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O Grande Domínio do Custo Acrescido: Conclusão

The following study is translated into Portuguese from the English original, written by Kevin Carson.

1. A Economia de Produção de Desperdício

2. Desperdício por causa de Rents de Escassez Artificial

3. Desperdício Decorrente de Trabalho de Guarda

4. Monopólio Radical

5. Desperdício Decorrente de Insumos Subsidiados

6. Desperdício Decorrente de Desembolsos Compulsórios de Capital e de Overhead

7. Sistemas de Contabilidade e Vitrines Quebradas

8. Desperdício Interno no Processo de Produção

9. Desperdício Externo Decorrente de Marketing e de Obsolescência Planejada

10. Setores Desperdiçadores da Economia

11. “Não Há Trabalho Bastante”

12. Conclusão

Consideremos a quantidade de trabalho total do trabalhador médio gasta não apenas para pagar os acima mencionados custos embutidos de propriedade intelectual e de margem de acréscimo estipulada pelo oligopólio, mas para pagar rents de escassez artificial a proprietários de terra e capital. O efeito cumulativo de eliminarem-se todas tais formas de privilégio provavelmente seria equivalente ao valor da eliminação do desperdício/lixo subsidiado no processo de produção. Se, como parece plausível enquanto aproximação não precisa, a produção de desperdício/lixo e os rents sobre propriedade intangível resultam, cada um, no equivalente a margem estipulada de acréscimo de 100%, então seu efeito cumulativo é quadruplicar o número de horas realmente necessárias para produzir nossos atuais níveis de consumo. Três quartos de nosso trabalho vão ou para o desperdício/lixo ou para tributo.

Sem a produção desnecessária que equivale a consertar as vitrines quebradas de Bastiat, e de outros desperdícios (inclusive a escolha deliberada, pelos cartéis industriais do estado, de obsolescência planejada em vez de reparabilidade), e sem a porção do preço das mercadorias que reflete rents embutidos de “propriedade intelectual” e outros direitos artificiais de propriedade tais como terra e capital artificialmente escassos, poderíamos provavelmente produzir algo tal como nosso presente padrão de vida trabalhando em média dois dias ou menos por semana. Estamos trabalhando os outros três dias para cavar buracos e enchê-los novamente, ou para pagar dinheiro de proteção para que rentistas parasitários não usem seus direitos artificiais de propriedade para obstruir a produção.

A principal barreira ao atingimento disso é brilhantemente resumida na linha de assinatura de email de Paul Fernhout, membro das listas de email da Pesquisa P2P e da Fabricação Aberta: “O maior desafio do século 21 é a ironia de tecnologias de abundância nas mãos daqueles que pensam em termos de escassez.”

Já mencionei, antes, a medida em que o poder das organizações hierárquicas resulta da capacidade que elas têm de ratear recursos escassos — e, mais que isso, a medida em que a identidade pessoal daqueles que as administram está vinculada a suas posições, baseada na importância atrelada ao desempenho de tal função. Num mundo onde (digamos) multiplicadores de matéria-energia da Jornada nas Estrelas capacitassem todo mundo a viver em abundância, que importância teriam Bill Gates ou David Rockefeller?

O personagem de “O Major,” nas obras de ficção “Daemon”, de Daniel Suarez, viu seu papel como consistindo em defender um sistema de autoridade e subordinação, e em manter as rodas institucionais girando eficientemente.

E aquilo [o assassínio do sindicalista centro-americano] deu início ao despertamento dele — a sua compreensão de que o Mundo Ocidental era uma história para a hora de dormir de bobagens humanísticas confortadoras. A escravidão existia em toda parte — mesmo nos Estados Unidos. Éramos todos escravos de um modo ou de outro. A escravidão era simplesmente controle, e o controle mantinha as coisas correndo de maneira organizada. Foi o que tornou o progresso possível. [143]

“’Canalhas como eu servem a um propósito. As pessoas precisam de ordem…. É preciso ser dito a elas o que pensar, o que fazer, no que acreditar, ou tudo desmoronará. Esse milagre da civilização não acontece simplesmente. Requer cuidadosa administração por profissionais dispostos a fazer o que for necessário para manter as coisas fluindo lisamente.” [144]

Essa função significava, acima de tudo, manter a população dependente, para sua sobrevivência, da estrutura institucional existente. Confrontado com a ameaça de uma economia de abundância — as supereficientes, de alta tecnologia, economias locais dos “holons,” baseadas em microfabricação e agricultura intensiva — a reação dele era a do sistema imune de um corpo rejeitando um intruso. Por causa de seu efeito subversivo em evidenciar que as pessoas poderiam viver sem autoridade, a economia alternativa tinha de ser eliminada.

“…mate todo mundo que possa encontrar, incendeie toda estrutura e destrua todo veículo. Sem exceção. O conhecimento e o equipamento que fazem essas comunidades funcionar tem de ser erradicado. A memória cultural de que eles tenham jamais existido precisa ser apagada…. [145]

Esse problema — como manter o poder das velhas hierarquias dominantes onde não há mais necessidade material delas — é tema recorrente na literatura. Algo da espécie foi a tese do “Livro de Goldstein,” em 1984. As economias industriais do século 20 criaram o problema da abundância: uma população com lazer suficiente para tirar seus narizes do rebolo e começar a fazer perguntas incisivas acerca dos vetustos sistemas de autoridade que observavam em seu mundo. Para ser mantido o poder das antigas hierarquias dominantes — os reis e sacerdotes, os burocratas, os proprietários e os empregadores — era necessário destruir a ameaça subversiva da abundância, e manter o público em geral pobre e estúpido. O bom da guerra perpétua com a Eurásia e a Lestásia era ela permitir a Oceania despejar quantidade ilimitada de produção econômica na estratosfera ou jogá-la no fundo do oceano e arrastar todo mundo para o nível de subsistência de tal modo que todos ficassem ocupados demais mantendo-se vivos para formular qualquer tipo de pergunta impertinente.

O satírico Relatório da Montanha de Ferro, publicado em 1967, era um documento fictício do governo tratando da necessidade de algum equivalente moral da guerra para manter a deferência do público em relação às classes dominante e proprietária face aos efeitos subversivos da paz mundial. O principal benefício de uma sociedade organizada para a guerra não era a capacidade da sociedade de conduzir guerras resultantes de conflitos com potências estrangeiras; tais guerras eram uma consequência dos imperativos internos de sociedades organizadas para a guerra, em vez de qualquer dinâmica externa. Antes, era necessário que uma sociedade fosse organizada para a guerra — justificada por alguma “ameaça” externa real ou inventada — para preservar um sistema doméstico de poder.

Sem [guerra], nenhum governo foi jamais capaz de obter aquiescência quanto a sua “legitimidade,” ou ao direito de governar sua sociedade. A possibilidade de guerra oferece o sentimento de necessidade externa sem o qual nenhum governo pode permanecer por longo tempo no poder. O registro histórico revela um exemplo atrás do outro no qual a incapacidade de um regime de manter a credibilidade de uma ameaça de guerra levou a sua dissolução, pelas forças do interesse privado, de reações contra a injustiça social, ou de outros elementos desintegradores. A organização de uma sociedade para a possibilidade de guerra é o principal estabilizador político dele.

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A possibilidade permanente de guerra é o fundamento do governo estável; ela fornece a base para aceitação geral da autoridade política. Ela tem permitido às sociedades manterem imprescindíveis distinções de classe, e assegurado a subordinação do cidadão ao estado, em virtude dos poderes de guerra residuais inerentes ao conceito de nação. Nenhum grupo político dominante moderno controlou de modo bem-sucedido seus eleitores depois de não conseguir manter a contínua credibilidade de uma ameaça externa de guerra. [146]

No fraseado mais sucinto de Randolph Bourne, “A guerra é a saúde do estado.” A perspectiva dos putativos “grupos de estudo” era muito parecida com o do igualmente ficcional Emanuel Goldstein, que viu as superpotências em guerra do 1984como três feixes de trigo cada um escorando os outros. Ou como não-ficcionalmente expressou Noam Chomsky: “Pondo-se de lado complexidades de segunda ordem, para a URSS a Guerra Fria tem sido principalmente uma guerra contra seus satélites, e para os Estados Unidos uma guerra contra o Terceiro Mundo. Para cada um dos dois, ela tem servido para robustecer um sistema doméstico específico de privilégio e coerção.” [147]

Pode-se imaginar um “grupo de estudo” similar confrontado pelos efeitos desestabilizadores da abundância em sistemas de autoridade dependentes de escassez formulando uma agenda para a manutenção de escassez artificial depois da necessidade material dele ter desaparecido. O estudo de grupo A Montanha de Ferro desconsiderou desdenhosamente o mito de que a organização para a guerra está funcionalmente subordinada ao sistema social aos quais as guerras pretensamente servem. É analogamente um mito a gerência da escassez ser uma função levada a efeito em benefício da sociedade, face a necessidade objetiva. Pelo contrário, a gerência da escassez — o rateio dos recursos escassos — serve ao propósito precípuo de manter um sistema de poder que não poderia existir sem escassez. Portanto, se a escassez não existir naturalmente, terá de ser criada.

A boa notícia é que a capacidade de manufaturar escassez não decorre da necessidade. Os rentistas e gerentes estão-se deparando com a dura realidade de sua crescente incapacidade de criar escassez. A produtividade de novas tecnologias de abundância está superando a capacidade deles de suprimi-las. O ataque da indústria de gravação contra os compartilhadores de arquivos foi a salva de abertura da guerra para suprimir a abundância. Seu resultado é ilustração paradigmática de qual será o resultado de todos os ataques da espécie.

Estudo original publicado por Kevin Carson 29 de dezembro de 2010.

Traduzido do inglês por Murilo Otávio Rodrigues Paes Leme.

Notes: