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	<title>Center for a Stateless Society &#187; discurso</title>
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		<title>O discurso do crack</title>
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		<pubDate>Wed, 13 Aug 2014 00:00:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Erick Vasconcelos]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[Em sua visita ao Brasil, perguntaram ao neurocientista Carl Hart o que ele pensava sobre o termo &#8220;Cracolândia&#8221;. Hart respondeu: &#8220;Com esse nome, nós mostramos para a sociedade como vilanizar certos grupos de pessoas&#8221;. É verdade. Ao falarmos da &#8220;Cracolândia&#8221;, divorciamos a questão de nossa realidade. A Cracolândia passa a ser um mundo separado em...]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Em sua visita ao Brasil, <a href="https://www.youtube.com/watch?v=FFIEtw4PHYw">perguntaram ao neurocientista Carl Hart</a> o que ele pensava sobre o termo &#8220;Cracolândia&#8221;. Hart respondeu: &#8220;Com esse nome, nós mostramos para a sociedade como vilanizar certos grupos de pessoas&#8221;. É verdade. Ao falarmos da &#8220;Cracolândia&#8221;, divorciamos a questão de nossa realidade. A Cracolândia passa a ser um mundo separado em que vigoram regras diferentes da nossa vida ordinária.</p>
<p>A característica distintiva do local passa a ser o fato de ser frequentado por usuários de crack. E o perfil dos usuários de crack já é amplamente conhecido: gente pobre, negra e favelada. Mas a narrativa criada pelo rótulo &#8220;Cracolândia&#8221; não é o de que são pessoas em necessidade, de que são indivíduos inseridos em um sistema com incentivos perversos, de que são peões no meio da troca de tiros entre a PM e o tráfico; a narrativa diz apenas que são &#8220;crackudos&#8221; que precisam ser eliminados.</p>
<p>O nome &#8220;Cracolândia&#8221; também exclui do imaginário coletivo o fato de que, como Hart menciona, as pessoas que frequentam esses locais são, essencialmente, comuns. São frequentemente dependentes de drogas (por isso dignas de compaixão e não de desprezo), mas suas ações, aspirações e relações são essencialmente comuns, desviando muito pouco do normal.</p>
<p>A política pode ser descrita por diversos ângulos, mas me parece ser útil pensar nela como um embate de discursos. E discursos não são apenas formalidades propagandísticas de um determinado modo de pensar. Não são a maneira como um pensamento se arranja no meu texto para atingir o seu entendimento. Discursos, como afirma Michel Foucault, são organizações do conhecimento institucionalizado; ou seja, o discurso necessariamente está relacionado a padrões historicamente estabelecidos de pensar o mundo.</p>
<p>Ao falarmos da Cracolândia, recortamos um aspecto da realidade e elegemos o discurso oposto. Nós reproduzimos e estigmatizamos as pessoas que fazem parte, por um motivo ou por outro, desses espaços. Paramos de lidar com indivíduos e passamos a pensar apenas nos termos de poder, nos termos do governo sobre &#8220;o que fazer&#8221; com as pessoas que estão na Cracolândia, como se houvesse algo particularmente diferente entre as pessoas que estão lá e os miseráveis de outros locais. Ou, como afirma Hart, como se o crack fosse de alguma forma diferente da cocaína, <a href="https://www.youtube.com/watch?v=zTX7880gpZ4">e não simplesmente a mesma droga com o estigma da pobreza</a>.</p>
<p>A Cracolândia, enfim, é só o resultado natural de um combate às drogas cujo discurso pretende rotular todos os usuários de drogas como &#8220;drogados&#8221; ou &#8220;viciados&#8221; e justificar sua marginalização. Quando a sociedade nota que sua tentativa de marginalizar pessoas de fato cria bolsões de pessoas marginalizadas, as pessoas levantam a mãos para o céu e se perguntam &#8220;o que ocorreu de errado?&#8221;, como se o resultado não fosse previsível.</p>
<p>O discurso sobre o crack, como um todo, é desenhado para criar a casta de indesejáveis e de indivíduos fora da discussão racional política. Ou seja, é um discurso para racionalizar a força.</p>
<p>Nesta semana, ganhou força entre grupos liberais e libertários do Brasil o nome do candidato Paulo Batista à Assembleia Legislativa do estado de São Paulo. Propagandeado como alternativa liberal à assembleia estadual, salta aos olhos uma das propostas de Batista que trata do &#8220;combate ao crack&#8221;. Para ele, o governo deve adotar uma política de &#8220;tolerância zero&#8221; em relação a traficantes e consumidores do crack.</p>
<p>Muitos liberais e libertários defendem o candidato afirmando que, afora esse pequeno desvio dos princípios libertários, trata-se de uma ótima opção em nosso cenário político.</p>
<p>É uma pena que posições políticas não sejam todas de igual peso e defender a violência extrema, o encarceramento de certas pessoas e a higienização de locais específicos da cidade seja uma ideia absolutamente desprezível, não importa se você defende a redução dos impostos para materiais de construção.</p>
<p>Paulo Batista e os libertários que fazem pouco caso de sua posição sobre o crack pensam estar sendo oposição efetiva e sem utopias no contexto político. Mas estão apenas papagaiando o discurso do poder.</p>
 <p><a href="http://c4ss.org/?flattrss_redirect&amp;id=30298&amp;md5=b7402081272e23925ce89236f4c67eb2" title="Flattr" target="_blank"><img src="http://c4ss.org/wp-content/themes/center2013/images/flattr.png" alt="flattr this!"/></a></p>]]></content:encoded>
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		<title>Como não responder a acusações de hipocrisia</title>
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		<pubDate>Mon, 07 Apr 2014 22:00:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Kevin Carson]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[Mais de dez anos atrás, blogueiros neoconservadores cunharam o termo &#8220;fisking&#8221; para nomear a atividade polêmica (originalmente demonstrada contra o jornalista de esquerda Robert Fisk) de desmontar um comentário, frase a frase, analisando e refutando cada trecho dele. Embora as ideias neoconservadoras sejam tanto incorretas quanto repugnantes, a técnica é válida. E as observações recentes...]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Mais de dez anos atrás, blogueiros neoconservadores cunharam o termo &#8220;fisking&#8221; para nomear a atividade polêmica (originalmente demonstrada contra o jornalista de esquerda Robert Fisk) de desmontar um comentário, frase a frase, analisando e refutando cada trecho dele. Embora as ideias neoconservadoras sejam tanto incorretas quanto repugnantes, a técnica é válida. E as observações recentes do presidente Barack Obama sobre a crise na Crimeia, em seu discurso no dia 26 de março à juventude europeia, são especialmente adequados a essa descontrução. Portanto, vamos analisar algumas passagens relevantes, ponto por ponto, e compará-las à realidade.</p>
<p style="padding-left: 30px;">A Rússia se referiu à decisão dos Estados Unidos de ir à guerra no Iraque como exemplo de hipocrisia ocidental. Agora, é verdade que a Guerra do Iraque foi amplamente debatida não só no resto do mundo, mas também dentro dos EUA. Eu participei desse debate e me opus à intervenção militar. Mas, mesmo no Iraque, os Estados Unidos buscaram atuar dentro do sistema internacional.</p>
<p>O tal &#8220;sistema internacional&#8221; a que Obama se refere de forma idealista foi criado pelos Estados Unidos depois da Segunda Guerra Mundial, tendo a Grã-Bretanha e a França como parceiros minoritários, e foi desenvolvido para manter a posição dos EUA como o &#8220;poder hegemônico dentro da ordem mundial&#8221;. Perceba que a última citação não é de Noam Chomsky, Howard Zinn ou qualquer outro acadêmico de esquerda, mas sim de Samuel Huntington — um participante ativo e entusiasta da formulação desse sistema.</p>
<p>O sistema internacional estabelecido em Bretton Woods (o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional — FMI), que tinha o Conselho de Segurança da ONU e as forças armadas americanas como braços executivos, foi desenhado para garantir que tentativas regionais de secessão econômica, como a Forteleza Europa da Alemanha e a Esfera de Co-prosperidade da Grande Ásia Oriental do Japão jamais ameaçassem novamente tirar grande parte dos recursos naturais ou mercados do controle da ordem corporativa mundial. A função principal das atividades estratégicas americanas nos últimos 70 anos foi garantir que o Sul do planeta se desenvolva dentro da estrutura dessa ordem mundial — chegando ao ponto de usar golpes militares, esquadrões da morte e terrorismo quando necessário como retaliações a contestações locais ao sistema.</p>
<p style="padding-left: 30px;">Não reivindicamos ou anexamos o território iraquiano. Não tomamos posse de seus recursos para nosso proveito.</p>
<p>É verdade. O governo dos Estados Unidos não anexou formalmente qualquer território iraquiano ou tomou seus recursos em seu nome. Ele apenas ajudou muitas corporações multinacionais a saquear a economia do derrotado Iraque, sob a supervisão das autoridades militares americanas. A Autoridade Provisória da Coalizão, sob o comando de Paul Bremer, leiloou todo o estado iraquiano com a ajuda dos mesmos estrategistas neoliberais do Instituto Heritage e do American Enterprise Institute que haviam supervisionado a pilhagem do Chile e da Rússia sob Pinochet e Yeltsin. Ela invadiu violentamente, roubou e destruiu a sede da federação de sindicatos iraquiana. E também aprovou o acesso do Iraque aos tratados de &#8220;direitos de propriedade&#8221; mundiais, que deram às empresas de música e filmes, à Microsoft, à Merck, à Pfizer e à Monsanto direitos eternos para extrair dinheiro do suor e do sangue do povo iraquiano.</p>
<p style="padding-left: 30px;">Ao invés disso, terminamos a guerra e deixamos o Iraque para seu povo com um estado soberano capaz de tomar decisões sobre seu próprio futuro.</p>
<p>De fato. Os Estados Unidos deixaram o Iraque com uma constituição escrita por Paul Bremer e companhia, que transformou em lei permanente toda pilhagem corporativa que ocorreu com a invasão e que requer autorizações da maioria em tantas províncias para a aprovação de emendas que é praticamente impossível acontecer qualquer mudança. Então, é verdade, o governo americano abandonou a anexação direta de territórios (como o Havaí, Porto Rico e outros) muito tempo atrás. Ele foi inteligente o bastante para perceber que é mais barato terceirizar a defesa de seus interesses corporativos para democracias de fachada nominalmente independentes, reservando o uso direto da força para ocasiões em que essas democracias saem do controle.</p>
<p>A social-democracia &#8220;idealista&#8221; de John Kennedy, assim como o processo de fabricação de salsichas, não é digna de análise tão profunda. Na realidade, por trás de todas alegações de promover os &#8220;ideais do Iluminismo&#8221;, a &#8220;comunidade global&#8221; e os &#8220;direitos humanos&#8221;, o estado exerce só uma função: servir aos interesses da classe econômica que o controla.</p>
<p>Traduzido do inglês para o português por <a title="Posts by Erick Vasconcelos" href="http://c4ss.org/content/author/erick-vasconcelos" rel="author">Erick Vasconcelos</a>.</p>
 <p><a href="http://c4ss.org/?flattrss_redirect&amp;id=26196&amp;md5=ad5fb7081a3a4e84c06d54cf579b1c38" title="Flattr" target="_blank"><img src="http://c4ss.org/wp-content/themes/center2013/images/flattr.png" alt="flattr this!"/></a></p>]]></content:encoded>
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