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	<title>Center for a Stateless Society &#187; anarquismo</title>
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		<title>A advertência de A Revolução dos Bichos: a desigualdade importa</title>
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		<pubDate>Sat, 20 Dec 2014 23:30:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[David S. D'Amato]]></dc:creator>
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				<content:encoded><![CDATA[<p>Recentemente, em um comentário a meu artigo &#8220;<a href="http://c4ss.org/content/33545">O caminho libertário para o igualitarismo</a>&#8220;, o filósofo libertário Tibor R. Machan citou o livro de George Orwell <em>A Revolução dos Bichos</em> como exemplo do que acontece quando tentamos combater a desigualdade. Para Machan, a desigualdade é um &#8220;problema fabricado&#8221; e a história de Orwell é um alerta para os perigos da tentativa de corrigi-la. Ao ler seu comentário, fiquei um tanto perplexo, porque eu jamais havia interpretado <em>A Revolução dos Bichos</em> dessa maneira. Desde que li o livro pela primeira vez, minha leitura indicava um alerta quase oposto ao indicado por Machan.</p>
<p>Parecia-me então, como agora, que <em>A Revolução dos Bichos</em> faz uma advertência a respeito dos problemas da desigualdade, o resultado da concessão de direitos e privilégios a uma classe política dominante. Orwell habilidosamente ilustra o problema fundamental da autoridade política, seus conflitos inerentes e seus incentivos que favorecem o abuso do poder e que rapidamente enterram grandes ideais filosóficos. O ponto principal de Orwell era que os porcos nunca levam a sério sua retórica de igualdade e de restabelecimento da fazenda em termos mais igualitários &#8212; que quase imediatamente passam a tomar vantagem de sua posição desigual na fazenda para explorar o resto dos animais e concentrar os luxos para seu usufruto particular. <em>A Revolução dos Bichos</em>, assim, sucintamente demonstra a conexão entre o poder político e o poder econômico. Quando a desigualdade naquele é instituída como fato legal, a desigualdade neste se segue inexoravelmente. Os libertários de livre mercado normalmente ficam desconfortáveis com as condenações de esquerda à desigualdade econômica, alegando que, <em>em princípio</em>, o libertarianismo não tem qualquer problema com a desigualdade.</p>
<p>Afinal, se favorecemos os direitos individuais, a competição aberta e a propriedade privada, devemos aceitar quaisquer resultados que se seguirem dessas premissas. Estritamente, tudo isso é verdade. Parece-me, porém, que uma crítica social libertária precisa incluir uma crítica à desigualdade econômica como sintoma da falta de liberdade econômica e das persistentes interferências do poder político em favor das elites ricas. Em seu estudo biográfico de Thomas Hodgskin, o historiador David Stack descreve a crença de Hodgskin de que &#8220;o trabalhador poderia ser liberado através da aplicação consistente da moralidade burguesa&#8221;. Para Hodgskin, Stack afirma, &#8220;a desigualdade e a miséria, a ordem social e a antipaz&#8221; eram todas funções da legislação, impostas artificialmente e não resultantes de &#8220;quaisquer desigualdades inerentes no sistema de produção&#8221;. Se as injustiças econômicas existentes resultam da lei positiva, então &#8220;restrições socialistas ao laissez faire estavam enganadas&#8221;. Hodgskin viveu e escreveu seus trabalhos numa época em que era mais fácil articular uma visão que fosse tanto liberal quanto socialista. O legado pouco apreciado de pensadores como Hodgskin avança o argumento (frequente aqui no Centro por uma Sociedade Sem Estado) de que os libertários devem desconfiar do termo &#8220;capitalismo&#8221; em vez de trombeteá-lo como algo que favorecemos.</p>
<p>Como Hodgskin, os anarquistas de mercado atuais não se opõem ao fato de que o capital é compensado como parte do processo de produção. A preocupação &#8212; que só pode ser aplacada pela adoção de um ora hipotético livre mercado &#8212; é que o capital seja supercompensado devido à posição de privilégio que o estado confere a ele. Escreveu Hodgskin: &#8220;Ficamos tentados a pensar que capital é como uma palavra cabalística, tal qual Igreja ou Estado, ou quaisquer outros termos gerais que são inventados por aqueles que tosam a humanidade para esconder as mãos com a tesoura. É um tipo de ídolo perante os quais os homens devem se prostrar (&#8230;).&#8221; Entre os insights principais de Hodgskin, normalmente ignorados pela maioria dos defensores do livre mercado, está a ideia de que o comércio em si não prova a ausência de exploração. As trocas desiguais são exploratórias no momento em que uma das partes têm vantagens injustas ganhas através de intervenções coercitivas ou restrições à competição. No nível micro, as trocas desiguais se manifestam, por exemplo, em relações de emprego ou em acordos de bens ou serviços de consumo. Em uma escala maior, análises sobre trocas desiguais podem auxiliar nosso entendimento sobre a forma pela qual os países pobres e em desenvolvimento interagem economicamente com o Ocidente desenvolvido.</p>
<p>No mundo de <em>A Revolução dos Bichos</em>, os porcos empregavam a violência como maneira de preservar sua posição de poder; os outros animais trabalhavam cada vez mais em troca de menores pagamentos, enquanto os porcos eram os senhores da Granja dos Bichos &#8212; nome que foi eventualmente revertido ao original Granja do Solar. O mantra original &#8220;Todos os animais são iguais&#8221; foi gradualmente, quase imperceptivelmente, suplantado pela ideia de que &#8220;alguns animais são mais iguais que outros&#8221;. A interpretação de Machan de <em>A Revolução dos Bichos</em> esquece que Orwell era um socialista e, como o estudioso de Orwell Craig L. Carr observa, o livro é um alerta bastante direto a respeito da &#8220;traição do ideal igualitário&#8221;. Após a revolução dos porcos, com a queda do sr. Jones, permaneceu &#8220;[um] sistema econômico que legitimava a desigualdade material&#8221;. Orwell tinha bastante interesse no uso da língua. Em toda a sua obra, inclusive em <em>A Revolução dos Bichos</em>, gestos políticos são os mecanismos através dos quais os objetivos nobres da revolução se tornam &#8220;coerentes com o privilégio e a posição de superioridade da classe dominante&#8221;. Os termos usados pelo libertarianismo e pelo livre mercado similarmente são importantes aos beneficiários dos privilégios econômicos. Sem eles, as pessoas reconheceriam o que de fato é o poder corporativo: algo criado pela violência e coerção políticas, um sistema de classes tão real, observável e quantificável quanto qualquer outro anterior. Criticar a desigualdade deve ser importante para o libertarianismo porque devemos levar a sério nossas ideias em favor do livre mercado e devemos considerar a economia política atual como muito distante de nosso modelo. Os libertários, da mesma maneira, devem estar abertos ao socialismo e à análise de classes presente no trabalho de esquerdistas como Hodgskin e Orwell. É hora de começarmos a enfatizar tanto a liberdade quanto a igualdade, não somente uma ou outra.</p>
<p><em>Traduzido por <a href="http://c4ss.org/content/author/erick-vasconcelos">Erick Vasconcelos</a>.</em></p>
 <p><a href="http://c4ss.org/?flattrss_redirect&amp;id=34300&amp;md5=d5830ef07516333ec02dacd13da4b1b3" title="Flattr" target="_blank"><img src="http://c4ss.org/wp-content/themes/center2013/images/flattr.png" alt="flattr this!"/></a></p>]]></content:encoded>
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		<title>A pergunta que Michael Lind simplesmente não vai responder</title>
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		<pubDate>Fri, 19 Dec 2014 23:00:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Kevin Carson]]></dc:creator>
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				<content:encoded><![CDATA[<p>No ano passado, no Salon, Michael Lind fez &#8220;a pergunta que os libertários simplesmente não podem responder&#8221; (&#8220;<a href="http://www.salon.com/2013/06/04/the_question_libertarians_just_cant_answer/">The question libertarians just can’t answer</a>&#8220;, 4 de junho de 2013): &#8220;Por que não há países libertários? (&#8230;) Se o libertarianismo fosse uma boa ideia, ao menos um país não o teria tentado?&#8221;.</p>
<p>Ele recebeu algumas respostas &#8212; as melhores partiram de nós, da esquerda da libertária de livre mercado, que nos consideramos críticos do capitalismo corporativo. Roderick Long escreveu (“<a href="http://c4ss.org/content/19663">The Myth of 19th-Century Laissez-Faire: Who Benefits Today?</a>”, 10 de junho de 2013):</p>
<blockquote><p>A questão é absurda porque a resposta libertária é óbvia: o libertarianismo é ótimo para as pessoas comuns, mas não tanto para as elites que controlam os países e determinam as políticas a implementar e que preferem que seu status privilegiado seja sujeito à competição no livre mercado. E as pessoas comuns não se mobilizam em prol de políticas libertárias porque a maioria delas não está familiarizada com os argumentos mais consistentes em prol do libertarianismo, em grande parte porque o sistema educacional é controlado pelas elites supracitadas.</p>
<p>A pergunta de Lind é análoga àquelas que poderiam ser feitas há alguns séculos: se a tolerância religiosa, a igualdade para as mulheres ou a abolição da escravidão são tão boas, por que nenhum país as tentou? Todas essas perguntas são formuladas da seguinte maneira: se a liberação é tão boa para os oprimidos, por que os opressores não a implementaram?</p></blockquote>
<p>Minha própria resposta (“<a href="http://c4ss.org/content/19911">The Only Thing Dumber Than Libertarianism’s Critics are its Right-Wing Defenders</a>,” C4SS, 22 de junho de 2013) era a de que Lind:</p>
<blockquote><p>[Seria] recebido com um silêncio igualmente profundo se desafiasse os defensores da justiça econômica e social a dizerem pelo menos um país sem exploração econômica por uma classe privilegiada. Todos os países do mundo possuem estados interventores. Todos os países do mundo têm exploração de classe. Todos os países na história com um estado, desde que os estados surgiram, também possuem classes e exploração econômica. A correlação é de cem por cento.</p></blockquote>
<p>Lind não ficou satisfeito com nossas respostas (“<a href="http://www.salon.com/2013/06/11/libertarians_still_a_cult/">Libertarians: Still a Cult</a>,” Salon, 11 de junho de 2013):</p>
<blockquote><p>Um levantamento não-rigoroso da blogosfera mostra que vários libertários responderam ao meu artigo afirmando que, uma vez que o libertarianismo é antiestatista, pedir um exemplo de um estado libertário no mundo real demonstra uma incompreensão do libertarianismo. Mas se o ideal libertário é uma sociedade sem estado, então o libertarianismo é apenas um nome diferente para a utopia anarquista e merece ser igualmente ignorado.</p></blockquote>
<p>Lind, porém, não é menos utópico que nós, &#8220;anarquistas utópicos&#8221;. Como eu afirmei em resposta a seu artigo original, Lind coloca a questão como se o espectro histórico de sistemas históricos refletisse um julgamento coletivo em que &#8220;nós&#8221;, a &#8220;sociedade&#8221; ou a &#8220;nação&#8221; decidimos o que seria a melhor maneira de organizar as questões de interesse comum. &#8220;Nós&#8221; tentamos aquela outra coisa e ela não funcionou e então &#8220;nós&#8221; tentamos esta aqui e ela funcionou melhor. Mas isso é uma bobagem a-histórica.</p>
<p>No Evangelho, os sacerdotes, escribas e anciãos foram até Jesus e exigiram saber sob que autoridade ele pregava para o povo. Jesus, em resposta, disse: &#8220;Também eu vos farei uma pergunta; Dizei-me pois&#8221;.</p>
<p>Então, a Michael Lind eu peço: mostre-me um só estado, em toda a história da humanidade, que não era controlado por uma elite econômica e usado para explorar economicamente e extrair renda das classes trabalhadoras ou produtivas na sociedade governada? Mostre-me um só estado que não era um instrumento extrativo em benefício de latifundiários patrícios, escravocratas, lordes feudais, corporações e bancos capitalistas ou &#8212; como na URSS &#8212; da própria burocracia estatal. Mostre-me um só estado cujo propósito principal não tenha sido o de proteger direitos de propriedade artificiais e a escassez artificial que permitia que a elite dominante vivesse às custas dos demais.</p>
<p>Repetindo o que eu e outros libertários de esquerda dissemos em resposta ao artigo de Lind, um estado libertário é uma contradição em termos. O estado passou a existir nos últimos 5000 anos de nossa história de 200.000 anos como homo sapiens, em áreas com agricultura produtiva o suficiente para que as classes dominantes extraíssem suas rendas do excedente produtivo. É isso que os estados fazem. Além disso, ninguém é capaz de encontrar um só estado na história humana sem uma elite que o capitaneasse. Logo, o argumento de Lind é absurdo.</p>
<p>Contudo, é possível que Lind concorde com o apologista da escravidão John Calhoun, que via o domínio de classes do estado como uma coisa boa: &#8220;Jamais existiu uma sociedade rica e civilizada em que uma parte da comunidade não tenha vivido às custas do trabalho da outra&#8221;.</p>
<p>Em justiça a Lind, eu duvido disso. Eu não acho que essa seja nem uma questão que ele considere. Para Lind, críticas libertárias de esquerda ao estado e ao capitalismo corporativo nem existem.</p>
<blockquote><p>A lógica ruim e as pesquisas fracas que abarrotam as respostas libertárias a meu artigo tendem a reforçar minha visão de que, se não fossem pagos tão bem para escrever propaganda antigoverno por plutocratas como os irmãos Koch e várias corporações autointeressadas, os libertários não desempenhariam papel maior no debate público que o dos seguidores de Lyndon LaRouche ou de L. Ron Hubbard.</p></blockquote>
<p>Lind não esconde sua visão de que o capitalismo gerencialista de altos custos é natural e inevitável. Idealmente, ele deve ser acompanhado de modificações progressistas/social-democratas para o tornarem mais palatável. Mas qualquer crítica à centralização, hierarquia ou burocracia desse modelo é necessariamente de direita. Eu critiquei essas premissas ocultas à exaustão neste artigo.</p>
<p>O fato permanece que se há alguém culpado de empregar &#8220;lógica ruim&#8221; e &#8220;pesquisas fracas&#8221;, além de não responder diretamente a questionamentos, esse alguém é o próprio Lind.</p>
<p>Já passou da hora de Lind responder ao que foi colocado. Ou de calar a boca.</p>
<p><em>Traduzido por <a href="http://c4ss.org/content/author/erick-vasconcelos">Erick Vasconcelos</a>.</em></p>
 <p><a href="http://c4ss.org/?flattrss_redirect&amp;id=34288&amp;md5=c235850564ead337f15615634efef936" title="Flattr" target="_blank"><img src="http://c4ss.org/wp-content/themes/center2013/images/flattr.png" alt="flattr this!"/></a></p>]]></content:encoded>
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		<title>O punho de ferro por trás da mão invisível</title>
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		<pubDate>Tue, 28 Oct 2014 02:24:25 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Kevin Carson]]></dc:creator>
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				<content:encoded><![CDATA[<p><strong>O capitalismo corporativo como um sistema de privilégios garantidos pelo estado</strong></p>
<p><strong>Prefácio</strong></p>
<p>Círculos de direita e esquerda concordam em ao menos um ponto principal: o sistema que existe é, basicamente, um livre mercado com leves desvios que o distorcem. Algumas correntes de direita tendem a achar esses desvios negativos; a esquerda, por sua vez, pensa que são desvios corretores, que humanizam a canibalização promovida pelo capitalismo. Mas há uma terceira posição entre essas duas: que nosso regime não é fundamentalmente livre com desvios. Pelo contrário, o sistema vigente é fundamentalmente controlado com leves traços que lembram o livre mercado.</p>
<p>É essa ideia que é defendida em <em>O punho de ferro por trás da mão invisível</em>, um artigo clássico de 2001 de Kevin Carson que estou muito feliz de ter trazido para o português. Nele, são desafiados não só os pressupostos culturais e institucionais que caracterizam a economia atual: os subsídios sistemáticos à indústria, à centralização geográfica da riqueza e à hierarquização da produção. Para Carson, o capitalismo atual, com sua retórica de livre mercado, é baseado na violência e na exploração sistemáticas dos trabalhadores. O estado, assim, não é a instituição que se coloca em oposição ao capitalismo, mas que o sustenta e subvenciona.</p>
<p>O corolário dessa ideia é a ideia que tem sido defendida pelos libertários de esquerda: como não há paralelo entre o livre mercado e o mercado controlado pelo governo em benefício da elite que existe atualmente, nós devemos buscar alternativas tanto ao estado quanto ao mercado tutelado por ele.</p>
<p>Na tradução deste texto, evidentemente, tentei ser o mais fiel possível ao original; fiz apenas pequenas mudanças para facilitar o entendimento de algumas referências para quem é de fora dos Estados Unidos. Além disso, todas as referências foram atualizadas (referências a sites já fora do ar foram modificadas para versões atuais) e algumas que não estavam na listagem final foram acrescentadas.</p>
<p><em>Erick Vasconcelos<br />
</em><em>Tradutor e coordenador de mídias em português<br />
</em><em>Centro por uma Sociedade Sem Estado (C4SS)</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Introdução à edição em português</strong></p>
<p>A publicação de <em>O punho de ferro</em> em 2001 foi um marco na minha vida. A decisão de Larry Gambone de publicá-lo como panfleto pela Red Lion Press foi uma honra e foi o principal fator que alavancou minha carreira como escritor sério (em comparação ao que eu era antes, alguém que enviava cartas raivosas aos editores e manuscritos impublicáveis). E agora fico igualmente honrado pela tradução de meu primeiro panfleto para o português.</p>
<p>Terminei a primeira versão deste panfleto e o enviei para Larry uma ou duas semanas depois dos ataques de 11/09, então minhas lembranças do inebriante sentimento de conseguir publicá-lo se misturam com as memórias da atmosfera pós-11 de setembro. As demonstrações em Seattle contra a Organização Mundial do Comércio em dezembro de 1999 e os protestos subsequentes contra o neoliberalismo haviam me dado uma sensação de possibilidade e esperança (que, estranhamento, eu associo com a última cena do filme <em>Matrix</em>, quando Neo anuncia sua intenção de desafiar a falsa consciência da realidade virtual com a promessa de um &#8220;mundo sem limites&#8221;). Eu já frequentava a internet há um ano e havia descoberto o Movimento pela Cooperação Voluntária (“Voluntary Cooperation Movement”, em inglês) de Gambone, Dick Martin, Ed Stamm e outros, junto com vários outros movimentos anarquistas, anarcossindicalistas e libertários de esquerda online. Via muitas possibilidades na internet e meu otimismo só era reforçado pela notícia de que em breve eu seria um autor publicado.</p>
<p>Foi nesse cenário que eu acordei numa manhã de terça-feira em setembro, esperando aproveitar minha folga na primeira frente fria do outono e tive notícias do ataque à primeira torre do World Trade Center. Mais jovem e um pouco mais provocador na época, eu me via no começo de um longo conflito de proporções históricas mundiais entre um sistema em declínio e seu sucessor. Eu não fazia ideia da magnitude da violência que o sistema decadente ainda perpetraria e de quanto tempo o período de transição duraria, mas já percebia — corretamente, como pudemos verificar — que ele envolveria uma grande expansão das agressões americanas no exterior e do estado policial internamente. Temendo a possibilidade de que os ganhos do período pós-Seattle fossem destruídos pela repressão e pela reação pública, eu me perguntava se estávamos entrando em um momento de retração e dormência da esquerda, como no livro <em>The Iron Heel</em> (&#8220;O calcanhar de ferro&#8221;), de Jack London.</p>
<p>Agora, treze anos depois, posso dizer que estou ainda mais otimista e entusiasmado com os novos desdobramentos do que estava antes do 11 de setembro. Nós já vimos a rápida proliferação e o barateamento dos tipos de tecnologia de produção em pequena escala para a manufatura, horticultura e informação que serão os pilares da nova sociedade fora da estrutura corporativa — a base do &#8220;êxodo&#8221; de que falam autonomistas como Michael Hardt e Antonio Negri. E nós já vimos um no vo levante de movimentos de resistência em rede — o movimento de compartilhamento de arquivos, Anonymous, Wikileaks, a Primavera Árabe, o M15, o Occupy e seus sucessores — que foram erguidos a partir das contribuições anteriores dos zapatistas e de movimentos pós-Seattle.</p>
<p>Erick Vasconcelos, o tradutor deste trabalho, pediu para que eu fizesse algumas observações sobre o Terceiro Mundo. Pouco mais de um ano antes de eu escrever <em>O punho de ferro</em>, eu havia começado a ler os trabalhos de Noam Chomsky, William Blum e Gabriel Kolko sobre a história real do Império desde a Segunda Guerra Mundial e sobre os sistemas coloniais que o precederam. Embora eu houvesse assimilado algumas dessas lições e as incorporado a este panfleto, se tivesse que modificar algo em seu texto hoje em dia, eu integraria a ele a história do roubo e da exploração do Ocidente dentro do contexto dos sistemas coloniais e neocoloniais de exploração do Terceiro Mundo, dando mais atenção a estes últimos. Teria enfatizado muito mais a continuidade do domínio corporativo transnacional em relação às formas mais antigas de imperialismo e colonialismo. Eu o fiz em grande parte no capítulo sete de meu livro <em>Studies in Mutualist Political Economy</em> (em português, &#8220;Estudos sobre a economia política mutualista&#8221;), que ainda pode ser encontrado online em meu site Mutualist.org.</p>
<p>E já que este artigo provavelmente será lido principalmente por brasileiros, eu gostaria de fazer algumas observações destinadas especialmente a vocês. Apesar de meu entusiasmo ao ver que a Argentina, o Brasil e o resto da América do Sul haviam sido tomados por regimes declaradamente antineoliberais que não mais se submeteriam ao domínio americano, tem sido uma grande decepção observar o Partido dos Trabalhadores de Lula sucumbir às mesmas tendências autoritárias que caracterizam todos os outros partidos da esquerda ao chegar ao poder. O mesmo padrão observado por George Orwell na Espanha e que Murray Bookchin descreveu de forma mais geral a respeito das revoluções do século 20 em <em>The Third Revolution</em> (&#8220;A terceira revolução&#8221;) se repetiram no Brasil. A guerra dos cercamentos e demolições contra os moradores de favelas (especialmente nos preparativos para a Copa do Mundo de 2014), as tentativas brutais de &#8220;higienizar&#8221; as ruas expulsando os desabrigados, o combate aos comerciantes de rua — todas ações que poderiam ser associadas a um ditador de direita e é absolutamente nauseante que sejam empreendidas por um governo de uma instituição que se pretenda chamar de &#8220;Partido dos Trabalhadores&#8221;.</p>
<p>Finalmente, deixe-me dizer também como estou feliz que os leitores em língua portuguesa sejam o público mais crescente do material do Centro por uma Sociedade Sem Estado (C4SS). Eu agradeço a Erick (e também a Murilo Leme, que trabalhou consideravelmente em várias traduções) por seus esforços em traduzir não apenas este panfleto, mas muitas colunas e artigos do C4SS. Obrigado a todos por seu interesse e apoio!</p>
<p><em>Kevin Carson<br />
</em><em>24 de outubro de 2014</em></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>Introdução</strong></p>
<p>É comum caracterizar o senhorialismo como um sistema baseado no roubo e na usurpação; uma classe dominante se estabelecia pelo uso da força e obrigava os camponeses a trabalharem para o lucro de seus senhores. Porém, nenhum sistema de exploração, nem mesmo o capitalismo, já foi criado pela ação de um mercado livre. O capitalismo teve como base o roubo em larga escala que foi o feudalismo. Ele se sustenta até o presente por ações contínuas do estado que têm como objetivo manter seu sistema de privilégios, sem o qual sua sobrevivência é inconcebível.</p>
<p>A estrutura atual da posse do capital e da organização da produção em nossa pretensa economia &#8220;de mercado&#8221; reflete a intervenção forçosa do estado anterior e alheia ao mercado. Desde o começo da revolução industrial, o que se chama nostalgicamente de &#8220;<em>laissez-faire</em>&#8221; foi, na verdade, um sistema de intervenções estatais contínuas que subsidiavam a acumulação, garantiam privilégios e mantinham a disciplina de trabalho.</p>
<p>A maioria dessas intervenções são consideradas tacitamente por libertários de direita como parte do &#8220;mercado&#8221;. Embora alguns mais intelectualmente honestos, como Murray Rothbard e Karl Hess, estivessem dispostos a analisar o papel da coerção no desenvolvimento do capitalismo, a escola de Chicago e os seguidores de Ayn Rand tomam como dadas a presente distribuição de propriedades e o domínio de uma classe sobre outra. Seu &#8220;livre mercado&#8221; é meramente o sistema atual menos as regulamentações e o assistencialismo estatal — ou seja, o capitalismo dos barões ladrões do século 19.</p>
<p>Mercados, contudo, são importantes para a esquerda libertária e, por isso, não devemos ceder o termo a nossos inimigos. De fato, o capitalismo — enquanto sistema de poder em que a propriedade e o controle dos bens estão divorciados do trabalho — não poderia sobreviver num mercado livre. Como anarquista individualista, eu acredito que a expropriação de excedentes — isto é, o capitalismo — não pode ocorrer sem a coerção estatal para manter o privilégio dos usurários, senhorios e capitalistas. Por esse motivo, o anarquista de livre mercado Benjamin Tucker — que é estudado seletivamente pelos libertários de direita — se considerava socialista.</p>
<p>Não tenho a pretensão ou a capacidade de descrever aqui o que o mundo poderia ter se tornado com o desenvolvimento de um sistema legítimo de mercado sem tais intervenções estatais. Seria um mundo em que os camponeses teriam mantido suas terras, as propriedades seriam amplamente distribuídas, o capital seria abundante para os trabalhadores através de bancos mútuos, as tecnologias produtivas estariam disponíveis em todos os países sem patentes e todas as comunidades poderiam desenvolver suas regiões sem a expropriação colonial — ou seja, é um mundo além de nossa imaginação. Seria um mundo de produção descentralizada e de pequena escala para o uso local, de propriedade e controle daqueles que efetivamente trabalham — um mundo tão diferente do nosso quanto a noite é diferente do dia ou quanto a escravidão é diferente da liberdade.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>O subsídio da história</strong></p>
<p>O maior subsídio ao capitalismo corporativo moderno, portanto, é o subsídio da história, através do qual o capital foi acumulado em poucas mãos e os trabalhadores foram privados do acesso aos meios de produção e forçados a vender seus serviços nos termos dos contratantes. O sistema atual de posse concentrada do capital e de organização corporativa de grande escala é resultado direto dessa estrutura original de poder e propriedades, que se perpetua há séculos.</p>
<p>Para que o capitalismo que conhecemos surgisse, era essencial que os trabalhadores fossem separados de suas propriedades. Os marxistas e outros economistas geralmente chamam esse processo de &#8220;acumulação primitiva&#8221;. Como afirmou Marx no célebre capítulo 27 de <em>O Capital</em>, “Expropriação do povo do campo da terra”, &#8220;o que o sistema capitalista exigia era [&#8230;] uma condição degradada e quase servil das massas, a transformação delas em mercenárias e de seus meios de trabalho em capital&#8221;. Isso significava expropriar as terras, &#8220;às quais [os camponeses] tinham tantos direitos feudais quanto os senhores&#8221; (MARX, 1996).</p>
<p>Para compreender a escala do processo, devemos entender que os direitos dos nobres sobre a terra sob a economia senhorial não passavam de uma ficção legal derivada de conquistas militares. Os camponeses que cultivavam as terras da Inglaterra em 1650 eram descendentes daqueles que a ocupavam desde os tempos mais remotos. Em qualquer sistema moral, a terra era sua propriedade, em todas as acepções da palavra. Os exércitos de Guilherme, o Conquistador, não tinham qualquer direito de compeli-los a pagar tributos sobre a terra.</p>
<p>J.L. e Barbara Hammond consideram o sistema de vilarejos e campos abertos um resquício da sociedade camponesa livre da época anglo-saxônica, porém submetido ao senhorialismo feudal. A aristocracia considerava os direitos remanescentes dos camponeses como um obstáculo ao progresso e ao cultivo eficiente da terra; uma revolução em sua própria estrutura de poder foi uma maneira de quebrar a resistência camponesa. Assim, a comunidade agrária foi &#8220;fragmentada [&#8230;] e reconstruída da mesma maneira que um ditador reconstrói a estrutura de um governo livre&#8221;<a href="#_ftn1" name="_ftnref1">[1]</a>.</p>
<p>Quando os Tudors deram as terras monásticas expropriadas aos nobres, estes &#8220;expulsaram, em massa, os subfeudatários hereditários e juntaram essas explorações numa só&#8221;<a href="#_ftn2" name="_ftnref2">[2]</a>. A terra roubada, que compunha cerca de um quinto da terra arável da Inglaterra, foi a primeira expropriação de larga escala do campesinato.</p>
<p>Outro grande roubo de terras camponesas foi a lei de &#8220;reforma&#8221; agrária passada pelo Parlamento da Restauração. A aristocracia aboliu seus direitos feudais e converteu suas propriedades de terras, até então &#8220;somente títulos feudais&#8221;, em &#8220;modernos direitos de propriedade privada&#8221;. Ao fazê-lo, os aristocratas extinguiram os direitos dos arrendatários hereditários (<em>copyholders</em>). Os <em>copyholders</em> eram arrendatários <em>de jure</em> sob a lei feudal, mas ao pagarem pequenos impostos fixados consuetudinariamente, a terra passava a ser deles, podendo ser vendida ou transferida. Na prática, o <em>copyhold</em> era o mesmo que o <em>freehold</em>, porém sob o sistema senhorial; porém, como foi estabelecido costumeiramente, era válido somente nos tribunais senhoriais. Após a &#8220;reforma&#8221;, os arrendatários em regime de <em>copyhold</em> se tornaram arrendatários comuns, que poderiam ser expulsos e tinham a obrigação de pagar qualquer valor pelo arrendamento das terras que os senhores considerassem apropriado<a href="#_ftn3" name="_ftnref3">[3]</a>.</p>
<p>Houve ainda outra forma de expropriação, que começou a ocorrer no final da Idade Média e aumentou drasticamente em escopo no século 18: os cercamentos dos comuns. Neles, novamente, os camponeses possuíam propriedades comunais tão absolutas quanto os atuais defensores dos &#8220;direitos de propriedade&#8221; defendem. Sem contar o período anterior a 1700, os Hammonds estimaram que o total de cercamentos ocorridos nos séculos 18 e 19 tenham abrangido cerca de um sexto ou até um quinto das terras aráveis da Inglaterra (HAMMOND e HAMMOND, 1917, p. 42). E.J. Hobsbawm e George Rude estimam que os cercamentos entre 1750 e 1850 tenham transformado &#8220;cerca de um quarto das terras cultivadas em campo aberto, terra comum, pastos ou aterros em terras privadas&#8221;<a href="#_ftn4" name="_ftnref4">[4]</a>.</p>
<p>As classes dominantes viam os direitos dos camponeses como fontes de potencial independência econômica do capitalista e do senhor feudal e, portanto, como ameaças a serem destruídas. Os cercamentos eliminavam &#8220;um perigoso centro de indisciplina&#8221; e obrigavam os trabalhadores a venderem seu trabalho nos termos dos senhores. Arthur Young, um homem de Lincolnshire, descrevia os comuns como &#8220;terreno fértil para o surgimento de &#8216;bárbaros&#8217;, &#8216;de uma raça de pessoas maliciosas'&#8221;. &#8220;[Todos], exceto os idiotas, sabem que as classes mais baixas devem continuar pobres, ou jamais se tornarão industriosas&#8221;, disse ele. A Revista do Comércio e da Agricultura (<em>The Commercial and Agricultural Magazine</em>) advertia, em 1900, que permitir que o trabalhador possuísse mais terra do que sua família poderia cultivar durante as noites&#8221; significava que &#8220;o fazendeiro não poderia depender dele para trabalho constante&#8221;<a href="#_ftn5" name="_ftnref5">[5]</a>. Sir Richard Price comentou a conversão de proprietários autossuficientes em &#8220;um grupo de homens que ganhavam seus meios de subsistência pelo trabalho para os outros&#8221;. Haveria, &#8220;talvez, mais trabalho, porque haveria maior necessidade de trabalhar&#8221;.<a href="#_ftn6" name="_ftnref6">[6]</a></p>
<p>Marx mencionou as leis de cercamento passadas pelo Parlamento como evidência de que os comuns, longe de serem a &#8220;propriedade privada dos grandes senhores de terras que substituíram os senhores feudais&#8221;, na realidade requereram um &#8220;golpe de estado parlamentar (&#8230;) para sua transformação em propriedade privada&#8221;<a href="#_ftn7" name="_ftnref7">[7]</a>. O processo de acumulação primitiva, em toda a sua brutalidade, foi resumido pelo mesmo autor:</p>
<blockquote><p>[Esses] recém-libertos (ou seja, ex-servos) só se tornam vendedores de si mesmos depois de lhes serem roubados todos os seus meios de produção e todas as garantias da sua existência proporcionadas pelas velhas instituições feudais. E a história desta sua expropriação está inscrita nos anais da humanidade com caracteres de sangue e fogo.<a href="#_ftn8" name="_ftnref8">[8]</a></p></blockquote>
<p>Contudo, mesmo assim a classe trabalhadora ainda não estava suficientemente destituída. O estado teve que regular o movimento dos trabalhadores, negociar as condições de trabalho em prol dos capitalistas e manter a ordem. O sistema de regulamentação paroquial do movimento das pessoas, com as <em>Poor Laws</em> e o <em>Vagrancy Act</em>, lembravam o sistema de passaportes internos da África do Sul ou os Códigos Negros empregados nos Estados Unidos na época da reconstrução. Tiveram &#8220;o mesmo efeito sobre o trabalhador agrícola inglês&#8221;, escreveu Marx, &#8220;que o édito do tártaro Bóris Godunov sobre o camponês russo&#8221;.<a href="#_ftn9" name="_ftnref9">[9]</a> Adam Smith se arriscava a dizer que não havia &#8220;um só pobre homem na Inglaterra de 40 anos de idade (&#8230;) que, em algum momento de sua vida, já não tenha se sentido cruelmente oprimido por essa lei de assentamentos&#8221;.<a href="#_ftn10" name="_ftnref10">[10]</a></p>
<p>O estado mantinha a disciplina dos trabalhadores proibindo que votassem com os pés. Era difícil persuadir as autoridades paroquiais a concederem um certificado que desse a um homem o direito de ir para outra paróquia buscar trabalho. Os trabalhadores eram forçados a permanecer no mesmo local e negociar os termos de seu trabalho num mercado enviesado para os compradores&#8221;.<a href="#_ftn11" name="_ftnref11">[11]</a></p>
<p>À primeira vista, isso poderia parecer inconveniente para as paróquias com escassez de trabalhadores&#8221;.<a href="#_ftn12" name="_ftnref12">[12]</a> As fábricas eram construídas próximas a fontes de energia hidráulica, geralmente longe dos centros populacionais. Milhares de trabalhadores precisavam ser importados de longe. Porém, o estado resolveu esse problema e agiu como intermediário, fornecendo trabalho excedentes a baixos salários de outros locais para as paróquias que precisassem, impedindo que os trabalhadores negociassem melhores termos de trabalho. Surgiu um mercado considerável de trabalho infantil, que lidava com crianças que, de qualquer maneira, não estavam em posição para negociar.<a href="#_ftn13" name="_ftnref13">[13]</a></p>
<p>Era &#8220;muito difícil que a paróquia ajudasse qualquer pessoa em necessidade sem que afirmasse seu direito exclusivo de dispor, a seu critério, de todos os filhos daqueles que recebessem auxílio&#8221;, dizia o Comitê sobre os Aprendizes das Paróquias de 1815 (Id., p. 44, 147.) Mesmo quando os comissários da Poor Law estimulavam a migração para paróquias carentes de trabalhadores, desencorajavam os adultos e &#8220;davam preferência a &#8216;viúvas com muitos filhos ou artesãos com grandes famílias'&#8221;. Além disso, a disponibilidade de trabalho barato com o uso dos comissários das Poor Laws era deliberadamente utilizada para empurrar os salários para baixo; fazendeiros demitiam seus funcionários diários e pediam ajuda para um supervisor.<a href="#_ftn14" name="_ftnref14">[14]</a></p>
<p>Embora as Combination Laws se aplicassem, em tese, tanto a mestres quanto a trabalhadores, na prática elas não eram aplicadas aos primeiros<a href="#_ftn15" name="_ftnref15">[15]</a>. Um Operário Fiador de Algodão — um panfletário citado por E. P. Thompson<a href="#_ftn16" name="_ftnref16">[16]</a> — descreveu &#8220;uma abominável combinação existente entre os mestres&#8221;, que fazia com que os trabalhadores que houvessem deixado os mestres por discordâncias em relação a salários fossem colocados numa lista negra. As Combination Laws exigiam que os suspeitos respondessem interrogatórios sob juramento, davam poder para que os magistrados passassem julgamentos sumários e permitiam o confisco sumário dos fundos arrecadados para ajudar as famílias de grevistas.<a href="#_ftn17" name="_ftnref17">[17]</a> E as leis que estabeleciam tetos salariais eram o mesmo que um sistema estatal de sindicalização dos mestres. Como afirmou Adam Smith, &#8220;quando a legislatura pretende regular as diferenças entre mestres e seus trabalhadores, seus conselheiros são sempre os mestres&#8221;.<a href="#_ftn18" name="_ftnref18">[18]</a></p>
<p>O estilo de vida dos trabalhadores sob o sistema industrial, com suas novas formas de controle social, foi uma ruptura radical com o passado. Envolvia uma perda drástica do controle sobre seu trabalho. O calendário de trabalho do século 17 ainda era extremamente influenciado pelos costumes medievais. Embora ocasionalmente houvessem dias mais longos de trabalho entre a plantação e as colheitas, períodos intermitentes de trabalho mais leve e a grande quantidade de dias santos se juntavam para reduzir o tempo médio de trabalho para algo bem abaixo do que temos. O ritmo de trabalho era geralmente determinado pelo sol ou pelos ritmos biológicos do trabalhador, que acordava após uma noite decente de sono e descansava quando achasse necessário. O camponês que tinha acesso à terra comum, mesmo quando necessitava de rendas extras por trabalho assalariado, podia assumir alguns trabalhos de forma casual e, depois, retornar ao trabalho independente. Esse grau de autossuficiência era inaceitável do ponto de vista do capitalista.</p>
<blockquote><p>No mundo moderno, a maioria das pessoas tem que se adaptar a algum tipo de disciplina, observar os horários dos outros ou trabalhar sob as ordens de outras pessoas, mas devemos nos lembrar de que a população que foi jogada no ritmo brutal das fábricas ganhava seu sustento em relativa liberdade e que a disciplina das primeiras fábricas era particularmente selvagem (&#8230;). Nenhum economista da época, ao estimar os ganhos e perdas de emprego em fábricas, jamais considerava o esforço e a violência a que eram submetidos os homens e seus sentimentos quando ele passava de uma vida em que ele podia fumar, comer, cultivar ou dormir como lhe aprouvesse para uma vida em que ele passava a ser controlado por 14 horas, dentro das quais ele não tinha nem mesmo o direito de assoviar. Era como entrar na vida claustrofóbica e incolor de uma prisão.<a href="#_ftn19" name="_ftnref19">[19]</a></p></blockquote>
<p>O sistema de fábricas não poderia ter sido imposto aos trabalhadores sem privá-los primeiro das alternativas e negando a eles o acesso a qualquer fonte de independência econômica. Nenhum ser humano com qualquer senso de liberdade ou dignidade teria se submetido à disciplina das fábricas. Stephen Marglin comparava a fábrica têxtil do século 19, cheia de crianças miseráveis compradas nas <em>workhouses</em>, com as manufaturas de tijolos e cerâmica romanas, cujo trabalho era executado por escravos. Em Roma, a produção das manufaturas era excepcional onde era empregado o trabalho livre. O sistema de fábricas, ao longo da história, só foi possível em mercados de trabalhos privados de alternativas viáveis.</p>
<blockquote><p>Os fatos a que temos acesso (&#8230;) sugerem fortemente que a organização do trabalho em manufaturas, na época romana, era determinada não por considerações tecnológicas, mas pelo poder relativo das duas classes produtoras. Os homens livres e os cidadãos tinham força suficiente para manter uma guilda. Os escravos não tinham poder — e terminavam nas fábricas.<a href="#_ftn20" name="_ftnref20">[20]</a></p></blockquote>
<p>O problema do antigo sistema &#8220;autônomo&#8221;, em que os camponeses produziam têxteis contratualmente, era que ele eliminava apenas o controle do trabalhador sobre o produto. O sistema de fábricas, ao eliminar o controle dos trabalhadores sobre o processo de produção, tinha a vantagem de permitir o disciplinamento e a supervisão do trabalho.</p>
<blockquote><p>[A] origem e o sucesso das fábricas não está em sua superioridade tecnológica, mas na transferência do controle do processo produtivo e da quantidade produzida do trabalhador para o capitalista, no fato de que a escolha, para o trabalhador, deixou de ser o quanto trabalhar e produzir, baseando-se em suas preferências entre bens e lazer, mas numa escolha entre trabalhar ou não, o que evidentemente não se trata de uma escolha, no final das contas.<a href="#_ftn21" name="_ftnref21">[21]</a></p></blockquote>
<p>Marglin usou o exemplo clássico da divisão do trabalho na fabricação de alfinetes e a virou de cabeça para baixo. O aumento da eficiência resultava não da divisão do trabalho, mas da divisão e do sequenciamento do processo em tarefas separadas que reduziam o tempo de organização. Isso podia ser feito por um só trabalhador que separasse as várias tarefas e as executasse de forma sequencial (por exemplo, alongar o fio para toda uma leva produtiva para então endireitá-lo e cortá-lo, etc.).</p>
<blockquote><p>Sem a especialização, o capitalista não tinha qualquer papel essencial a desempenhar no processo produtivo. Se cada um dos produtores integrasse as tarefas que compunham a manufatura de alfinetes num produto comercializável, eles rapidamente descobririam que não tinham que entrar no mercado através de intermediários. Poderiam vender diretamente e manter os lucros que o capitalista extraía pela mediação do produtor com o mercado.<a href="#_ftn22" name="_ftnref22">[22]</a></p></blockquote>
<p>Esse princípio está no centro da história da tecnologia industrial nos últimos duzentos anos. Mesmo nos casos em que havia necessidade de manufaturas de larga escala, com emprego intensivo de capital, normalmente há uma escolha entre tecnologias de produção alternativas dentro da fábrica. A indústria consistentemente fez a escolha por tecnologias que retiravam as competências dos trabalhadores e passavam as tomadas de decisão para cima na hierarquia gerencial. Já em 1835, o Dr. Andrew Ure (o avô ideológico do taylorismo e do fordismo) argumentava que, quanto mais habilidoso o trabalhador, &#8220;mais autônomo e (&#8230;) menos adequado a um sistema mecânico&#8221; ele se tornava. A solução era eliminar processos que requeriam &#8220;destreza peculiar e firmeza das mãos (&#8230;) do astuto trabalhador&#8221; e substituí-los por um &#8220;mecanismo tão autorregulado que até uma criança poderia operá-lo&#8221;.<a href="#_ftn23" name="_ftnref23">[23]</a> Esse princípio foi seguido durante todo o século 20. William Lazonick, David Montgomery, David Noble e Katherine Stone produziram excelentes trabalhos sobre esse tema. Mesmo quando os experimentos corporativos de autogerência trabalhista aumentam o moral e a produtividade, além de reduzirem ferimentos e faltas muito além do que as gerências esperavam, eles são abandonados por receio de que sairiam do controle.</p>
<p>Christopher Lasch, em seu prefácio ao livro <em>America by Design</em>, de Noble, caracterizava o processo de redução das competências dos trabalhadores da seguinte maneira:</p>
<blockquote><p>O capitalista, ao expropriar as propriedades dos trabalhadores, gradualmente expropriava seu conhecimento técnico, afirmando seu domínio sobre o processo produtivo. (&#8230;)</p>
<p>A expropriação do conhecimento técnico do trabalhador teve como consequência lógica a ascensão da gerência moderna, em que o conhecimento técnico passou a ser concentrado. Quando o movimento de gerência científica dividiu a produção em seus componentes procedimentais, reduzindo o trabalhador a um mero apêndice da máquina, houve um grande aumento das funções técnicas e de coordenação para supervisionar o processo produtivo como um todo.<a href="#_ftn24" name="_ftnref24">[24]</a></p></blockquote>
<p>A expropriação do campesinato e a imposição do sistema fabril não foi alcançada sem resistência; os trabalhadores sabiam exatamente o que estava sendo feito e o que haviam perdido. Durante a década de 1790, quando a retórica dos jacobinos e de Thomas Paine era popular entre os trabalhadores radicalizados, a classe dominante do &#8220;berço da liberdade&#8221; temiam constantemente que o país acabasse tomado por uma revolução. O estado policial imposto sobre a população se assemelhava a um regime de ocupação estrangeira. Os Hammonds citam uma correspondência entre magistrados do norte e o Ministério do Interior britânico, no qual a lei era tratada, de forma franca, &#8220;como instrumento de repressão, não de justiça&#8221;, e as classes trabalhadoras &#8220;eram visivelmente tratadas [&#8230;] como uma população de hilotas&#8221;.<a href="#_ftn25" name="_ftnref25">[25]</a></p>
<blockquote><p>Dados os documentos do Ministério do Interior, (&#8230;) nenhum dos direitos dos ingleses tinha qualquer validade para os trabalhadores. Os magistrados e seus escrivães não viam qualquer limite a seus poderes sobre a liberdade e os movimentos de trabalhadores. As Vagrancy Laws pareciam ter validade maior que toda a carta de direitos dos ingleses. Eram usadas para colocar na prisão qualquer homem ou mulher da classe trabalhadora que parecesse ter um caráter inconveniente ou perturbador a um magistrado. Elas ofereciam a maneira mais fácil e rápida de agir contra qualquer um que tentasse coletar dinheiro para as famílias de operários que não fossem deixados entrar em seu ambiente de trabalho ou para disseminar livros e panfletos que os magistrados consideravam indesejáveis.<a href="#_ftn26" name="_ftnref26">[26]</a></p></blockquote>
<p>Os &#8220;bobbies&#8221;, estabelecidos por Robert Peel — oficiais de aplicação da lei profissionais — substituíram o sistema de <em>posse comitatus</em>, porque este era inadequado para o controle de uma população de trabalhadores cada vez mais descontentes. Na época do ludismo e de outras perturbações sociais, os oficiais da coroa advertiam que a &#8220;execução do <em>Watch and Ward Act</em> seria o mesmo que colocar armas nas mãos dos mais descontentes&#8221;. No começo das guerras com a França, William Pitt acabou com a prática de abrigar as tropas do exército em casas de bebidas, misturadas com a população em geral. Os distritos manufatureiros passaram a ser cobertos por barracas, como &#8220;questão puramente policial&#8221;. As áreas de fábricas &#8220;passaram a parecer um país sob ocupação militar&#8221;.<a href="#_ftn27" name="_ftnref27">[27]</a></p>
<p>O estado policial de Pitt foi auxiliado pelo vigilantismo semiprivado, na tradição dos camisas negras e esquadrões da morte que nos acompanha até hoje. Por exemplo, a Associação para Proteção da Propriedade contra os Republicanos e os Levellers — uma associação antijacobina de aristocratas e senhores de engenho — conduzia buscas nas casas e organizava queimas de efígies no estilo de Guy Fawkes contra Thomas Paine; grupos &#8220;pela Igreja e pelo Rei&#8221; aterrorizavam os suspeitos de radicalismo.<a href="#_ftn28" name="_ftnref28">[28]</a></p>
<p>Thompson caracterizava tal sistema de controle como &#8220;apartheid político e social&#8221; e afirmava que &#8220;a revolução que não aconteceu na Inglaterra foi tão devastadora&#8221; quanto a que ocorreu na França.<a href="#_ftn29" name="_ftnref29">[29]</a></p>
<p>Finalmente, o estado auxiliou o crescimento das manufaturas através do mercantilismo. Os expoentes modernos do &#8220;livre mercado&#8221; geralmente alegam que mercantilismo era uma tentativa &#8220;errônea&#8221; de promover os interesses nacionais, um sistema adotado por ignorância sincera dos princípios econômicos. Na realidade, os idealizadores do mercantilismo sabiam exatamente o que estavam fazendo, porque se tratava de um sistema extremamente eficiente em seu real propósito: tornar os ricos industriais ainda mais prósperos às custas do resto da população. Adam Smith atacava com frequência o mercantilismo, não como uma ideia econômica incorreta, mas como uma tentativa bastante inteligente dos poderosos de se locupletarem através do estado coercitivo.</p>
<p>As industrias britânicas foram criadas pela intervenção estatal para impedir a entrada de produtos estrangeiros, dar à marinha britânica o monopólio do comércio exterior e acabar com a competição externa à força. Como exemplo deste último caso, as autoridades britânicas na Índia destruíram a indústria têxtil bengalesa, responsável pelos tecidos de melhor qualidade no mundo. Embora não houvessem adotado métodos de produção a vapor, havia a possibilidade real de que o fariam se a Índia tivesse permanecido política e economicamente independente. A região outrora próspera de Bengala hoje em dia é ocupada pelos territórios de Bangladesh e Calcutá.<a href="#_ftn30" name="_ftnref30">[30]</a></p>
<p>Os sistemas industriais americano, alemão e japonês foram criados pelas mesmas políticas mercantilistas, com enormes tarifas sobre bens industriais. O &#8220;livre comércio&#8221; era adotado com segurança pelos poderes industriais estabelecidos, que usavam o laissez-faire como uma arma ideológica para evitar que potenciais concorrentes seguissem o mesmo caminho de industrialização. O capitalismo nunca foi estabelecido pelo livre mercado ou mesmo principalmente pelas ações da burguesia. Ele sempre foi resultado de uma revolução vinda de cima, imposta por uma classe dominante pré-capitalista. Na Inglaterra, foi a aristocracia fundiária; na França, foi a burocracia de Napoleão II; na Alemanha, os junkers; no Japão, a dinastia Meiji. Nos Estados Unidos, o mais próximo que se chegou a uma revolução burguesa &#8220;natural&#8221;, a industrialização foi imposta pela aristocracia dos magnatas comerciais e grandes proprietários de terras.<a href="#_ftn31" name="_ftnref31">[31]</a></p>
<p>Medievalistas românticos como G.K. Chesterton e Hilaire Belloc descreveram o processo pelo qual a servidão foi gradualmente extinta na Alta Idade Média e como os camponeses se transformaram em donos de terra de facto que pagavam apenas uma taxa nominal de aluguel. O sistema de classes feudal se desintegrava e estava sendo substituído por um regime muito mais libertário e menos exploratório. Immanuel Wallerstein afirmava que o resultado mais provável teria sido &#8220;um sistema de pequenos produtores relativamente iguais, que nivelariam as aristocracias e descentralizariam as estruturas políticas&#8221;. Em 1650, essa tendência havia sido revertida e havia &#8220;um nível bastante alto de continuidade entre as famílias que estavam nos altos extratos sociais&#8221; em 1450 comparadas às que lá estavam em 1650. O capitalismo não havia sido criado pela &#8220;a derrubada de uma aristocracia retrógrada por uma burguesia progressista&#8221;, mas surgiu pelos esforços &#8220;da aristocracia fundiária, que se transformou em burguesia porque o sistema antigo estava se desintegrando&#8221; (WALLERSTEIN, 1983, p. 41-42, 105-106). Esse ponto de vista é ecoado, em parte, por Arno Mayer (2010), que argumentava que houve uma continuidade entre a aristocracia e a elite capitalista.</p>
<p>O processo através do qual a civilização medieval de proprietários camponeses, guildas artesãs e cidades livres foi revertido foi descrito vivamente por Piotr Kropotkin (1909, p. 225). Antes da invenção da pólvora, as cidades livres repeliam as tropas reais com frequência e assim ganharam sua independência dos impostos feudais. Eram cidades compostas de camponeses, unidos por seus esforços para controlar a terra. O estado absolutista e a revolução capitalista se tornaram possíveis somente quando a artilharia conseguiu reduzir as fortificações das cidades com maior eficiência e quando o rei passou a poder combater seu próprio povo. Como consequência dessa conquista, a Europa de William Morris foi devastada, despovoada e miserável.</p>
<p>Há uma música de Peter Tosh chamada <em>Four Hundred Years</em>. Embora a classe trabalhadora branca não tenha sofrido nada como a brutalidade da escravidão dos negros, houve, no entanto, quatrocentos anos de opressão para todos nós sob o sistema de capitalismo de estado estabelecido no século 17. Desde o nascimento dos primeiros estados seis mil anos atrás, a coerção política permite que uma classe dominante viva às custas do trabalho das outras pessoas. Porém, desde o século 17, o sistema de poder se tornou mais consciente, unificado e global em escopo. O atual sistema capitalista transnacional, sem concorrência desde o colapso do sistema burocrático de classes da União Soviética, é resultado direto da tomada do poder que ocorreu &#8220;quatrocentos anos atrás&#8221;. Orwell pensava ao avesso. O passado é &#8220;uma bota que esmaga um rosto humano&#8221;. Se o futuro continuará a sê-lo, depende do que fizermos agora.</p>
<p><strong>Hegemonia ideológica</strong></p>
<p>Hegemonia ideológica é o processo pelo qual os explorados passam a ver o mundo de acordo com as estruturas conceituais fornecidas pelos exploradores. Ela age para esconder os conflitos de classe e a exploração por trás de uma cortina de fumaça, que pode se chamar &#8220;unidade nacional&#8221; ou &#8220;bem estar geral&#8221;. Aqueles que apontam para o papel do estado como protetor dos privilégios de classe são denunciados, em tons teatrais de ultraje moral, como os que de fato estariam estimulando as &#8220;lutas de classe&#8221;. Se alguém for tão &#8220;extremista&#8221; a ponto de descrever o intervencionismo e os subsídios que sustentam o capitalismo corporativo, essa pessoa provavelmente será rechaçada por empregar uma &#8220;retórica de luta de classes marxista&#8221; (como disse Bob Novak) ou uma &#8220;retórica dos barões ladrões&#8221; (como afirmou o Secretário do Tesouro dos EUA Paul O&#8217;Neill).</p>
<p>A estrutura ideológica da &#8220;unidade nacional&#8221; é levada ao extremo de elevar &#8220;este país&#8221;, &#8220;esta sociedade&#8221; ou &#8220;nosso sistema de governo&#8221; a objetos de gratidão pelas &#8220;liberdades de que desfrutamos&#8221;. Apenas os menos patriotas percebem que nossas liberdades, longe de terem sido concedidas a nós por generosos e benevolentes governantes, foram ganhas através da resistência ao estado. Cartas e declarações de direitos não são concessões do estado, mas são documentos que foram forçados ao estado de baixo para cima.</p>
<p>Se nossas liberdades nos pertencem por direito de nascença, como fatos morais da natureza, segue-se que não temos que ter qualquer dívida de gratidão para com o estado por não violá-las, da mesma forma que não agradecemos a outros indivíduos por não nos roubarem ou matarem. Essa lógica simples implica que, em vez de sermos gratos por viver no &#8220;país mais livre do mundo&#8221;, os Estados Unidos, devemos nos revoltar a cada vez que ele invadir nossas liberdades. Afinal, foi assim que conseguimos nossos direitos. Quando outro indivíduo coloca sua mão em nosso bolso para enriquecer às nossas custas, nosso instinto natural é o de resistência. Porém, graças ao patriotismo, a classe dominante é capaz de transformar sua mão em nosso bolso na &#8220;sociedade&#8221; ou em &#8220;nosso país&#8221;.</p>
<p>A religião da unidade nacional é mais patológica quando se trata de &#8220;defesa&#8221; e da política externa. A fabricação de crises no exterior e da histeria em prol de guerras são ferramentas usadas desde o começo da história para suprimir ameaças ao domínio de classe. Políticos vigaristas podem trabalhar para &#8220;interesses escusos&#8221; em casa, mas quando esses mesmos políticos se envolvem em guerras, a questão passa a ser de lealdade &#8220;ao país&#8221;.</p>
<p>O chefe das Forças Armadas dos Estados Unidos, ao discutir a postura de &#8220;defesa&#8221;, faz alusões em tom muito sério às &#8220;ameaças à segurança nacional&#8221; enfrentadas pelos EUA e descreve os exércitos de inimigos oficiais como a China como muito mais poderosos do que exigiriam os &#8220;requisitos de defesa legítimos&#8221;. A maneira mais fácil de entrar no território do inaceitável é afirmando que todas essas &#8220;ameaças&#8221; são de fato as ações de país 150 quilômetros adentro de suas fronteiras. Outra ofensa imperdoável contra a celebração da pátria é julgar as ações dos Estados Unidos — em suas operações globais para tornar o Terceiro Mundo seguro para a atuação da ITT Corporation e da United Fruit Company — pelos mesmos padrões dos &#8220;requisitos de defesa legítimos&#8221; aplicados à China.</p>
<p>De acordo com a ideologia oficial, as guerras americanas são, por definição, sempre combatidas &#8220;por nossas liberdades&#8221;, &#8220;para defender nosso país&#8221; ou, no mundo de bajulação de Madeleine Albright, para promover &#8220;paz e liberdade&#8221; no mundo. A mera sugestão de que os defensores de nossas liberdades pegaram em armas contra o governo ou de que o estado de segurança nacional é uma ameaça maior a nossas liberdades que qualquer inimigo estrangeiro com que já nos deparamos é imperdoável. Acima de tudo, bons americanos não notam a existência de todos os conselheiros militares, que ensinam os esquadrões da morte a torturar sindicalistas e os jogar em valas ou como utilizar adequadamente alicates nos testículos de dissidentes. Crimes de guerra só são cometidos por potências derrotadas (porém, como os nazistas descobriram em 1945, criminosos de guerra desempregados geralmente conseguem encontrar trabalho dentro das novas potências hegemônicas).</p>
<p>Depois de um século e meio de doutrinação patriótica pelo sistema estatal de educação, os americanos já assimilaram completamente a versão rósea da história americana que é contada. Seu autoritarismo é tão diametralmente oposto às crenças daqueles que pegaram em armas durante a Revolução Americana que os cidadãos já se esqueceram do que significa ser um americano. Na verdade, os autênticos princípios do americanismo foram completamente esvaziados. Duzentos anos atrás, exércitos permanentes eram temidos e considerados ameaças à liberdade, além de serem terrenos férteis para o surgimento de personalidades autoritárias; o serviço militar obrigatório era associado à tirania de Oliver Cromwell; o trabalho assalariado era considerado incoerente com o espírito independente de um cidadão livre. Hoje, duzentos anos depois, os americanos foram tão prussianizados pelos sessenta anos de militarismo e pelas “guerras” contra um ou outro inimigo interno que foram condicionados a se curvar ao verem um uniforme. Aqueles que fogem do alistamento militar são vistos como molestadores de crianças. A maior parte das pessoas trabalha para alguma corporação centralizada ou para uma burocracia estatal, onde se espera que obedeçam ordens de superiores, trabalhem sob constante vigilância e até urinem num copinho conforme exigido.</p>
<p>Em época de guerra, é antipatriótico criticar ou questionar o governo e dissidências são vistas como deslealdade. Fé absoluta e obediência à autoridade é o mínimo que se espera daqueles que se dizem “americanos”. As guerras no exterior são ferramentas extremamente úteis para manipular o imaginário nacional e manter a população sob controle. As guerras são a maneira mais fácil de transferir poder para o estado. A maior parte das pessoas se torna acriticamente obediente no exato momento em que precisam estar mais vigilantes.</p>
<p>A maior ironia de todas é que, em um país fundado por uma revolução, o “americanismo” é identificado como o respeito à autoridade e a resistência à “subversão”. A Revolução foi, de fato, uma revolução, em que as instituições políticas domésticas foram forçosamente derrubadas. Foi, em vários locais e momentos, uma guerra civil entre classes. Como Voltairine de Cleyre escreveu um século atrás em <em>Anarchism and American Traditions</em>, a versão dos livros de história é um conflito patriótico entre nossos “pais fundadores” e o inimigo estrangeiro. Aqueles que ainda são capazes de citar Thomas Jefferson ao falar sobre o direito à revolução são relegados à ala “extremista”, que deve ser descartada no próximo surto de histeria militarista ou na próxima ameaça vermelha. Esse construto ideológico de um “interesse nacional” unificado inclui a ficção de que existe um conjunto “neutro” de leis, algo que esconde a natureza exploratória do sistema de poder sob o qual vivemos. Sob o capitalismo corporativo, os relacionamentos de exploração são mediados pelo sistema político numa medida categoricamente diferente daquela que vigente sob sistemas de classe anteriores. Sob a escravidão e o feudalismo, a exploração era concreta e materializada na relação do produtor com seu senhor. O escravo e o camponês sabiam exatamente quem os explorava. O trabalhador moderno, porém, sente apenas a dor dos golpes que sofre, mas não sabe de onde vêm.</p>
<p>Além de sua função de mascarar os interesses da classe dominante por trás de uma fachada de “bem estar social”, a hegemonia ideológica também fabrica divisões entre os dominados. Através de campanhas contra “vagabundos” e para “endurecer o combate ao crime”, a classe dominante é capaz de canalizar uma hostilidade das classes média e trabalhadora contra os mais pobres.</p>
<p>É particularmente nauseante o fenômeno do “populismo bilionário”. A defesa de “reformas” das leis de falência e de programas assistenciais, além de guerras contra o crime, ganham uma retórica pseudopopulista que identifica as classes baixas como os parasitas que se beneficiam do trabalho dos produtores. Em seu universo simbólico, seria possível pensar que os Estados Unidos são aquele mundo retratado pela revista Reader’s Digest e por Norman Rockwell, onde não há nada além de pequenos empresários e fazendeiros de um lado e vagabundos, sindicalistas e burocratas de outro. Ao escutarmos essa retórica, é difícil imaginar que existam multibilionários ou corporações globais, ou mesmo que elas se beneficiem desse discurso “populista”.</p>
<p>No mundo real, as corporações são os maiores clientes do estado de bem estar, as maiores falências são falências corporativas e os piores crimes são cometidos em suítes corporativas e não nas ruas. O real roubo dos produtores médios consiste de lucros e usura, extorquidos apenas com a ajuda do estado — o real “estado máximo” que carregamos em nossas costas. Enquanto os trabalhadores e as classes inferiores lutam entre si, não percebem quem realmente os espolia.</p>
<p>Como afirmou Stephen Biko, “a arma mais forte dos opressores é a mente dos oprimidos”.</p>
<p><strong>O monopólio monetário</strong></p>
<p>Em todo sistema de exploração de classes, uma classe dominante controla o acesso aos meios de produção de forma a extrair tributos dos trabalhadores. Sob o capitalismo, o acesso ao capital é restrito pelo monopólio monetário, através do qual o estado ou o sistema bancário ganham um monopólio sobre o meio de troca e moedas alternativas são proibidas. O monopólio monetário também inclui barreiras de entrada contra bancos cooperativos e proibições à emissão privada de notas bancárias, através das quais o acesso ao capital financeiro é restrito e as taxas de juros são mantidas artificialmente altas.</p>
<p>De passagem, podemos mencionar a hipocrisia monumental que é a regulamentação das cooperativas de crédito nos Estados Unidos, que requerem que os membros tenham algo em comum, como trabalhar para o mesmo empregador. Imagine quão ultrajante seria se supermercados como o IGA e o Safeway fizessem lobby em prol de leis nacionais que proibissem cooperativas de comércio de alimentos a não ser que todos os seus membros trabalhassem para a mesma empresa! Um dos maiores defensores dessas leis é Phil Gramm, renomado ideólogo de “livre mercado” e professor de economia — e, acima de tudo, um dos principais testas-de-ferro da indústria bancária no Congresso americano.</p>
<p>Anarquistas individualistas e mutualistas como William Greene (<em>Mutual Banking</em>), Benjamin Tucker (<em>Instead of a Book</em>) e J. B. Robertson (<em>The Economics of Liberty</em>) enxergavam o monopólio monetário como central ao sistema capitalista de privilégios. Em um mercado bancário genuinamente livre, qualquer grupo de indivíduos poderia formar um banco mútuo e emitir crédito monetizado na forma de notas lastradas por qualquer colateral que escolhessem. A aceitação dessas notas bancárias seria condição obrigatória da adesão a esses bancos. Greene especulava que um banco mútuo poderia escolher não apenas honrar propriedades existentes como colateral, mas “a promessa (&#8230;) de produção futura”.<a href="#_ftn32" name="_ftnref32">[32]</a> O resultado seria uma redução das taxas de juros através da competição, que encolheriam até o nível dos custos administrativos — menos de um por cento.</p>
<p>O crédito abundante e barato alteraria drasticamente o equilíbrio de forças entre o capital e o trabalho, e os retornos sobre o trabalho substituiriam os retornos sobre o capital como formas dominantes de atividade econômica. De acordo com Robinson<a href="#_ftn33" name="_ftnref33">[33]</a>:</p>
<blockquote><p>Todo o sistema de juros sobre o capital que existe atualmente e permeia todos os negócios contemporâneos se baseia nas taxas de juros monopolistas que (&#8230;) se forçam sobre nós por obrigatoriedade legal.</p>
<p>Com a liberdade bancária, os juros sobre títulos de todos os tipos e dividendos acionários seriam reduzidos a um mínimo. O aluguel (<em>rent</em>) das casas (&#8230;) seria reduzido a seu custo de manutenção e substituição.</p>
<p>Toda fatia do produto [do trabalho] que ora é tomada pelos juros pertenceria ao produtor. O capital, seja definido como for (&#8230;), praticamente deixaria de existir como fundo produtor de renda, pela simples razão de que se o dinheiro com o qual adquirir capital pudesse ser obtido por meio por cento, o próprio capital não poderia custar um preço mais alto.<a href="#_ftn34" name="_ftnref34">[34]</a></p></blockquote>
<p>Isso resultaria num cenário em que a posição de negociação dos locatários e trabalhadores seria bem melhor em relação aos senhorios e capitalistas. De acordo com Gary Elkin (s.d.), o anarquismo de livre mercado de Benjamin Tucker possuía certas implicações socialistas libertárias inerentes:</p>
<blockquote><p>É importante notar que, por conta da proposta de Tucker de aumentar o poder de barganha dos trabalhadores através do acesso ao crédito mútuo, seu anarquismo individualista não apenas era compatível com o controle dos trabalhadores, mas, de fato, o promoveria. Pois, se o acesso ao crédito mútuo aumentasse o poder de barganha dos trabalhadores até o ponto que Tucker alegava, eles poderiam assim (1) exigir e alcançar um ambiente de trabalho democrático e (2) compartilhar seus fundos para comprar e controlar suas empresas coletivamente.</p></blockquote>
<p>O monopólio bancário não era apenas o “alicerce do capitalismo”, mas também a semente que dava origem ao poder monopolista dos senhorios. Sem um monopólio monetário, o preço das terras seria muito menor e promoveria “o processo de redução dos aluguéis (<em>rents</em>) a zero”.<a href="#_ftn35" name="_ftnref35">[35]</a></p>
<p>Com a posição de negociação do trabalhador melhorada, a “capacidade dos capitalistas de extrair valores excedentes do trabalho dos empregados seria eliminada ou, ao menos, fortemente reduzida”.<a href="#_ftn36" name="_ftnref36">[36]</a> Com a aproximação dos salários ao valor agregado, os retornos sobre o capital seriam reduzidos pela competição de mercado e o valor das ações das corporações consequentemente cairiam radicalmente, tornando o trabalhador sócio da instituição em que trabalhasse, mesmo se a empresa permanecesse nominalmente sob propriedade de acionistas.</p>
<p>As taxas de juros próximas a zero aumentariam a independência do trabalhador de diversas maneiras. Por exemplo, qualquer pessoa com um financiamento habitacional de 20 anos de 8% poderia, sem a existência da usura, pagá-lo em dez anos. A maior parte dos indivíduos que chegasse aos 30 anos poderia quitar suas casas. Com isso e sem a existência de grandes dívidas de cartões de crédito, duas das maiores fontes de insegurança dos trabalhadores desapareceriam, já que eles não teriam que manter seus empregos a todo custo. Adicionalmente, muitos trabalhadores teriam grandes poupanças, que lhes dariam segurança para deixar seus empregos se quisessem. Quantidades significativas de pessoas poderiam se aposentar ao chegar a seus 40 ou 50 anos, trabalhar em empregos de meio expediente ou abrir seus próprios negócios; quando os empregos competissem por trabalhadores, o efeito sobre o poder de negociação deles seria revolucionário.</p>
<p>Nosso mundo hipotético de crédito livre se assemelharia de várias maneiras à situação em sociedades coloniais. E. G. Wakefield, em seu livro <em>A View of the Art of Colonization </em>(1914), escreveu sobre a posição inaceitavelmente fraca da classe empregadora quando o autoemprego era uma alternativa viável. Em colônias, havia um pequeno mercado de trabalho e pouca disciplina trabalhista por causa da abundância de terras baratas:</p>
<blockquote><p>Não apenas o grau de exploração do assalariado permanece indecentemente baixa, mas também há a perda, por parte do trabalhador, a relação e o sentimento de dependência em relação ao capitalista abstêmio. (&#8230;)</p>
<p>Onde as terras são baratas e os homens são livres, onde todos que quiserem podem obter um pedaço de terra para si, não só o trabalho é muito valorizado, quanto à fatia recebida pelo trabalhador do produto, mas existe dificuldade de obter trabalho a qualquer preço.<a href="#_ftn37" name="_ftnref37">[37]</a></p></blockquote>
<p>O ambiente também evitava a concentração de renda, como comentava Wakefield: “Poucos, mesmo entre aqueles cujas vidas são anormalmente longas, podem acumular grandes riquezas”. Como resultado, as elites coloniais fizeram campanhas junto à metrópole para importar trabalhadores e restringir os assentamentos nas terras. De acordo com Herman Merivale, discípulo de Wakefield, houve um “desejo urgente por trabalhadores mais baratos e subservientes — por uma classe que poderia ser controlada pelos capitalistas, em vez de controla-los”.<a href="#_ftn38" name="_ftnref38">[38]</a></p>
<p>Os sistemas de banco central executam serviços adicionais em prol dos interesses do capital. Primeiramente, o primeiro requerimento dos capitalistas financeiros é evitar a inflação, para permitir retornos previsíveis sobre os investimentos. Mas igualmente importante é o papel do banco central em promover o que consideram um nível “natural” de desemprego — que, até os anos 1990, gravitava ao redor dos seis por cento. Isso ocorre porque, quando o desemprego cai para níveis mais baixos que esse, o trabalho se torna cada vez mais arredio e faz pressão por maiores salários, melhores condições de trabalho e mais autonomia. Os trabalhadores estão dispostos a aguentar muito menos de seu chefe se sabem que podem encontrar um trabalho equivalente no dia seguinte. Por outro lado, nada é tão eficiente para disciplinar o trabalhador quanto o conhecimento de que há uma fila de pessoas prontas para substituí-lo.</p>
<p>A “prosperidade” do governo Clinton nos Estados Unidos é uma aparente exceção a esse princípio. Quando o desemprego ameaçava cair para níveis abaixo dos quatro por cento, alguns membros do Federal Reserve fizeram campanha pelo aumento das taxas de juros para acabar com a “pressão inflacionária” e jogar alguns milhões de trabalhadores na rua. Como Alan Greenspan<a href="#_ftn39" name="_ftnref39">[39]</a> declarou ao Comitê Bancário do Senado, a situação era única. Dado o grau de insegurança trabalhista na economia de alta tecnologia, havia uma “restrição atípica a aumentos de salários”. Em 1996, mesmo com um mercado de trabalho restrito, 46% dos trabalhadores de grandes firmas temiam demissões — em comparação a apenas 25% em 1991, quando o desemprego era bem maior:</p>
<blockquote><p>A relutância dos trabalhadores em deixar seus empregos para procurar outros com a restrição do mercado de trabalho é outra evidência dessa preocupação, além da tendência ao estabelecimento de contratos sindicais mais longos. Por várias décadas, os contratos raramente excediam três anos. Hoje, podemos encontrar contratos de cinco ou seis anos, caracterizados normalmente por uma ênfase na segurança do trabalhador e que envolve apenas aumentos modestos de salários. As poucas greves em anos recentes também atestam essa insegurança em relação aos empregos.</p></blockquote>
<p>Logo, a disposição dos trabalhadores a aceitar menores aumentos salariais em troca de maior segurança trabalhista parece estar bem documentada. Para os empregadores, a economia da alta tecnologia é quase tão boa quanto o desemprego alto para manter nossas cabeças no lugar. A “luta contra a inflação” se traduz operacionalmente em aumento da insegurança trabalhista, tornando-os menos dispostos a fazer greves ou a procurar novos empregos.</p>
<p><strong>Patentes</strong></p>
<p>O privilégio das patentes tem sido usado em larga escala para promover a concentração do capital, erguer barreiras de entrada no mercado e manter o monopólio sobre tecnologias avançadas nas mãos de corporações ocidentais. É até difícil imaginar quão mais descentralizada a economia seria sem ele. O libertário de direita Murray Rothbard considerava as patentes uma violação fundamental dos princípios de livre mercado:</p>
<blockquote><p>O homem que não comprou uma máquina e que é capaz de fazer a mesma invenção de maneira independente, num livre mercado, terá o direito de usar e vender sua invenção. As patentes evitam que alguém use sua própria invenção, muito embora todas as propriedades envolvidas em sua criação sejam da pessoa e ela não tenha roubado sua invenção, explícita ou implicitamente, do primeiro inventor. As patentes, portanto, são concessões de privilégios monopolistas exclusivos do estado e são invasões dos direitos de propriedade do mercado.<a href="#_ftn40" name="_ftnref40">[40]</a></p></blockquote>
<p>As patentes fazem uma diferença astronômica no preço final. Até o começo dos anos 1970, por exemplo, a Itália não reconhecia patentes de medicamentos. Como resultado, a Roche cobrava um preço do sistema de saúde britânico mais de 40 vezes maior que o cobrado por concorrentes na Itália por componentes patenteados das drogas Librium e Valium.<a href="#_ftn41" name="_ftnref41">[41]</a></p>
<p>As patentes suprimem a inovação na mesma medida em que a estimulam. Chakravarthi Raghavan observou que os pesquisadores que de fato trabalham nas invenções devem abrir mão de seus direitos de patente como condição de trabalho, enquanto patentes e programas de segurança industrial evitam o compartilhamento da informação e suprimem a concorrência no melhoramento de invenções patenteadas.<a href="#_ftn42" name="_ftnref42">[42]</a> Rothbard, da mesma forma, argumentava que as patentes eliminam “o incentivo concorrencial para maiores pesquisas”, porque inovações incrementais que se baseiam nas patentes de outras pessoas é proibida e porque o detentor delas pode “se descansar sobre os louros de seu sucesso por todo o período da patente”, sem temer a melhoria de sua invenção. E elas impedem o progresso técnico, porque “invenções mecânicas são descobertas das leis da natureza e não criações individuais, portanto invenções similares acontecem a todo momento. A simultaneidade de invenções é um fato histórico comum”.<a href="#_ftn43" name="_ftnref43">[43]</a></p>
<p>O regime de propriedade intelectual estabelecido pela Rodada do Uruguai do GATT (sigla em inglês para Acordo Geral de Tarifas e Comércio) vai muito além das tradicionais legislações de patentes na supressão das inovações. Um dos benefícios das leis tradicionais de patentes, ao menos, era que elas requeriam que as patentes fossem publicadas. Por pressão dos Estados Unidos, contudo, “segredos industriais” foram incluídos no acordo. Assim, os governos terão que prestar apoio na supressão de informações que nem mesmo estão formalmente protegidas pelas patentes.<a href="#_ftn44" name="_ftnref44">[44]</a></p>
<p>E as patentes não são necessárias como incentivos para inovar. De acordo com Rothbard, as invenções sempre dão vantagens competitivas ao primeiro desenvolvedor de uma ideia. Esse ponto de vista tem suporte no depoimento à Comissão Federal do Comércio dos EUA de F. M. Scherer.<a href="#_ftn45" name="_ftnref45">[45]</a> Scherer citava uma pesquisa que abrangia 91 empresas segundo a qual apenas sete delas “davam alto valor à proteção de suas patentes como fator em seus investimentos em pesquisa e desenvolvimento”. A maior parte delas considerava as patentes como “a menor de suas considerações”. Sua maior motivação em decisões de P&amp;D era “a necessidade de permanecer competitivas, o desejo de produzir de maneira mais eficiente e o desejo de expandir e diversificar suas vendas”. Em outro estudo, Scherer não encontrou qualquer efeito negativo sobre os gastos em P&amp;D resultantes do licenciamento compulsório de patentes. Uma pesquisa com firmas americanas observou que 86% de todas as invenções teriam sido desenvolvidas sem patentes. No caso de automóveis, equipamentos de escritório, produtos de borracha e têxteis, a taxa era de 100%.</p>
<p>A única exceção era no caso dos medicamentos. Sessenta por cento deles teoricamente não teriam sido desenvolvidos. Suspeito de certa dissimulação por parte dos respondentes, porém. Em primeiro lugar, as empresas farmacêuticas recebem uma porção desproporcional de seu financiamento de P&amp;D do governo e muitos de seus produtos mais lucrativos foram desenvolvidos inteiramente às custas do estado. E o próprio Scherer forneceu evidência em contrário. As vantagens de reputação por ser o primeiro a introduzir uma droga no mercado são consideráveis. Por exemplo, no final dos anos 1970, a estrutura da indústria e os padrões de precificação eram muito similares entre drogas com patentes e aquelas sem patentes. A introdução no mercado de uma droga não-patenteada permitia que uma dada empresa mantivesse uma fatia de mercado de 30% e que cobrasse preços mais altos.</p>
<p>A injustiça dos monopólios de patentes é exacerbada pelo financiamento estatal à pesquisa e inovação, que beneficia a indústria privada com lucros monopolísticos advindos de tecnologias que não gastaram um centavo para desenvolver. Em 1999, a extensão dos créditos corporativos para pesquisas e experimentos e as extensões de outras isenções de impostos corporativos eram consideradas as pautas mais urgentes das lideranças no Congresso dos EUA. De acordo com relatório da organização <em>Citizens for Tax Justice </em>(em português, &#8220;Cidadãos pela Justiça Tributária&#8221;), o deputado Dennis Hastert, quando perguntado qualquer um dos pontos do projeto de lei era essencial, disse: “Acredito que as isenções preferenciais sejam algo em que teremos que trabalhar”. O líder do Comitê Orçamentário do Congresso Bill Archer acrescentou: “[Até] o final do ano (&#8230;) faremos as isenções fiscais em um projeto de lei que não inclua nenhum outro ponto”. Uma extensão de cinco anos sobre a isenção para pesquisas e experimentos (retroativa a 1º de julho de 1999) tinha projeção de custos de US$ 13,1 bi (esse crédito torna os impostos efetivos sobre P&amp;D efetivamente nulos).</p>
<p>A Lei Governamental de Política de Patentes de 1980 (em inglês, <em>Government Patent Policy Act of 1980</em>), com suas emendas de 1984 e 1986, permitiu que a indústria privada mantivesse as patentes sobre produtos desenvolvidos com dinheiro estatal — e então cobrasse dez, vinte ou quarenta vezes mais que o custo de produção. Por exemplo, o AZT foi desenvolvido com dinheiro estatal e estava no domínio público desde 1964. Sua patente foi concedida à Burroughs Wellcome Corp.<a href="#_ftn46" name="_ftnref46">[46]</a></p>
<p>Como se não fosse o bastante, as companhias farmacêuticas em 1999 fizeram lobby sobre o Congresso para estender determinadas patentes em dois anos através de uma lei especial privada.<a href="#_ftn47" name="_ftnref47">[47]</a></p>
<p>As patentes têm sido usadas ao longo do século 20 para “driblar as leis antitruste”, de acordo com David Noble. Elas são “compradas em grandes números para suprimir a concorrência”, o que também resultou “na supressão das próprias invenções”.<a href="#_ftn48" name="_ftnref48">[48]</a></p>
<p>As patentes desempenharam um papel fundamental na formação das indústrias de eletrodomésticos, de comunicações e de química. A GE e a Westinghouse se expandiram a ponto de dominar a manufatura elétrica na virada do século 19 para o 20 basicamente através do controle de patentes. Em 1906, reduziram seus litígios com o compartilhamento de suas patentes. A AT&amp;T também se expandiu “essencialmente através de estratégias de monopólio sobre patentes”. A indústria americana de químicos era pouco importante até 1917, quando o Advogado Geral Mitchell Palmer confiscou as patentes alemãs e as distribuiu entre grandes empresas de químicos americanas. A DuPont conseguiu licenças sobre 300 das 735 patentes tomadas.<a href="#_ftn49" name="_ftnref49">[49]</a></p>
<p>As patentes estão também sendo utilizadas em escala global para conceder às corporações transnacionais um monopólio permanente sobre as tecnologias produtivas. As cláusulas mais totalitárias da Rodada do Uruguai provavelmente dizem respeito à “propriedade intelectual”. O GATT estendeu tanto o escopo quanto a duração das patentes muito além do que se pretendia originalmente por suas leis. Na Inglaterra, as patentes tinham originalmente duração de 14 anos — tempo necessário para treinar dois aprendizes sucessivamente (e, por analogia, o tempo necessário para introduzir o produto no mercado e lucrar a partir de sua originalidade). Por esse parâmetro, dados os períodos mais curtos de treinamento requeridos atualmente e as vidas úteis mais curtas de várias tecnologias, o período de monopólio deveria ser mais curto. No entanto, os Estados Unidos buscam expandi-lo a cinquenta anos.<a href="#_ftn50" name="_ftnref50">[50]</a> De acordo com Martin Khor Kok Peng, os EUA são os participantes mais absolutistas da Rodada do Uruguai em relação à “propriedade intelectual”, ao contrário da Comunidade Europeia, e pretendiam estender suas provisões a processos biológicos, para proteção de animais e plantas.<a href="#_ftn51" name="_ftnref51">[51]</a></p>
<p>As provisões para biotecnologia são efetivamente uma maneira de aumentar as barreiras ao comércio, forçando os consumidores a subsidiar as corporações transnacionais do agronegócio. Os EUA pretendem aplicar patentes a organismos geneticamente modificados, o que na prática pirateia o trabalho de várias gerações de reprodutores do Terceiro Mundo, isolando os genes benéficos de variedades tradicionais e incorporando-as em novos organismos geneticamente modificados — e talvez forçando a aplicação dos direitos de patente sobre as variedades tradicionais, que foram as fontes de material genético. Por exemplo, a Monsanto já tentou utilizar a presença do DNA das variedades desenvolvidas por elas em uma lavoura como prova <em>prima facie</em> de pirataria — quando é muito mais provável que sua variedade tenha polinizado e contaminado a lavoura do fazendeiro em questão contra a sua vontade. A agência Pinkerton desempenha um grande papel na investigação desses casos — os mesmos sujeitos que estavam ocupados dispersando greves e jogando seus organizadores escada abaixo no século passado. Até mesmo criminosos desse naipe têm que diversificar seus negócios para sobreviver na economia global. O mundo desenvolvido tem feito grandes pressões para proteger as indústrias que dependem ou produzem “tecnologias genéricas” e para restringir a difusão de tecnologias de “uso dual”. O acordo EUA-Japão sobre semicondutores, por exemplo, é um “acordo de comércio controlado, de cartel”.<a href="#_ftn52" name="_ftnref52">[52]</a> São assim os acordos de “livre comércio”.</p>
<p>A legislação de patentes tradicionalmente exigia que o detentor trabalhasse na invenção em determinado país para receber proteção. A legislação do Reino Unido permitia o licenciamento compulsório após três anos se uma invenção não estava sendo trabalhada parcial ou totalmente e se sua demanda fosse atendida “substancialmente” pela importação; ou quando o mercado exportador não estivesse sendo atendido por conta da recusa do detentor da patente em conceder licenças em termos razoáveis.<a href="#_ftn53" name="_ftnref53">[53]</a></p>
<p>A motivação central para o estabelecimento do regime de propriedade intelectual do GATT, entretanto, é proteger permanentemente o monopólio coletivo de patentes para as corporações transnacionais, impedindo o surgimento de concorrentes independentes no Terceiro Mundo. Como afirma Martin Khor Kok Peng, esse sistema “efetivamente impediria a difusão de tecnologias para o Terceiro Mundo e aumentaria tremendamente os royalties monopolísticos das corporações transnacionais, freando ao mesmo tempo o desenvolvimento próprio de tecnologias por esses países”. Apenas um por cento das patentes no mundo são detidas pelo Terceiro Mundo. Das patentes concedidas nos anos 1970 por países do Terceiro Mundo, 84% foram para estrangeiros. Delas, menos de 5% foram de fato usadas na produção. Como vimos, o propósito das patentes não é necessariamente serem utilizadas, mas evitar que outros as utilizem.<a href="#_ftn54" name="_ftnref54">[54]</a></p>
<p>Raghavan resumiu perfeitamente os efeitos das patentes sobre o Terceiro Mundo:</p>
<blockquote><p>Dados os gigantescos gastos em P&amp;D e investimentos, além do curto ciclo de vida de alguns desses produtos, algumas nações industriais tentam impedir a emergência da competição pelo controle (&#8230;) dos fluxos de tecnologia para outros países. A Rodada do Uruguai está sendo usada para criar monopólios de exportação para os produtos dos países industriais e para bloquear ou refrear o crescimento de concorrentes, particularmente em países que estão se industrializando no Terceiro Mundo. Ao mesmo tempo, as tecnologias de indústrias antigas do norte estão sendo exportadas para o sul de forma que garantam lucros a rentistas.<a href="#_ftn55" name="_ftnref55">[55]</a></p></blockquote>
<p>Os propagandistas das corporações repetidamente denunciam os antiglobalistas como se fossem inimigos do Terceiro Mundo, que buscam utilizar as barreiras comerciais para manter sua riqueza ocidental às custas dos países mais pobres. As medidas mencionadas — barreiras comerciais — que buscam suprimir permanentemente as tecnologias do Terceiro Mundo e manter o sul como uma enorme fonte de trabalhadores baratos mostram como são mentirosas essas preocupações “humanitárias”. Não se trata de um caso de opiniões divergentes ou de entendimentos sinceramente enganados sobre os fatos. Ignorando falsas sutilezas, o que vemos aqui é uma maquinação puramente maligna — a bota que Orwell mencionava que “pisaria num rosto humano para sempre”. Se qualquer um dos arquitetos desta política realmente acredita que ela exista em prol do bem estar geral, isso só mostra a impressionante capacidade que a ideologia tem de justificar a opressão para o próprio opressor e permitir que ele durma tranquilo durante a noite.</p>
<p><strong>Infraestrutura</strong></p>
<p>Os gastos em redes de transporte e comunicação a partir de receitas gerais em vez de impostos e taxas de uso permitem que as grandes empresas externalizem seus custos sobre o público, escondendo suas despesas reais de operação. Noam Chomsky<a href="#_ftn56" name="_ftnref56">[56]</a> descreveu essa subestimação dos custos de transporte sob o capitalismo de estado de maneira bastante precisa:</p>
<blockquote><p>Um fato bastante conhecido a respeito do comércio é que ele é altamente subsidiado com enormes fatores que distorcem o mercado. (&#8230;) O mais óbvio é que toda forma de transporte é altamente subsidiada. (&#8230;) Uma vez que o comércio naturalmente requer transporte, os custos do transporte entram no cálculo da eficiência do comércio. Mas existem enormes subsídios para reduzir os custos de transporte, através da manipulação dos custos de energia e de todas as funções de distorção do mercado.</p></blockquote>
<p>Toda onda de concentração de capital se segue a um sistema de subsídios públicos à infraestrutura. O estabelecimento do sistema nacional de ferrovias dos EUA, construído em terras cedidas ou vendidas a baixo custo pelo governo, foi seguido por uma grande concentração na indústria pesada, de petroquímicos e finanças. Os grandes projetos de infraestrutura que foram construídos a seguir foram o sistema nacional de rodovias, começando com o sistema de rodovias designadas nos anos 1920 e culminando no sistema interestadual de Eisenhower, e o sistema de aviação civil, feito quase inteiramente com dinheiro do governo federal. O resultado foram enormes concentrações no comércio varejista, na agricultura e no processamento de alimentos.</p>
<p>O terceiro entre tais projetos de infraestrutura foi o desenvolvimento da rede mundial da internet, feito pelo Pentágono. Ela permite, pela primeira vez, a direção de operações globais em tempo real a partir de uma única sede corporativa e está acelerando a concentração de capital em escala global. Como afirma Chomsky<a href="#_ftn57" name="_ftnref57">[57]</a>: “A revolução das telecomunicações (&#8230;) é (&#8230;) outro componente da economia internacional que não se desenvolveu através do capital privado, mas foi financiada pelo público, que pagou pela própria destruição”.</p>
<p>A economia corporativa centralizada depende, para sua existência, de um sistema de preços que seja artificialmente distorcido pela intervenção estatal. Para entender o nível de dependência da economia corporativa dos custos de transporte e comunicação socializados, imagine o que aconteceria se os combustíveis de caminhões e aeronaves fossem taxados o suficiente para pagar o custo total de manutenção e de construção de novas rodovias e se as isenções fiscais a sua utilização fossem retiradas. O resultado seria um enorme aumento nos custos de frete. Alguém realmente acredita que, nesse cenário, o Wal-Mart continuaria a vender a preços mais baixos que os comerciantes locais ou que o agronegócio seria capaz de destruir a agricultura familiar?</p>
<p>Libertários de direita intelectualmente honestos admitem esses fatos. Por exemplo, Tibor Machan escreveu na revista <em>The Freeman</em><a href="#_ftn58" name="_ftnref58">[58]</a>:</p>
<blockquote><p>Alguns dizem que a proteção estrita dos direitos de propriedade [contra desapropriações] levaria a existência de aeroportos muito pequenos e muitas restrições sobre grandes projetos. É óbvio, mas qual o problema com isso?</p>
<p>Talvez a pior característica da moderna vida industrial é o poder que as autoridades políticas possuem para conceder privilégios a algumas empresas para violar os direitos de terceiros cuja permissão seria cara demais de se obter. A necessidade de obter essa permissão de fato impediria aquilo que a maioria dos ambientalistas vê como uma industrialização excessiva — ou até mesmo irresponsável.</p>
<p>O sistema de direitos de propriedade — segundo o qual (&#8230;) todas as (&#8230;) atividades humanas devem ser conduzidas de maneira independente a não ser que haja a cooperação voluntária de outras partes — é o maior moderador das aspirações humanas. (&#8230;) Assim as pessoas só conseguem alcançar objetivos que não conseguiriam com seus próprios recursos pelo convencimento, através de argumentos e trocas justas, pela cooperação.</p></blockquote>
<p>Os impasses e gargalos no sistema de transporte são resultados inevitáveis dos subsídios governamentais. Aqueles que discutem os motivos por que os aviões se amontoam nos aeroportos ou lamentam o fato de que rodovias e pontes se deterioram muito mais rápido do que seus consertos são orçados só precisam dar uma olhada em qualquer livro introdutório de economia. Os preços de mercado são sinais que relacionam a oferta à demanda. Quando os subsídios distorcem esses sinais, o consumidor não percebe os custos reais da produção dos bens que consome. O ciclo de respostas é quebrado e a demanda sobre o sistema acaba por sobrecarregá-lo. Quando as pessoas não têm que pagar os custos reais daquilo que consomem, não tomam os cuidados adequados para utilizar somente o que precisam.</p>
<p>É interessante observar que todas as maiores ações antitruste deste século envolveram algum tipo de recurso energético básico ou alguma infraestrutura sobre a qual toda a economia depende. Standard Oil, AT&amp;T e Microsoft foram todos casos em que preços monopolísticos eram danosos à economia como um todo. Isso remonta à observação de Engels de que o capitalismo avançado chegaria a um estágio em que o estado — “o representante oficial da sociedade capitalista” — teria que converter “as grandes instituições de relacionamento e comunicação” em propriedades estatais. Engels<a href="#_ftn59" name="_ftnref59">[59]</a> não previa o uso de ações antitruste para alcançar esse objetivo.</p>
<p><strong>O “keynesianismo militar”</strong></p>
<p>Os setores mais importantes da economia americana, que incluem a cibernética, as comunicações e a indústria militar, têm seus lucros praticamente garantidos pelo estado. Todo o setor fabril se expandiu permanentemente por uma infusão de dinheiro do governo federal durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1939, todo as manufaturas dos EUA eram avaliadas em US$ 40 bi. Em 1945, mais US$ 26 bi em fábricas e capital haviam sido construídas, “dois terços dos quais produzidos diretamente através de fundos governamentais”. As 250 maiores corporações em 1939 possuíam 65% das instalações e equipamentos, mas durante a guerra operavam 79% de todas as fábricas construídas com financiamento estatal.<a href="#_ftn60" name="_ftnref60">[60]</a></p>
<p>Houve um aumento tremendo no número de máquinas-ferramentas. Em 1940, 23% das máquinas-ferramentas utilizadas tinham menos de dez anos de idade. Em 1945, essa proporção havia crescido para 62%. A indústria se contraiu rapidamente após 1945 e provavelmente teria entrado num ciclo de depressão caso não tivesse entrado em níveis produtivos de guerra com as campanhas na Coreia e permanecido dessa forma durante a Guerra Fria. O completo de P&amp;D, da mesma forma, foi uma criação da guerra. Entre 1939 e 1945, os gastos com pesquisas contratadas pelo governo na AT&amp;T saltaram de 1% para 83%. Mais de 90% das patentes resultantes de pesquisas financiadas pelo estado em tempo de guerra foram cedidas à indústria. A moderna indústria de eletrônicos foi essencialmente produzida pelos gastos da Segunda Guerra Mundial e da Guerra Fria (por exemplo, através da miniaturização de circuitos para fusíveis de proximidade de bombas, computadores de alta capacidade para comando e controle, etc.).<a href="#_ftn61" name="_ftnref61">[61]</a></p>
<p>A indústria de aviões de grande porte (<em>jumbo jets</em>) nunca teria se desenvolvido sem gastos militares contínuos durante a Guerra Fria. As ferramentas necessárias para a produção de grandes aeronaves eram tão complexas e caras que nenhuma “pequena encomenda de tempos de paz” poderia justificar sua produção. Sem grandes encomendas militares, elas simplesmente não existiriam. A indústria de aeronaves rapidamente entrou no vermelho após 1945 e estava à beira da falência no começo da histeria militarista de 1948. Depois desse momento, o presidente Harry Truman a ressuscitou com enormes gastos federais. Em 1964, 90% da pesquisa e desenvolvimento aeroespacial eram financiados pelo governo, o que repercutia ainda sobre os eletrônicos, máquinas-ferramentas e outras indústrias.<a href="#_ftn62" name="_ftnref62">[62]</a></p>
<p><strong>Outros subsídios</strong></p>
<p>Os gastos militares e em infraestrutura não são os únicos exemplos do processo pelo qual custos e riscos são socializados e os lucros privatizados — ou, como colocava Rothbard, pelo qual “nosso estado corporativo usa seu poder de taxação para acumular capital corporativo ou para diminuir custos corporativos”.<a href="#_ftn63" name="_ftnref63">[63]</a> Alguns pressupostos de risco e custos são individuais e têm como foco indústrias específicas.</p>
<p>Entre os maiores beneficiários dessas reduções de custos estão as fornecedoras de energia elétrica. Quase 100% de todas as pesquisas em energia nuclear são feitas pelo governo diretamente, em seu programa de estudos sobre reatores militares, ou através de subsídios para P&amp;D. O governo também renuncia às taxas de uso de combustíveis nucleares, subsidia a produção de urânio, cede acesso a terras estatais a preços mais baixos que os de mercado (além de construir centenas de quilômetros de vias de acesso às custas do pagador de impostos), enriquece urânio e descarta seus resíduos tóxicos a preços camaradas aos contratados. A Lei Price-Anderson de 1957 limitou a responsabilidade corporativa da indústria de energia nuclear e estabeleceu a responsabilidade governamental a partir de certo ponto.<a href="#_ftn64" name="_ftnref64">[64]</a> Um representante da Westinghouse admitiu em 1953:</p>
<blockquote><p>Se você perguntasse se a Westinghouse consideraria investir seu próprio dinheiro (&#8230;), nós teríamos que dizer “não”. O custo das instalações seria uma incógnita até o final da construção e, somente assim, nós soubemos a resposta. Nós não teríamos certeza da operação bem sucedida da planta até que tivéssemos concluído todo o trabalho e começado a operá-la de maneira bem sucedida. (&#8230;) Esta ainda é uma situação em que há incertezas cumulativas. (&#8230;) Há uma diferença entre a tomada de riscos e a imprudência.<a href="#_ftn65" name="_ftnref65">[65]</a></p></blockquote>
<p>Eis os tais lucros pela assimilação de riscos empresariais. Esses “empresários” lucram da mesma forma que um cortesão do século 17: através da obtenção de favores do rei. Como afirmou Chomsky<a href="#_ftn66" name="_ftnref66">[66]</a>:</p>
<blockquote><p>[Os] setores da economia que permanecem competitivos são aqueles que se alimentam da fonte pública. (&#8230;) As glórias da livre empresa são uma arma útil contra políticas estatais que possam beneficiar a população (&#8230;). Mas os ricos e poderosos (&#8230;) já há muito tempo apreciam a necessidade de se proteger das forças destrutivas do capitalismo de livre mercado, que é excelente tema para estimulantes discursos, mas somente enquanto o erário, o aparato regulatório e protecionista e o poder estatal estiverem a postos para agir quando necessário.</p></blockquote>
<p>Dwayne Andreas, CEO da Archer Daniels Midland, admitiu que “[não] há um só grão de qualquer coisa no mundo que seja vendido no livre mercado. Nem mesmo um. O único lugar em que existe um livre mercado é nos discursos de políticos”.<a href="#_ftn67" name="_ftnref67">[67]</a></p>
<p>As grandes empresas também se beneficiam de apoio financeiro através da legislação de impostos. É provável que a maior parte das empresas da Fortune 500 fosse à falência sem os programas assistenciais corporativos. As isenções fiscais federais diretas a empresas em 1996 se aproximaram de US$ 350 bi (de acordo com minha interpretação dos números de Zepezauer e Naiman<a href="#_ftn68" name="_ftnref68">[68]</a>). Esses benefícios corporativos por si só representam mais de dois terços dos lucros corporativos anuais de 1996 (US$ 460 bi).<a href="#_ftn69" name="_ftnref69">[69]</a></p>
<p>As estimativas das isenções fiscais estaduais e municipais nos EUA são bastante imprecisas, contudo, porque variam não apenas de acordo com a definição subjetiva de cada intérprete sobre o que caracteriza “assistência corporativa” (<em>corporate welfare</em>), mas também envolve as legislações tributárias de milhares de municípios. Além disso, os canalizadores de dinheiro nos estados e municípios têm certa vergonha dos acordos camaradas que fazem com os executivos corporativos. Em meu estado, o Arkansas, o incorruptível pastor batista que serve como governador se opôs a um projeto de lei que requeria relatórios trimestrais do Departamento de Desenvolvimento Econômico que listava suas isenções fiscais a empresas. De acordo com o Arkansas Democrat-Gazette (3 de fevereiro de 2001), “manter os relatórios de incentivos longe do escrutínio público é importante para atrair empresas” e liberar “informações confidenciais” poderia ter um “efeito inibidor”. Os incentivos estaduais e municipais a corporações, contudo, podem até mesmo ser equivalentes aos federais.</p>
<p>Em sua totalidade, as isenções fiscais a empresas de todos os níveis de governo provavelmente estão na mesma ordem de magnitude que os lucros das corporações. E isso ainda subestima o efeito do assistencialismo corporativo, uma vez que ele é direcionado desproporcionalmente a algumas poucas grandes empresas de cada setor. Por exemplo, a depreciação acelerada favorece a expansão de firmas existentes. Novas empresas não a veem como grande vantagem nesse método, já que provavelmente perderão dinheiro em seus primeiros anos de operação. Uma firma já estabelecida, no entanto, pode sofrer prejuízo em um novo empreendimento e cobrir a aceleração depreciada com os lucros de instalações antigas.<a href="#_ftn70" name="_ftnref70">[70]</a></p>
<p>O exemplo mais ultrajante desses incentivos fiscais é o subsídio às próprias transações financeiras através das quais o capital se concentra. A dedução de juros sobre as dívidas corporativas, a maior parte das quais foi adquirida a partir aquisições alavancadas, custa ao tesouro mais de US$ 200 bilhões por ano.<a href="#_ftn71" name="_ftnref71">[71]</a> Sem essa dedução, a onda de fusões nos anos 1980, ou mesmo as megafusões dos anos 1990, jamais poderiam ter ocorrido. Trata-se de um subsídio massivo aos bancos que aumenta o poder do capital financeiro na economia corporativa a um nível maior do que tinha na Era Dourada da história americana.</p>
<p>Um subsídio muito similar é a isenção dos ganhos de capital em transações de títulos envolvidas em fusões corporativas (ou seja, <em>swaps</em> de ações) — embora os preços pagos normalmente estejam bem acima do valor de mercado. A reforma tributária de 1986 incluía uma cláusula que evitava que as corporações deduzissem taxas destinadas a bancos de investimentos e conselheiros envolvidos em aquisições. O projeto que aumentou o salário mínimo em 1996 repeliu essa regra, com apenas uma exceção: as deduções de juros foram removidas para aquisições por funcionários.<a href="#_ftn72" name="_ftnref72">[72]</a></p>
<p>Libertários de direita são contrários à classificação de isenções fiscais como subsídios, uma vez que essa visão presume que o dinheiro dos impostos seja propriedade legítima do governo, quando, na verdade, o governo está apenas permitindo que os indivíduos mantenham o dinheiro que é seu. O código tributário é realmente injusto, mas a solução é a eliminação dos impostos para todos, não a cobrança igualitária dos tributos.<a href="#_ftn73" name="_ftnref73">[73]</a> Esse é um argumento bastante frágil. Os apoiadores da reforma tributária nos anos 1980 insistiam que o único propósito legítimo dos impostos era a arrecadação de receita, não para fornecer incentivos ou desincentivos para objetivos de engenharia social. Discussões semânticas à parte, o sistema tributário atual seria exatamente igual se começássemos com taxações zeradas e impuséssemos impostos punitivos somente sobre aqueles que não estivessem envolvidos em atividades favorecidas. De qualquer forma, uma política de impostos desiguais dá uma vantagem competitiva a setores privilegiados.</p>
<p><strong>Repressão política</strong></p>
<p>Em épocas de grande consciência e mobilização populares, quando o sistema capitalista enfrenta suas mais graves ameaças, o estado recorre à repressão direta até que passe o momento de instabilidade. As maiores ondas de mobilização nos EUA — a revolta de Haymarket e as ameaças vermelhas depois das duas guerras mundiais — são recontadas por Robert J. Goldstein.<a href="#_ftn74" name="_ftnref74">[74]</a> Mas a onda de repressão que começou nos anos 1970, embora menos intensa, foi permanentemente institucionalizada a um patamar único.</p>
<p>Até o final dos anos 1960, a perspectiva da elite era governada pelo contrato social do New Deal. O estado corporativo compraria estabilidade e aquiescência popular às suas explorações imperialistas no exterior com a garantia de certo nível de prosperidade e segurança para a classe média. Em troca de salários mais altos, os sindicatos cederiam o controle do ambiente de trabalho. Porém, após a Guerra do Vietnã, o pensamento da elite sofreu profundas mudanças.</p>
<p>A elite concluiu a partir da experiência dos anos 1960 que o contrato social havia fracassado. Em resposta às manifestações antiguerra e às revoltas pela igualdade racial, Lyndon B. Johnson e Richard Nixon começaram a criar uma estrutura institucional de lei marcial, para garantir que quaisquer desordens no futuro poderiam ser confrontadas de forma diferente. A operação Garden Plot de Johnson envolvia a vigilância doméstica pelo exército, planos de contingência para cooperação militar com as policias locais para suprimir desordens em todos os cinquenta estados, planos para detenção preventiva em massa e exercícios conjuntos entre a polícia e o exército.<a href="#_ftn75" name="_ftnref75">[75]</a> O governador Ronald Reagan e seu conselheiro Louis O. Giuffrida foram apoiadores entusiasmados dos exercícios da Garden Plot na Califórnia. Reagan também foi pioneiro na criação de esquadrões semimilitares da SWAT, que atualmente existem em quase todas as grandes cidades.</p>
<p>A onda de greves espontâneas no começo dos anos 1970 mostrou que os representantes trabalhistas não eram mais capazes de cumprirem sua parte no acordo e que o contrato social deveria ser reavaliado. Ao mesmo tempo, a imprensa empresarial estava inundada de artigos a respeito da “escassez de capital” e campanhas para desviar os recursos do consumo para a poupança. Previam com franqueza que um teto para os salários reais seria difícil de vender ao público no ambiente político da época.<a href="#_ftn76" name="_ftnref76">[76]</a> Esse sentimento era expressado por Crozier, Huntington e Watanuki no livro <em>The Crisis of Democracy </em>— um relatório para a Comissão Trilateral, sempre uma boa referência para o pensamento da elite. Eles argumentavam que o sistema estava entrando em colapso por um excesso de demanda, por conta de um excesso de democracia.</p>
<p>As corporações abraçaram todas as alternativas para domar os sindicatos presentes na Lei Taft-Hartley, se arriscando apenas a multas nominais do Conselho Nacional de Relações Trabalhistas (NLRB). Elas aumentaram drasticamente os recursos dispensados para vigilância e controle no ambiente de trabalho — uma necessidade, dados os salários estagnados e o aumento das cargas de trabalho.<a href="#_ftn77" name="_ftnref77">[77]</a> Os salários, como fatia porcentual do valor agregado à produção, decresceram drasticamente desde os anos 1970; todos os aumentos de produtividade do trabalho foram direcionados a lucros e investimentos em vez de salários. Uma nova leva de gastos com a Guerra Fria transferiu ainda mais recursos públicos para a indústria.</p>
<p>Vários eventos, como a queda de Saigon, no Vietnã, o movimento não-aliado e a Nova Ordem Econômica Internacional, foram considerados sinais de que o império corporativo transnacional perdia o controle da situação. A intervenção crescente de Reagan na América Central era uma resposta parcial a essa percepção. Além disso, a Rodada do Uruguai do GATT foi uma vitória total dessa ordem no exato momento em que ela parecia estar derrotada: ela acabou com todas as barreiras ao controle de economias inteiras por corporações transnacionais, estabeleceu o controle ocidental monopolista sobre tecnologias modernas e criou um governo mundial em prol das grandes empresas globais. Enquanto isso, os EUA, nas palavras de Richard K. Moore<a href="#_ftn78" name="_ftnref78">[78]</a>, importavam técnicas de controle social da periferia do império para as áreas centrais. Com ajuda da guerra contra as drogas e do estado de segurança nacional, o aparato repressivo continuou a ganhar força. A guerra contra as drogas transformou a quarta emenda à Constituição dos Estados Unidos em letra morta; o confisco de bens e o uso de informantes dentro das prisões dão à polícia o poder de roubar propriedades das pessoas sem nem mesmo acusações formais — uma fonte lucrativa de financiamento para helicópteros e coletes de kevlar. Times da SWAT têm liderado a militarização das forças policiais no país e o treinamento em conjunto com o exército têm levado muitos departamentos policiais nas metrópoles a encarar as populações locais como povos de territórios ocupados.<a href="#_ftn79" name="_ftnref79">[79]</a></p>
<p>Giuffrida, o apadrinhado de Reagan, foi alçado ao cargo de diretor da Agência Federal de Gestão de Emergências (FEMA), onde trabalhou com Oliver North para fazer ajustes à Operação Garden Plot. North, enquanto agente de ligação do Conselho de Segurança Nacional dentro da FEMA de 1982 a 1984, desenvolveu um plano para “suspender a validade da Constituição em casos de grave crise nacional, como uma guerra nuclear, dissidências internas violentas e generalizadas ou oposição nacional a uma invasão militar americana no exterior”.<a href="#_ftn80" name="_ftnref80">[80]</a> A Operação Garden Plot foi implementada durante as rebeliões em Los Angeles de 1992 e em protestos recentes contra a globalização. A Força Delta — unidade de contraterrorismo do exército dos EUA — trabalhou na inteligência e em consultoria tanto nesses eventos quanto no cerco de Waco, no Texas.<a href="#_ftn81" name="_ftnref81">[81]</a></p>
<p>Outra inovação foi a transformação de todas as pessoas com quem lidamos rotineiramente em agentes policiais. Os bancos normalmente reportam movimentações de dinheiro “suspeitas”; com programas para “conhecer seu consumidor”, varejistas relatam as compras de itens que podem ser usados na produção de drogas; as bibliotecas são pressionadas a denunciar leitores de material “subversivo”; programas de resistência ao uso de drogas transformam crianças e adolescentes em informantes da polícia.</p>
<p>A tecnologia da informação aumentou o potencial de vigilância a níveis orwellianos. Ficou provado, por exemplo, que processadores Pentium III incorporavam códigos de identidade em todos os documentos escritos neles. Forças policiais fazem experimentos atualmente que combinam o uso de câmeras em locais públicos, tecnologias de reconhecimento facial e bancos de dados de fotos digitais. A Image Data, uma empresa que estava comprando as fotos das carteiras de motoristas em todos os 50 estados americanos, foi exposta como uma fachada do Serviço Secreto.</p>
<p><strong>Conclusão</strong></p>
<p>É fácil demais citar o comentarista político Bob Novak e o Secretário do Tesouro Paul O’Neill para mais uma pancada, mas eu não consigo resistir. “Luta de classes marxista”? “Retórica dos barões ladrões”? As páginas acima recontam a “luta de classes” empreendida pelos próprios barões contra os trabalhadores. Se esse tipinho tende a grunhir como porcos quando falamos sobre classes, é porque foram colocados contra a parede. Os fatos não mudam. Quais são as implicações dos fatos acima para o nosso movimento? Normalmente se reconhece que a economia senhorial se baseava na força. Embora essa questão jamais vá ser abordada por Milton Friedman, libertários de direita intelectualmente honestos como Murray Rothbard reconhecem o papel do estado na criação do feudalismo europeu e da escravidão americana. Rothbard, tirando as conclusões óbvias desse fato, reconheceu os direitos dos camponeses e escravos de tomarem posse de seus “quarenta acres e uma mula” sem compensação aos donos de terras.</p>
<p>Vimos, porém, que o capitalismo industrial, na mesma medida que o senhorialismo ou a escravidão, foi baseado também no uso da força. Como seus predecessores, o capitalismo não poderia ter sobrevivido sem a intervenção estatal. As medidas coercitivas a cada passo negaram aos trabalhadores acesso ao capital, os forçaram a vender sua força de trabalho em um mercado favorável aos demandantes e protegeu os centros de poder econômico dos riscos do livre mercado. Como afirmou Benjamin Tucker, os proprietários de terras e capitalistas não são capazes de extrair o valor excedente do trabalho sem o auxílio do estado. O trabalhador moderno, como o escravo ou o servo, é continuamente roubado; ele trabalha para uma empresa construída a partir do trabalho roubado no passado. Os mesmos princípios que justificavam a tomada do controle direto no setor agrário justificam que o trabalhador assuma o controle direto da produção e mantenha o produto total do seu trabalho.</p>
<p>Essencialmente, todos os subsídios e privilégios descritos acima são formas de escravidão. A escravidão é simplesmente o uso da coerção para extrair os frutos do trabalho de outra pessoa. Por exemplo, considere o trabalhador que paga R$ 300 por mês por uma droga que custaria R$ 30 em um mercado verdadeiramente livre. Se ele recebe U$ 15 por hora, as dezoito horas que trabalharia todo mês para pagar a diferença são escravidão. Cada hora trabalhada para pagar o valor da usura de cartão de crédito ou de um financiamento habitacional é escravidão. As horas trabalhadas para pagar custos desnecessários de distribuição e marketing (que compõem metade dos preços do varejo), por conta de subsídios à centralização econômica, são escravidão. Toda hora adicional trabalhada por uma pessoa para atender às suas necessidades básicas porque o estado favorece os patrões e a força a vender seu trabalho por menos do que ele vale é escravidão.</p>
<p>Todas essas formas de escravidão combinadas provavelmente equivalem a metade de nossas horas trabalhadas. Se pudéssemos ganhássemos o valor total de nosso trabalho, provavelmente manteríamos nossos níveis atuais de consumo em uma semana de trabalho de vinte horas. Como disse Bill Haywood, para cada pessoa que ganha um dólar pelo qual não teve que suar, outra suou para produzir um dólar que nunca recebeu.</p>
<p>Nossa pesquisa também lança sérias dúvidas a respeito da posição do “anarquista” social-democrata Noam Chomsky, que é conhecido por distinguir entre suas “visões” e seus “objetivos”. Sua visão de longo prazo é a de uma sociedade descentralizada de comunidades e ambientes de trabalho autogestionados organizados em federações interligadas — o velho ideal anarquista. Seu objetivo imediato, contudo, é fortalecer o estado regulatório para que ele acabe com as “concentrações privadas de poder” antes que o anarquismo possa ser alcançado. Mas se, como vimos aqui, o capitalismo depende do estado para sua sobrevivência, segue-se que é suficiente eliminar os sustentáculos estatais do capitalismo. Em uma carta de 4 de setembro de 1867, Engels resumiu perfeitamente a diferença entre os anarquistas e socialistas estatistas: “Eles dizem: ‘Acabemos com o estado e o capital irá para o inferno’. Nós propomos o oposto”. Exatamente.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Notas</strong></p>
<p><a href="#_ftnref1" name="_ftn1">[1]</a> HAMMOND e HAMMOND, 1917, p. 27-28, 35-36.</p>
<p><a href="#_ftnref2" name="_ftn2">[2]</a> MARX, 1996.</p>
<p><a href="#_ftnref3" name="_ftn3">[3]</a> Id.</p>
<p><a href="#_ftnref4" name="_ftn4">[4]</a> HOBSBAWM e RUDE, 1993, p. 27.</p>
<p><a href="#_ftnref5" name="_ftn5">[5]</a> THOMPSON, 1966, p. 219-220, 358.</p>
<p><a href="#_ftnref6" name="_ftn6">[6]</a> MARX, 1996.</p>
<p><a href="#_ftnref7" name="_ftn7">[7]</a> Id.</p>
<p><a href="#_ftnref8" name="_ftn8">[8]</a> Id.</p>
<p><a href="#_ftnref9" name="_ftn9">[9]</a> Id.</p>
<p><a href="#_ftnref10" name="_ftn10">[10]</a> SMITH, 1952, p. 61.</p>
<p><a href="#_ftnref11" name="_ftn11">[11]</a> Id., p. 60-61.</p>
<p><a href="#_ftnref12" name="_ftn12">[12]</a> Id., p. 60.</p>
<p><a href="#_ftnref13" name="_ftn13">[13]</a> HAMMOND e HAMMOND, 1917, p. 146.</p>
<p><a href="#_ftnref14" name="_ftn14">[14]</a> THOMPSON, 1966, p. 223-224.</p>
<p><a href="#_ftnref15" name="_ftn15">[15]</a> SMITH, 1952, p. 61; HAMMOND e HAMMOND, 1917, p. 74.</p>
<p><a href="#_ftnref16" name="_ftn16">[16]</a> THOMPSON, 1966, p. 199-202.</p>
<p><a href="#_ftnref17" name="_ftn17">[17]</a> HAMMOND e HAMMOND, 1917, p. 123-127.</p>
<p><a href="#_ftnref18" name="_ftn18">[18]</a> SMITH, 1952, p. 61.</p>
<p><a href="#_ftnref19" name="_ftn19">[19]</a> HAMMOND e HAMMOND, 1917, p. 33-34.</p>
<p><a href="#_ftnref20" name="_ftn20">[20]</a> MARGLIN, 1974.</p>
<p><a href="#_ftnref21" name="_ftn21">[21]</a> Id.</p>
<p><a href="#_ftnref22" name="_ftn22">[22]</a> Id.</p>
<p><a href="#_ftnref23" name="_ftn23">[23]</a> THOMPSON, 1966, p. 360.</p>
<p><a href="#_ftnref24" name="_ftn24">[24]</a> NOBLE, 1977, p. xi-xii.</p>
<p><a href="#_ftnref25" name="_ftn25">[25]</a> HAMMOND e HAMMOND, 1917, p. 72.</p>
<p><a href="#_ftnref26" name="_ftn26">[26]</a> Id., p. 80.</p>
<p><a href="#_ftnref27" name="_ftn27">[27]</a> Id., p. 91-92.</p>
<p><a href="#_ftnref28" name="_ftn28">[28]</a> THOMPSON, 1966.</p>
<p><a href="#_ftnref29" name="_ftn29">[29]</a> Id., p. 197-198.</p>
<p><a href="#_ftnref30" name="_ftn30">[30]</a> CHOMSKY, 1994.</p>
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<p><a href="#_ftnref34" name="_ftn34">[34]</a> Id., p. 80-81.</p>
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<p><a href="#_ftnref44" name="_ftn44">[44]</a> RAGHAVAN, 1990, p. 122.</p>
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<p><a href="#_ftnref49" name="_ftn49">[49]</a> Id., p. 10, 16.</p>
<p><a href="#_ftnref50" name="_ftn50">[50]</a> RAGHAVAN, 1990, p. 119-120.</p>
<p><a href="#_ftnref51" name="_ftn51">[51]</a> PENG, 1990, p. 28.</p>
<p><a href="#_ftnref52" name="_ftn52">[52]</a> RAGHAVAN, 1990, p. 39-40.</p>
<p><a href="#_ftnref53" name="_ftn53">[53]</a> Id., p. 120, 138.</p>
<p><a href="#_ftnref54" name="_ftn54">[54]</a> Id., p 29-30.</p>
<p><a href="#_ftnref55" name="_ftn55">[55]</a> Id., p. 96.</p>
<p><a href="#_ftnref56" name="_ftn56">[56]</a> CHOMSKY, 1994.</p>
<p><a href="#_ftnref57" name="_ftn57">[57]</a> CHOMSKY, 1996, p. 40</p>
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<p><a href="#_ftnref60" name="_ftn60">[60]</a> MILLS, 2000, p. 101.</p>
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<p><a href="#_ftnref65" name="_ftn65">[65]</a> Id., p. 278-279.</p>
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<p>&nbsp;</p>
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 <p><a href="http://c4ss.org/?flattrss_redirect&amp;id=33058&amp;md5=b74864c94613f9cc404fc9c394dd17a8" title="Flattr" target="_blank"><img src="http://c4ss.org/wp-content/themes/center2013/images/flattr.png" alt="flattr this!"/></a></p>]]></content:encoded>
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		<title>A política está fora de moda — com razão</title>
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		<pubDate>Tue, 30 Sep 2014 00:00:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[David S. D'Amato]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[John Della Volpe, Diretor de Pesquisas Eleitorais do Instituto de Política da Universidade de Harvard, recentemente observou que &#8220;em vez de serem empoderados para permanecerem ativos na política (&#8230;) os eleitores mais jovens infelizmente se tornam mais desiludidos e desconfiados de todas as coisas advindas de Washington&#8221;. Volpe cita uma pesquisa do Instituto de Política...]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>John Della Volpe, Diretor de Pesquisas Eleitorais do Instituto de Política da Universidade de Harvard, <a href="http://www.cnn.com/2014/09/19/opinion/volpe-millennials-voting/">recentemente observou</a> que &#8220;em vez de serem empoderados para permanecerem ativos na política (&#8230;) os eleitores mais jovens infelizmente se tornam mais desiludidos e desconfiados de todas as coisas advindas de Washington&#8221;. Volpe cita uma pesquisa do Instituto de Política que mostra que a confiança dos jovens em &#8220;quase todas as instituições testadas&#8221; está em níveis absurdamente baixos, o que deveria nos surpreender e entristecer.</p>
<p>Para Volpe, a desconfiança dos jovens na presidência, no Congresso e no governo é um problema infeliz, algo a que os políticos devem prestar atenção, encontrando alguma maneira de nos inspirar de volta ao civismo.</p>
<p>Como um dos jovens da geração do milênio, contudo, eu gostaria de sugerir, presumindo que a pesquisa de Volpe seja de fato representativa, que nosso cinismo em relação à política — nossa desconfiança e desgosto por políticos e pelo governo federal — é uma resposta natural e saudável ao meio em que vivemos.</p>
<p>Gente como Volpe, evangelizadores devotos do culto da política, não conseguem acreditar que possamos nos preocupar com o bem estar de nossas comunidades sem nos preocupar com a eleição de um candidato de direita ou esquerda para um cargo no governo. São pessoas que não aceitam que alguns veem a política como aquilo que ela é: o idioma da força coercitiva e o meio pelo qual algumas pessoas dominam as outras. Ao contrário do que afirmam as garantias de John Della Volpe e aqueles que acreditam no sistema, a política não é uma forma boa ou mesmo legítima de confrontar os &#8220;desafios fundamentais de nosso tempo&#8221;.</p>
<p>A política é simplesmente um grupo que impõe suas regras e preferências sobre outro através do uso da força física. Ela pode parecer mais ou menos democrática, mais ou menos liberal, mas sempre é apenas uma fachada que esconde a conquista e o uso da força.</p>
<p>Deve ser difícil ser um não-anarquista sincero, porque essas pessoas devem se guiar pelos seus impulsos e caprichos ao se depararem com qualquer questão, utilizando respostas e distinções arbitrárias. Ao invés de empregar o princípio da soberania individual, devem sempre recorrer à conveniência. Quando a conveniência não basta, o que sobra são seus sentimentos e onde eles os levarem.</p>
<p>Esse parece um meio indesejável de análise (se é que podemos chamar de análise) das questões sociais, particularmente para os vizinhos dos não-anarquistas, a quem esses padrões inconstantes e não-científicos devem ser aplicados. Ainda assim, os anarquistas não fingem que todas as questões sociais podem ser resolvidas por recurso mágico à soberania do indivíduo, mas apenas que ele deva ser nosso norte e ponto de partida.</p>
<p>Ao estabelecermos nossos princípios anarquistas, permanecem sem dúvida inúmeras questões, ao redor das quais os anarquistas assumem diversas posições. Por exemplo, o que <em>é</em> a autoridade ou a agressão? A propriedade privada é uma manifestação da liberdade da autoridade ou uma instância da autoridade? Os anarquistas apresentam respostas variadas a estas e outras questões.</p>
<p>Mas nossas respostas diferem daquelas dos estatistas porque, mesmo ao discordarmos, buscamos chegar a um objetivo — a maximização da liberdade para cada indivíduo, social e economicamente. O estatismo, em contraste, significa controle, dominação, agressão e exploração, mesmo em suas formas mais brandas e liberais.</p>
<p>Se a geração do milênio realmente rejeita o processo político, devemos encarar esse fato com a atitude oposta à de John Della Volpe. Ao invés de olharmos para nossos governantes e para os pesos mortos que escrevem leis para interesses escusos, nós devemos olhar uns para os outros. Quando trabalhamos, cooperamos e fazemos comércio, fora das regras do establishment, estamos agindo da maneira mais cívica possível.</p>
<p>A aversão aparente da minha geração pela política não é apatia, mas uma repulsa ativa e motivada. Estou feliz em rejeitar a política e as pesquisas e estimulo meus colegas a me acompanharem na criação de algo novo e melhor fora desse velho e frágil sistema.</p>
<p><em>Traduzido por <a href="http://c4ss.org/content/author/erick-vasconcelos">Erick Vasconcelos</a>.</em></p>
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		<title>A posse da liberdade: A economia política de Benjamin R. Tucker</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Sep 2014 01:16:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[David S. D'Amato]]></dc:creator>
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				<content:encoded><![CDATA[<p>A economia política de Benjamin Tucker representa uma condensação de suas maiores influências, sintetizando o trabalho de pensadores radicais como Josiah Warren, William B. Greene, Ezra Heywood e Lysander Spooner para chegar a um anarquismo maduro e completo. De Heywood, Tucker extraiu sua análise dos males da renda (rent), dos juros e dos lucros, &#8220;seguindo os dizerem que Ezra Heywood gravou em sua escrivaninha em letras garrafais: &#8216;juros são roubo, rendas são saques e os lucros são apenas outro nome para pilhagem'&#8221;.<strong>[1]</strong> Josiah Warren deu a Tucker a convicção na soberania individual, uma hostilidade em relação a toda tentativa de &#8220;reduzir o indivíduo a uma mera peça dentro de uma engrenagem&#8221; e à tentativa de chegar a reformas através de &#8220;combinações&#8221; coercitivas. Para a reforma de livre mercado do sistema monetário e bancário, Tucker aprendeu com William B. Greene, cujo trabalho articulava um esquema bancário baseado na emissão livre e aberta de meios circulantes. Foi Greene que, em 1873, introduziu ao jovem Benjamin Tucker o trabalho de Pierre-Joseph Proudhon, conhecido pessoal de greene e o primeiro a chamar a si mesmo de anarquista.<strong>[2]</strong> Greene ainda estimulou Tucker a empreender a primeira tradução para o inglês da obra <em>O que é a propriedade?</em> de Proudhon, um trabalho publicado pela Co-operative Publishing Company de Ezra Heywood. Em Tucker, todas essas influências se uniram e formaram um só movimento encabeçado por seu jornal <em>Liberty</em>.</p>
<p>É interessante notar que a carreira de Tucker na política radical continuava enquanto ele trabalhava para publicações mais convencionais. Em 1943, num artigo para o <em>The New England Quarterly</em>, Charles A. Madison observava &#8220;o respeito mútuo entre Tucker e seus empregadores&#8221; no <em>Daily Globe</em>, apesar da defesa determinada de Tucker do anarquismo em uma época que testemunhava campanha de &#8220;intensidade histérica&#8221; contra esse pensamento. É inegavelmente difícil imaginar um jornal de qualquer tamanho ou reputação que abrigasse alguém abertamente anarquista hoje em dia no seu corpo editorial. Apesar das pretensões atuais de abertura e liberalidade, é quase certo que a elite intelectual e literária atualmente impede críticas e questionamentos a suas ortodoxias preferidas e às políticas do status quo muito mais do os letrados da segunda metade do século 19. Tucker foi respeitado por seus colegas do <em>Globe</em> por não menos que onze anos, até mesmo quando ele passou a se envolver ainda mais no ativismo radical, desde sua ajuda a Ezra Heywood com a publicação de The Word até a edição de seu próprio Radical Review. Mais tarde, após começar a publicação do Liberty, Tucker trabalhou como editor para a Engineering Magazine em Nova York, &#8220;se recusando a escrever artigos que pudessem comprometer seus princípios anarquistas&#8221;.<strong>[3]</strong></p>
<p>Na primeira edição de <em>Liberty</em> em 1881, Tucker anunciava a <em>raison d&#8217;être</em> do jornal e suas visões políticas e econômicas ao escrever que &#8220;o monopólio e os privilegiados devem ser destruídos, as oportunidades devem ser fornecidas e a competição estimulada&#8221;. Ainda assim, como Proudhon, de quem Tucker tirou tantas ideias sobre a moeda e a reforma bancária, Tucker defendia que os vários arranjos econômicos a que se opunha deveriam &#8220;permanecer livres e voluntários para todos&#8221;. Com os portões da competição abertos para todos e as &#8220;forças perturbadoras&#8221;<strong>[4]</strong> dos privilegiados abolidas, essas formas de exploração se tornariam, de acordo com ele, praticamente impossíveis: &#8220;Se o poder de usura fosse estendido a todos os homens&#8221;, como Tucker alegava que deveria, &#8220;a usura devoraria a si própria, por sua natureza&#8221;. O papel do estado, assim, era o de isolar os poucos detentores privilegiados do capital, que vivem &#8220;luxuosamente com o suor do trabalho de seus escravos artificiais&#8221;, dos efeitos salutares da competição.</p>
<p>A coerência de Tucker e sua habilidade em expor os absurdos dos poderes político e econômico têm muito a ensinar ao movimento libertário atual. Se estivesse vivo hoje em dia, Tucker veria privilégios, subsídios corporativos e interferências à liberdade em todo lugar. Os relacionamentos econômicos atuais não são mais naturais ou inevitáveis que as condições da velha escravidão, embora seus apologistas insistam que sua própria existência seja prova de sua justeza. Tucker era um economista político visionário porque imaginava que as coisas podiam ser diferentes, denunciando as explicações improvisadas dos economistas liberais e desafiando-os a levar suas ideias liberais — que cresciam em popularidade — a seus limites lógicos. &#8220;O anarquismo genuíno é consistente com o manchesterismo&#8221;, dizia ele em uma citação famosa. Para Tucker, a política e a economia eram inseparáveis, as questões de uma necessariamente tinham implicações sobre a outra; ele considerava o capitalismo um sistema de exploração criado pelo estado — ou seja, pela agressão ou pela força contra o indivíduo soberano. As ideias políticas trabalhistas de Tucker, porém, eram ainda distintas — e talvez diferentes das ideias atuais do movimento trabalhador radical — porque rejeitavam os capitalistas sem advogar a propriedade ou organização coletiva do capital, identificavam a exploração sem condenar a competição e defendiam os trabalhadores sem necessariamente denunciar os trustes (ou &#8220;combinações industriais&#8221;), tendo uma relação tépida com os sindicatos.</p>
<p>Tucker argumentava que os esforços para obstruir ou proibir qualquer tipo de combinação ou associação voluntária eram tentativas autoritárias de exercer controle, intoleráveis ao anarquismo, não importando suas boas intenções. Ele não via nada de essencial ou necessariamente errado com a venda do trabalho em troca de um salário — chegando ao ponto de alegar que o anarquismo socialista não &#8220;pretendia abolir salários, mas garantir para todo assalariado seu salário integral&#8221;. O socialismo de Tucker era diretamente baseado na noção de que o trabalho deveria ser pago com seu produto completo; o fato de que o trabalho não era pago era, efetivamente, todo o problema. A propriedade governamental dos meios de produção defendida pelo socialismo de estado não era uma forma de atingir esse objetivo, mas era simplesmente uma nova forma de escravização parecida com a antiga. Em última análise, o estado seria sempre uma instituição composta pela classe dominante e a serviço dessa classe.</p>
<p>A economia de Tucker, além disso, rejeitava distinções fáceis e superficiais, como, por exemplo, a diferenciação arbitrária e não-sistemática entre o capital e o produto<strong>[5]</strong> e, como observado acima, entre política e economia. Qualquer consideração integral do &#8220;problema industrial&#8221; não poderia depender simplesmente de uma análise das leis das trocas, como se essas leis operassem em um vácuo, independentemente das realidades legais e políticas. Como uma das maiores influências de Tucker escreveu, a &#8220;economia política, até hoje, tem sido pouco mais que uma série de engenhosas tentativas de reconciliar as prerrogativas de classe e o arbitrário controle capitalista com os princípios das trocas&#8221;. O erro central da economia política burguesa na época de Tucker é idêntico ao erro principal do libertarianismo atual — sua ignorância crítica da existência de inúmeras e constantes violações dos princípios de livre mercado que são expostos. Tanto na época quanto atualmente, os economistas de livre mercado afirmam que que as questões políticas e econômicas devem ser tratadas em conjunto e que os direitos econômicos são direitos políticos para, logo em seguida, mudarem de ideia e passarem a discutir as condições econômicas e os relacionamentos atuais como se fosse consequências legítimas de trocas e formas de propriedade de mercado.</p>
<p>A precisão analítica de Benjamin Tucker não era sujeita tão facilmente a confusões a ponto de permitir que ele fosse ludibriado pelos defensores do capitalismo e pensasse que os relacionamentos de livre mercado seriam similares aos relacionamentos dentro do capitalismo. Tucker não acreditava que a sujeição acachapante dos muitos pobres aos poucos abastados proprietários havia surgido a partir de um <em>laissez faire</em> verdadeiramente livre. Como observa &#8220;An Anarchist FAQ&#8221;, &#8220;embora uma anarquia individualista fosse ser um sistema de mercado, não seria um sistema capitalista&#8221;. Tucker nunca recuou de sua defesa da competição ou viu necessidade de diluí-la. Ele também nunca admitiu que a exploração era possível sem agressão ou invasão, ou aceitou que o comércio equitativo e a justiça para o trabalhador só poderiam ser alcançados através de reformas legislativas. Sua total ausência de fé em qualquer reforma legal ou governamental às vezes criava um abismo entre as ideias de seu jornal <em>Liberty</em> e o resto do movimento trabalhador, embora ele sempre reconhecesse que o anarquismo e o socialismo fossem &#8220;exércitos que se sobrepõem&#8221;. De fato, Tucker oferecia o que eu ainda considero a melhor definição do socialismo — ou talvez como a melhor versão do socialismo —, &#8220;a crença de que o próximo passo mais importante para o progresso é uma mudança no ambiente do homem de forma que sejam abolidos todos os privilégios que os detentores da riqueza possuem, retirando assim seu poder antissocial para compelir o pagamento de tributos&#8221;. Tucker, portanto, não presumia posições necessárias contra alvos populares do movimento trabalhador como o trabalho assalariado ou mesmo os grandes trustes. Alegava que, contanto que o princípio anarquista da igual liberdade fosse sempre observado, &#8220;não faria diferença se os homens trabalhassem para si mesmo, se fossem empregados ou empregassem os outros&#8221;. A riqueza sem o trabalho — ou seja, a renda, os juros e os lucros — eram os fenômenos econômicos a que os anarquistas deveriam se opor e eles, segundo Tucker, dependiam sempre da agressão.</p>
<p>É um tanto irônico que as escolas de livre mercado que mais alto trombeteiam o individualismo metodológico e sejam as mais céticas ao empirismo desprezem até mesmo a menor das possibilidades de que a completa liberdade de trocas e comércio não leve a um ambiente que seja reconhecível como capitalista. Dado que a economia existente está muito longe de um mercado verdadeiramente livre, nós devemos nos perguntar o que os deixa tão certos de que os anarquistas individualistas como Tucker eram apenas néscios economicamente ignorantes. Não precisamos depender de qualquer teoria do valor-trabalho para concluir com segurança que as desigualdades e concentrações de riqueza dependem principalmente dos privilégios legais a que os portadores do estandarte do <em>laissez faire</em> afirmam se opor. Os anarquistas individualistas, além disso, entendiam a importância teórica da utilidade marginal muito bem, <a href="http://www.libertarianism.org/columns/libertarian-socialism">como já observei em outra ocasião</a>. Ao contrário da caricatura de sua visão, a teoria do valor-trabalho que articulavam era perfeitamente reconciliável com a teoria subjetiva do valor e pretendia explicar algo diferente e mais abrangente do que a simples proposição de que tudo vale apenas o que alguém está disposto a pagar — o que, evidentemente, é impossível refutar. A crítica importante e substantiva contida na economia política de Tucker é descartada com frequência por depender de uma falácia econômica já desacreditada, sem considerar seus muitos argumentos e implicações. A coerência de princípios era uma das preocupações principais de Benjamin Tucker e do jornal<em> Liberty </em>e é algo que recai sobre os individualistas de esquerda e membros do C4SS hoje em dia. Tucker sugeria que a &#8220;anarquia pode ser definida como a posse da liberdade por libertários — isto é, por aqueles que conhecem o significado da liberdade&#8221;. Essa questão, o significado da liberdade, é o que nós, enquanto anarquistas, tentamos responder. Para muitos, a vida e o trabalho de Benjamin Tucker têm sido o norte dessa jornada, uma referência e inspiração perene.</p>
<p><strong>Notas:</strong></p>
<p><strong>[1]</strong> Martin Blatt, “Ezra Heywood &amp; Benjamin Tucker.”</p>
<p><strong>[2]</strong> Em uma edição de 1887 de <em>Liberty</em>, Tucker escreveu &#8220;[Graças] ao coronel Greene, leio a discussão de Proudhon com [Frédéric] Bastiat sobre a questão dos juros e seu famoso <em>O que é a propriedade?</em> e grande foi minha surpresa ao encontrar dentro desses trabalhos, mas apresentados em termos muito diferentes, ideias idênticas às que eu já havia aprendido com Josiah Warren e que, desenvolvidas independentemente por esses dois homens, serão tão fundamentais em mudanças sociais futuras quanto foi a lei da gravidade em todas as revoluções das ciências físicas que se seguiram à sua descoberta — refiro-me, naturalmente, às ideias de liberdade e equidade.&#8221;</p>
<p><strong>[3]</strong> Wendy McElroy, “Benjamin Tucker, Liberty, and Individualist Anarchism.” Nota de rodapé 6.</p>
<p><strong>[4] </strong>John Beverley Robinson, <em>Economics of Liberty</em>.</p>
<p><strong>[5] </strong>&#8220;Proudhon ridicularizava a distinção entre o capital e o produto. Mantinha que capital e produção não diferentes tipos de riqueza, mas apenas condições alternativas ou funções da mesma riqueza; que toda a riqueza passa por transformações incessantes de capital a produto e de produto de volta a capital, em um processo interminável; que o capital e produto são termos puramente sociais; que o que é produto para um homem imediatamente se torna capital para outro, e vice versa; se existisse apenas uma pessoa no mundo, toda a riqueza, para ele, seria ao mesmo tempo capital e produto (&#8230;)&#8221; — Benjamin R. Tucker.</p>
 <p><a href="http://c4ss.org/?flattrss_redirect&amp;id=31630&amp;md5=0980214f587de2183ed1358d94d85e8d" title="Flattr" target="_blank"><img src="http://c4ss.org/wp-content/themes/center2013/images/flattr.png" alt="flattr this!"/></a></p>]]></content:encoded>
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		<title>El anarquismo individualista y la jerarquía</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Sep 2014 21:00:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Alan Furth ES]]></dc:creator>
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				<content:encoded><![CDATA[<p>El anarquismo y la jerarquía tienen una relación compleja. Algunos anarquistas proclaman estar en contra de toda jerarquía (a veces incluso definen el anarquismo en base a esa proclamación) y otros declaran que simplemente se oponen al Estado y no se preocupan por la jerarquía en sí misma. Creo que el anarquismo individualista bien entendido se ubica en algún lugar entre estos dos extremos.</p>
<p>El anarquismo individualista, en definitiva, es la idea de que el ser humano individual es la unidad fundamental que conforma a la &#8220;sociedad&#8221;. Por lo tanto, cualquier sistema político, o más exactamente, cualquier no-sistema apolítico que esté en vigencia, debe dar primacía al individuo y respetar su soberanía como ser libre. El no-sistema que logra este objetivo de manera óptima es el anarquismo.</p>
<p>La jerarquía es &#8220;un sistema u organización en el que las personas o grupos se clasifican como uno más importante que el otro en función del estatus o la autoridad&#8221;. En algunos casos, este tipo de sistema es intrínsecamente malo (o malo en sí mismo); en otros es permisible e incluso bueno, y en otros es objetable, pero no intrínsecamente malo.</p>
<p>La jerarquía es obviamente problemática e incluso inmoral cuando se mantiene a través de la iniciación de la fuerza. Como individualistas, apoyamos la soberanía del individuo y consideramos que la autonomía personal es de extrema relevancia moral. La capacidad de ejercer las facultades y habilidades de cada quien, de acuerdo a su propia voluntad, es el derecho fundamental de cada individuo (y dado que cada persona tiene este derecho, este implica una limitación sobre la voluntad de impedir violentamente las acciones de otros).</p>
<p>El acto de subordinar las metas de los otros por la fuerza y sustituirlas por las propias es una afrenta a la individualidad de ambas personas y una violación de los derechos. Sí, el acto de agresión es inmoral en sí mismo. Pero un sistema de jerarquía mantenido en base a la agresión somete a ciertos individuos a la autoridad de otros; cuando uno no es más que un siervo, obediente a los niveles más altos de la jerarquía, no hay individualidad, y eso es algo con lo que estamos evidentemente en desacuerdo.</p>
<p>Esto lleva al individualista a rechazar el uso de la violencia, y por lo tanto, al Estado. El Estado, al contrario de lo que postulan los teóricos del contrato social, se apoya en la violencia para mantener su financiación y su monopolio del uso legítimo de la fuerza dentro de una región. Los Estados son sistemas jerárquicos conformados por depredadores agresivos. Son la antítesis del individualismo.</p>
<p>Para muchos anarquistas la propiedad privada es inherentemente jerárquica, y por lo tanto inadmisible. Y tienen razón solo en parte: en cierto sentido la propiedad privada crea una jerarquía entre el dueño de un bien y todos los demás. Sin embargo, la propiedad privada tiene otras ventajas que son dignas de consideración. No hay razón para reducir nuestro análisis a una cuestión de jerarquía o no jerarquía. Hay otros factores moralmente relevantes.</p>
<p>La propiedad privada es útil por una serie de razones, sobre todo por razones consecuencialistas. Un sistema de propiedad privada crea una sociedad próspera y rica que puede asignar eficientemente los recursos escasos. Adicionalmente, y de gran importancia para el individualista, la propiedad privada es vital para la autonomía personal. Tal como lo <a href="http://www.freenation.org/a/f53l1.html#04">plantea</a> Roderick Long,</p>
<blockquote><p>La necesidad humana de la autonomía: la capacidad de controlar la propia vida sin la interferencia de otros. Sin propiedad privada, no tengo ningún punto de apoyo verdaderamente mío; no tengo ninguna esfera protegida dentro de la cual pueda tomar decisiones sin obstáculos impuestos por la voluntad de otros. Si la autonomía (en este sentido) es valiosa, entonces necesitamos la propiedad privada para su realización y su protección.</p></blockquote>
<p>Sin propiedad privada, el alcance del individuo se ve restringido a favor de la comunidad o la sociedad. Como individualistas deberíamos promover la maximización de la autonomía de cada persona, y la propiedad privada es beneficiosa en ese sentido.</p>
<p>Por otra parte, la sustitución de la propiedad privada con la propiedad colectiva no elimina la existencia de jerarquía. Simplemente pone en el nivel más alto de la jerarquía a la mayoría del colectivo en lugar del propietario individual. Bajo la propiedad colectiva, cualquiera que en ese momento conforme la mayoría tiene la potestad de decidir sobre el uso que se le da a la propiedad, y quedan, por lo tanto, en un lugar de autoridad sobre la minoría.</p>
<p>Digno de mención es la cuestión de la crianza de los hijos o la familia. La relación padre-hijo es históricamente jerárquica. Sin embargo, sin entrar mucho en el complicado ámbito de los derechos del niño, la autoridad empleada apropiadamente por los padres en la crianza de sus hijos no se basa en la fuerza en el mismo sentido en que se utiliza la fuerza en contra de un adulto (la cuestión de dónde debe trazarse esa línea es otra cuestión bastante complicada). Si bien hay casos de uso de la fuerza que son injustos, como en el caso del abuso, hay otros casos del uso de la fuerza que son justos, tales como obligar a un niño a que coma su cena. Y puesto que la jerarquía padres-hijos es aparentemente beneficiosa para los individuos involucrados, no hay nada en ella que moleste al anarquista individualista. (Para más información sobre la perspectiva anarquista individualista sobre los derechos de los niños, ver la sección de este ensayo titulada &#8220;<a href="http://www.freenation.org/a/f43l2.html">Los Derechos de los Niños</a>&#8220;)</p>
<p>¿Y qué puede decirse de los sistemas de jerarquía no violenta? Muchos de los casos en este sentido dependerán de los detalles de la situación y el contexto específico. Pero en general podemos decir que la jerarquía, incluso la jerarquía &#8220;consensual&#8221;, siempre es <em>potencialmente</em> problemática para el individualista. Puesto que consideramos que la autonomía y el ejercicio de las facultades propias son sumamente importantes, las situaciones en las que las personas se someten voluntariamente a la autoridad completa de otros, creando una jerarquía, pueden muy bien ser objetables.</p>
<p>Considérese la posibilidad de una pequeña ciudad en la que todos los ciudadanos, por una razón u otra, someten voluntariamente toda la propiedad individual a la propiedad colectiva. Por las razones expuestas acerca de los efectos de la propiedad privada sobre los incentivos y la autonomía de las personas, podemos decir que una ciudad basada en la propiedad privada es preferible a una ciudad basada en la propiedad colectiva. Por lo tanto, como individualistas que valoran la prosperidad y la autonomía, tenemos buenas razones para objetar la creación de una ciudad basada en el comunismo voluntario, incluso si esto se limita simplemente a expresar nuestra opinión de que los ciudadanos están tomando una decisión desacertada y en su lugar deberían adoptar un sistema de propiedad privada.</p>
<p>Por las razones mencionadas anteriormente, la iniciación de la fuerza es inadmisible par el individualista. Después de todo, el uso de la fuerza implicaría someter a la gente de la ciudad a nuestra voluntad, lo cual es activamente inmoral y peor que sus decisiones voluntarias. Así que sería un error usar la fuerza para evitar que la gente de la ciudad adoptase el comunismo voluntario.</p>
<p>Sin embargo, usar herramientas como la persuasión, las campañas educativas o los boicots es aceptable y hasta recomendable (el que estas medidas sean eficaces y valgan la pena es otro tema). Reconocemos que el comunismo voluntario es un mal sistema para la gente que vive en él (y también potencialmente malo para otros por razones económicas, o si las ideas comienzan a extenderse y ganar apoyo), y someterse a los caprichos de la mayoría es un error, por lo que no tendría sentido ser ambivalentes al respecto.</p>
<p>También está el tema de las formas comunales de propiedad horizontalmente organizadas y autogestionadas. Éstas no son exactamente las mismas que las que prevalecerían bajo un régimen de propiedad colectiva. Los recursos comunes donde los derechos posesorios privados del individuo están estrictamente definidos, son mucho más propensos a proteger y fomentar la autonomía personal y el individualismo que el colectivismo pleno, a pesar de que puedan ser problemáticos dependiendo de cómo se organizan exactamente los recursos comunes.</p>
<p>Puede que la cuestión de la jerarquía en el lugar de trabajo sea objetable, pero no necesariamente. Los grandes centros de trabajo jerárquicos que tienden a tratar a los trabajadores como engranajes de una máquina o como herramientas de los empleadores claramente no están en línea con la filosofía individualista. Un lugar de trabajo donde se ningunea y se falta el respeto a los empleados de menor jerarquía deben ser objetados (de manera no agresiva) por cualquier persona a la que le importen la autonomía y el respeto a las personas.</p>
<p>Ahora bien, esto no implica que toda jerarquía en el lugar de trabajo sea mala en absolutamente todos los casos. A veces será preferible por razones económicas. A veces la jerarquía es mínima, se respeta a los empleados y se toma en cuenta su opinión. A veces, a pesar de ser jerárquica, la empresa es relativamente plana. Si bien muchas de las grandes corporaciones hoy en día rechazan los compromisos individualistas, no todos los lugares de trabajo jerárquicos son intrínsecamente malos. Simplemente tienen el potencial de ser malos.</p>
<p>Preguntar simplemente si algo es jerárquico y dar por terminado nuestro análisis moral es un error. Del mismo modo, preguntar simplemente si algo es coercitivo y dar por terminado nuestro análisis moral es un error. El individualismo considera muchos elementos como moralmente relevantes. Es cierto que la agresión y la libertad negativa son importantes. Pero también lo es la autonomía personal. Y también lo son la prosperidad y las consecuencias sociales beneficiosas. Tanto la economía política como la filosofía moral requieren del pluralismo de valores y del análisis meticuloso.</p>
<p>La lección que debemos aprender sobre la jerarquía no violenta es que, como casi todo en la vida, no es intrínsecamente mala, pero tiene el potencial de ser mala. Los sistemas de jerarquía voluntaria promueven una cultura de obediencia y colectivismo, y posiblemente podrían conducir a sistemas que se basan en la violencia. Éstos desalientan la individualidad, el libre pensamiento y la autonomía. Por estas razones, la jerarquía no violenta nunca es intrínsecamente mala para el anarquista individualista, pero siempre es potencialmente problemática y a menudo desagradable.</p>
<p>La posición del anarquista individualista respecto a la jerarquía se ubica en algún lugar entre el &#8220;siempre es malo&#8221; y el &#8220;nunca es malo&#8221;. A veces lo es. Pero otras veces no. Como he dicho anteriormente, la relación entre el anarquismo y la jerarquía es compleja y complicada. Parte de ser un individualista, un ser humano, es pensar las cosas por nosotros mismos, con rigor y exhaustivamente. No siempre hay principios claros y tajantes que nos exoneren de pensar por nosotros mismos, independientemente de qué tan cómodo sea el sillón desde el que pensemos.</p>
<p>Artículo original publicado <a href="http://c4ss.org/content/30804">por Cory Massimino el 30 de agosto de 2014</a>.</p>
<p>Traducido del inglés por <a href="http://es.alanfurth.com">Alan Furth</a>.</p>
 <p><a href="http://c4ss.org/?flattrss_redirect&amp;id=31419&amp;md5=5268b1a7ac242aab2f8311fac1f67b39" title="Flattr" target="_blank"><img src="http://c4ss.org/wp-content/themes/center2013/images/flattr.png" alt="flattr this!"/></a></p>]]></content:encoded>
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		<title>Por que sou anarquista</title>
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		<pubDate>Mon, 08 Sep 2014 00:00:46 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Erick Vasconcelos]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[Por que sou anarquista? Essa é a pergunta que o editor do semanário The Twentieth Century pediu que eu respondesse a seus leitores. Consinto; porém, para ser franco, considero-a uma árdua tarefa. Se o editor ou um de seus contribuintes tivesse apenas sugerido um motivo por que eu devesse ser algo que não um anarquista,...]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Por que sou anarquista? Essa é a pergunta que o editor do semanário <em>The Twentieth Century</em> pediu que eu respondesse a seus leitores. Consinto; porém, para ser franco, considero-a uma árdua tarefa. Se o editor ou um de seus contribuintes tivesse apenas sugerido um motivo por que eu devesse ser algo que não um anarquista, estou certo de que não teria dificuldades em discutir tal argumento. E não seria esse mesmo fato, afinal, o melhor dos motivos por que eu deveria ser um anarquista — a saber, a impossibilidade de descobrir qualquer motivo para considerar outra denominação? Mostrar a invalidade dos argumentos do socialismo de estado, do nacionalismo, do comunismo, do imposto único, do capitalismo vigente e de inúmeras outras formas de arquismo existentes ou propostas é, ao mesmo tempo, demonstrar a validade dos argumentos do anarquismo. Ao negarmos o arquismo, podemos afirmar o anarquismo. É uma questão lógica.</p>
<p>Evidentemente, a presente demanda não é atendida de maneira satisfatória assim. O erro e a puerilidade do socialismo de estado e de todos os despotismos a que ele é aparentado já foram repetida e efetivamente mostrados de várias maneiras e em vários locais. Não há motivos pelos quais eu devesse atravessar esse terreno novamente com os leitores de <em>Twentieth Century</em>, embora sejam todas provas suficientes para o anarquismo. Algo positivo é exigido, suponho eu.</p>
<p>Pois não, para começar com a maior generalização possível, sou anarquista por que o anarquismo e a filosofia do anarquismo são conducentes à minha felicidade. &#8220;Ah, fosse esse o caso, é claro que deveríamos todos ser anarquistas&#8221;, dirão os arquistas em uníssono — ao menos aqueles que estejam emancipados de superstições religiosas e éticas —, &#8220;mas você não nos respondeu, pois negamos que o anarquismo nos seja conducente à felicidade&#8221;.</p>
<p>De fato, meus amigos? Porque não acredito quando o dizem; ou, para ser mais cortês, eu não acredito que possam afirmar tal coisa ao conhecer verdadeiramente o anarquismo.</p>
<p>Pois quais são as condições da felicidade? Da perfeita felicidade, muitas. Mas as primeiras e principais condições são poucas e simples. Não são senão a liberdade e a prosperidade material? Não é essencial para a felicidade de cada ser desenvolvido que ele e aqueles que o circundam sejam livres e que estejam tranquilos em relação à satisfação de suas necessidades materiais? Parece inútil negar tais fatos e, no caso da existência da negação, seria inútil argumentar. Nenhuma evidência de que a felicidade humana tenha aumentado juntamente à liberdade humana convenceria um homem incapaz de apreciar o valor da liberdade sem o reforço pela indução. E para todos que não sejam tal indivíduo, é autoevidente que das duas condições citadas — liberdade e riqueza — a primeira tem precedência como promotora da felicidade. Cada um dos fatores isoladamente seria capaz apenas de produzir uma imitação pobre da felicidade se não acompanhado do outro; porém, no balanço geral, muita liberdade e pouca riqueza seria uma situação preferível à muita riqueza e pouca liberdade. A acusação dos socialistas arquistas de que os anarquistas sejam burgueses é verdade somente até este ponto — seu horror à sociedade burguesa pode ser grande, mas seu amor à liberdade parcial vigente é maior do que a escravidão completa do socialismo de estado. De minha parte, consigo observar com maior prazer — ou melhor, menor dor — as atuais ebulientes lutas, nas quais alguns se libertam e outros não, alguns caem outros ascendem, alguns são ricos e muitos são pobres, mas nenhum está completamente acorrentado ou desesperançoso de um futuro melhor, do que consigo vislumbrar o ideal do sr. Thaddeus Wakkeman* de uma comunidade uniforme e miserável formada por um rebanho plácido e servil.</p>
<p>Portanto, repito, eu não acredito que muitos dos arquistas possam ser persuadidos a dizer que a liberdade não seja a condição primária da felicidade e, nesse caso, eles não poderão negar que o anarquismo, que não é senão outro nome para a liberdade, é conducente à felicidade. Sendo isso verdadeiro, eu não me furtei à questão e já estabeleci meu argumento. Nada mais é necessário para justificar meu credo anarquista. Mesmo que alguma forma de arquismo pudesse ser imaginada a ponto de criar infinita riqueza e distribuí-la com perfeita igualdade (perdoe a absurda hipótese de distribuição do infinito), o fato primordial de que esse sistema seria uma negação da condição inicial da felicidade nos obrigaria a rejeitá-lo e a aceitar sua alternativa: o anarquismo.</p>
<p>Embora isso seja o bastante, não é tudo. É suficiente justificativa, mas não suficiente inspiração. A felicidade possível em qualquer sociedade que não aperfeiçoe a distribuição de riqueza presente não pode ser descrita como beatífica. Nenhuma perspectiva pode ser suficientemente atraente se não prometer ambos os requisitos da felicidade — a liberdade e a riqueza. O anarquismo promete ambos. De fato, promete o primeiro como resultado do segundo.</p>
<p>Isso nos leva à esfera da economia? A liberdade produzirá abundância e distribuirá a riqueza de forma equitativa? Essa é a questão remanescente a se considerar. E certamente não pode ser tratada em apenas um artigo para <em>Twentieth Century</em>. Algumas generalizações são permissíveis, no máximo.</p>
<p>O que causa a distribuição desigual de riquezas? &#8220;A competição&#8221;, afirmam os socialistas de estado. Se estiverem corretos, de fato, estamos em má situação, porque, nesse caso, jamais poderemos chegar à riqueza sem sacrificar a liberdade de que precisamos. Felizmente, eles não estão certos. Não é a competição, mas o monopólio que priva o trabalho de seu produto. Desconsiderados salários, heranças, presentes e jogos, todos os processos pelos quais os homens adquirem a riqueza repousam sobre monopólios, proibições e negações da liberdade. Os juros e os aluguéis de construções repousam sobre o monopólio bancário, a proibição da competição nas finanças, a negação da liberdade de emitir moeda; as rendas advém do monopólio das terras, da negação da liberdade de uso das terras vagas; os lucros além dos salários ocorrem por conta dos monopólios tarifários e das patentes, pela proibição e limitação da competição das indústrias e artes. Há somente uma exceção, comparativamente trivial; refiro-me à renda econômica em contraste à renda monopolística. Ela não se deve a qualquer negação da liberdade, mas se trata de uma das desigualdades naturais. Provavelmente sempre existirá, embora a completa liberdade deva mitigá-la; disso não tenho dúvidas. Porém, não espero que jamais chegue ao ponto da inexistência que o sr. M&#8217;Cready antecipa tão confiantemente. Na pior das hipóteses, contudo, será um problema menor, não mais digno de consideração e comparação do que a pequena disparidade que sempre existirá devido a desigualdades de habilidade.</p>
<p>Se, assim, todos esses métodos de extorsão do trabalho se devem a negações da liberdade, o remédio óbvio consiste em sua realização. Destrua o monopólio bancário e estabeleça a liberdade financeira e os juros cairão, por influência benéfica da competição. O capital será liberado, os negócios prosperarão, novos empreendimentos surgirão, o trabalho será demandado e gradualmente os salários subirão até o ponto de igualdade a seu produto. O mesmo vale para os outros monopólios. Acabe com as tarifas, destrua as patentes, derrube as grades e o trabalho rapidamente tomará posse do que é seu. E a humanidade viverá em liberdade e conforto.</p>
<p>É isso que quero ver e em que tanto gosto de pensar. Uma vez que o anarquismo realizará esse estado de coisas, sou um anarquista. Afirmá-lo não é prová-lo, disso eu sei. Porém, o anarquismo não pode ser refutado ela mera negação. Ainda aguardo alguém que me mostre por história, fatos ou lógica que os homens têm desejos sociais superiores à liberdade e à riqueza e que o arquismo é capaz de garantir sua satisfação. Até lá, os fundamentos de meu credo político e econômico permanecerão como colocados neste breve artigo.</p>
<p>* Thaddeus Burr Wakeman (1834-1913) foi um conhecido positivista americano.</p>
<p><em>Traduzido por <a href="http://c4ss.org/content/author/erick-vasconcelos">Erick Vasconcelos</a>.</em></p>
 <p><a href="http://c4ss.org/?flattrss_redirect&amp;id=31349&amp;md5=66bd364b18aa58a79ba681ba8c26b1f8" title="Flattr" target="_blank"><img src="http://c4ss.org/wp-content/themes/center2013/images/flattr.png" alt="flattr this!"/></a></p>]]></content:encoded>
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		<title>O anarquismo individualista e a hierarquia</title>
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		<pubDate>Fri, 05 Sep 2014 00:45:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Cory Massimino]]></dc:creator>
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		<description><![CDATA[O anarquismo e a hierarquia têm um relacionamento complexo. Alguns anarquistas afirmam se opor a todo tipo de hierarquia (às vezes até definindo o anarquismo como tal) e outros afirmam que são apenas contrários ao estado e que não se importam com a hierarquia em si. Eu acredito que o anarquismo individualista caia entre os...]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>O anarquismo e a hierarquia têm um relacionamento complexo. Alguns anarquistas afirmam se opor a todo tipo de hierarquia (às vezes até definindo o anarquismo como tal) e outros afirmam que são apenas contrários ao estado e que não se importam com a hierarquia em si. Eu acredito que o anarquismo individualista caia entre os dois extremos.</p>
<p>O anarquismo individualismo, resumidamente, é a posição de que o indivíduo é a base da &#8220;sociedade&#8221;. Assim, em qualquer sistema político — ou, mais precisamente, qualquer não-sistema apolítico — que exista deve dar primazia ao indivíduo e respeitar sua soberania como ser livre. O não-sistema que melhor alcança esse objetivo é o anarquismo.</p>
<p>A hierarquia é &#8220;um sistema ou organização no qual pessoas ou grupos são ordenados acima uns dos outros de acordo com status ou autoridade&#8221;. Em alguns casos, esse tipo de sistema é inerentemente errado (ou mau); em outros, é permissível ou até mesmo bom; já em alguns, pode não ser inerentemente ruim, mas ainda é condenável.</p>
<p>A hierarquia é obviamente problemática e até imoral quando mantida através da iniciação da força. Como individualistas, defendemos a soberania do indivíduo e consideramos a autonomia de uma pessoa como fato moral extremamente relevante. A capacidade de exercer faculdades e capacidades próprias ao máximo de acordo com a própria volição é um direito individual de cada indivíduo (e já que toda pessoa tem esse direito, ele implica uma limitação para quando se impede as ações dos outros).</p>
<p>O ato de subordinar os objetivos dos outros pela força, substituindo-os pelos seus, é uma afronta à individualidade das duas pessoas e uma violação de seus direitos. O ato da agressão é imoral em si, mas um sistema hierárquico mantido pela agressão coloca certos indivíduos em sujeição a outros. Quando um é meramente um servo, obediente aos níveis mais altos da hierarquia, não há individualidade — algo a que obviamente nos opomos.</p>
<p>Isso leva o individualista a rejeitar o uso da violência e, portanto, o estado. O estado, ao contrário do que afirmam os teóricos do contrato social, depende da violência para manter seu financiamento e seu monopólio sobre o uso legítimo da força dentro de uma área geográfica. Os estados são sistemas de predadores agressivos e hierárquicos. São a antítese do individualismo.</p>
<p>Para muitos anarquistas, a propriedade privada é inerentemente hierárquica e, portanto, inadmissível. Estão apenas parcialmente corretos. Em certo sentido, a propriedade privada cria uma hierarquia entre o dono de uma propriedade e as demais pessoas. Contudo, a propriedade privada tem outros benefícios dignos de consideração. Não há motivos para restringirmos nossa análise à questão única da presença ou não da hierarquia. Há outros fatores moralmente relevantes.</p>
<p>A propriedade privada é útil por vários motivos, muitos deles com importantes consequências. Um sistema de propriedade privada cria uma sociedade próspera e rica que é capaz de alocar eficientemente recursos escassos. Adicionalmente, e de grande significância para o individualista, a propriedade privada é vital para a autonomia pessoa. Como escreve Roderick Long:</p>
<blockquote><p>&#8220;A necessidade humana de autonomia: a capacidade de controlar a própria vida sem a interferência dos outros. Sem a propriedade privada, eu não teria um local no qual me localizar para chamar de meu; eu não teria uma esfera de proteção na qual eu pudesse tomar decisões sem as limitações da vontade dos outros. Se a autonomia (nesse sentido) é valiosa, então precisamos da propriedade privada para sua realização e proteção.&#8221;</p></blockquote>
<p>Sem a propriedade privada, o escopo do indivíduo é restringido em favor da comunidade ou da sociedade. Enquanto individualistas, devemos nos preocupar com a maximização da autonomia de cada pessoa e, para isso, a propriedade privada é benéfica.</p>
<p>Além disso, a substituição da propriedade privada pela propriedade coletiva não elimina a existência da hierarquia, mas simplesmente desloca o nível mais alto da hierarquia do proprietário para a maioria coletiva. Sob a propriedade coletiva, aqueles que compõem a maioria podem decidir para que a propriedade deve ser usada e estão, portanto, em posição de autoridade em relação à minoria.</p>
<p>É digna de nota a questão dos pais e da família. O relacionamento entre pais e filhos é historicamente hierárquico. Contudo, sem entrar na esfera complicada dos direitos das crianças, a autoridade empregada pelos pais ao criar seus filhos não depende da força da mesma maneira que a força usada contra um adulto (em que ponto estabelecer esse limite é outra questão complexa). Embora existam exemplos do uso da força que sejam injustos, como o abuso físico, há outros que são justos, como forçar uma criança a comer seu jantar. Uma vez que a hierarquia entre pais e filhos aparentemente é benéfica para os envolvidos, os anarquistas individualistas não veem problemas com ela (para uma elaboração sobre a posição dos anarquistas individualistas sobre os direitos das crianças, veja a seção <a href="http://www.freenation.org/a/f43l2.html">deste ensaio</a> intitulada &#8220;The Rights of Children&#8221; — em inglês).</p>
<p>E quanto aos sistemas de hierarquia não-violenta? Muitos desses dependem da situação e do contexto específico, mas podemos dizer que, geralmente, a hierarquia, mesmo que &#8220;consensual&#8221;, é sempre <em>potencialmente</em> problemática para o individualista. Uma vez que consideramos a autonomia e o exercício das faculdades individuais como sumamente importantes, situações em que as pessoas se submetem voluntariamente à autoridade dos outros, criando uma hierarquia, podem ser condenáveis.</p>
<p>Considere o exemplo de uma pequena cidade em que todos, por um ou outro motivo, submetam voluntariamente suas propriedades à gerência coletiva. Pelos motivos explicados acima a respeito dos efeitos da propriedade privada sobre a autonomia, podemos dizer que uma cidade em que exista propriedade privada é preferível a uma em que haja propriedade coletiva. Então, como individualistas que valorizam a prosperidade e a autonomia, temos bons motivos para nos opor a uma cidade voluntariamente comunista — mesmo que seja apenas uma manifestação da vontade das pessoas, que estão tomando uma má decisão e deveriam adotar um sistema de propriedade privada.</p>
<p>Pelos motivos mencionados acima, a iniciação do uso da força é inadmissível para o individualista. Afinal, utilizar a força deveria ser o mesmo que sujeitar as pessoas à nossa vontade, o que é ativamente imoral e pior do que suas decisões voluntárias. Então, seria errado utilizar a força para impedir os habitantes da cidade de estabelecerem um sistema comunista voluntário.</p>
<p>No entanto, o uso de coisas como persuasão, campanhas educativas e boicotes é permissível e talvez estimulado (se são táticas efetivas e interessantes, é uma questão à parte). Reconhecemos que o comunismo voluntário é ruim para as pessoas envolvidas (e potencialmente ruim para outras, por motivos econômicos ou porque essas ideias podem começar a ganhar adesão e apoio) e que se sujeitar à vontade da maioria é um erro, então não faria sentido permanecer ambivalente sobre a questão.</p>
<p>Há também o conceito das propriedades comunais horizontalmente organizadas e autogeridas. São modelos diferentes da propriedade coletiva. Conjuntos de recursos comuns em que os direitos de posse do indivíduo são estritamente definidos têm uma probabilidade muito maior de proteger e estimular a autonomia pessoal e o individualismo do que o coletivismo total, apesar de serem possivelmente problemáticos, dependendo de como são estabelecidos.</p>
<p>A hierarquia no ambiente de trabalho é possivelmente condenável, mas não inerentemente. Ambientes de trabalho grandes e hierárquicos que tendem a tratar os trabalhadores como engrenagens em um motor ou ferramentas dos empregadores são claramente desalinhados com a filosofia individualista. Um ambiente de trabalho em que os trabalhadores dos degraus mais baixos são pressionados e tratados com pouco respeito devem ser condenados (de forma não agressiva) por aqueles que se preocupam com a autonomia e com o respeito pelas pessoas.</p>
<p>Isso não implica que toda hierarquia trabalhista seja má. Às vezes, ela pode ser preferível por motivos econômicos. Às vezes a hierarquia é mínima e os funcionários têm voz e são tratados com respeito. Ocasionalmente, a firma pode ser hierárquica, mas relativamente plana. Embora muitas das corporações gigantes de hoje em dia sejam contrárias às preocupações individualistas, nem todas as hierarquias do trabalho são inerentemente negativas. Há apenas o potencial para que sejam.</p>
<p>É um erro terminar a análise sobre o fato de que algo é ou não hierárquico. Da mesma forma, perguntar se algo é coercitivo e mais nada é problemático. O individualismo enxerga vários fatores como moralmente relevantes. A agressão e a liberdade negativa são importantes, sim, da mesma forma que a autonomia pessoal, a prosperidade e as boas consequências. Tanto a economia política quanto a filosofia moral requerem um pluralismo valorativo combinado com uma análise meticulosa.</p>
<p>A lição a ser aprendida sobre as hierarquias não-violentas é de que, como a maior parte das coisas na vida, ela não é inerentemente má, mas tem o potencial para sê-lo. Sistemas voluntários de hierarquia promovem uma cultura de obediência e coletivismo que podem levar a sistemas que dependem da violência. Desestimulam a individualidade, o livre pensamento e a autonomia. Por esses motivos, a hierarquia não-violenta não é inerentemente má para o anarquista individualista, mas sempre é potencialmente problemática e frequentemente condenável.</p>
<p>A posição anarquista individualista sobre a hierarquia está entre a ideia de que é sempre errada e de que nunca é. Às vezes é errada, mas em outras, não. Como afirmei anteriormente, o relacionamento entre o anarquismo e a hierarquia é complexo. Parte de ser um individualista é pensar rigorosa e exaustivamente nas questões por conta própria. Não há sempre princípios rígidos para pensar por nós, não importa o quão confortável seja o sofá onde sentamos para apontar o dedo para o mundo.</p>
<p><em>Traduzido por <a href="http://c4ss.org/content/author/erick-vasconcelos">Erick Vasconcelos</a>.</em></p>
 <p><a href="http://c4ss.org/?flattrss_redirect&amp;id=31384&amp;md5=61593e3eba5d571389bd28d34f5b51ff" title="Flattr" target="_blank"><img src="http://c4ss.org/wp-content/themes/center2013/images/flattr.png" alt="flattr this!"/></a></p>]]></content:encoded>
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		<title>O individualismo de esquerda</title>
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		<pubDate>Tue, 02 Sep 2014 01:00:33 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[David S. D'Amato]]></dc:creator>
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				<content:encoded><![CDATA[<p>Talvez por viver em Chicago ou porque trabalho com outros advogados, em minha vida cotidiana estou rodeado por pessoas que se identificam com a esquerda americana e democratas centristas para quem a mera menção da palavra &#8220;libertário&#8221; incita pesadelos com a direita do Tea Party. Infelizmente, qualquer possibilidade de diálogo com esse grupo de pessoas acaba quando me identifico como libertário; para essas pessoas, o libertarianismo é a extrema direita de um espectro político americano unidimensional a que foram condicionadas a nunca questionar. Frequentemente, sabem algo sobre Ayn Rand até o ponto em que são capazes de considerar o libertarianismo como uma defesa simplista e impiedosa da ganância corporativa, do status quo econômico em que o 1% se torna cada vez mais rico enquanto a classe média diminui e os pobres sofrem em destituição. Ironicamente, esse tipo de social-democrata centrista provavelmente entende os efeitos do capitalismo melhor do que muitos libertários, percebendo a predação econômica e procurando (de forma não-sistemática) por <em>algo</em> que controle seus impulsos. O que eles não compreendem, porém, é o libertarianismo como uma filosofia real ou o abismo que separa o sistema econômico atual do livre mercado <em>genuíno</em>.</p>
<p>Por causa dessa repulsa reflexiva à mera menção do libertarianismo, minhas experiências me levaram a descrever minha posição política como &#8220;individualismo de esquerda&#8221;. Essa caracterização, pelo que noto, é mais convidativa a perguntas em vez de diatribes raivosas, preparando o terreno para uma conversa proveitosa e não dando lugar a um debate fútil. Peguei a expressão &#8220;individualismo de esquerda&#8221; de Eunice Minette Schuster, cuja dissertação <em>Native American Anarchism</em> tinha como subtítulo &#8220;A Study of Left-Wing American Individualism&#8221; (em português, &#8220;Um estudo do individualismo americano de esquerda&#8221;). O livro de Schuster segeu o anarquismo americano desde suas formas nascentes e prototípicas até seu desenvolvimento em um sistema filosófico e movimento distintos. Seu estudo é importante por dar atenção a uma corrente política que pode parecer confusa e contraditória no contexto dos debates atuais.</p>
<p>Os anarquistas individualistas que Schuster discute na parte do seu livro que trata o anarquismo em seu estado &#8220;maduro&#8221; eram individualistas extremos e socialistas, arquitetos de um projeto que nós do Centro por uma Sociedade Sem Estado (C4SS) tentamos continuar atualmente. Como defensores da liberdade total de competição, dos direitos de propriedade e da soberania do indivíduo, os anarquistas individualistas são parte da história do movimento libertário contemporâneo. Paralelamente, como o C4SS de hoje em dia, esse grupo se opunha ao capitalismo e considerava o socialismo como o &#8220;grande movimento antirroubo&#8221;, nas palavras do reformador radical Ezra Heywood. Ao contrário dos libertários atuais, que frequentemente demonizam os pobres como &#8220;parasitas&#8221; do assistencialismo, pensadores como Benjamin Tucker, Ezra Heywood e Josiah Warren (para mencionar somente alguns) viam os ricos como a verdadeira classe ociosa e parasitária, como beneficiários de privilégios que permitiam que eles manobrassem o sistema para impedir a competição real.</p>
<p>Esses antigos libertários viam que a liberdade e a competição funcionavam por todos os motivos que conhecemos atualmente: divisão e especialização do trabalho, grandes quantidades de informação destiladas em preços e a impossibilidade de planejar a economia através do maior de todos os monopólios, o estado. Eles argumentavam que a competição genuína em um livre mercado é a forma mais segura de garantir que o trabalho receba seu produto total, resolvendo, assim, o que era chamado com frequência de a Questão Trabalhista; isso os tornava socialistas, mesmo que eles não se encaixassem tão confortavelmente dentro do movimento socialista. Também não se encaixavam bem entre as fileiras liberais, que defendiam o livre comércio e a competição — os economistas políticos —, e se viam com frequência tendo que ensinar aos economistas sua própria doutrina, apontando os erros e inconsistências que caracterizavam muito daquilo que era considerado argumento em defesa do livre comércio.</p>
<p>Os anarquistas individualistas eram fanáticos pela coerência; se o trabalho tinha que ser posto em competição, sujeito à oferta e à demanda, então o capital também deveria. Como aponta Schuster, o &#8220;anarquismo científico&#8221; proposto por indivíduos como Benjamin Tucker, portanto, &#8220;não tinha apelo para o Capitalista, porque ele não defendia um &#8216;individualismo resistente&#8217;, mas um individualismo <em>universal</em>&#8221; (ênfase minha). Uma vez que os individualistas consideravam a renda, os juros e os lucros (a &#8220;trindade da usura) como resultados aproximados dos privilégios coercitivos, eles eram tratados como similares aos impostos, permitindo que os donos do capital se apropriassem a diferença entre os preços sob um regime de privilégio e os preços em um regime de competição aberta. A competição do mercado, portanto, não era o inimigo, mas o aliado do trabalhador. O argumento do anarquismo de mercado é simples: se insistimos que todos têm direito àquilo que conseguem obter num livre mercado, então devemos ao menos tentar chegar a um livre mercado. E um livre mercado não pode tolerar algumas das características históricas mais comuns do capitalismo: o roubo agressivo de terras em larga escala, os sistemas regulatórios e de licenciamento que funcionam como barreiras de alto custo à entrada no mercado e como barreiras ao autoemprego, vários subsídios diretos e indiretos que redistribuem renda a firmas bem conectadas e o sistema governamental de leis e instituições financeiras que produz o cartel de Wall Street que temos atualmente. Assim, o capitalismo parece não combinar com o que os libertários de fato querem quando dão seu apoio ao livre mercado. Não estamos tão perto assim de um sistema de livre mercado como muitos libertários gostam de pensar. Não precisamos apenas de alguns ajustes e algumas reformas aqui e acolá, de algumas privatizações de monopólios estatais e da desregulamentação de algumas indústrias. Para chegar num sistema livre, precisaríamos de uma ruptura completa e sistemática com a tirania capitalista que temos há tanto tempo, um sistema que é o sucessor direto dos sistemas estatistas, desde o feudalismo até o mercantilismo.</p>
<p>Anarquistas como Warren e Tucker compreendiam esse fato e passaram suas vidas lutando contra a desigualdade do status quo capitalista que coloca os trabalhadores em desvantagens sistemáticas. E apesar dos esforços em colocá-los na direita política — ou mesmo de tirá-los da tradição anarquista —, eles pertencem (se é que pertecem a alguma ponta do espectro) à esquerda, como entendia Schuster. Representando a tremenda falaa de compreensão em relação ao anarquismo individualista entre acadêmicos de esquerda, o historiador David DeLeon, em seu livro <em>The American as Anarchist</em>, afirma que Benjamin Tucker é um &#8220;libertário de direita&#8221; e, incrivelmente, aponta Ronald Reagan e George Wallace como seus sucessores ideológicos. Em outros pontos do livro, DeLeon classifica casualmente Voltairine de Cleyre — cujas explorações dentro do anarquismo não se prestam facilmente a rótulos — como &#8220;anarcocomunista&#8221;. Preocupante é também sua incrível alegação de que Ralph Waldo Emerson, Henry David Thoreau e Walt Whitman todos eram libertários de direita. Se alguém que está tão envolvido nos estudos profissionais desses personagens e de seus movimentos é capaz de interpretar erroneamente suas circunstâncias, não é de surpreender que o anarquismo individualista seja complexo para a maior parte dos leigos em filosofia política.</p>
<p>Apresentar a mim mesmo como &#8220;individualista de esquerda&#8221; é uma das minhas atitudes para reintroduzir o anarquismo individualista do século 19 no discurso contemporâneo, uma tradição que equilibra o indivíduo e a comunidade de uma maneira que é desesperadamente necessária em um mundo dominado pelo poder centralizado. O movimento libertário, além disso, não deve se apressar tanto em desprezar anarquistas como Tucker como se fossem ignorantes econômicos de eras passadas. Afinal, qualquer consideração sobre os relacionamentos econômicos em um livre mercado necessariamente será marcado pela especulação. Os libertários que acreditam que os relacionamentos seriam como os atuais têm pouca imaginação e não conseguem nem imaginar a profundidade das mudanças que um real respeito à soberania individual traria.</p>
<p><em>Traduzido por <a href="http://c4ss.org/content/author/erick-vasconcelos">Erick Vasconcelos</a>.</em></p>
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		<title>El rol de los bienes comunales en un mercado libre</title>
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		<pubDate>Fri, 29 Aug 2014 20:00:05 +0000</pubDate>
		<dc:creator><![CDATA[Alan Furth ES]]></dc:creator>
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				<content:encoded><![CDATA[<p>El término “anarquismo de mercado” puede causar en algunas personas la impresión equivocada de que los anarquistas de mercado conciben una sociedad organizada principalmente alrededor del nexo del dinero. En parte esto se debe a que una definición del término “mercado” se equipara al mercado como institución: a la esfera del intercambio. Puede reflejar también el hecho de que muchos anarcocapitalistas, que hasta hace poco acapararon la mayor parte de la atención, tienden a enfatizar a las empresas que operan bajo el nexo del dinero como la principal forma de organización social.</p>
<p>Nosotros los anarquistas de mercado tomamos nuestro nombre del hecho de que, a diferencia de comunistas libertarios, anarcosindicalistas y otros anarquistas que expresamente no son de mercado, vemos el intercambio mercantil voluntario como una forma perfectamente válida de organizar la vida económica. Pero esto no significa que el nexo del dinero vaya a ser la forma de organización predominante en una sociedad sin Estado. De hecho, como David Graeber ha mostrado en su libro <em>Deuda</em>, el nexo del dinero se convierte en la forma dominante de organizar la vida económica sólo en sociedades basadas en la conquista militar y la esclavitud.</p>
<p>Como anarquistas concebimos una sociedad en la cual todas las funciones son organizadas, en palabras de Kropotkin, por “acuerdos libres pactados entre los diversos grupos, territoriales y profesionales, constituidos libremente en pro de la producción y el consumo, y también para la satisfacción de la infinita variedad de necesidades y aspiraciones de los seres civilizados”. Esto incluye los mercados. También incluye las economías sociales y las economías del regalo, el trabajo colaborativo y las redes horizontales de todo tipo.</p>
<p>El comunal puede que sea la forma más eficiente de organizar algunas funciones económicas. Esto es puede que sea cierto para los recursos no renovables como los minerales, y para los bienes comunes renovables como bosques, pastos y caladeros, al estudio de los cuales Elinor Ostrom dedicó su carrera. Es desde luego cierto para la información, que es replicable infinitamente a coste marginal cero.</p>
<p>Los mercados son más apropiados para las esferas de la producción y la distribución que involucren bienes que sean replicables, pero sólo al coste del esfuerzo. Pero incluso dentro de esta esfera de bienes producidos por el trabajo humano cuya oferta es elástica, los bienes y servicios que se ajustan mejor a la producción a pequeña escala podrían perfectamente organizarse fuera del nexo del dinero, a través de varias organizaciones sociales primarias: sindicatos locales y mutuas, comunidades familiares o multifamiliares y proyectos de covivienda, asociaciones vecinales, comunidades intencionales, y otras unidades sociales de puesta en común de ingresos, costes y riesgos.</p>
<p>La tasación monetaria probablemente sería la opción más deseable en los casos que impliquen insumos (por ejemplo, microprocesadores) que requieran de instalaciones de producción caras y grandes áreas de mercado, y de otros bienes que sean distribuidos a lo largo de grandes distancias o requieran un relativo anonimato (como las formas de producción que requieran maquinaria más cara y una red de distribución que abarque una ciudad entera).</p>
<p>Incluso en el caso de la producción orientada al nexo del dinero, en una sociedad genuinamente libre sin derechos de propiedad artificiales, escasez artificial, monopolios y otros privilegios protegidos por el Estado, podemos esperar que las formas de producción cooperativas o autogestionarias sean mucho más comunes que hoy en día, y que tengan lugar en una atmósfera en la que la mayoría de los trabajadores tengan la opción de retirarse al comunal por un tiempo y rechazar ofertas de trabajo que no sean de su gusto (como hicieron los campesinos ingleses antes del Cercamientos, los cuales podían elegir entre aceptar el trabajo asalariado o abandonarlo y subsistir en el comunal).</p>
<p>También es importante recordar que el intercambio monetario tendrá lugar en un contexto en el que los bancos ya no tendrán un monopolio garantizado por el Estado en el tema del crédito y los medios de intercambio.</p>
<p>Los anarquistas de mercado, como todos los anarquistas, parten de la premisa de que la gente común y corriente considera a los demás como iguales, y decide sin coerción la mejor forma de trabajar juntos para cubrir sus necesidades mutuas. Esto puede ser mediante el intercambio del producto de su trabajo, produciendo cooperativamente o compartiendo. Lo importante, como ha argumentado el anarquista David Graeber, es que sean cuales sean las formas de organización que emerjan lo harán a través de un proceso indefinido de interacción entre iguales y en el que ninguna de las partes pueda hace uso de la fuerza para obligar a otros a obedecer sus deseos.</p>
<p>Artículo original <a href="http://c4ss.org/content/30862">publicado por Kevin Carson el 25 de agosto de 2014</a>.</p>
<p>Traducido del inglés por Tomás Braña.</p>
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