;privadas&#8221; (mesmo que não tenham sido estatais anteriormente) a serviço do governo.</p>
<p><strong>Fundos de pensão e o controle dos sindicatos pelo estado</strong></p>
<p>Os fundos de pensão, que foram criados nos anos 1970 para incentivar a poupança, se converteram na maior ferramenta de investimento do Brasil. Seu potencial de investimento, em 2010, já era de 300 bilhões de reais (<a href="http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/me1811201039.htm">16% do PIB</a>), com perspectivas de crescimento. Em montante de investimentos, considerados como um todo, os fundos de pensão são ainda mais representativos que o BNDES — que já é o maior banco de &#8220;desenvolvimento&#8221; do mundo, ainda maior que o Banco Mundial (em 2009-10, por exemplo, o Banco Mundial fez empréstimos de cerca de US$ 40 bilhões, menos da metade do que o BNDES fez).</p>
<p>A partir do final dos anos 1980, os fundos de pensão ganharam cada vez mais participação das lideranças dos sindicatos, principalmente por conta de algumas reformas que ocorreram na época de Fernando Henrique Cardoso que abriram a gestão para os trabalhadores. Líderes sindicais se converteram em gerentes de fundos de pensão. A campanha de Lula em 2002 à presidência especificamente estimulava os trabalhadores a formarem esses fundos, não só como meio para aumentar o padrão de consumo dos trabalhadores, mas também para formarem blocos de controle em posições de investimento. Com isso, os fundos de pensão formados poderiam ser controlados pelo governo para direcionar políticas e &#8220;disciplinar&#8221; o capitalismo.</p>
<p>A unicidade e o imposto sindical do Brasil sempre ajudaram o estado nesse sentido, porque mantiveram os sindicatos sob a tutela governamental — o que jamais foi desafiado pelo governo petista. Não à toa, a partir do final dos anos 1980, os sindicatos brasileiros mais fortes (ligados às montadoras de carros no ABC paulista, por exemplo) passaram a adotar uma postura de &#8220;<a href="http://www.estudosdotrabalho.org/anais-vii-7-seminario-trabalho-ret-2010/Pedro_Henrique_Evangelista_Duarte_e_Edilson_Jose_Graciolli_do_sindicalismo_combativo_sindicalismo_propositivo.pdf">sindicalismo propositivo</a>&#8221; ou &#8220;sindicalismo cidadão&#8221;, que é contrário a choques entre trabalhadores e classes gerenciais e enfatiza a inserção dos próprios trabalhadores em posições de gerência. A CUT e a Força Sindical, as maiores centrais sindicais do Brasil, representam perfeitamente esse paradigma e <a href="http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,enviado-da-cut-pede-retomada-da-obra-de-jirau-imp-,695335">atuam como porta-vozes gerencialistas</a>.</p>
<p>Assim, a legislação brasileira funciona como ferramenta para transformar os sindicatos monopolistas do país em instrumentos de política e controle econômico. Os maiores fundos de pensão do Brasil (Previ, Petros e Funcef) continuam sob controle direto do governo, assistindo funcionários do Banco do Brasil, da Petrobras e da Caixa Econômica. E com a conversão dos líderes sindicais (em sua maioria, componentes da Articulação, a tendência majoritária do PT) em gerentes de fundos de pensão, se tornando numa nova classe de <em>managers</em>, o governo ganhou acesso direto a esses fundos.</p>
<p>Em 2011, <a href="http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI221341-15223,00-O+CADAFALSO+SOB+ROGER+AGNELLI.html">a revista Exame reportava</a> como havia sido o processo de demissão de Roger Agnelli da presidência da Vale. &#8220;Roger, espera! Este é um assunto de acionistas. E está sendo tratado por nós, acionistas.&#8221; Quem disse isso foi Ricardo Flores, então presidente da Previ, o fundo de pensão principal entre os controladores da Vale, na época da discussão da saída de Agnelli da posição por pressão do governo Dilma. Ironicamente, mais tarde ele foi afastado da presidência da Previ <a href="http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,ricardo-flores-renuncia-a-presidencia-da-previ-dan-conrado-assume,113859e">por conta de disputas por poder</a>.</p>
<p><strong>BNDES: privatizações estatais, estatizações privadas</strong></p>
<p>O BNDES é o <a href="http://economiabrasil.com/brasil-tem-o-maior-banco-de-desenvolvimento-do-mundo/">maior banco de desenvolvimento do mundo</a>. Foi instrumental nas privatizações e viabilizou a mudança formal de controle de 30% do PIB. Durante esse mesmo processo, o BNDES se colocou como parceiro-chave das novas empresas, como a própria Vale e outras, como as doze empresas que surgiram a partir da privatização da Telebrás. Mais tarde essas empresas foram unificadas com o nome Oi e o BNDES passou a controlar 25% de seu capital. Para viabilizar a compra da Brasil Telecom, que foi outra empresa que surgiu a partir da &#8220;privatização&#8221; da Telebrás, o BNDES fez novos empréstimos. Com a compra da Brasil Telecom pela Oi, a empresa ter 50% das ações sob poder do estado, através do BNDES e dos três maiores fundos de pensão (Previ, Petros e Funcef). Mais 20% das ações ficaram sob poder da Andrade Gutierrez, que também é extremamente dependente e simpática ao governo.</p>
<p>É até difícil encontrar trajetórias diferentes para as ex-estatais. Na verdade, o controle acionário através do BNDES e dos sindicatos também não conta toda a história. Os anos 1990 no Brasil assistiram a um processo de captura regulatória <em>by design</em>. Ato contínuo às privatizações, foram estabelecidas agências reguladoras para os novos setores em que o estado havia &#8220;deixado&#8221; de atuar. Foi o primeiro grande momento de trânsito entre o governo e as grandes corporações. Com os subsídios aos processos de privatização, as novas classes de empresários e acionistas não apenas ganharam acesso ao capital produtivo, mas também ganharam acesso ao estado na forma de representação regulatória. Foi um processo quase simultâneo no caso das telecomunicações.</p>
<p>Portanto, as &#8220;privatizações&#8221;, longe de cortar o acesso do estatal aos recursos produtivos, na verdade foram simplesmente uma <em>reconfiguração organizacional</em> do capital. O capital formalmente saiu debaixo da asa do estado, mas permaneceu sob seu controle efetivo e mudou seu regime jurídico sem maiores consequências econômicas. Não se trata apenas de dizer que o capital que foi &#8220;vendido&#8221; durante os anos 1990 tenha se assumido um papel &#8220;corporativista&#8221;; na verdade, esse capital continua a fazer parte do estado, é controlado diretamente (pelo BNDES e pelos fundos de pensão) ou indiretamente (através do aparato regulatório de controle conjunto das empresas e do governo) por ele.</p>
<p>O processo contrário também ocorreu em alta velocidade durante todo o governo petista (principalmente após a crise de 2008) e ainda está em curso até hoje. O BNDES passou a capitalizar corporações privadas e eleger seus braços político-econômicos. Isso incluiu a fusão da <a href="http://www.brasil247.com/pt/247/economia/7944/Mais-uma-superfus%C3%A3o-que-beneficiou-um-s%C3%B3-Furlan-Furlan-BRF-Sadia-Perdig%C3%A3o-fus%C3%A3o-benef%C3%ADcio.htm">Perdigão e da Sadia</a>, da <a href="http://epocanegocios.globo.com/Revista/Epocanegocios/0,,EDG85986-16628,00-VCP+COMPRA+DA+ARACRUZ+POR+R+BI.html">VCP e da Aracruz Celulose</a>, da <a href="http://oglobo.globo.com/economia/miriam/posts/2011/04/17/os-campeoes-375160.asp">Friboi com a Bertin</a>, <a href="http://www.plataformabndes.org.br/site/index.php/biblioteca/category/11-analises-do-desenvolvimento?download=45:bndes-e-a-expansao-internacional-de-empresascom-sede-no-brasil">para aquisições da Ambev</a>, entre várias outras. As empresas de construção também são braços de atuação do governo brasileiro. A Odebrecht, particularmente, <a href="http://www.diplomatique.org.br/artigo.php?id=1501">é aliada do PT desde 1992</a>, e durante os governos Lula e Dilma, se realinhou em diversos programas de infraestrutura e militares. Outras empresas, como Andrade Gutierrez e Camargo Corrêa, que tiveram seus crescimentos historicamente alinhados aos projetos de infraestrutura nacionais, atualmente são braços de execução de planos políticos do governo. O governo tem uma caixa de ferramentas completa com contratos e controle acionário direto pelo qual ele influencia o setor &#8220;privado&#8221; no Brasil.</p>
<p>Na verdade, é incorreto considerar que os grandes conglomerados no Brasil sejam &#8220;privados&#8221; ou &#8220;estatais&#8221;. É uma distinção sem qualquer significado nesse contexto; as privatizações criaram conglomerados <em>mistos</em>, com controle tanto privado quanto estatal e as grandes empresas que já eram privadas têm um nível de influência governamental grande o suficiente a ponto de os seus interesses e os interesses do governo estarem interligados. Não existe oposição entre o particular e o público, entre o privado e o estatal, porque há uma convergência de ambições entre grandes empresas e do estado que os funde.</p>
<p><strong>O vocabulário das privatizações</strong></p>
<p>Tanto quem apoia quanto quem rejeita as privatizações tende a sua posição pelos motivos errados.</p>
<p>As melhorias técnicas e dos serviços que aconteceram com as privatizações, no Brasil, não se deveram a mudanças fundamentais no <em>controle</em> do capital. Foram reformas que alteraram a estrutura organizacional e de incentivos das empresas &#8220;públicas&#8221;, fazendo com que sua capitalização e suas ações fossem racionalizadas. A melhora que de fato existiu no desempenho das empresas privatizadas não se deveu a uma desestatização, que não ocorreu, mas à sua reestruturação. (Da mesma forma, houve uma melhora no desempenho e na capitalização da Petrobras, mesmo sem ter deixado de ser estatal. As privatizações, assim como a abertura do capital da Petrobras, podem ser vistas então como estratégias de capitalização mais do que como cortes no poder estatal.)</p>
<p>Nossa linguagem reflete uma dualidade entre o &#8220;privado&#8221; e o &#8220;estado&#8221; e entre &#8220;privatizar&#8221; e &#8220;estatizar&#8221; que simplesmente não são reais. Essas dicotomias não têm poder explicativo porque o estado não está limitado por seu poder de ação formal e porque o estado não é uma barreira intransponível que as empresas não conseguem ultrapassar. Basta ver, por exemplo, a trajetória do ex-Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior <a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Luiz_Fernando_Furlan">Luiz Fernando Furlan</a>, que foi instrumental no processo de fusão da Sadia com a Perdigão. Furlan saiu da Sadia para entrar no governo. Após a fusão, saiu do governo e <a href="http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi0710200837.htm">voltou para a presidência</a> do Conselho Administrativo da empresa.</p>
<p>Falar em &#8220;privatizações&#8221; é uma cortina de fumaça, porque as privatizações não passaram de uma <em>revolução dentro do poder</em>, viabilizando a continuidade do controle estatal sobre setores vitais da economia. E é impossível reclamar sobre a ingerência governamental sobre empresas privadas: o grande empresariado brasileiro é parte do estado. A Vale é braço político-econômico do governo brasileiro; seu processo de privatização e capitalização foi estruturado justamente com esse propósito. Quando o cabeça da Vale deixou de ser interessante para o governo brasileiro, ele foi demitido.</p>
<p>Nossa linguagem não está preparada para refletir essa falta de discrepância entre o que é público e o que é privado. Também é difícil para a maioria das pessoas pensar no governo e nos grandes conglomerados como parte do mesmo sistema.</p>
<p>Além disso, tendemos a tratar o que é &#8220;estatal&#8221; como algo público e o que é &#8220;privado&#8221; como algo particular; nenhuma dessas definições é necessária. É perfeitamente plausível e, na verdade, é o que ocorre na maior parte dos casos que um bem estatal seja totalmente &#8220;privatizado&#8221;; ou seja, é perfeitamente possível (e, eu argumentaria, inevitável) que os bens estatais sirvam somente a uma pequena casta. Os termos que usamos são tão absolutamente impróprios que falamos de &#8220;nacionalização&#8221; ao falar de empresas estatizadas e de &#8220;entrega&#8221; quando falamos de privatização. A experiência política e econômica brasileira prova que são todos termos inadequados e que nós temos que desenvolver um vocabulário que represente a realidade como ela é: onde empresas estatais ou &#8220;nacionalizadas&#8221; servem só aos interesses do estado e de grupos ligados a ele e onde empresas privadas possuem interesses convergentes aos do governo — ambos em oposição à população de forma geral.</p>
<p>Nossas ideias políticas só estão preparadas para lidar com grandes generalizações que colocam o governo e o setor privado como categoricamente distintos e que suas influências um sobre o outro são apenas desvios pontuais — tendemos a pensar que, na maioria dos casos, o governo e as empresas fiquem presos a seus papéis ideais. As privatizações, segundo esse pensamento, serviram para tirar do governo o controle de empresas e recursos e colocá-los em uma esfera sob a qual ele não teria qualquer influência. Embora as pessoas geralmente reconheçam as forças que atuam no relacionamento entre o governo e as empresas, a maioria tende a adotar essa visão ingênua e a-histórica ao analisar processos e defender suas visões político-ideológicas.</p>
<p>Permanece o fato: as privatizações não foram uma <em>diminuição</em>, mas uma forma de <em>estender</em> e <em>reformular</em> o poder do estado. E o discurso pró-privatizações, assim, as defende nesses termos e não sob condições ideais. O contrário também vale: os opositores e detratores das privatizações tendem a pensar nelas como uma diminuição do poder do estado. Mas se as empresas de fato continuam sob controle estatal, qual pode ser o problema?</p>
<p><strong>Semifascismo</strong></p>
<p>Qualquer discurso pró-privatizações no Brasil, como alguns que têm surgido durante as campanhas eleitorais, deve levar em conta o seguinte fato: o estado brasileiro e as grandes empresas são uma só entidade.</p>
<p>Isso significa que qualquer esforço privatizante deverá levar em conta a presença e a influência do estado como fato fundamental. &#8220;Privatizar&#8221;, assim, não é modificar radicalmente a estrutura de poder do estado, mas fazer leves ajustes e mudanças em regimes jurídicos de capitalização de empresas que, em última análise, permanecem sob o controle estatal. Logo, tanto a ideia de privatizar quanto seu correspondente estatizador são ideologias fundantes do poder do estado.</p>
<p>Deve ser óbvio que privatizar, em si, não é passaporte para o desmonte do poder do governo; na Rússia, por exemplo, basicamente a mesma elite soviética assumiu o controle dos recursos &#8220;privatizados&#8221; na transição para o capitalismo.</p>
<p>No Brasil, o controle do governo sobre os grandes conglomerados corporativos nacionais &#8220;privatizados&#8221; e mesmo sobre as empresas que já eram nominalmente &#8220;privadas&#8221; não foi acaso nem um processo que sofreu resistências internas; a classe empresarial sempre esteve de braços abertos a esse relacionamento. Houve, na última década e meia, especialmente, um alinhamento da visão da cúpula do governo formada pela elite petista e o empresariado nacional. Esse alinhamento também incluiu uma incorporação do velho nacionalismo defendido pela elite militar, que está confortavelmente encastelada e representada dentro do governo (apesar do que alguns conservadores afirmam, como se os militares fossem ignorados e humilhados pelo atual regime).</p>
<p>O Brasil vem desenvolvendo, na prática, um sistema <em>semifascista</em> de subsídios sistemáticos aos grandes capitalistas, de controle direto e indireto pelo governo das empresas e de comando dos sindicatos (que, através dos fundos de pensão, se tornaram também capitalistas).</p>
<p>As críticas de direita e esquerda a esse sistema são inadequadas porque acabam defendendo um aspecto diferente desse mesmo sistema durante o ataque. A defesa das privatizações, por exemplo, pode servir como crítica ao poder do governo, mas, se executada como foi no Brasil, serve também para estender o controle sobre empresas e capital que o governo possui.</p>
<p><strong>Aliados e inimigos</strong></p>
<p>Privatizar não é suficiente. O setor corporativo e o governo são uma só classe. As desregulamentações que ocorreram não foram capazes de frear a influência estatal sobre a economia, mas simplesmente alteraram seu caráter. Nosso vocabulário político não reflete bem as reais questões políticas, porque coloca em oposição fundamental categorias que não são fundamentalmente distintas: privado e estatal, corporações e governo. A oposição real está entre aqueles que possuem e os que não possuem o <em>poder</em>.</p>
<p>Como eu mencionei em <a href="http://c4ss.org/content/29883">dois</a> <a href="http://c4ss.org/content/30074">artigos</a> que comentavam a atuação sindical no Brasil, a articulação que ocorre atualmente no país se dá entre setores empresariais, a elite estatal e as lideranças sindicais. Entre eles, se formou uma nova classe gerencialista que representa as aspirações do indivíduo e decide a repartição do bolo econômico. A única forma de resistir a essa realidade — que, sim, foi moldada pelas privatizações — é com a percepção de que a classe dominante não se limita a um setor categórico de &#8220;empresários&#8221; ou &#8220;burocratas&#8221;. É uma classe mista com livre trânsito dentro do governo, dos sindicatos e dos conselhos administrativos.</p>
<p>Com o <a href="http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/paulo-roberto-costa-entrega-a-lista-dos-corruptos-ligados-ao-escadalo-da-petrobras-na-capa-da-veja/">mais novo escândalo bilionário de corrupção</a> na Petrobras, alguns já falam da necessidade de privatizar a empresa para tirá-la da esfera de interferência política. Mas o que se deve lembrar é que as privatizações brasileiras jamais tiveram o intuito de retirar do estado seu poder de influência.</p>
<p>O público e o privado, o capital e o trabalho agora não são opostos, são aliados. Por isso não é surpreendente que Dilma comemore os 12,6% de alta na produção de minério.</p>
<p>Quem pagou por esse recorde foi você.</p>
 <p><a href="http://c4ss.org/?flattrss_redirect&amp;id=31524&amp;md5=b5457daa13088ea57340a0fc3ec27e9d" title="Flattr" target="_blank"><img src="http://c4ss.org/wp-content/themes/center2013/images/flattr.png" alt="flattr this!"/></a></p>]]></content:encoded>
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		<title>O gnosticismo do poder</title>
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		<pubDate>Thu, 24 Apr 2014 22:00:58 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Kevin Carson]]></dc:creator>
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				<content:encoded><![CDATA[<p>Aqueles que detêm o poder frequentemente ignoram as condições do mundo real e as limitações materiais à transformação de suas ordens em realidade. Isso ocorre por alguns motivos: seu poder os isola da experiência direta do mundo material e das limitações concretas da realidade material.</p>
<p>Por exemplo, no começo deste mês, a Suprema Corte do estado americano de Indiana decidiu que um juiz pode considerar legitimamente as recordações de um policial dos acontecimentos transcorridos em um caso, quando ditas em testemunho, como mais válidas que evidências em vídeo. Isso mesmo: quando uma gravação em vídeo dos eventos contradiz a memória subjetiva do policial, pior para a realidade. A &#8220;experiência&#8221; do policial e suas &#8220;habilidades superiores de observação&#8221; têm mais peso mesmo quando o que ele observou não aconteceu.</p>
<p>Embora isso possa parecer absolutamente ridículo, não é tão incomum. Nos anos 1960, o teórico Kenneth Boulding observava que &#8220;quanto maior e mais autoritária a organização, serão maiores as chances de que os tomadores de decisão atuem em mundos puramente imaginários&#8221;. O fluxo de informações dentro do sistema numa hierarquia é desenhado para filtrar as mensagens de baixo que contradizem a visão de mundo construída nas mentes daqueles que estão no topo. Para avançar dentro da hierarquia, é necessário ter &#8220;espírito de equipe&#8221;, ou seja, reforçar a imagem da realidade dos que estão no topo da pirâmide e protegê-los da exposição a qualquer realidade factual que possa contradizê-la. Então, naturalmente, quando aqueles em posição de autoridade entram em contato com informações do mundo real que abalam suas visões oficiais, eles as descartam o mais rápido possível, usando todos os protocolos de materiais perigosos.</p>
<p>Ao mesmo tempo, quem está no topo das hierarquias toma decisões e baixa decretos repetidamente àqueles que estão abaixo desconsiderando completamente os recursos necessários para sua execução ou limitações materiais possíveis a sua implementação. O Faraó do Egito antecipava as melhores práticas dos CEOs corporativos atuais, na era do downsizing, quando afirmou &#8220;Daqui em diante não torneis a dar palha ao povo, para fazer tijolos, como fizestes antes: vão eles mesmos, e colham palha para si. E lhes imporeis a conta dos tijolos que fizeram antes; nada diminuireis dela, porque eles estão ociosos&#8221;.</p>
<p>Quando a implementação das técnicas estúpidas de gerência do Studer Group chegou a seu auge há alguns anos, todos ganhamos (de &#8220;presente&#8221; do &#8220;Dia da Valorização do Funcionário&#8221;) pequenos livretos inspiracionais, cheios de mensagens de Mahatma Gandhi e Madre Teresa sobre entrega e doação constante sem esperar nada em troca, somente pela pura alegria de fazer o bem aos outros. &#8220;E, quanto a seu salário e alocação de pessoal, por que andais solícitos? Olhai para os lírios do campo: E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se preocupava com qualquer um deles.&#8221; No caso do hospital em que eu trabalho, também nos garantiam em boletins internos que nós éramos capazes de prover &#8220;cuidados extraordinários aos pacientes&#8221;, com nossa &#8220;abundância ou falta de recursos&#8221;.</p>
<p>Estranhamente, nossa gerência, apesar de sua aparente crença de que vivemos em um mundo de luz e espírito removidos das preocupações com o mundo concreto, não estava imune às necessidades da esfera material. Nosso CEO corporativo ganhou um salário de US$ 18 milhões no ano, mais um bônus de US$ 3,6 milhões. Os gerentes constantemente choravam miséria a respeito da necessidade de economizar em pessoal, &#8220;porque os funcionários da enfermaria são responsáveis por nossos maiores custos&#8221; (apesar de os salários dos gerentes do hospital estarem mais ou menos parecidos com o do pessoal da enfermagem). Eu me perguntava por que a gerência não poderia milagrosamente multiplicar seus recursos para contratar funcionários suficientes, como fez Jesus com o pão e com os peixes. É o que eles aparentemente esperavam que fizéssemos para prover cuidados adequados aos pacientes com o número absolutamente perigoso e criminalmente negligente de trabalhadores empregados.</p>
<p>As pessoas em posições de autoridade estão completamente desconectadas da realidade. O que isso significa? A boa notícia é que as organizações autônomas voluntárias, como redes horizontais, estão destituindo as velhas hierarquias corporativas e governamentais e as engolindo vivas. Há pouco mais de 20 anos, John Gilmore disse que &#8220;a rede trata a censura como dano e desvia dela&#8221;. Redes autônomas e outras associações voluntárias, da mesma maneira, tratam as invasões das autoridades irracionais como danos e se isolam delas. Estamos construindo um mundo em que a interferência irracional dos que estão em posições de autoridade está se tornando cada vez menos relevante para nossas vidas e suas ordens estúpidas vão se tornando inexecutáveis. Não quer se juntar a nós?</p>
<p><em>Traduzido do inglês para o português por <a href="http://c4ss.org/content/author/erick-vasconcelos">Erick Vasconcelos</a>.</em></p>
 <p><a href="http://c4ss.org/?flattrss_redirect&amp;id=26664&amp;md5=4e013b43ec033226dadaa7ed1b658899" title="Flattr" target="_blank"><img src="http://c4ss.org/wp-content/themes/center2013/images/flattr.png" alt="flattr this!"/></a></p>]]></content:encoded>
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