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Romanos 13: Instituído pelo Pecado, Posto em Ordem pelo Amor

The following article is translated into Portuguese from the English original, written by Brennan Lester.

Por Ricardo Rodriguez e Brennan Lester

Lá começou – o imperador romano Teodósio I assinou o decreto, e todo mundo em Roma foi obrigado a tornar-se cristão. Desde então, como observa muito bem o economista Ludwig von Mises, o cristianismo nunca mais conseguiu depor a espada em larga escala.[1] Pois a política consome os homens – a politização de algo modifica profundamente o homem e suas ideologias. A política mudou também a cristandade – funda e profundamente – e o resultado final é contradições, bem como completa alienação. Romanos 13, mostra-o a história, tem sido credo central dessa politização, de modo muito análogo ao do episódio da tributação do qual tratamos da última vez. Romanos 13, entretanto, ao ser interpretado na intenção de apoiar o estado, ou de ver o cristianismo apoiando o estado, leva nessa medida a contradições, alienação, erros de interpretação e, mais inquestionavelomente, má tradução.

Deve-se ter em mente o quanto esse texto é crucial para o anarquista cristão – não há como escapar da discussão de seu teor ao se falar de qualquer coisa envolvendo o anarquismo cristão. Ademais, o movimento anarquista não o tem em alta estima, e por muitos bons motivos – ele foi usado para o Direito Divino dos Reis,[2] bem como pela Direita Cristã para justificar o governo.[3] O monarca rei James I invocou sua autoridade ao escrever, no capítulo 20 de suas Obras (1609), que “[o] estado de monarquia é a mais suprema coisa sobre a Terra; pois os reis são não apenas lugares-tenentes de Deus na Terra, sentendo-se no trono de Deus, mas até pelo próprio Deus são chamados de ‘deuses.’” Similarmente, e mais recentemente, o pregador evangélico estadunidense John MacArthur escreveu que o princípio de submissão às autoridades governantes é “não qualificado, ilimitado e incondicional… [o] texto não faz distinção entre bons e maus governantes, ou leis justas e injustas”: indistintamente “[t]odos nós deveríamos por-nos em fila para submeter-nos àqueles que nos estejam comandando”[4]. Não é uma visão atraente – em decorrência, o movimento anarquista tem ampla justificativa para estar naturalmente alienado do cristianismo existente na prática. Entretanto, essa alienação não é, em absoluto, apoiada pelos fatos reais, e muito em detrimento do movimento, como será explicado em detalhe antes do final de nossa análise.

Essa interpretação criou grande hostilidade em relação ao cristianismo na maioria dos círculos anarquistas ao longo da história, que viram o estado e a religião como uma só besta — a ideia de que não se pode ter igreja sem estado, ambos parte do mesmo princípio escravizador — talvez mais famosamente expressa por Mikhail Bakunin quando escreveu: “[n]ão há, não pode haver estado sem religião”[5], pois que, sob o cristianismo, “todos os homens devem [sendo os "legisladores inspirados pelo próprio Deus"] obediência passiva e ilimitada; pois contra a razão divina não existe razão humana… Escravos de Deus, os homens precisam também ser escravos da igreja e do estado, na medida em que o estado é consagrado pela igreja” (ênfase de Bakunin) — “a existência dele implica necessariamente na escravização de tudo o que está abaixo dele,” [6] e nessa medida ofereceu a hoje famosa inversão, “se Deus realmente existisse, seria necessário aboli-lo.”[7] Essa opinião foi amplamente aceita por anarquistas da maioria dos vieses, como Benjamin Tucker, que traduziu Deus e o Estado de Bakunin para públicos falantes de inglês e pela crítica da religião do egoísta Max Stirner.[8]

Não apenas enraiveceu os ateus, mas também foi objeto de desdém por anarquistas cristãos; mais notavelmente Leo Tolstoy, em sua obra de 1882 “Igreja e Estado,” que assevera que o cristianismo “exclui a adoração externa de Deus [governantes e estadistas]” e “repudia francamente o senhorio” mas diz que o elo entre estado e cristianismo é um desvio e que “[e]sse desvio começa no tempo dos apóstolos e especialmente com aquele ávido por senhorio, Paulo.”[9] Essa crítica tem eco em figuras de grande importância para o pensamento anarquista e modernista; embora ele próprio não anarquista, Friedrich Nietzsche, em O Anticristo, criticou os apóstolos, e especificamente Paulo, por falsificar a história do cristianismo, de Israel, e do gênero humano para seus propósitos.[10] Tudo isso, porém, deve-se a falta de entendimento adequado: tanto a rejeição do cristianismo em si quanto da mensagem de Paulo no livro dos Romanos pelos anarquistas vem em detrimento de entendimento mais pleno da Escritura, entendimento que este texto afirmará vir em favor do anarcopacifismo, e que rejeitará a noção de lealdade a um estado pretensamente instituído por Deus.

O que pretendemos fazer, pois, é tomar o texto grego dos versículos e começar a traduzi-los e a analisar a passagem.[11] Não pretendemos criticar outras interpretações em si, visto já existir literatura, ou virá a existir, que faça isso melhor do que nós. (ver a secção de “Leituras Adicionais”) Antes, nosso intento é exibir uma interpretação histórica-gramatical do texto – a qual necessariamente desemboca numa posição de anarcopacifismo cristão – almejando conclusão imensa em sua força bem como em sua coesão geral. A análise teológica de um texto nunca é perfeita, mas pretendemos seja forte o bastante para persuadir outrem a abrir mão de seu ponto de vista de que ser cristão precisa necessariamente implicar em o cristão apoiar um estado ordenado por Deus.

Podemos começar tornando claras algumas coisas. Romanos 13 – tanto quanto se saiba – não foi escrito com qualquer tipo de uso estoico em mente.[12] Não há modo metafórico ou alegórico de considerar esse texto. Na verdade, alguns eruditos consideram Romanos capítulos 12-15 como a parte “imperativa” do livro, como se pode ver mediante análise histórica-gramatical do que Paulo escreve aos cristãos.[13] Não apenas isso, mas essa secção inteira do livro de Romanos é escrita de maneira coesiva,[14] com cada versículo ligado inextricavelmente ao outro; enquanto carta aos cristãos romanos, nenhum fragmento deve ser negligenciado na análise.[15]

É pois primeiro importante para nós observar a reiteração, por Paulo, dos ensinamentos de Cristo no Sermão da Montanha (Mateus 5:38-9, NIV) no final do capítulo 12: “Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem.” (Romanos 12:21) Examinar o teor de Romanos 13 sem entender Romanos 12 é extirpar o contexto das lições ensinadas— pois no cerne de Romanos 12 aninha-se a ideia divina de que o cristão tem de amar o próximo tanto quanto a si próprio, e não resistir ao mal com o mal. Não se trata de amar aqueles a quem se prefere amar, e sim até mesmo “[a]bençoai os que vos perseguem; abençoai, e não amaldiçoeis.” (Romanos 12:14) Esses princípios são o fundamento mesmo dos ensinamentos de Cristo, do pacifismo cristão, e da filosofia de Paulo.

E isso nos leva a Romanos 13:1 (NIV), numa linha que induz a maioria para uma posição favorável ao estatismo: “Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram instituídas por Deus.” Parece ser um beco sem saída para o cristão— portanto temos de curvar-nos ao estado. Isso, porém, não é o que parece, como mostrado pelo tratamento dessa passagem por John Howard Yoder em seu primoroso A Política de Jesus. Para começar, convém recorrer ao texto em sua forma grega e trabalhar a partir daí:

Πᾶσα ψυχὴ ἐξουσίαις ὑπερεχούσαιςὑποτασσέσθω. οὐ γὰρ ἔστιν ἐξουσία εἰμὴ ὑπὸ θεοῦ, αἱ δὲ οὖσαι ὑπὸ θεοῦτεταγμέναι εἰσίν

Uma das palavras na qual é preciso concentrar-se, mesmo mesmo quando não saibamos como lê-la, é τεταγμέναι, normalmente traduzida como “ordenado” ou “estabelecido” na King James e na Nova Versão Internacional. Em realidade, essa palavra é particípio passivo perfeito da palavra τάσσω, podendo assim concluir-se significar “colocar em ordem”, “organizar”, ou “pôr em funcionamento” mais do que como é traduzida, “estabelecer”, ou “ordenado”. Isso modifica a implicação subjacente pois, ao voltarmos ao capítulo 12, lemos:

“Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira; porque está escrito: A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor.” Romanos 12:19

Já podemos começar a ver um começo do que Paulo está exemplificando – submetam-se, porque Deus organiza e conserta tudo, porque, para o cristão, em última análise Deus está no controle. Lemos em Yoder:

“Não se diz que Deus cria ou institui ou ordena os poderosos do dia, mas sim que apenas os organiza, os põe em ordem, soberano a enquadrá-los, a dizer qual é o lugar deles. Não é que, no passado, tenha existido uma época na qual não havia governo e em seguida Deus tenha criado o governo por meio de nova intervenção criadora; desde que a sociedade humana existe há hierarquia e poder. O exercício deles, desde a existência do pecado, vem envolvendo dominação, desrespeito pela dignidade humana e violência real ou em potencial. Nem é que, ao colocar em ordem especificamente essa dimensão, Deus aprove moralmente o que os governos façam. O sargento não cria os soldados que treina; o bibliotecário não cria ou aprova o livro que cataloga e coloca na prateleira. Assim também Deus não assume responsabilidade pela existência dos ‘poderosos do dia’ rebeldes nem por sua forma ou identidade; eles já existem. O que o texto diz é que Deus os põe em ordem, os coloca em linha, providencial e flexivelmente os enfileira com objetivos divinos.” [16]

Pode-se ver a ideia de Yonder em I Samuel 8, a primeira vez em que um governo é de fato mencionado na Bíblia, e bem assim em Oseias 8:4.

Contudo, voltemos à análise do texto grego de Romanos 13:1 – ainda não terminamos de examinar o vocabulário, visto haver outras coisas cruciais mais que temos de ter em mente: ὑποτασσέσθωem particular vem também de τάσσω, mas desta vez combinado com a palavra ὑπο, que significa “sob”, o que portanto leva ao significado de ser “organizado sob”, num sentido de submissão voluntária – em vez do dogma comum de receber ordem de fazer algo por ser mandamento. Isso remete algumas sentenças do texto ao texto de Romanos 12. Não encerra nenhuma implicação de obediência absoluta – trata-se de obediência extremamente condicional e voluntária.

Essa obediência ganha substância na palavra ἐξουσίαι, traduzida como “autoridades”. N.T. Wright e Clinton Morrison destacam, ambos, profundamente, que Paulo, ao mencionar as autoridades, não estabelece distinção clara entre as terrenas e as celestiais.[17] Isso não se aplica apenas a Paulo, mas pode-se ver a natureza impregnadora até na moeda romana, com o denário declarando: “Tibério César, Filho de Deus Digno de Adoração, Augusto.”[18] Essa incrível mistura torna a tradução da palavra tendente a confusão. Ademais, palavras mais específicas como ἀρχαὶ eδυνάμεις – “governantes” e “poderes” respectivamente – podem indicar imperfeitamente o significado da palavraἐξουσίαι, e devem ser examinadas cuidadosamente.

Vemos esses governantes e poderes em Romanos 8:38-39, mostrado profundo desprezo por eles. Nessa linha, Paulo escreve que Cristo “despojou os governantes e as autoridades (ἀρχὰς eἐξουσίας) e publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz.”(Colossenses 2:15) Paulo nunca cessa de mostrar que nada consegue se interpor entre o cristão e Deus[19] – as autoridades são despojadas e tornadas inúteis. Essa submissão voluntária revela-se profunda expansão do que Paulo escreveu depois – a submissão das autoridades ocorre devido ao fato de Deus as pôr em seu lugar, de Jesus ter despojado as autoridades e as tornado inefetivas, de se dever deixar a vingança a cargo de Deus, e de não se resistir ao mal com o mal: “Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira; porque está escrito: ‘A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei’, diz o Senhor.” (Romanos 12:19)

Essa linha de pensamento não perde sua força ao prosseguirmos na leitura, e sim antes continua a desdobrar-se em Romanos 13:2, que reza, na NIV:

“De modo que aquele que se opõe à autoridades resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos condenação.”

 E em grego:

ὥστε ὁ ἀντιτασσόμενος τῇ ἐξουσίᾳ τῇτοῦ θεοῦ διαταγῇ ἀνθέστηκεν, οἱ δὲἀνθεστηκότες ἑαυτοῖς κρίμαλήμψονται.

A palavra mencionada anteriormente que significa “ordem”, “colocar em funcionamento”, “organizar”, etc. – τάσσω– também figura nesse versículo. A palavra τάσσω é parte muito crucial dessa passagem inteira, como podemos ver – ademais, é usada aqui na palavraἀντιτασσόμενος, que combina τάσσω e o particípio ἀντι, conotativo de “anti” levando pois a uma combinação que significa literalmente ser “contra a ordem”, ou contra a ordem estabelecida por Deus.

A esta altura o óbvio já deveria estar visível – tudo isso remete ao que Paulo dizia logo anteriormente. Tudo vai se encaixando no lugar adequado – o cristão é, de fato, uma pessoa que deveria lembrar-se de que a vingança é exclusiva de Deus, e de não tomar nada em suas próprias mãos. O cristão tem de ser pacifista em relação às autoridades. Surge a pergunta, porém, de se essa submissão voluntária implica também em permitir que elas dominem e em submeter-se a quem quer que apareça com uma grande arma de fogo.

É simples: Não resistir ao mal com o mal tem exatamente o significado que Jesus quis atribuir à ideia. Não significa que alguém não deva em absoluto resistir ao mal, como Adin Ballou destaca esplendidamente,[20] e sim que resista ao mal com o bem – com amor cristão. Paulo explica isso laboriosamente em Romanos 12 – mas em que isso, de per si, implica? Implica em dar as costas ao pecado, e em amar os inimigos e orar por eles. O cristianismo primitivo é conhecido por mártires que nunca reagiram, mas certamente muitos correram e fugiram ao mesmo tempo em que pregavam, oravam e amavam.[21] Isso é o que significa não resistir ao mal com o mal – portanto, é imperativo que o cristão volte as costas ao que a Bíblia ensina ser perversidade,[22] e siga sua fé em Deus. Não se pode esquecer essa última parte, pois como declara Atos 5:29: “Pedro e os outros apóstolos responderam: ‘Temos de obedecer a Deus em vez de a seres humanos!’ (NIV)

Não é preciso recorrer ao grego para ver que outra e outra vez Paulo trata do tópico da resistência à perversidade lançando-se mão de recursos perversos. Esse ponto de resistir ao mal com o mal é adicionalmente exemplificado na tradução, pois a NIV diz, nos versos 3-5:

“3 Porque os governantes não são para temor, quando se faz o bem, e sim quando se faz o mal. Queres tu não temer a autoridade? Faze o bem e terás o louvor dela.

4 Pois o que exerce autoridade é servo de Deus para teu bem. Se porém fizeres o mal, teme, pois os governantes não trazem a espada sem motivo. Eles são servos de Deus, agentes da ira para trazer punição para o que pratica o mal.

5 Portanto, é indispensável submeter-se às autoridades, não apenas por causa da possível punição como também por questão de consciência.”

É aqui pois que o teor dos primeiros dois versos se entrelaçam: Não resistir ao mal com o mal, mas antes deixar Deus praticar a vingança, pois esse é terreno dele; e ele a praticará “pois todos os que lançam mão da espada à espada perecerão” (Mateus 26:52). A passagem também se liga a muitas coisas, especialmente à ideia de que a palavra branda desvia o furor, mas a palavra dura suscita a ira (Provérbios 15:1), juntamente com muitos outros versos mostrando que o amor detém a perversidade. Há uma ideia profunda que Paulo mostra, a de que resistir ao mal sem usar o mal tornará a pessoa livre.

Ademais, o versículo quatro diz para essencialmente fazermos o que é direito e não transgredirmos o ensinamento de Jesus, pois a autoridade não porta a espada sem motivo (εἰκῇ é a palavra traduzida como “sem motivo”, embora palavreado mais robusto pudesse ser “sem causa”). Outra má tradução está no versículo 4 – “Eles são servos de Deus”, onde a palavra servo (διάκονος) é em verdade singular. Pode ser mais ou menos traduzida como “Ele é servo de Deus”, pois a palavra “governantes” sequer é mencionada, em grego, no versículo quatro. Ademais, o quarto versículo não menciona governantes, e sim antes torna claro que quem tenha uma espada está sob controle e organização de Deus (vingança e tudo o mais), e que transgredir o resistir ao mal sem recorrer ao mal acarretará consequências.

O quinto versículo em seguida dá o fecho dessa interpretação, mostrando por que devemos submeter-nos voluntariamente às autoridades – possível punição, mas também consciência, ao não deixarmos Deus administrar a situação. A pessoa deve dar as costas ao pecado, mas fazê-lo em amor, pois esse é o mandamento de Deus.

Não dá porém para respirar em paz depois disso, pois há ainda mais um obstáculo a ser superado antes de podermos ter entendimento completamente claro do texto – isto é, Romanos 13:6. Entretanto, essa obstrução mostra-se ilusória quando sujeitada a análise mais estrita, onde crassa má tradução confunde a verdadeira expressão do texto.

Reza a NIV:

“Por isso também pagais tributos, pois as autoridades são servas de Deus, as quais devotam seu tempo integral a governar.”

Todavia, lemos no grego:

διὰ τοῦτο γὰρ καὶ φόρους τελεῖτε,λειτουργοὶ γὰρ θεοῦ εἰσιν εἰς αὐτὸτοῦτο προσκαρτεροῦντες.

Deveria-se notar a falta de duas coisas: “autoridades” e “governar”. A primeira é traduzida de λειτουργοὶ, mas essa palavra nada tem a ver com autoridades. Antes, tem tudo a ver com ministro, clérigo ou servo – nada de poder autoritário. “Governar”, por outro lado, parece vir deεἰς αὐτὸ τοῦτο, que se traduz como “com essa coisa mesma”, enquanto “προσκαρτεροῦντες” traduz-se como “apoiar firmemente”.

A cobertura do bolo é que essa passagem se transforma em “Por isso pagais impostos, porque os clérigos de Deus (ou ministros, ou servos) apoiam firmemente essa coisa mesma.” Para prova suplementar dessa tradução de “εἰς αὐτὸτοῦτο” sem quaisquer explicações gramaticais de grego, pode-se fazer referência cruzada com II Coríntios 2:3, Filipenses 1:6, e II Coríntios 5:5 – todos os quais usam “τοῦτο αὐτὸ”, “εἰς αὐτὸτοῦτο”, ou simplesmente “αὐτὸ τοῦτο”, mas também os traduzem como “esta coisa mesma”.

Fica claro que essa passagem não pode ser uma declaração favorável à tributação. Mesmo se tomada a tradução tal como existe, incorreríamos em importante imprecisão histórica ao considerarmos o montante de recursos, mostrando que os tributos não eram usados para governar, no Império Romano. Antes, deveria ser fato sabido que os tributos iam para expansão militar antes de concentração em governar[23]— para lembrar o conselho do imperador Septímio Severo a seus herdeiros: “vivam em harmonia; enriqueçam as tropas; ignorem todo mundo mais.”[24] Desde tão cedo quanto Nero os imperadores passaram a desvalorizar a moeda a fim de financiar os custos crescentes da instituição militar e da burocracia.[25] Esse tributo indireto dos saldos de caixa tornou-se cada vez pior sob o imperadores sucessores de Aurélio, com preços mais altos do que qualquer época anterior da história do Império quando o herdeiro de Severo, Carcacalla, assumiu.[26] O Império Romano periodicamente confiscava propriedade, e cidadezinhas eram forçadas a alimentar, alojar e providenciar transporte para as tropas — era permitido até que os soldados pilhassem como se lhes aprouvesse.[27]

Para dar solidez à interpretação de Romanos 13:1-6, devemos olhar para o versículo de conclusão logo depois da passagem – “Pagai a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem renda, renda; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra.”. Isso deixa a coisa clara– submeter-se voluntariamente e não resistir ao mal com o mal. Dar a cada um o que lhe é devido – o que, no final, está resumido na Regra de Ouro de amar o próximo como a si próprio. Fica claro que, no livro de Romanos, Paulo está delineando como o cristão piedoso deve lidar com aqueles a quem é mais difícil amar: as corruptas, violentas e degeneradas “autoridades” que constituem o estado, as quais são um teste da obediência do cristão ao mandamento de Deus de amor universal.

Se o anarquismo se alienar da religião – nunca aceitando sua existência, e sim sempre desejando empurrá-la para longe, então não haverá motivo para ser anarquista. Uma ideologia política que empurra para longe 3 biliões de pessoas no mundo não deveria ser uma ideologia política que valesse a pena ter. A ideia de que o anarquismo nada tenha a ver com qualquer tipo de convicção pessoal – irreligiosa ou religiosa – é vã. O anarquismo diz respeito à ordem efetiva dos seres humanos e ao entendimento de como os seres humanos se organizam naturalmente. Pois, como disse David Hume, “… a estabilidade da propriedade, sua transferência por consentimento, e o cumprimento de promessas. Esses são, portanto, anteriores ao governo.”[28] É preciso não esquecer que o anarquismo diz respeito à ordem natural da sociedade humana – dizer que a religião não é parte da sociedade humana seria ignorar horrivelmente milhares de anos de civilização. Dizer que a religião naturalmente causa danos à sociedade é igualmente ignorância – pois a história mostra profundamente nunca ter sido a religião a causadora dos problemas, e sim o poder político ao absorver a religião. Teodósio I é apenas um exemplo dentre muitos, e quanto a isso argumentações bem elaboradas mostram como a necessidade desesperada do cristianismode de procurar poder político fere a igreja mais do que qualquer outra coisa.[29]

O cristianismo perfila-se necessariamente em linha com o anarquismo; o cristianismo é necessariamente anarquismo. É uma forma de anarcopacifismo – ele se submete a pacificar, mas resiste em amor, compaixão e com profunda introspecção religiosa. Mostra que a única autoridade genuína é Deus, e tudo está sob o controle de Deus – ira e vingança pertencem a Ele, não ao cristão. Os anarquistas deveriam saudar a oportunidade de vincular o cristianismo ao anarquismo, ou por falar nisso a qualquer religião, pois ele destaca a importância da paz e o entendimento fundamental dos benefícios decorrentes da cooperação, em oposição ao parasitismo do estado. Lançar fora, ignorantemente, um grupo inteiro de pessoas é sabotar o objetivo de disseminar informação. Com amor, respeito e lúcido entendimento os anarquistas podem verdadeiramente disseminar os fundamentos do anarquismo. O medo de confrontar a religião só leva a medo de aceitar a ideologia anarquista, e rejeitar com animosidade algo que é acalentado afetuosamente por muitas pessoas dentro do “povo” equivale a isolar o movimento do povo por meio de dogmatismo intelectual.

Em desespero para conformar-se com os modos de pensar da sociedade, muitos cristãos – cujo primeiro objetivo deveria ser o de obter salvação – aferram-se desesperadamente ao estado. Com cabriolas inacreditáveis de apologética, muitos cristãos tentam justificar o estado por meio do uso das escrituras, não importa quais possam ser os custos de o fazerem. A morte de milhões de pessoas inocentes na história não importa – ainda assim eles assumem que o estado não tenta diretamente atrapalhar a relação deles com Deus. A tentativa desesperada de usar a espada para expressar o cristianismo é vã – no final, empurrará pessoas para longe da fé completamente. Se alguém tem de amar Cristo, terá de abandonar a espada, e ao abandonar a espada terá de abandonar sua lealdade a qualquer estado, cujas origens começam com forçar outras pessoas a uma vontade singular humana por meio de medo e submissão; o estado eleva sua lei acima de tudo o mais, sua supremacia em relação à terra que possui reclama uma totalidade em relação ao espírito que só pode de direito ser reclamada por Deus— e nenhum cristão pode pregar fidelidade a uma força dessa espécie. Mediante analisar Romanos 13 como passagem relativa a resistir ao mal por meio de amor cristão, o cristão deve refletir acerca de a quem pertence sua lealdade. A pergunta permanece pois: Dará o cristão tacitamente mais lealdade ao estado temporal, ou lealdade a sua fé num Deus eterno? O primeiro pede lealdade até à morte, e o último pede todo o seu coração, mente e corpo, e condena a ideia de ser pusilânime. A escolha é do cristão – escolha sabiamente.

Leitura adicional:

Stark, Thom. Paz e Segurança: Dois Evangelhos Rivais em Romanos 13 (Uma História da Interpretação e da Apropriação Crítica). Pickwick Publications, no prelo.

Artigo original afixado por Brennan Lester em 17 de fevereiro de 2011.

Traduzido do inglês por Murilo Otávio Rodrigues Paes Leme.

Citações:

[1] Mises, Ludwig Von. Teoria e História: Uma Interpretação da Evolução Social e Econômica. Auburn, Ala.: Ludwig Von Mises Institute, 2007. 43. Print.

[2] Pode-se ver alguma defesa disso no Comentário de Martinho Lutero da Epístola aos Romanos.

[3] Interessante sermão sugerindo que “Os cristãos têm obrigação sagrada de ser os melhores cidadãos que puderem”: “Sermão Acerca de Deus e País por Brian La Croix, Romanos 13:1-13:5 – SermonCentral.com.” SermonCentral.com – Sermões Grátis, Ilustrações, Vídeos e PowerPoint para Pregações. Web. 06 Feb. 2011.

[4] MacArthur, John. “A Responsabilidade do Cristão Perante o Governo—Parte 1 — John MacArthur.” Bible Bulletin Board. Web. 09 Feb. 2011.

[5] Bakunin, Mikhail Aleksandrovich. Deus e o Estado. [S.l.]: Cosimo, 2008. 84. Print.

[6] Ibid., pg. 24.

[7] Ibid., pg 27-8.

[8] Tucker, Benjamin R. “Socialismo de Estado e Anarquismo: No Quanto Concordam e Onde Discrepam.” Em vez de um Livro de Autoria de um Homem Ocupado Demais para Escrever Livros: Uma Exposição Fragmentária do Anarquismo Filosófico. Adamant Media Corporation, 2005. 14. Print.
See also Stirner, Max. The Ego and its Own.

[9] Tolstoy, Leo. “Igreja e Estado.” Wikisource, the Free Library. Web. 31 Jan. 2011.

[10] Nietzsche, Friedrich. Crepúsculo dos Ídolos/O Anticristo. Tr. R.J. Hollingdale. pg. 165-169 para breve consulta, embora Paulo seja mencionado muito mais vezes.

[11] Pode-se inscrever e seguir: http://www.greekbible.com/ oferece bíblia grega muito bem feita, e também http://biblelexicon.org/ é robusto léxico. Entretanto, como fez Ricardo quando escrevendo a análise das escrituras, é melhor comprar um léxico credenciado, juntamente com pesquisa contínua e referências cruzadas por meio do Google. O tempo todo são necessários imensos escrutínio e reflexão.

[12] Há muita discussão acerca de o quanto (ou se) o estoicismo é usado nos escritos de Paulo, mas dificilmente se encontrará algo dando qualquer evidência de Paulo tê-lo usado ao escrever Romanos 13. Pode-se ver isso em Estoicismo: Tradições e Transformações, onde os autores Steven K. Strange e Jack Zupko tentam usar o estoicismo no cerne do ensimanto de Paulo, mas não fazem referência a Romanos 13 usar termos estoicos. Ademais, há forte rejeição à noção de Paulo alguma ver ter usado linguagem estoica da parte de Joseph Spencer em “Influência Estoica nos Escritos de São Paulo”. Na Enciclopédia de Religião e Ética, James Hastings escreve que “os pontos de vista [de Paulo] acerca do nascimento divino de Jesus, e da ressurreição dele … são ininteligíveis exceto em termos de estoicismo”, mas não dá referência para a noção de que os pontos de vista políticos de Paulo devam ser vistos dessa maneira.

[13] Thorsteinsson, Runar M. Cristianismo Romano e Estoicismo Romano: Estudo Comparativo da Moralidade Antiga. Oxford [u.a.: Oxford UP, 2010. 92. Print.

[14] Não se deve esquecer que versículos e capítulos não figuram nos manuscritos originais da Bíblia, e foram desenvolvidos depois. Há muitos ministérios diferentes que oferecem vislumbre desse desenvolvimento, por exemplo, por Rowland Croucher, “Capítulos e Versículos na Bíblia”.

[15] Tenham em mente que nosso escrutínio dois versículos termina em 13:7, entretanto, e que se pode encontrar análise posterior do capítulo. Thom Stark esplendidamente destaca, em As Faces Humanas de Deus, páginas 201-202, que Romanos 13 também teve muito a ver com os pontos de vista escatológicos de Paulo, o que é exibido mais adiante no capítulo.

[16] Yoder, John Howard. A Política de Jesus; Vicit Agnus Noster. Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1972. 203. Print.

[17] Ver, de N.T. Wright, “Paulo e César: Uma Nova Leitura de Romanos”, juntamente com Os Poderes do Dia, de Clinton Morrison.

[18] Tolstoy, Leo, e Constance Garnett. O Reino de Deus Está Dentro de Vós.Mineola, NY: Dover Publications, 2006. 11-14. Print.

[19] Smith, Mahlon H. “Tibério.” Rede Virtual de Religião. Web. 31 Jan. 2011.

[20] Romanos 8:38-39

[21] Balasundaram, Franklyn J. Mártires na História do Cristianismo. New Delhi: Publicado por The United Theological College, Bangalore by ISPCK, 1997. Print.

[22] I Pedro 3:11, Salmos 34:14, Salmos 37:27-29, Provérbios 3:7, Zacarias 1:4 para citar algumas passagens.

[23] Bartlett, Bruce. “Como o Excesso de Governo Destruiu Roma”. The Cato Journal, Volume 14 Number 2, Fall 1994.

[24] Peden, Joseph R. “A Inflação e a Queda do Império Romano.” Ludwig Von Mises Institute. 7 Sept. 2009. Web. 31 Jan. 2011.

[25] Bailey, M.J. “O Custo da Finança Inflacionária para o Bem-Estar Social.”Journal of Political Economy 64(2): 93-110.

[26] Schuettinger, Robert Lindsay, e Eamonn Butler. “A República e o Império Romanos.” Quarenta Séculos de Controle de Salários e Preço: Como Não Combater a Inflação. Washington, D.C.: Heritage Foundation, 1979. 19-20. Print.

[27] Haskell, H.J. O Novo Pacto na Roma Antiga: Como o Governo do Mundo Antigo Tentou Lidar com Problemas Modernos.New York: Alfred A. Knopf, 1939. 216. Print.

[28] Hume, David. “Livro III.” Um Tratado da Natureza Humana. New York, NY: Barnes & Noble, 2005. Print.

[29] Boyd, Gregory A. TO Mito de uma Nação Cristã – Como a Busca de Poder Político Está Destruindo a Igreja. Grand Rapids (Michigan): Zondervan, 2005. Print.