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	<title>Center for a Stateless Society &#187; pernambuco</title>
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		<title>Eduardo Campos morre, mas suas ideias infelizmente sobrevivem</title>
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		<pubDate>Tue, 19 Aug 2014 00:01:14 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Erick Vasconcelos]]></dc:creator>
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				<content:encoded><![CDATA[<p>Na última terça-feira (12), o então candidato à presidência Eduardo Campos <a href="http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2014/08/eduardo-campos-e-entrevistado-no-jornal-nacional.html">dava entrevista ao Jornal Nacional</a>. Dos quinze minutos que passou respondendo perguntas, ao menos dez foram gastos falando sobre a presença de sua família dentro do aparato estatal. O restante foi composto de banalidades do naipe de &#8220;Não vamos desistir do Brasil&#8221;. Na quarta (13), pela manhã, o jato particular de Campos caía em Santos e matava o candidato e seus assessores, além dos pilotos do avião. Sete vítimas.</p>
<p>A violência da queda foi grande a ponto de atrasar o transporte dos restos mortais de Eduardo Campos para Recife, Pernambuco, estado que governou nos últimos 8 anos. Seu velório foi televisionado e espetacularizado durante todo o domingo. Seu desempenho sofrível na entrevista de terça-feira foi esquecido, mas seus semipensamentos foram elevados a slogan. &#8220;Não vamos desistir do Brasil&#8221; foi um chavão amplamente compartilhado e explorado, enquanto muitos pernambucanos nas ruas cantavam &#8220;Eduardo/guerreiro/do povo brasileiro&#8221; durante o velório.</p>
<p>Talvez seja inevitável que a morte de um político expressivo seja explorada de maneira sórdida pelo exército de interessados em se beneficiar de parte de sua memória. Eduardo já foi lembrado como uma &#8220;liderança promissora&#8221;, um &#8220;negociador&#8221;, um &#8220;estadista&#8221; que &#8220;transcendia divisões partidárias&#8221;. E isso tudo é mentira. Por isso talvez seja mais necessário ainda lembrar o que a entrevista de terça-feira de fato mostrou o que Eduardo Campos era: um político da velha guarda, ligado ao velho sistema e à velha elite, ao velho capitalismo de compadrio; um coronel personalista na tradição nordestina de fazer política.</p>
<p>O poder e as instituições tendem a se perpetuar e a frustrar as tentativas de outsiders de fazerem mudanças em suas estruturas engessadas. Mas Eduardo não era um outsider. Era alguém confortavelmente posicionado dentro do poder, onde foi colocado jovem por seu avô, o ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes. Eduardo não tentava subverter qualquer estrutura, mas colocá-las a seu serviço.</p>
<p>No governo estadual, estão presentes &#8220;<a href="http://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,campos-prepara-sua-sucessao-em-familia-imp-,1128320">pelo menos uma dezena</a>&#8221; de parentes seus ou de sua mulher. Tendo composto a base aliada do governo federal por anos, Eduardo Campos fez campanha bem sucedida pela nomeação de sua mãe para o Tribunal de Contas da União, além de ter encaixado dois parentes no Tribunal de Contas Estadual, que fiscalizava suas próprias contas. A prefeitura do Recife hoje é ocupada por homem de confiança seu, sujeito desconhecido pré-eleições, mas alavancado por seu nome. Campos justificou a onipresença de seus familiares em todas as esferas do aparelho estatal como resultante dos &#8220;predicados&#8221; que todos eles possuem. Aparentemente é uma família prodigiosa.</p>
<p>Eduardo Campos foi descrito na imprensa estrangeira como candidato &#8220;amigável&#8221; ao mercado e sua morte empurrou para baixo as cotações da bolsa de valores de São Paulo. Não é para menos; placas de isenções tributárias e subsídios diretos figuram em virtualmente todas as fábricas que povoam a zona da mata pernambucana. A PM pernambucana, sob comando direto dele, agiu para proteger os interesses das empreiteiras do <a href="http://c4ss.org/content/28009">projeto Novo Recife</a> — que consiste na privatização de terrenos extremamente bem localizados na capital pernambucana em benefício de construtoras — espancando manifestantes e, depois, pregando o diálogo. Marina Silva, vice em sua chapa, à época, hipocritamente afirmou ser contra a violência policial e que diversos participantes do movimento contra o Novo Recife faziam parte de seu partido.</p>
<p>Em outras ocasiões, Eduardo Campos não teve problemas em ceder terrenos para empreiteiras, como para a construção do Shopping Riomar, que levou à desapropriação e expulsão de diversos moradores de palafitas da região. Essas pessoas tiveram destinos parecidos com os das milhares que foram expropriadas e desalojadas para a construção da Arena Pernambuco para a Copa do Mundo. Não à toa, as empresas de construção civil, antes pouco empolgadas com o partido de Campos, fizeram, neste ano, gordas doações ao PSB. E não à toa as grandes indústrias, os grandes bancos e empresas do agronegócio lamentaram a perda de um homem tão confiável.</p>
<p>Seu discurso melífluo de favorecimento aos mais pobres escondia uma política de controle, supressão e infiltração dos movimentos sociais. As escolhas políticas de Eduardo Campos foram sempre escondidas pela conveniente narrativa de &#8220;eficiência&#8221; na gestão pública. <a href="http://www1.folha.uol.com.br/poder/poderepolitica/2014/05/1447958-leia-a-transcricao-da-entrevista-de-eduardo-campos-a-folha-e-ao-uol---parte-1.shtml">Em entrevista recente</a>, dizia que o aborto não deveria ser liberado, reiterava seu apoio ao combate às drogas, reciclava o batido discurso de estigmatização do crack e afirmava que traficantes devem ir para trás das grades (assim como &#8220;quem estrupa&#8221; [sic]).</p>
<p>As 100 mil pessoas que lamentavam nas ruas no último domingo lembraram apenas do seu lado mais cínico: o político &#8220;moderno&#8221;, que queria livrar o país do &#8220;clientelismo&#8221; e do &#8220;favorecimento&#8221;, alguém para &#8220;construir alianças&#8221;, promover o &#8220;desenvolvimento sustentável&#8221;, &#8220;pensar nos pobres&#8221; e fazer &#8220;uma política mais humana&#8221;.</p>
<p>Um indivíduo com esse perfil realmente teria muitas dificuldades dentro do sistema político. Eduardo Campos não teve tantas.</p>
<p>Ele morreu, mas seus ideais vivem. Infelizmente.</p>
 <p><a href="http://c4ss.org/?flattrss_redirect&amp;id=30618&amp;md5=5e6a530ae55b48a666038ecdd124614e" title="Flattr" target="_blank"><img src="http://c4ss.org/wp-content/themes/center2013/images/flattr.png" alt="flattr this!"/></a></p>]]></content:encoded>
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		<title>A polícia nunca garantiu a ordem</title>
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		<pubDate>Sat, 17 May 2014 22:00:53 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Erick Vasconcelos]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[Acabou. No começo da noite de quinta-feira, a Polícia Militar de Pernambuco decidiu terminar com a greve que durava o dia inteiro. Houve saques, depredações, desordem, assassinatos. O comércio fechou, as pessoas voltaram para casa. Arrastões aconteceram, carros foram queimados em outros lugares, talvez para verificar se os bombeiros também haviam entrado em greve. Ao...]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p><span style="line-height: 1.5em;">Acabou. No começo da noite de quinta-feira, a Polícia Militar de Pernambuco decidiu terminar com a greve que durava o dia inteiro. Houve saques, depredações, desordem, assassinatos. O comércio fechou, as pessoas voltaram para casa. Arrastões aconteceram, carros foram queimados em outros lugares, talvez para verificar se os bombeiros também haviam entrado em greve.</span></p>
<p>Ao sair de casa aqui no Recife então, porém, uma sensação prevalecia: nada havia mudado. Pernambuco é um dos estados mais violentos do Brasil, e Recife é a 39ª cidade mais perigosa do planeta, com 36,82 homicídios a cada 100 mil habitantes. Com o funcionamento normal da polícia, nós estamos em constante perigo. Sem ela, o perigo havia multiplicado ou nada havia mudado?</p>
<p>Mudou a percepção das pessoas, pensando que não haveria punição a seus crimes. Todos saíram de casa e tomaram as ruas, roubaram. Grandes lojas moveram seus estoques e foram capazes de se proteger, muitos pequenos comerciantes perderam tudo. A situação parecia ter saído do controle, mas o governo decidiu exercer seu monopólio da violência de modo radical e colocou tanques de guerra nas ruas. Imagino que esperassem explodir alguns que tenham roubado uns aparelhos de TV — a Copa está chegando, TVs são aparelhos cobiçados.</p>
<p>Mas a percepção de que não havia polícia era muito mais forte do que a realidade: a verdade é que Pernambuco nunca tem polícia. Se tem, é vista como ameaça, não como proteção, por mais de 80% da população. Em nossas vidas normais, dificilmente temos a sensação de que a polícia nos protegerá, e na quinta-feira nada tinha mudado nesse aspecto. Se, num dia qualquer, as pessoas decidissem fazer o mesmo que fizeram na quinta, elas seriam capazes e sairiam impunes. Elas só não notaram sua própria força ainda, mas a polícia é apenas um pequeno número de pessoas, incapazes de lidar com uma quantidade infindavelmente maior de pessoas que não querem obedecer suas ordens.</p>
<p>O fato de a polícia ter parado de trabalhar e estimulado a desordem parecia apontar para a essencialidade da polícia, mas nos disse justamente o contrário. No Recife, morreram 1416 pessoas em 2013 — quase 4 pessoas por dia. No dia 15, de completa anomia e anormalidade, foram registradas 7 mortes. A greve deveria nos fazer parar para pensar que, no fim das contas, a PM é um exercício de futilidade, uma instituição que sobrevive mais pelo nome que por seus resultados.</p>
<p>Porque a ordem só subsiste quando as pessoas acreditam que ela subsistirá; se as pessoas acreditam que é o governo, ou seu braço policial, que mantém a ordem, essa ordem só continuará de pé enquanto o governo estiver de pé. A ordem não se mantém pela força, mas pela cultura — assim como os governantes. Se as pessoas, coletivamente, deixarem de acreditar que a polícia é necessária, haverá ordem e haverá liberdade, sem saques, depredações e mortes. O poder, portanto, é simplesmente uma ficção pública, algo que existe mas pode desaparecer com uma simples mudança na opinião geral.</p>
<p>Ayn Rand diria que o poder só subsiste com a sanção da vítima. La Boétie, por sua vez, pergunta que poder o governante tem que não aquele que damos a ele. David Hume conclui que o poder é sustentado por pouco mais que a opinião pública, enquanto Gramsci sabe que a ordem existente é legitimada pela cultura. E Varys, em <em>A Fúria dos Reis</em> (com o roteiro um pouco alterado para a série <em>Game of Thrones</em>), coloca a questão da seguinte forma, ao conversar com Tyrion:</p>
<blockquote><p>— O rei, o sacerdote, o rico… Quem sobrevive e quem morre? A quem obedecerá o mercenário? É um enigma sem resposta, ou melhor, com muitas respostas. Tudo depende do homem que tem a espada.<br />
— E, no entanto, ele não é ninguém — Varys concluiu. — Não tem uma coroa, nem ouro, nem o favor dos deuses, mas apenas um pedaço de aço afiado.<br />
— Esse pedaço de aço é o poder da vida e da morte.<br />
— Precisamente… E, no entanto, se são realmente os homens de armas que nos governam, por que fingimos que nossos reis têm o poder? Por que um homem forte com uma espada obedeceria a um rei criança como Joffrey, ou a um idiota encharcado em vinho como o pai?<br />
— Porque esses reis crianças e idiotas bêbados podem chamar outros homens fortes, com outras espadas.<br />
— Então são esses outros homens de armas que têm o verdadeiro poder. Ou será que não? De onde vieram as suas espadas? Por que é que eles obedecem? — Varys sorriu.<br />
(&#8230;)<br />
— Pretende responder ao seu maldito enigma, ou quer apenas fazer com que a minha dor de cabeça piore?<br />
Varys sorriu.<br />
— Eis, então. O poder reside onde os homens acreditam que reside. Nem mais, nem menos.</p></blockquote>
<p>Na quinta, as pessoas usaram o poder que sempre tiveram e o usaram para o mal. E, ao final do dia, decidiram entregá-lo de volta para a polícia, que anunciou o fim de sua greve — mas se o povo não quisesse devolver o poder, o que a polícia faria? Na próxima greve, talvez as pessoas passem a acreditar que podem viver normalmente sem ela. Porque a ordem existe onde os homens acreditam que ela existe.</p>
 <p><a href="http://c4ss.org/?flattrss_redirect&amp;id=27312&amp;md5=1b46df75e6eca07860baf54634f13df5" title="Flattr" target="_blank"><img src="http://c4ss.org/wp-content/themes/center2013/images/flattr.png" alt="flattr this!"/></a></p>]]></content:encoded>
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